Carandiru – Crime número 1
Deitados na cama, o casal acaba de assistir ao filme “Carandiru”. Ele é o primeiro a comentar.
- Gostei. Não fiz questão de ver no cinema. Achei muito legal. E você?
Ela dá de ombros e responde.
- Não sei..., achei tudo muito educado.
- Educado?
- É..., os diálogos são educados..., todos pronunciam direitinho..., tudo parece tão bonito...
- Bonito?
- Bonito!
Ele está acostumado às opiniões e análises dela. Acha engraçado. Pega o copo de água sobre o criado-mudo.
- Você reparou quantos crimes aconteceram por causa de mulher? – ela pergunta.
Ele toma toda a água e coloca o copo de volta.
- Vi. É um que trai..., outro que descobre..., um que sofre..., outro que se vinga...
- Pois é!
- Querida, o ciúme mata.
- Literalmente.
Ela coloca a mão na perna dele e o olha nos olhos.
- Se eu te traísse, o quê você faria?
- Se você me traísse?
- É!
- Existe a possibilidade?
- Só estou perguntando. O que você faria?
- Te encheria de porrada!
- Sério?
- Sério.
- Só isso?
- É pouco?
- Você me mataria?
Ele não responde. Abre um sorriso enigmático, pega a mão dela e a coloca no meio das suas pernas.
- Converse com “ele”, bem de pertinho, e pergunte o que “ele” faria com você.
Ela obedece e começa a “conversar” bem devagar, do jeito que ele gosta. Minutos depois, enxuga a boca com uma toalha. Abre a gaveta na lateral da cama e retira dela uma tesoura longa, pontuda, que coloca fechada no meio da palma da mão direita.
Vira-se ficando de frente para ele, que ronca desmaiado de prazer. Aperta a tesoura, levanta o braço esticado acima da cabeça e o desce com força, cravando-a no peito do marido.
Ele acorda com os olhos arregalados de dor e suspira alto em agonia. Sente o sangue quente escorrendo pela barriga e pelas pernas, misturando-se ao seu esperma e a saliva dela.
Passando rapidamente do susto para a morte, ouve ela dizer:
“- Antes que você descubra...”.
Self-defense - Crime Número 2
O vidro da janela do lado do passageiro está abaixado. Por ela vê entrar um revólver apontado para sua cara por alguém que, em pé, fica com o rosto na altura do seu.
- Passa a bolsa perua!
Seu carro é o último de uma fila de seis, todos aguardando o semáforo abrir. Já é tarde da noite e a rua é escura.
- Está em cima do banco! Pega! Pode levar!
Outro rosto aparece, uma mão entra pela janela e alcança sua bolsa. Ela vê pelo retrovisor dois garotos descerem a rua correndo, com um deles levando o produto do roubo.
O semáforo abre, ela engata a primeira e parte. Dois quarteirões depois, vira para a direita e para a direita novamente, entrando na rua paralela. Quatro cruzamentos depois vira a direita e completa o retorno.
Perto dali, dois meninos de rua descobrem que foram enganados. Na bolsa que roubaram só havia papéis picados e panos velhos.
- Filha da puta!
- Devia ter dado um pipoco no nariz da arrombada!
- Simbora!
- Demorô!
Na rua onde foi assaltada ela dirige devagar. Encontra todos os semáforos abertos e trafega sem dificuldade. Chega à esquina do retorno e faz todo o trajeto novamente, desta vez com cuidado para pegar algum semáforo fechado. É o que acontece. O cenário quase que se repete: na sua frente há três carros e atrás não há nenhum.
Coloca sua bolsa “de verdade” sobre o colo e enfia a mão direita dentro dela. Não precisa esperar muito tempo.
- Passa a bolsa perua! – diz um menino apontando um revólver pela janela do passageiro.
Seu comparsa, olhando para dentro do carro, descobre que conhece a vítima.
- É a perua da bolsa....
Antes que termine a frase, a perua da bolsa falsa atira com uma pistola CZ 92 no rosto do seu amigo. O sangue espirra nos seus olhos e ele não tem tempo de limpar, pois é atingido por um tiro na testa.
O semáforo abre, ela engata a primeira e parte. Próximo à sua casa há uma pequena praça onde estaciona, desce e verifica se a porta do passageiro tem vestígios do que aconteceu.
Com alguns lenços umedecidos em álcool limpa gotas de sangue do lado de dentro e do lado de fora. Guarda os lenços em um saco plástico que tinha no porta-luvas e volta para o carro.
Assim que entra em seu apartamento encontra o marido assistindo televisão na sala, com o filho de ambos dormindo no colo.
- Boa noite querida!
- Boa noite! – ela responde sorridente, indo direto para a cozinha.
- Como foi sua aula hoje? A pivetada daquela escola pública continua dando trabalho?
- Continua... mas já estou aprendendo a lidar com eles.
Coloca o saco com os lenços sujos de sangue em uma panela e sobre eles joga um fósforo aceso.
- Vou fazer um café! Você quer um também amor?
Lígia - Crime Número 3
“Nunca fui ao cinema Não gosto de samba não vou a Ipanema Não gosto de chuva nem gosto de sol”.
Todos os dias quando chega da escola ela coloca essa música para tocar no modo “repeat”, e a escuta duas, três, quatro vezes, ou até se cansar. Se alguém lhe perguntasse, não saberia explicar o motivo de fazer isso, o que é perfeitamente normal, pois hábitos não precisam de explicação.
Enquanto a música toca faz suas coisas rotineiras. Retira os cadernos da mochila e os coloca na escrivaninha, abre a agenda na página do dia e confere a lição de casa. Troca o uniforme escolar por uma roupa confortável.
Naquele dia, ela abria a geladeira à procura de algo para comer quando a campainha tocou.
Pelo olho mágico viu o vizinho, um garoto que morava no 501, o outro apartamento do andar, e estudava na mesma escola. Ela o achava um gato. Puxou papo com ele na piscina do prédio, no salão de festas, no elevador, mas ele nunca lhe deu bola. Talvez por ser mais velho e ela ainda ser uma menina.
“E quando eu lhe telefonei, desliguei foi engano O seu nome não sei Esquecí no piano as bobagens de amor Que eu iria dizer, não ... Lígia Lígia”
Ficou excitada observando-o. Correu para o quarto, tirou a camiseta, o sutiã e vestiu um top apertado, que jogava seus peitinhos para cima. A campainha tocou novamente. Voltou correndo e abriu a porta.
- Boa tarde!
- Boa tarde! – seu vizinho respondeu. - Desculpe vir te incomodar...
- Não..., não se preocupe! - sorriu um sorriso simpático. – Há algo que eu possa fazer por você?
Inflou os pulmões e encolheu a barriga. Ele era mais alto do que ela, e a olhava meio sem jeito.
- Sabe, por favor, não me leve a mal...
Ela pensou o que será que ele queria. Será que queria fazer um convite e estava tímido?
- Não se preocupe..., somos vizinhos..., precisa de alguma coisa?
Ele ficou um pouco sério.
“Eu nunca quis tê-la ao meu lado Num fim de semana Um chopp gelado em Copacabana Andar pela praia até o Leblon”.
- Olha..., essa música que você toca todo dia...
- Música?
- Essa música que está tocando agora...
- Ah! É “Lígia”, do Tom Jobim. Gosta?
- Se gosto?
- É!
- Olha..., não gosto, e é por isso que estou aqui. Todos os dias chego da escola e escuto essa música vindo do seu apartamento.
- E...
- E? Acontece que não agüento mais ouvir essa música..., já me encheu o saco!
Ficaram alguns segundos em silêncio. Ela soltou o ar, respirou com calma e se manifestou.
- Entendi... O quê você quer que eu faça?
- Olha..., não sei..., será que você não poderia usar fones de ouvido?
“E quando eu me apaixonei Não passou de ilusão, o seu nome rasguei Fiz um samba canção das mentiras de amor Que aprendí com você É ... Lígia Lígia”.
- Vou pensar. Ok?
Fechou a porta na cara dele, sem se despedir. Não sabia se estava frustrada ou furiosa. Começou a andar pela casa, falando consigo mesma.
- Mas que cara-de-pau! Eu não coloco o som alto! Tenho culpa se esses apartamentos têm paredes de papelão? Incomodado? E se eu ouvisse heavy-metal? Ou aquele funk grotesco? Incomodado... Fone de ouvido? Vou ficar dentro da minha casa usando fone de ouvido?
Sentia-se quente, parecia ouvir o coração batendo dentro do peito. Foi até a cozinha e pegou um refrigerante. Os primeiros goles foram suficientes para começar a transpirar. Atravessou a sala e parou na sacada do apartamento.
“Você se aproxima de mim Com esses modos estranhos e eu digo que sim Mas teus olhos castanhos Me metem mais medo que um dia de sol É... Lígia Lígia”
O sol quente da tarde se escondeu atrás de uma grande nuvem criando uma sombra agradável e momentânea. Tomou todo o refrigerante, enxugou a testa com as costas da mão.
Algumas pessoas conversando no pátio do prédio, logo abaixo dela, chamaram-lhe a atenção.
Era seu vizinho, o que não gostava da sua música, conversando com outros rapazes. Todos riam.
Moveu-se dois passos para a esquerda até estar exatamente sobre eles, calculou as probabilidades, fez pontaria e deixou a garrafa de vidro cair. O crânio do seu vizinho suportou todo o impacto, e ela não se quebrou.
“E quando você me envolver Nos seus braços serenos eu vou me render Mas seus olhos morenos Me metem mais medo que um raio de sol É... Lígia Lígia”.
Moral da história
O crime está ao seu alcance. Controle-se.
Meu nome é Capitão Ócio, e esta foi mais uma história com moral, para lembrar e refletir. Conheça as outras e divirta-se amiguinho(a).
Em destaque:
Veja também:
Fragmentos de um Romance: Aqualung
Twitter: "Saiba como e use bem"
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quarta-feira, 25 de novembro de 2009
Três pequenos crimes
Marcadores: Aventuras do Capitão Ócio
domingo, 15 de novembro de 2009
Twitter - Saiba como e use bem
Nós do Dicas Sobre Nada descobrimos que o Twitter é muito legal.
Amplia a rede de relacionamentos do blog e permite conhecermos pessoas muito interessantes. Porém, ele ainda é visto por muitos internautas como algo fútil e desprovido de conteúdo.
Colaborando para mudar esse (pré)conceito, publicamos este post que, a princípio, é para quem não o usa, por qualquer que seja o motivo. Se já é usuário, leia e depois, se quiser, deixe sua colaboração.
Antes de dizer o que o Twitter pode fazer por você, duas observações:
1) #algumacoisa é uma tag que, se clicada, mostra tudo o que foi escrito com ela;
2) Uma unidade de texto de até 140 caracteres publicada no Twitter chama-se twitte.
Veja o que você pode fazer com o Twitter.
Fale de quem você quiser
#Dilma confessa: minhas #perucas são fabricadas pela #Playmobil.
#Dilma pede socorro: "- Não consigo parar de sorrir!".
#Dilma vai fazer dueto com #Madonna: I'm a material girl...
O quê #Dilma e #Darth #Vader tem em comum? O capacete!
Uma grande amiga nossa. Qualquer semelhança com outra pessoa é mera coincidência, ou conspiração das elites golpistas.
#Lula não sabia da volta de #Zelaya para #Honduras. Óbvio, ele não sabe de nada!
#Lula sobre o #Congresso: "Eram 300 picaretas quando eu não estava nas mãos deles!".
#Lula: "- Marisa, jantar à luz de velas?" #Marisa: "- É o #apagão, idiota!"
Em 2010 estréia “#Lula, o filho... do #Brasil”.
Dizer que é mera coincidência ofenderia alguém.
Participe de criações coletivas
#tuiteumfinaldenovela. A vilã morreu,a mocinha ficou com o mocinho, os ricos continuam ricos e os pobres continuam pobres.
#twittesuainfancia. Eu enfiava o dedo no nariz!
#tuiteumfilmepornô. Sexo gay na Câmara e no Senado, em um país onde tudo acaba em putaria.
#curtaconto O fuzil às costas e o uniforme rasgado mostram quantas batalhas travei. Dos ferimentos, apenas um sempre dói.
#filosofiaprofissional Imagine seu cardiologista dizendo: "O ótimo é inimigo do bom!".
Fale com quem você quiser
@alinevalek E na música, funk "da gostosa", da "mulher melancia", da "qualquer outra coisa". Violência contra a mulher é um traço cultural.
@barackobama Dear Barack, you don't deserve it.
@lilianap Doutora, quero marcar uma consulta.
@OCriador Quando Jesus voltar, que venha armado.
@satiegoto Às vezes não se está só, mesmo estando sozinho.
@unicaeexclusiva Prepare-se então. Aproveite e avise no trabalho que vai faltar.
Comente os fatos atuais
#PT demorou 20 horas para contar uma mentira (sobre o #apagão)
Reitor da #Uniban, Sr. Pinto, amoleceu.
A queda do #MurodeBerlim em 1989 teve como conseqüência direta meu segundo casamento.
O #Bispo, a #Bispa, e a horda.
Colocar #Barack #Obama no patamar de #Madre #Tereza de #Calcutá é jogar o #Prêmio #Nobel no lixo.
#Polanski comeu umas menininhas? E daí? Ele as seqüestrou? Não. Deixem o tiozinho em paz para comer outras.
Charles Anjo 45 (Jorge Bem) para #Hino da #Olímpiada #RIO2016!
#Nelsinho #Piquet substituirá #Dique #Vigarista na #Corrida #Maluca.
Mostre suas sacadas inteligentérrimas
#Pontual é aquele que sempre está de cara feia quando os outros chegam.
Diga-me com quem andas, para eu saber se quero ir junto.
O quê a #Smurfette falou para o #Papai #Smurf? "- Sua vez, Papai Smurf!"
Quantos #PORCOS são necessários para ganhar um jogo de #futebol? UM, #apitando o #jogo.
Sabe o que diz a #boneca que fala? "- Olha a mão boba!"
Vejo a mulherada teorizando sobre as agruras do amor e coisas afins... Quer ser feliz? Dê!
Divulgue seu site, blog, ou suas fotos sem roupa
Para aumentar alguns centímetros, Descubra o Dicas Sobre Nada.http://bit.ly/1jef2h
Para voltar o apetite, Descubra o Dicas Sobre Nada.http://bit.ly/1jef2h
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Para comer Chapeuzinho Vermelho, Descubra o Dicas Sobre Nada.http://bit.ly/1jef2h
Viaje na maionese com o assunto que quiser.
#Piranhas atacam no Rio #Tietê
#Piranhas atacam na #marginal do #Tietê
#Piranhas atacam no #Metrô #Tietê
#Piranhas atacam os #Piratas do #Tietê
Acordou como um #Cuco e ficou vendo as horas passarem.
Acordou como um #Pinguim e caiu da geladeira.
Acordou como uma #Pomba e cagou na cabeça de todo mundo.
Acordou como uma #Galinha e pensou na reputação.
I'm #Tarzan! Take your finger from the nose Jane!
I'm #Tarzan. Go lick soap Jane!
I'm #Tarzan. Go see if I'm in the corner Jane!
I'm #Tarzan. Shut up, Jane!
Responda aos twittes acrescentando seu brilhante toque pessoal
RT @alinevalek: A homofobia para alguns é um orgulho. http://bit.ly/LEqiq => Desconfio dos homofóbicos. Soam como vozes presas no armário.
RT @barbaragancia: Brasileiros em 2º na lista dos melhores amantes do mundo http://bit.ly/15P28Z => A segunda é sempre melhor do que a primeira.
RT @Be_neviani: Então a afirmação de que ele sairia para "comer" outras não procede? => Procede! Homem só sai de casa para caçar, e comer.
RT: @DaniPassos: Queria dizer que não sei o que será do mundo quando o Iggy Pop morrer. => No fun, my baby, no fun.
RT @evandrocesar: Estou a 2 horas e 46 minutos sem fumar. To usando adesivo e mesmo assim tá difícil => Não fumante é descolado.
RT: @Kiss_FM: Fã completa 500 dias escutando Judas Priest http://migre.me/a9YA => Putz! Recorde imbecil!
RT @jaimeeumesmo: estou mostrando meu twitter para uma amiga da classe de história. => E ela está gostando?
RT @lilianap: Fiquei com uma dúvida: é melhor ser cool ou hot? => De dia, cool. De noite, hot.
RT: @MiniContosPerv: Chana é com "x" ou "ch"? => Tanto faz!
Declare sua paixão
É tri co lor! É tricolor! É tri co lor! É tricolor!
Diga o que está sentindo ou fazendo
O quê estou fazendo? Uma coisa que gosto de fazer sozinho, mas prefiro que façam para mim.
Entendeu?
E as possibilidades não terminam. Deixe de ser um internauta extrativista e passe a colaborar. Não tenha medo e diga o que pensa. A Internet é o veículo do nosso tempo: aproveite-o.
Se não souber quem seguir, indicamos todos os mencionados neste post.
Entre no Twitter e divirta-se!
Braços
Toninho Moura (clique e siga: http://twitter.com/ToninhoMoura)
Capitão Ócio
Marcadores: Editorial
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
O Segredo da Ascensão Profissional
Meu nome é Capitão Ócio. É sua primeira vez? Relaxe. Você se acostuma depois que descobre o quanto é gostoso. Nossa história de hoje tem como objetivo orientá-lo(a) na sua busca por um lugar ao sol no selvagem mundo profissional. Também tem moral, para lembrar e refletir.
Vamos a ela!
- Você vai fazer de conta que não me conhece?
Ouvi aquela frase e pareceu-me, tal a nitidez da pronúncia e volume do som, que fora dita por alguém parado ao meu lado.
O restaurante era barulhento e ocasionalmente uma ou outra frase chegava aos meus ouvidos com mais clareza. Não me importei.
Estava ocupado cortando na metade uma azeitona verde sem caroço. Iria usar para decorar um filé, colocando os pedaços sobre uma porção de mostarda.
Percebi que todos na mesa ficaram em silêncio, e achei estranho. As pessoas com as quais estava eram barulhentas como matracas empoleiradas em um abacateiro. Terminei de cortar a azeitona, mas não decorei o bife. Levantei a cabeça.
Sentada de frente para mim, Dorothy, a gostosona que, extra-oficialmente, dormia com o filho do diretor, me olhava com os lábios colados e puxados para trás, as sobrancelhas cerradas, em uma nítida expressão de reprovação. Era uma mulher perigosa. Tinha jeito de perua barraqueira, e habilidade em impor sua autoridade de secretária para, gradativamente, estar mais próxima do patrão. Havia a lenda de que, apesar de priorizar a ascensão financeira, se bem motivada, ela topava uma aventura. Todos fantasiavam comê-la. Pessoalmente, não acreditava ter grandes chances.
Do lado direito dela, Vilma, única mulher no meu departamento, loirinha, carola, toda certinha, estava com cara de celebridade em capa de revista de fofoca. Não havia naquela empresa mulher mais estranha. As roupas que usava pareciam ter saído do set de um filme dos anos 50. Freqüentava uma dessas igrejas caça-níqueis com o marido. Falava dele vez ou outra, sempre para enaltecê-lo por alguma virtude. Desconfiávamos que ele houvesse ficado impotente e que ela, na flor dos seus trinta e cinco anos, presa às circunstâncias, havia se tornado uma mulher mal comida. Comentávamos que tinha um corpo bonito, e que seria um desperdício não consumi-lo antes que a natureza o fizesse. Eu era um dos candidatos, apesar de temer não suportá-la antes e, principalmente, depois.
Joana, a estagiária do financeiro, dezoito anos, segurando a colher dentro da boca, me arregalava seus belíssimos olhos acinzentados. Os caras do trabalho a desprezavam, dizendo que era feia. Impossível discordar, pois ela não era bonita. Tinha um rosto de passarinho e um corpo de adolescente que amadureceu sem se transformar em um corpo de mulher. Porém, achava-a uma gracinha. Com a colher de doce parada na boca, então... Imaginei como seriam aqueles olhos cinza na penumbra, abrindo e fechando, com as pupilas dilatadas de tesão. Imaginei sua respiração...
- Vou repetir: você vai fazer de conta que não me conhece?
Os dois caras que estavam conosco, sentados do meu lado esquerdo, cujos nomes não me lembro, pareciam abobalhados, congelados por algum raio alienígena. Eu estava na ponta da mesa, do lado do corredor, e os cinco, ao mesmo tempo, olharam para alguém às minhas costas.
Virei-me para a direita e a primeira coisa que vi foi a fivela estilo cowboy de um cinto de couro marrom. Pensei que, se eu tenho um metro e setenta e sete, e estou sentado, minha cabeça deve estar a mais ou menos um metro e vinte de altura. Instintivamente, baixei os olhos até o chão para checar o tamanho dos saltos. Surpreso, constatei que ela usava uma botinha de camurça, de salto baixo.
Voltei com calma e percorri aquele longo par de pernas vestido em um jeans justo, cujas coxas começavam a se definir logo acima do joelho, ficando mais roliças e torneadas quanto mais perto do cinto e da amazona sobre um garanhão estampada na fivela.
Levantei meu rosto até conseguir ver o dela. Não sei o que senti. Por um segundo fiquei sem respirar. Minhas pernas tremeram levemente, minha boca se encheu de água e tive um começo de ereção.
Dizer que era bonita seria um injusto lugar comum. Suas linhas eram suaves e harmônicas como a estatueta de uma deusa de ébano dada pelos Reis da África ao Imperador da China. Era uma negra linda. Talvez a mais linda de todas elas.
Quando nossos olhares se encontraram, sorriu meio sem jeito. Não cumprimentou as outras pessoas. Colocou a mão esquerda sobre meu ombro direito com suavidade, apertou-o por alguns instantes, e depois, sem tirar os olhos de mim, que a observava hipnotizado, começou a falar.
- Como vai você? Tudo bem?
Discretamente, fiz que sim com a cabeça.
- Não foi justo o que você fez comigo! – ela me disse.
Hoje, como naquele dia, desconheço qualquer coisa que possa ser dita de imediato em resposta a esta afirmação, quando feita por uma mulher olhando nos olhos de um homem.
Estava embasbacado pela negritude da pele, pelos cabelos encaracolados caindo dos lados do rosto até a altura dos seios, pelas duas pérolas negras que eram seus olhos, pelo piercing de diamante, delicado, espetado no nariz. Sua boca e seus lábios, maravilhosos, pareciam perfeitos para a minha boca e para o resto da minha anatomia.
Não me passou pela cabeça levantar-me e cumprimenta-la, ou pedir-lhe para sentar-se. Quando percebi que ela tinha lágrimas nos olhos, a possibilidade de reagir se tornou remota. Larguei os talheres sobre a mesa e limpei a boca com o guardanapo.
- Por favor, continue. – foi a única coisa que consegui dizer.
- Veja que ironia - ela continuou -, segunda-feira fez um ano que nos conhecemos naquele congresso em Salvador. Fiquei com uma saudade...
Senti como uma onda de calor a curiosidade despertada nos meus colegas de trabalho.
- Você fazia comentários hilários sobre os palestrantes, os assuntos e as pessoas, e eu tinha que ficar segurando para não rir. Fiquei tão entretida com você que praticamente perdi as palestras da tarde.
- Naquela noite nos encontramos no bar do hotel e pude me divertir à vontade com as histórias engraçadas que contou. Fui ficando com um tesão cada vez maior imaginando se você teria tanto talento e criatividade para coisas mais íntimas. Daí, te chamar para me fazer rir no meu quarto não foi difícil. Já havia deixado a aliança guardada, mais ou menos prevendo o que iria acontecer.
O cara sentado ao meu lado não sabia aonde colocar as mãos. Dorothy parecia gravar com os olhos a tremenda fofoca que se desenrolava. Vilma continuava com cara de besta e Joana ainda segurava a colher na boca. O melhor ainda estava por vir.
- Antes de você, eu nunca soube o que era prazer. Naquela noite eu senti coisas que algumas amigas diziam sentir, e coisas que depois, descobri, nenhuma delas ainda sentira.
Dorothy fez cara de espanto, Vilma ficou vermelha, e Joana pegou mais um pouco de pudim. Os dois caras olharam-se rapidamente, e depois voltaram-se para a mulher que falava comigo.
- Na manhã seguinte acordei sozinha. Você não estava mais no hotel. Não foi ao congresso e simplesmente, desapareceu. Não havia te dado meu telefone e também não tinha o seu. Tentei pensar em aquilo como um fato isolado em minha vida. Fato marcante e extremamente agradável, mas isolado. Não consegui. Nunca mais me senti como naquela noite. Meu casamento, que já não era grande coisa, durou mais alguns meses e acabou. Tive alguns outros homens, mas nenhum deles fez comigo o que você fez.
As três mulheres do outro lado da mesa me olhavam como que procurando entender o que um cara comum como eu poderia ter feito com, ou para aquela mulher. Claro que imaginavam o que teria sido; procuravam enxergar o que havia além disso. Os caras me olhavam com o respeito que se dá ao macho dominante.
- Aqui está meu cartão. Estarei na cidade até sexta-feira. Volto no sábado de manhã. Não faça como da outra vez, não desapareça. Ligue-me. É claro que, se não quiser, vou entender. Mas, por favor, queira; você não vai se arrepender.
Abaixou-se, colocou o cartão de visita no meu bolso e deu um beijinho demorado no meu rosto. O cheiro do seu perfume era exótico e selvagem como ela. Demorou-se um pouquinho, para eu sentir sua respiração próxima ao meu ouvido.
- Tchau... – sussurrou.
Vendo aquele mulherão caminhando para a saída, rebolando graciosamente toda a perfeição que Deus lhe deu, imaginei a bateria de uma escola de samba saindo atrás da sua rainha. Voltei minha atenção para as duas metades da azeitona. Dorothy foi a única a se manifestar.
- Quer dizer então que você é um Don Juan? Um destruidor de casamentos e de corações?
Terminei de decorar o bife, cortei-o em pedaços menores e coloquei um na boca. Depois de mastigá-lo e engoli-lo calmamente, me dirigi a todos, que aguardavam ansiosos meu pronunciamento.
- Desculpem-me. Não estou em condições de comentar.
Não comentei naquele momento e em momento algum. Deixei que cada um interpretasse o fato como quisesse.
Nos primeiros dias percebi que me tornara o assunto principal da mulherada. Algumas me olhavam como que pensando “Eu sabia!”, outras faziam cara de descrédito: “Duvido!”. Ouvi duas senhoras da Contabilidade comentando no elevador: “Ela estava grávida dele!”. Tive certeza que falavam de mim quando passei por elas para descer e ambas ficaram envergonhadas.
Já se passaram seis meses daquele dia. Outros fatos vieram e fofocas novas substituíram as velhas. Hoje vejo que o acontecido gerou resultados bastante positivos.
As três mulheres que testemunharam aquele almoço se tornaram mais próximas e passaram a me tratar bem.
Dorothy começou a conversar comigo. Adora divulgar as coisas que ouve, para parecer ser bem informada e influente. Muito do que ela conta me é útil. Abri mão da intenção de convidá-la para uma aventura por dois motivos: primeiro, é muito conveniente tê-la como informante, e, segundo, ela engravidou - supostamente - do filho do Diretor, e em breve será mãe. Dizem que não se casarão, mas que ele, ou melhor, o pai dele assumirá as despesas.
Joana, a estagiária do financeiro, tornou-se minha amiga. Tomamos café ou almoçamos juntos com regularidade. Conversamos sobre assuntos diversos como festivais de música, filmes antigos, livros e coisas assim. Fiquei surpreso com a inteligência e a maturidade dela. Acho que viu em mim um homem mais velho em quem podia confiar. Faço o possível para não decepciona-la. Um dia desses me pediu conselhos a respeito de sua vida amorosa. Disse-lhe para não ter medo e deixar acontecer. Ultimamente está sorridente, autoconfiante e feliz.
Vilma mudou sutilmente seu comportamento para comigo. Deu um jeito de colocar sua mesa mais próxima da minha, e tornou-se um pouco descuidada com decotes e com as pernas, principalmente quando o ângulo de visão me é favorável. Ainda não era minha subordinada, mas passou a estar disponível para o que eu precisasse, perguntando se eu queria algo da lanchonete, se precisava de algum material de escritório, se havia algo que pudesse fazer por mim. Ela puxa conversa comigo às vezes, mas, coitada, seus assuntos são tão desinteressantes. Suporto-a pela proximidade que isso proporciona, dando-me a oportunidade de avaliar que realmente há um corpo lindo embaixo daquelas roupas esquisitas.
Na empresa começaram a me considerar uma espécie de guru, e virei referência para assuntos relacionados à minha área de atuação, e para outros com os quais não tenho muito a ver. Duas semanas atrás fui comunicado da minha promoção para gerente do departamento. Promoção que Dorothy habilmente escondeu de mim, compensando o segredo com uma bela festinha para as outras gerências darem-me boas vindas. A mulherada me encheu de beijinhos de boa sorte.
Uma das primeiras medidas que tomei foi marcar para hoje, sábado, uma arrumação geral no departamento. Os caras que trabalham comigo inventaram motivos diversos para não vir. Não liguei. Apenas Vilma fez questão de aparecer. Chegou logo depois de mim, e foi ao banheiro trocar de roupa. Estamos sós aqui na empresa, fora o vigia que fica lá fora, na portaria.
Enquanto a espero, lembrei-me da história que contei agora.
Já está de volta..., veste chinelos de dedo..., shortinho azul e camiseta branca! Que pernas lindas..., que cintura..., e está sem sutiã!
- Coloquei uma roupa mais apropriada! – justificou - Por onde vamos começar?
Finalmente o investimento que fiz ligando para aquela negra maravilhosa se pagará por completo.
Moral da história
Mulher bonita valoriza seu curriculum.
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domingo, 1 de novembro de 2009
Contemplação e Inquietude
Meu nome é Capitão Ócio. Esta é uma pequena reflexão sobre nossa condição. Tem moral, para lembrar e refletir.
Vamos a ela.
Imagine três planos.
No primeiro, um homem na borda de um bosque. No segundo, um extenso campo seco. No terceiro, bem lá no fundo, uma floresta.
Parado sob a sombra de uma árvore, de frente para o campo aberto, um homem segura seu cachimbo. Imagine-o de corpo inteiro, perfilado, um pouco de costas para você, sendo visto de uma boa perspectiva.
A fumaça cinza do fumo queimando sobe densa e longa, para desaparecer misturada com o ar. Não há vento. Se houvesse, a relva não estaria em pé como espinhos de um ouriço.
Percebe-se pela simplicidade do uniforme que é soldado raso, fuzileiro do exército de algum país; pelo estado, que está em batalha há algum tempo. Uma grossa tira de couro distribui pelo seu tronco o peso do seu fuzil.
O quepe jogado mais para a nuca, os olhos bem abertos, os lábios contraídos, as narinas dilatadas: ele observa.
Escuta o pipocar dos tiros e o estouro dos canhões ecoarem longe, além do bosque, do campo aberto, e das árvores no horizonte.
A guerra chegou e passou como um furacão sedento de destruição, deixando mortos muitos que ele conhecia.
Está sozinho. Protegido pelos arbustos e pelas árvores, imagina-se seguro. Enche o cantil em uma nascente limpa. Faz armadilhas para roedores e os come crus, já que o fogo pode ser delator. Suporta a noite fria.
Enquanto ouvir distante o som da guerra continuará ali, na margem da tormenta, sobrevivendo dos frutos e do sangue das criaturas do seu pequeno reino.
Se os trovões se tornarem altos, anunciando a tempestade que retorna, arrumará o velho quepe e com as armas e os dentes em riste se lançará dentro dela, para ser mastigado na engrenagem de pés, rodas e lagartas, e digerido pelos estilhaços de aço e chumbo quente. Novamente contará apenas com o acaso, que é cego como a justiça gostaria de ser.
Mas, e se o som da fúria se tornar cada vez mais distante até desaparecer totalmente e assim permanecer até o inverno acabar, a próxima chuva cair e a relva ficar verde? Como será se as aves procriarem e ver-se de novo o gavião pairando no ar?
Será uma nova paz como intervalo antes da próxima guerra, e seu coração desejará voltar para a vida que deixou e está parada no tempo, esperando que a retome e a reconstrua.
Uma grande ironia afligirá o soldado. Se a paz ou a possibilidade dela vier, para poder vivê-la terá que se expor ao maior dos riscos: deixar a proteção do bosque e atravessar o campo coberto de vegetação rasteira, espantando com seu caminhar moscas e outros insetos.
Quem estiver do outro lado, quando ver o soldado em uniforme, fuzil e quepe, saberá de que lado ele lutava? E, se souber, terá sido o lado dele vencedor?
Independente do que aconteça, o soldado nada fará. É um desenho em papel, feito com lápis preto, imortalizado e imobilizado em seu momento de contemplação cheio de inquietude.
Ficará imóvel, livre do risco de dar o próximo passo, enquanto o tempo corrói a celulose na qual existe, terminando por livrá-lo de toda a dúvida.
Como o soldado no desenho, na vida real meu fuzil pendurado às costas e meu uniforme rasgado mostram as incontáveis batalhas que travei. Meus ferimentos estão cicatrizados. Um deles ainda dói, mas já me acostumei.
Olho para o campo aberto a minha frente. A paz como a imagino demorará a chegar. Não posso ficar onde estou, pois não há tempo para descanso.
Do lado de lá, outras batalhas me aguardam.
O que você acha que causa essa impressão de que algo vai acontecer?
Moral da história
Somos soldados rasos, todos nós.
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domingo, 18 de outubro de 2009
Congresso de Lágrimas
Sebastião abre a boca do saco plástico, e Moacir joga os últimos pedaços de papel dentro dele. Terminam a limpeza do espaço entre as cadeiras da primeira fila e o palco.
Sebastião olha para Moacir com perceptível ar de curiosidade, como se aferisse detalhes do seu subordinado.
- Vamos voltar ao saguão e depois fazer toda a platéia novamente. – ordena.
Moacir é auxiliar de Sebastião, e o segue pelo corredor que divide a platéia ao meio, subindo em direção à saída. Empurra o carrinho amarelo com o grande saco de lixo.
Não se lembra de alguém ter lhe dito isso, mas sabe que deve observar Sebastião para aprender o serviço. Repara que o macacão dele está remendado nos fundilhos, um dos bolsos traseiros está descosturado, e a gola está bastante puída.
“Será que demoram tanto assim para substituir?” – imagina se um dia seu macacão estaria em estado similar ao do seu chefe.
Sebastião caminha devagar e, fileira após fileira, olha atentamente para os dois lados, como uma pessoa assistindo a uma partida de tênis, procurando por algo esquecido na primeira descida que fizeram.
Moacir olha para cima e estranha tantas luzes acesas, no teto e nas luminárias laterais, não iluminarem adequadamente o lugar.
É um teatro antigo. As cadeiras são de madeira, com assento e encosto dobrável almofadado. O desbotado do tecido sugere que algum dia tenha sido vermelho vivo.
Nunca esteve em um teatro antes. “Talvez seja assim mesmo.”, conclui.
Sebastião entra na fileira K, lado par, e caminha até a penúltima poltrona, de número 38.
Moacir adianta o carrinho até ficar exatamente na entrada da fileira, vê Sebastião se abaixar e, um segundo depois, retornar com um papel amassado nas mãos, parar a um metro do carrinho e o arremessar no centro do saco de lixo.
- Emil Rachede!
Moacir reage rápido e faz cara de entender o que Sebastião dissera.
Passam pela porta e chegam ao saguão vazio. É um espaço retangular de 10x5m, com chão de madeira e pé direito alto. As paredes são forradas, até a metade, por um fino acabamento de mogno, há muito necessitado de um polimento. Acima dele, grandes janelas de vidro deixam a luz iluminar o lugar. Caminham até o canto esquerdo, onde fica a porta do teatro. Ouve-se nitidamente o eco dos passos no chão de madeira, e o “nhec-nhec” das rodas do carrinho.
Sebastião tira um lenço do bolso e com ele enxuga as faces e a testa.
- Coloque o carrinho do lado da porta e volte para cá, trazendo um saco vazio.
Moacir obedece. Retorna e novamente se espanta com Sebastião, que está, com as mãos nas costas e a cabeça baixa, examinando cada metro quadrado do saguão, recolhendo cada pedacinho de papel que encontra. Quando termina, tem vários deles na palma na mão esquerda.
- Jogue aqui! – diz Moacir, segurando o saco plástico aberto.
Sebastião molda uma pequena bola. Confere se está pronta, concentra-se e arremessa. A bola cai sem tocar no aro.
- Vamos fazer as fileiras novamente.
Primeiro no lado ímpar, e depois no lado par, Sebastião passa de fileira em fileira, olhando sob as cadeiras dobradas, procurando por qualquer coisa que denuncie não ter feito um serviço perfeito.
Moacir começa a achar aquilo um exagero. Tudo está limpo. Pegou os papéis com as mãos, um por um. Sebastião não deixou varrer, pois o papel é delicado e a vassoura espalha pedacinhos dele pelo ar.
De repente, se dá conta de que aquele lixo era um tanto peculiar.
- O quê acontece aqui neste teatro, Sebastião, para as pessoas deixarem essa sujeira de papel?
- Como assim?
- Não tem nenhum lixo comum..., como papel de bala, salgadinho..., pipoca..., só tem esses lenços de papel. É algum tipo de culto?
Sebastião pede a Moacir que escolha uma cadeira e se acomode, e senta-se ao seu lado, deixando uma cadeira vazia entre os dois.
Fica alguns instantes fitando o palco vazio. Depois, levanta a cabeça e olha ao redor, de zero a cento e oitenta graus, até ficar olhos nos olhos com seu subordinado, a quem deve, para sua satisfação, promover.
- Moacir, meu caro, você demorou menos do que eu para estranhar este lugar. Talvez pelo fato de ter sido mais atencioso aos detalhes do que eu fui.
O silêncio que faz a seguir evidencia a estranheza do que disse.
- Ter sido? – Moacir percebe o tempo verbal.
- Sim, meu caro, ter sido.
- Não entendo...
- Vou explicar. Olhe para você, nesse macacão amarelo e vermelho, novinho.
- Me parece bem adequado.
- Pense um pouco Moacir... Você estava vestido assim há duas horas atrás?
Moacir abre a boca e fica com ela aberta, seus olhos se fixam em um ponto no espaço, e sua mente passa rapidamente um filme onde, duas horas e alguns minutos atrás, ele dirige sua Mercedes Prateada a caminho da loja onde iria retirar o Rolex que se deu de presente, por ter acumulado mais um milhão de dólares a seu patrimônio pessoal. O modelo, exclusivo, tinha seu nome gravado em ouro branco no mostrador. Estava feliz. Súbito, ouviu o guincho alto de uma freada desesperada, anunciando que algo muito grande se chocaria contra ele.
Depois, o que se lembra era estar ali, pegando lenços de papel com as mãos, um a um, e jogando-os no saco de lixo que Sebastião segurava.
Um espasmo, um arrepio, um suspiro profundo, e troca a expressão atônita por um ar de compreensão. Somente no momento da morte entendemos, afinal, o que era tudo aquilo.
- É um susto, não é meu caro? - Sebastião continua. - Também me assustei quando me vi aqui, vestindo este macacão, que também era novinho, escutando de outra pessoa as palavras que, finalmente, poderei falar para alguém.
Sebastião sabia que, como aconteceu com ele há muito tempo atrás, seu ouvinte não tinha nada para dizer.
- Você está aqui para me substituir Moacir. Ficará aqui, sozinho, fazendo o que te mandei e o que me viu fazer: pegar com as mãos, um a um, todos os lenços de papel jogados pelo chão, e depois vasculhar com atenção para não deixar um mísero pedacinho.
- É o novo responsável por manter este lugar limpo, pronto para, sessão após sessão, sediar o encontro das almas recém libertadas, que se reúnem aqui para saber que destino terão.
A cada limpeza que faz, uma nova sessão começa. Lá fora, a fila não tem fim.
Um assento é abaixado, e um barulho, “plá!”, ecoa.
- Escute!
Rapidamente, parecendo o som de um grande aplauso, todos os assentos vão sendo ocupados por expectadores invisíveis, até a platéia ficar lotada. Em seguida, o silêncio.
- Olhe Moacir..., nada acontece. Não podemos vê-los. Dois deles devem estar ao nosso lado, em pé, esperando pelos seus lugares. Vamos, venha comigo, vamos subir no palco.
Descem o corredor até o fim, e depois sobem uma pequena escada lateral, de três degraus.
Moacir está calado, consciente do que acontece. Sebastião está sorridente. Param no centro do palco, de frente para a platéia.
- Observe.
Moacir vê claramente as cadeiras da primeira fila, e percebe que, aos poucos, lenços de papel amassados aparecem do nada: deixam de ser invisíveis e, aqui e ali, caem ao chão.
- As “pessoas” presentes, Moacir, estão ouvindo, de alguém que está neste palco exatamente agora, um resumo do que foi a própria vida, e ficam sabendo o que acontecerá a partir daqui.
- Todas elas choram. Choram pelo fim do que sabiam finito. Suas lágrimas, materializadas no papel fino e delicado, são as últimas coisas que deixam neste mundo.
Moacir já se conforma com sua condição, mas não a compreende completamente.
- Diga-me, Sebastião, por que eu e você estamos aqui, diferentes de todos eles?
- Por não sermos tão afortunados, Moacir. Temos em comum, eu e você, o fato de vivermos absoluta e tolamente obcecados por algo, sem dar importância para tantas outras coisas necessárias ao nosso amadurecimento e a plenitude da nossa existência.
- Quando nossas vidas foram, subitamente, interrompidas, ainda tínhamos muito para aprender, descobrir, para amar e sofrer. Hoje eu sei que são muitos os caminhos que uma vida pode tomar, que somos insensíveis demais para enxergar os momentos decisivos, e que a oportunidade nunca se repete.
- Aquele que rege a harmonia do Universo me deu, muito tempo atrás, e agora passou para você, a função de Zelador deste “Teatro das Almas”, deste “Congresso de Lágrimas”, para que possamos, enquanto executamos nossa rotina infinita de limpar o lugar, pensar em tudo o que fomos e em tudo o que seríamos se tivéssemos mais humildade, mais interesse pela vida e por tudo o que Ele nos deu.
- Estou pronto para partir, meu caro, e passo para você a minha cruz. Será fácil ou difícil seu calvário? Fique tranqüilo, eu também não soube responder.
- Cuide bem de tudo, como eu cuidei. Sempre quis que, no dia em que partisse, que este lugar estivesse impecavelmente limpo, como estava quando cheguei aqui.
- Boa sorte meu caro. Adeus!
Moacir vê a imagem de Sebastião desaparecer. Logo em seguida, um lenço de papel surge suspenso no ar e cai suavemente, bem próximo aos seus pés.
Abaixa-se e o pega, amassa e o coloca no saco que carrega desde o saguão.
Fecha o saco com uma das mãos e coloca ambas na cintura. Em vida, sempre fora pragmático. Observa o lugar com atenção.
Entende que precisa se acostumar com a luz fraca e com o silêncio absoluto. Olha para baixo e vê que o espaço entre o palco e a primeira fila está repleto de papéis, e conclui que há muito por fazer.
=/=
Meu nome é Capitão Ócio. Já me conhecia? Acostumado(a) a me ver por cima então.
Hoje, nossa história com moral, para lembrar e refletir veio primeiro. Sabe como é, sempre é bom variar.
E a moral da história?
Cada alma tem o destino que merece.
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domingo, 11 de outubro de 2009
Frango assado no Motel
Meu nome é Capitão Ócio. Se já me conhece, perceberá que mudei a apresentação. Farei introduções um pouco mais longas, mais suaves, para preencher melhor sua percepção da história.
Sou usuário de táxis. O serviço aqui em Sampa é muito bom, sem ser necessariamente caro. Nesta metrópole onde tudo acontece, os motoristas de táxi são uma fonte inesgotável de casos e histórias, algumas tristes, outras divertidas. Sempre estou disposto a ouvi-las, e nunca questiono serem verídicas ou não. Todas tem moral, para lembrar e refletir.
Vou contar uma delas.
Em uma noite de sexta-feira, depois do expediente, peguei um táxi na Praça Roosevelt, em frente à igreja, no final da Rua da Consolação.
O motorista era um jovem entre vinte e vinte e cinco anos, pardo, vestindo jeans e camisa branca de manga curta. Sapatos engraxados, barbeado, pulseira prateada no pulso direito. Perguntou-me para aonde queria ir.
- Para a Saúde, pela 23 de Maio.
- Como o senhor quiser. – ligou o taxímetro marcando “bandeira 2”; já passava das oito horas.
Mal rodamos cinqüenta metros, paramos no farol da Rua Nestor Pestana.
Algumas garotas passando pela faixa de pedestres chamaram minha atenção. Pelas roupas e por alguns detalhes deduzi que estavam a caminho da Kilt. O motorista também reparou.
O farol abriu, saímos e passamos bem devagar por uma padaria que fica à direita, logo depois do Café Galícia. O motorista olhou atentamente para dentro dela, e imaginei que procurava alguém. O carro de trás buzinou, retomamos a velocidade normal.
Viramos a direita no Viaduto 9 de Julho e depois a esquerda no Viaduto Jacareí, entrando na Rua Maria Paula. Passávamos pelo cruzamento com a Av. Brigadeiro Luís Antonio em direção a Av. 23 de Maio, quando ele resolveu conversar.
- Motel está muito caro, não está?
Entendi a palavra “motel” e mais alguma coisa. Estranhei.
- Desculpe, não entendi.
- Motel! O motel está caro, não está?
Ele afirmava que o preço do motel estava alto, e pedia minha opinião. Eu não sou expert no assunto, embora, como todo paulistano que se preze, possa discorrer sobre ele.
Há motéis com instalações suntuosas, piscina ao ar livre com cascata, saunas seca e a vapor, cama super-king-size, banheira com hidromassagem, cozinha internacional e mais uma extensa lista de mimos. E há motéis com quatro paredes, uma cama, banheiro com chuveiro, sabonete e toalhas.
Uma boa maneira de continuar uma conversa é concordando com a afirmação inicial.
- Realmente, motel está caro!
- Muito caro! – enfatizou.
- Porém, sempre é possível baratear as despesas! - continuei. - Você pode levar alguma coisa no carro, como uma garrafa de vinho ou de outra bebida, ou algumas latinhas de cerveja para gelar no congelador do frigobar.
- É verdade! – disse ele. - Eu sempre levo umas bebidas, o problema é o preço da comida no motel.
Nunca havia pensado naquilo. Geralmente vou ao motel já no final da noite, após o jantar, o teatro ou o cinema. Quando pernoito aproveito o café da manhã e, se fico até mais tarde, o almoço incluso na diária. Realmente, nunca pedi sequer um sanduíche para comer em um motel.
Acrescentando, quem vai a um motel pensando em comer, no sentido literal da palavra?
- Não sei o quê dizer em relação ao preço da comida no motel.
Ele não respondeu. Prestava atenção em um grupo de motoqueiros que passava por nós quando estávamos sob o viaduto da Av. Bernardino de Campos, e ficou em silêncio até passarmos em frente ao Obelisco do Ibirapuera.
- Eu não gasto dinheiro com comida em motel. – continuou. - Sempre que tenho “uma ponta” com uma “mina”, passo no mercado e compro algumas bebidas, como o senhor falou. Compro latinhas de coca-cola e de cerveja. Para comer..., o senhor sabe como é, depois que a gente trepa um bocado bate uma fome...
Instintivamente, prevendo uma revelação, prestei muita atenção no que ele diria.
- Então, para não gastar dinheiro no motel, eu passo antes naquela padaria na Consolação, ali perto da Nestor Pestana, onde peguei o senhor, e compro um frango assado lá!
Entendi a razão de termos passado devagar pela padaria. Ele estava conferindo a fornada, procurando o parceiro para o mennage-a-trois.
Segurei firme no apoio de braço da porta do passageiro, concentrando-me para segurar uma risada que seria constrangedora. Virei o rosto mais para a minha janela.
- É uma boa idéia! – foi o que consegui dizer.
- Realmente! O tempero é uma delícia e a farofa é muito boa! O senhor precisa conhecer. – acrescentou.
Tirei minha agenda da bolsa e comecei a fazer alguns rabiscos. Não conseguiria continuar aquele assunto. Pedi licença.
– Desculpe, lembrei-me de algumas coisas do trabalho...
- Fique a vontade! – ele sorriu educadamente e ficamos em silêncio.
No caminho até meu destino, fui anotando, esforçando-me para não rir, tudo o que imaginava acontecer em um quarto de motel onde estivessem um homem, uma mulher, e um frango assado.
Corpos suados esfregam-se, sedentos de amor. O quarto se enche com o cheiro do sexo e com o aroma do frango na quentinha.
Respiração ofegante, suspiros, gemidos altos, tudo ao mesmo tempo agora.
A primeira irrompe incontrolável, fruto verdadeiro da juventude e da sinceridade dos sentimentos.
Ele caído de barriga para cima, ela deitadinha de bruços. Relaxamento, cansaço, fome.
Ele diz para ela:
- Vamos no frango assado?
Ela deita de costas e coloca os joelhos junto aos seios; ele ri e a corrige:
- Não amor..., estou falando do frango assado.
O frango é consumido com apetite, com as mãos, sobre a cama.
- Que delícia!
- É da padaria da Consolação. Experimenta a farofa!
- Pega um refri prá mim?
- Acho que ainda não gelou.
- Liga e pede um balde de gelo.
- Esqueci os guardanapos!
- Não faz mal. Limpo com as costas da mão.
As partes menos nobres voltam para o marmitex e são colocadas sobre o criado-mudo.
Fazer amor logo em seguida é contra-indicado. É preciso esperar um pouco, para fazer a digestão.
- Liga o som!
- Som? Que tal televisão?
- Ai amor, futebol?
- O que você quer?
- Nov...
- Novela não! Que tão um pornozinho?
O pornozinho começa, segue e inspira o casal que parte para o segundo tempo.
O gosto do tempero se espalha pelos corpos.
Pedacinhos de salsinha aparecem entre pêlos.
Mãos com dedos e digitais “escorridas” ficam gravadas no espelho.
- Ai! Ai!
- Ai! Desliga a tv...
- Ai! Ai!
- Ai! Liga o som...
- Ai! Ai!
- Ai! Abaixa a luz...
- Ai! Ai!
- Ai! Liga o ar...
Os botões do painel ficam melecados.
- Ai! Ai!
- Ai! Esse negócio esquisito...
- Pedaço de cebola.
- Ai! Ai!
- Ai! Tá raspando...
- Farofa.
- Ai! Ai!
- Ai! Alguma coisa machucando...
- Azeitona.
- Ai!
- Ai!
- Ai!
- Ai!
- Ai!
- Aaaaaaaiiiiiiiiiiiii!
Agora, ele de bruços, ela de barriga para cima, cochilando.
- Acorda!
- Só tava fingindo...
- Vamos jogar um joguinho!
- Qual joguinho?
- O jogo do ossinho do peito!
- Nossa, estou tão magra assim?
Ele ri e mostra o osso do peito do frango, que acabou de limpar com os dentes.
- Esse peito! Sabe jogar?
- Claro! Quem fica com o osso maior ganha!
- Vamos jogar?
- Vamos..., peraí, o quê está valendo?
- O traseiro.
- Tudo bem.
- Eu seguro aqui..., e você segura aí...
- Eu conto ou você conta?
- Você conta!
- Um..., dois e três!
Creck!
- Ganhei!
- Tudo bem, pode comer!
- Deitadinha ou de joelhos?
- O quê?
- Amor..., não estou falando do frango assado.
Algumas dezenas de ais, uis e ohs seguidos por um orgasmo e um alívio, cessam o desejo e a disposição.
Desabam, descansam, conversam, bebem cerveja e refrigerante.
Depois do banho tomado, vestem-se trocando palavras de carinho e amor eterno.
Antes de voltar para o carro, beijo e abraço apaixonado.
- Estava bom?
- Gostoso! Um dos melhores que já comi!
- Como assim “um dos melhores”?
- Não..., estou falando do frango assado amor.
Moral da história
Peça uma pizza!
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domingo, 4 de outubro de 2009
Aqualung
"Leg hurting bad,
as he bends to pick a dog end
goes down to the park and
warms his feet."
Você acredita ter uma alma?
A luz amarela mal transpassava a luminária encardida, iluminando fracamente o vão entre duas nádegas que uma barriga dobrada, segurando o tronco para baixo, projetava para cima.
Pareceria um cachorro grande, sujo, sarnento, sem pêlos. Porém, se alguém se aproximasse, passado o provável susto, reconheceria que aquela criatura sarnenta, suja, sem pêlos, era um ser humano.
Foi o que aconteceu com o recém-chegado quando parou próximo a ele. Certo de ser quem procurava, o chamou pelo nome.
O homem que revirava a lata ouviu, mas não se importou. Ninguém se dirigia a ele de uma forma que não fosse aos gritos, ameaçando-o ou agredindo-o, pois ele era desses cães de rua que, no escuro da madrugada, espalham o lixo e comem o que encontrar.
Quem o chamou não estava impaciente. Aguardou alguns minutos observando seus modos grotescos. Sem mudar o tom da voz, disse novamente o nome de quem procurava.
Ouvir o próprio nome agrada a todos os animais que podem entendê-lo. Aves, felinos, eqüinos, humanos. O homem que agia como um cão vira-lata raspara o dedo indicador imundo no fundo de um pote de manteiga. Lambia sob as unhas, para não perder nem um vestígio, quando reconheceu o nome sendo dito. Era de alguém que ele conhecera, mas que já estava morto. O nome deixa de ter importância para alguém que não existe mais.
Alguém que decidiu abandonar o dia e perambular pela noite como um espectro sem sombra, invisível, esgueirando-se pelas frestas para alcançar o que sobra nas sarjetas e esgotos, encher a barriga e dormir nos buracos quentes e escuros, longe dos predadores que o devorariam sem dó ou piedade, punindo-o por abrir mão de ser um deles.
Não havia mais nada para comer ali. Colocou uma mão para fora e apoiou-se na borda. Levantou o tronco na velocidade que as dores permitiam, até sair totalmente da lata.
Sempre soube que alguém surgiria na escuridão com uma faca, uma pedra ou um pedaço de vidro; Azrael anunciando o momento do fim. Virou-se lentamente.
O homem que veio anunciar seu destino era relativamente alto, proporcionalmente magro. Ou seria um pouco baixo, ligeiramente gordo? Talvez por causa da fraca iluminação, ou pela debilidade de sua saúde, não conseguia enxergar claramente a pessoa que o procurava.
- O quê você quer de mim? - perguntou.
- Hoje é seu aniversário! - foi o que ouviu em resposta.
Que importância tem uma data para quem não tem um nome? Pensou qual a razão para alguém procurar por um mendigo esquelético, sujo, enegrecido por camadas e camadas de fuligem, com cabelos longos escorrendo em grossas cordas, lembrando rolos de fumo. Somadas suas roupas apodrecidas, era o perfeito negativo de um fantasma. Cheirava como o animal que deita sobre os próprios dejetos.
- E o quê isso importa para você? – rosnou como se ainda pudesse morder.
O recém-chegado deu um passo para frente. Nem assim suas feições ficaram mais claras. O aniversariante forçou os olhos para distingui-lo das sombras, mas seu semblante continuava difuso, embaralhado.
- Não se alarme por não me ver com clareza. Mesmo que estivesse saudável, livre das doenças que infestam seu corpo, minha natureza não permitiria que me visse e, conseqüentemente, me entendesse. Talvez eu seja o que você vem buscando ser, alguém que existe a parte do mundo como o conhecemos, seja ele o seu, ou o meu. É só o que tenho para falar de mim.
O homem gesticulava com ambas as mãos, acompanhando a fluência tranqüila da sua fala.
- Sei que hoje é seu aniversário. Sei disso, assim como sei tudo sobre você.
- Passou os últimos doze anos da vida vagando. Logo que fugiu de casa se empregou com um caminhoneiro transportador de carvão e com ele ficou os dois primeiros anos, servindo-o como ajudante e como escravo sexual.
- Fugiu quando passaram por uma cidade litorânea. Lá ficou por três anos, prestando serviços sexuais para turistas. Faturava alto com os boquetes na areia ou nos hotéis baratos da orla. Um dia agrediu um freguês que não quis pagar e foi espancado pelos cafetões até quase morrer.
- Apareceu nesta cidade imensa na qual estamos, já um mendigo envolto em farrapos, sem desejos, sem nenhum objetivo a não ser sobreviver. Desde então vive entre ratos e baratas, dividindo com eles o que a cidade reserva aos que vivem em suas sombras.
- Vende seu corpo para outros mendigos, e com o dinheiro que acumula compra a droga mais barata que encontra. Possuído, alucinado, passa dias em um buraco úmido, vomitando, urinando e defecando sobre si próprio.
- Você sabe que seu fim está próximo. Os pombos que faziam ninho sobre um dos buracos que habitou enchiam o ar que respirava de criptococos, e agora seus pulmões estão comprometidos, seu corpo dói terrivelmente, e a meningite está prestes a chegar.
O homem com a morte anunciada ouviu calado o resumo da segunda metade da sua vida.
- Se sabe tanto a meu respeito, não veio até mim só para disser isso.
- Tem razão! – respondeu seu interlocutor. - Desculpe-me se fui arrogante. Não é minha intenção. Acontece que não fico muito bem neste corpo. Enfim, vim até você, no dia do seu aniversário, para oferecer-lhe um presente.
- Não se oferece um presente. Um presente se dá! – argumentou o aniversariante, cuja mente, saída da habitual inação, aproveitava a oportunidade para pensar e ouvir.
- Apenas os que não têm valor meu amigo, permita-me chamá-lo assim. Apenas os presentes sem valor são dados sem segundas intenções. Os realmente valiosos são dados em troca. Troca por algo que é caro a quem o dá. Trocamos presentes por submissão, por cumplicidade, por sedução, por influência. O valor de um presente se mede pelo que está sendo, subliminarmente, pedido em troca.
Depois de pensar por um segundo, o aniversariante sorriu, mostrando a boca desdentada. Suspeitava que o anjo da morte finalmente chegara, e queria brincar com a presa, antes de morder-lhe a jugular. Resolveu fazer o jogo do carrasco e descobrir que presente este lhe oferecia.
- Você me vê com clareza, ao contrário de mim, que só vejo alguns traços envoltos em sombras, e está dizendo que tenho algo que lhe interessa. Você está errado. Não tenho nada, amigo, nada que possa interessar a alguém. Um dia decidi livrar-me de tudo, e viver como um animal noturno, longe da vista de todos, no escuro das noites, fora do mundo. Houve uma razão para isso, a qual acredito que conheça, já que sabe tanto a meu respeito. É a única coisa de que me lembro da vida que deixei. Todo o resto se perdeu na memória... Voltando ao que dizia, você tem algo para me dar, ou propor em troca.
- Exatamente!
- E, se não for a morte, o que seria?
- Seria o que você mais deseja.
- Você sabe o que é?
- Não, só você sabe. É aquilo que resolverá todos os problemas que tem na vida. É muito fácil dizer o que é. Está na ponta da sua língua desde que saiu de casa, menino, chorando, com os tênis brancos sujos de sangue. Diga..., o que você mais deseja?
O aniversariante não pensou para responder. As palavras saíram da sua boca, sozinhas, como se estivessem sempre em alerta, aguardando uma oportunidade que nunca se repetiria.
- Quero ter dinheiro, muito dinheiro, na hora que quiser, onde quiser. Você pode dar-me isso?
- Claro! Posso lhe dar isso!
- E o que eu lhe daria em troca?
- Aquilo que, por mais que tente, dele nunca poderá se dispor.
- E isso existe?
- Existe, amigo, existe, e você, consciente ou não, aceitando ou não, tem.
- Então, diga-me, o que quer em troca de me dar todo o dinheiro do mundo?
- Quero a sua alma!
Normalmente se esperaria uma reflexão de alguém que receba essa proposta. Mas o aniversariante não vacilou.
- Agora?
- Agora? Não, de forma alguma. Sua alma está desdentada e doente como seu corpo. Uma alma apodrecida não me serve em quase nada. Mas, daqui a dez anos, depois de ter usufruído do que lhe dei, de ter desfrutado todo o conforto e prazer que o dinheiro lhe trará, sua alma estará mais saudável, mais digna, mas glamorosa, e me será muito mais interessante do que é hoje.
- Você me dará todo o dinheiro do mundo em troca da minha alma, mas não a quer agora. Virá buscá-la daqui a dez anos, no meu aniversário. E até lá...
- Até lá, meu amigo, você viverá a vida que quiser. Sempre que precisar de dinheiro, basta abrir esta bolsa que estou lhe dando, e tirar a moeda que quiser, na quantia que precisar. Pegue-a e experimente.
O aniversariante pegou seu presente e o examinou. O brilho que de lá saiu iluminou seu rosto, seus olhos fundos se arregalaram, seus lábios inchados se abriram mostrando as gengivas sangrentas, e a expressão miserável que carregava há tantos anos desapareceu.
- Aceito a sua oferta. Preciso assinar em algum lugar?
Capítulos já publicados:
God - John Lennon
Roxanne - The Police
Be Quick or Be Dead - Iron Mainden
Jumping Jack Flash - Rolling Stones
Broken Hearted Blues - T. Rex
Running with the Devil - Van Halen
I Shall be released - Bob Dylan
I can't quit you baby - Led Zeppelin
Nativity in Black (N.I.B.) - Black Sabbath
Mother - Pink Floyd
Ready for love - Bad Company
Call me The Breeze - Lynyrd Skynyrd
Traveller in Time - Uriah Heep
Sweet Child of Mine - Guns and Roses
When a Blind Man Cries - Deep Purple
Aqualung - Jethro Tull
Oriente-se com o Guia de Leitura
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domingo, 27 de setembro de 2009
Encoxando a Recrutadora
Terceira Temporada - Capítulo 8
- Esteja à vontade, Senhor Bill Mythighinyourass Silveira.
- Muito obrigado.
- Apenas por curiosidade, o seu nome do meio, qual a origem dele?
É uma boa pergunta para começar. Estou em uma sala de entrevistas no MITs. Vi o anúncio que fizeram na televisão, informando sobre vagas para pessoas sem experiência em Tecnologia da Informação.
"MITs Brasil – Contratação Imediata Assistente de Desenvolvimento de Soluções Não é necessária experiência anterior em Tecnologia da Informação. Precisamos de pessoas que possam contribuir para que as novas soluções de tecnologia sejam cada vez mais simples e que atendam de fato as necessidades das pessoas que vão utilizá-las. É importante que o candidato tenha capacidade de: - expor a visão e a expectativa do usuário sobre as novas tecnologias, - participar de testes e simulações de uso das novas tecnologias, - ajudar na divulgação e demonstração de uso destas novas tecnologias. Os candidatos devem enviar seus currículos para o e-mail do MITs: candidatoassistente@mitsbrasil.com"
Conclui que tudo o que eles pedem eu sei fazer. Além de ser a maneira que procurava para entrar neste instituto, para, aqui, encontrar a mulher responsável pelas metodologias e padrões vigentes na área.
A tecnocrata causadora dos males psicológicos que levam milhares de profissionais à loucura. Programadores, Analistas, Consultores, Web-Designers, DBAs, Gerentes de Projeto e afins, todos, em maior ou menor grau, sofrem de distúrbios causados pela pressão cada vez maior para se adaptarem às novas propostas aqui criadas.
Essa mulher, que, segundo a lenda, chamam de “A Grande Padronizadora”, será o troféu principal na minha estante.
Para conseguir meu objetivo, preciso ser aceito para a vaga anunciada.
Meu primeiro passo foi elaborar um Curriculum Vitae de dar inveja a qualquer profissional. Totalmente inverossímil, é claro. Como já diziam os egípcios, o papiro aceita tudo.
A garota sentada do outro lado da mesa o lê rapidamente; não quer parecer despreparada para a entrevista. Percebo que se impressiona com as siglas de linguagens e metodologias que supostamente conheço, com os projetos que supostamente gerenciei, com o nome das empresas nas quais supostamente trabalhei.
Respondo a pergunta que me fez, a respeito do meu, fictício é óbvio, nome do meio.
- Venho de uma família muito antiga. Meu antepassado mais distante, Sir Goldworthy Gurney criou, em 1830, em Londres, o primeiro ônibus a vapor. De lá para cá, todos os descendentes têm, de alguma forma, ligação com o transporte público urbano, em quase todos os países do mundo ocidental.
- Muito interessante. Em quais projetos desta área o senhor já participou?
- Fiz estudos relacionados ao cálculo da quantidade máxima de passageiros por metro quadrado, sob encomenda para a prefeitura de Paris.
- Muito interessante! – ela volta sua atenção para meu impressionante currículo. – O Senhor também trabalhou para a NASA?
- Perfeitamente. Criei a equação que determina o espaço para circulação dentro do Ônibus Espacial.
- Oh! O Senhor entrou no Ônibus Espacial?
- Claro!
Coitadinha, já está impressionada. É óbvio que nunca cheguei perto do Ônibus Espacial, querida. Mas, de uma forma que desconhece, levei várias garotas iguais a você para o espaço sideral, em uma viagem cheia de emoções novas e inesquecíveis.
Ela lê novamente o currículo, passando a caneta amarela sobre os pontos que, agora, lhe chamam a atenção. Quando termina, quase todas as folhas estão borradas.
- O Senhor tem muita experiência. Vejo que atualmente trabalha como Consultor independente na área de motivação. Poderia explicar-me do quê se trata?
- Claro! Desenvolvi uma técnica que estimula todos os receptores nervosos do corpo feminino. Após um tratamento relativamente curto, as mulheres submetidas a ele adquirem uma visão totalmente nova das suas aspirações, dos seus desejos, da sua vida em geral.
- Muito interessante... O Senhor escreveu algum artigo sobre sua técnica?
- Ainda não, mas muito já foi dito e escrito sobre ela.
- O Senhor poderia falar sobre sua técnica mais detalhadamente?
- Posso mostrá-la aqui mesmo, se a Senhorita desejar.
Ela fica indecisa por um momento, mas as palavras “receptores nervosos” e “desejos” a deixaram nitidamente curiosa.
- O Senhor precisa de alguma coisa em especial? Lápis, papel?
- Preciso que a Senhorita fique em pé, de costas para mim.
- Pois não!
Ela se levanta e fica em pé como pedi. Muito mais fácil do que eu imaginava. Uma mulher impressionada faz o que você quiser que ela faça.
A recrutadora sente-se protegida pela sala de entrevistas, onde pode-se ouvir o que se fala nas salas adjacentes. Ela não sabe que tudo o que faço, faço em silêncio, e que o som dos seus gemidos não sairá daqui. Dentro destas quatro paredes, vai conhecer muito bem esse candidato que voz fala.
Hum..., morena, baixinha, traseiro pequeno, sem graça. Passaria despercebida em minhas caçadas diárias dentro dos ônibus da cidade. Mas, aqui..., bem..., o quê a gente não faz para arrumar um emprego?
Primeiro, o velho toque logo acima do joelho. Logo em seguida, um pouco mais acima, mais para dentro da coxa, onde é mais quentinho. Ela diz baixinho: “- Oh! Entendi seu nome do meio...”.
Isso querida, meu nome do meio é o mantra que você vai recitar agora. Eu empurro com jeitinho e você murmura, fazendo biquinho..., vamos lá!
- My...
- thigh
- in...
- your...
- ass....
Isso querida, relaxe, deixe-se levar... Esqueça seu trabalho enfadonho, sorrindo para todo mundo, entrevistando dia após dia chatos que não sabem se expressar. ,
Esqueça esses malas citando “Cobits” e “ITILs”, esses nerds abobalhados balbuciando “Javas” e “Webs”, esses tiozinhos arrogantes vomitando “PMIs”, essas feias encalhadas exaltando suas qualidades. Esqueça tudo isso e saiba quem eu sou.
Sou o Encoxador Misterioso, baby. Sou o topo da sua carreira, a sua melhor contratação.
Coloco nas mãos dela minha “Ficha de Candidato” e uma caneta. Vamos lá querida, dois para lá, dois para cá, sinta a amplitude das minhas qualificações. Preencha minha ficha, agora que sabe do que sou capaz.
“Consegue se fazer entender?”, marque “Sim”.
“Conhecimento de linguagens estruturadas?”, marque “Sim”.
“Capacidade de influenciar pessoas?”, marque “Sim”.
E vá marcando “Sim” em tudo querida, enquanto dançamos pela sala ao som de “A Internacional”, proletários felizes, inseridos na engrenagem da máquina de moer corações e mentes do capitalismo cruel.
É só o que temos querida. Então, o quê nos resta? Só nos resta o prazer..., só o prazer.
- My...
- thigh
- in...
- your...
- aaaaaaaaaaassssssssssssss!
Pronto! Coloco-a sentada em sua cadeira e volto para a minha. Aguardo alguns minutos até ela se recompor. Como acontece com todas, não tem uma noção exata do que aconteceu. Com uma das mãos arruma o cabelo, com a outra pega novamente meu currículo.
- O Senhor é um candidato diferenciado, Senhor Bill. Não me lembro de entrevistar alguém assim...
A modéstia é uma boa qualidade, mas deve ser esquecida nos momentos cruciais.
- Entendo. A Senhoria nunca entrevistou, e nunca entrevistará alguém igual a mim.
Ela lê minha ficha e vê as anotações que fez. Com a caneta vermelha, escreve um enorme “OK!”no centro dela.
- O Senhor está contratado! Bem vindo ao MITs. Parabéns!
- Agradeço! A Senhoria pode ter certeza de que, aqui, farei o meu melhor.
Deixo-a ainda meio confusa, com um sorriso começando a aparecer no rosto. Agora, estou mais perto do meu objetivo. Até lá, terei que me contentar com o que tem por aqui.
Índice dos capítulos já publicados
Parte II - Entrar no MITs
Capítulo 5 - Reflexões da Grande Padronizadora e do Sopa Letrista
Capítulo 6 - Zé Gerúndio não pega fila
Capítulo 7 - Louco na medida certa
Capítulo 8 - Encoxando a Recrutadora
Parte I - A Descoberta
Capítulo 1 - A Grande Padronizadora
Capítulo 2 - Zé Gerúndio em "Os MITs da vida"
Capítulo 3 - Após a Fuga
Capítulo 4 - Papagaio de Pirata
Segunda Temporada: Encoxando na Clínica
Primeira Temporada: A caça ao Encoxador Misterioso
Marcadores: TI e-ncoxando
Louco na medida certa
Terceira Temporada - Capítulo 7
Dante chamou eufórico:
- Profeta, venha ver este anúncio na televisão!
- Que anúncio, Dante?
- Do MITs...
"MITs Brasil – Contratação Imediata Assistente de Desenvolvimento de Soluções Não é necessária experiência anterior em Tecnologia da Informação. Precisamos de pessoas que possam contribuir para que as novas soluções de tecnologia sejam cada vez mais simples e que atendam de fato as necessidades das pessoas que vão utilizá-las. É importante que o candidato tenha capacidade de:
- expor a visão e a expectativa do usuário sobre as novas tecnologias,
- participar de testes e simulações de uso das novas tecnologias,
- ajudar na divulgação e demonstração de uso destas novas tecnologias.
Os candidatos devem enviar seus currículos para o e-mail do MITs: candidatoassistente@mitsbrasil.com"
- E o que isto quer dizer?
- O senhor não queria saber como fazer para entrar no MITs? Esta é uma chance!
- E o que eles pedem eu consigo fazer! Louvado seja Renato Cordeiro! Sempre que as coisas parecem estar perdidas, ele nos mostra uma porta de saída. O que é preciso fazer para eu entrar lá?
- É preciso enviar um Currículum Vitae para candidatar-se. Pelos currículos recebidos eles farão uma pré-seleção que vai definir quem vão entrevistar.
- Então as minhas chances acabam aqui. Não tenho nada que interesse para colocar no currículo.
- Não é bem assim. Eu vou ajudá-lo, faremos um currículo bem feitinho, colocando tudo o que eles acham importante...
- Tem razão! Se este for o caminho escolhido por Renato Cordeiro, nós conseguiremos. Vamos tentar!
- Começando..., o Senhor é Professor de Filosofia.
- Depois que ouvi o chamado de Renato Cordeiro, larguei o curso para pregar a Sua Palavra nas ruas.
- Além de Professor de Filosofia, o Senhor é Representante. Agora vamos falar dos seus conhecimentos. Vejamos, como foi professor, podemos dizer que conheça “Orientação a Classes”. A pregação pode ser colocada em inglês como “preaching”. O pessoal de TI gosta de termos em inglês, então vamos colocar alguns.
- Espero que dê certo...
- Pode ter certeza de que vai dar. Selecionadoras nunca entendem o que está escrito no currículo.
- Deu certo, Dante! Recebi um telefonema me chamando para a tal entrevista!
- Não disse? Basta rechear um currículo de palavras bonitas e as selecionadoras se encantam. Agora é preciso darmos um jeito no seu visual, para ficar mais ao agrado, na hora da entrevista. Um terno, mudar o cabelo, aparar a barba...
- Eu fiz um propósito junto a Renato Cordeiro. Enquanto não consolidar seu rebanho, não corto meu cabelo e nem a minha barba.
- Tudo bem. Mas isto não impede que os lave e dê uma boa penteada. Tenho um terno dos meus tempos de trabalho, vai ficar sob medida. As entrevistadoras gostam desse visual “homem maduro com personalidade”.
- Senhor Celestino, estivemos analisando o seu currículo, e a priori o senhor é um candidato bastante adequado para as nossas novas vagas. Esta entrevista vai complementar nossa avaliação.
- Sim, eu estou bem informado a respeito do processo realizado. E não entrará nela coisa alguma que contamine, e cometa abominação e mentira; mas só os que estão inscritos no livro da vida do Cordeiro.
- Gostaria que o senhor descrevesse um pouco sua experiência nos cargos anteriores. Vejo aqui que o senhor foi Professor de Filosofia.
- Sim.
- Por que deixou o cargo?
- Para seguir a minha verdadeira vocação: levar conforto às massas de necessitados.
- Entendo. Imagino que seja o que o seu currículo descreve como experiência com “Mass Care”.
- Sim, é isto mesmo.
- E que fatores o levaram a mudar de profissão desta forma?
- Porque, vede, irmãos, a vossa vocação, que não são muitos os sábios segundo a carne, nem muitos os poderosos, nem muitos os nobres que são chamados. Cada um fique na vocação em que foi chamado. Rogo-vos, pois, eu, o preso do Senhor, que andeis como é digno da vocação com que fostes chamados, portanto, irmãos, procurai fazer cada vez mais firme a vossa vocação e eleição; porque, fazendo isto, nunca jamais tropeçareis.
- Não compreendi, o senhor poderia explicar melhor?
- E todos os homens temerão, e anunciarão a obra de Deus; e considerarão prudentemente os feitos dele. Para que pusessem em Deus a sua esperança, e se não esquecessem das obras de Deus, mas guardassem os seus mandamentos. Então vi toda a obra de Deus, que o homem não pode perceber, a obra que se faz debaixo do sol, por mais que trabalhe o homem para a descobrir, não a achará; e, ainda que diga o sábio que a conhece, nem por isso a poderá compreender. Assim como tu não sabes qual o caminho do vento, nem como se formam os ossos no ventre da mulher grávida, assim também não sabes as obras de Deus, que faz todas as coisas. Nem se dêem a fábulas ou a genealogias intermináveis, que mais produzem questões do que edificação de Deus, que consiste na fé; assim o faço agora.
- Desculpe, continuo não entendendo nada do que o senhor está dizendo. Poderia ser mais objetivo?
- Posso resumir dizendo que recebi a missão de levar a palavra do Cordeiro de Deus Renascido aos homens.
- Entendi, vejo aqui no seu currículo a atividade de Representante. Como o Senhor atua?
- Normalmente faço uma pregação geral a respeito de um ponto das verdades do Cordeiro de Deus Renascido. Após a pregação, as pessoas vêm a mim com suas dúvidas, anseios, inseguranças e medos, pedindo conselhos. Eu escuto um por um e apresento-lhes pontos da palavra de Renato Cordeiro que possam possibilitar um direcionamento de suas vidas.
- Percebo. Então o senhor diria que possui capacidade de liderança, vocação para motivar subordinados e influenciar pessoas?
- Tu o dizes.
- Certo. Em suas atividades profissionais, o senhor passou por alguma situação constrangedora com relação a algum colega de trabalho?
- Aquele que de entre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra. Por isso nenhuma carne será justificada diante dele pelas obras da lei, porque pela lei vem o conhecimento do pecado.
- Percebo que o senhor demonstra bastante maturidade profissional. O senhor tem mais alguma consideração a fazer, com relação a este processo?
- Falei eu com o meu coração, dizendo: Eis que eu me engrandeci, e sobrepujei em sabedoria a todos os que houve antes de mim em Jerusalém; e o meu coração contemplou abundantemente a sabedoria e o conhecimento. A sabedoria é a coisa principal; adquire pois a sabedoria, emprega tudo o que possuis na aquisição de entendimento.
- Agradeço sua participação, Senhor Celestino. Faremos uma análise da entrevista e entraremos em contato em breve.
O Profeta levanta-se e se despede. A entrevistadora revê suas anotações e anota seu veredicto na ficha:
“O candidato demonstra possuir uma espécie de fanatismo religioso. Respondeu diversas perguntas com frases que parecem citações da Bíblia. Apresenta sinais de insanidade, que posso classificar com de nível 2. Como, de acordo com a norma interna 768.908, esse é o nível de insanidade ideal para um bom profissional de TI, concluo que o mesmo é capacitado para o cargo.”
Alguns dias depois, o Profeta recebe um telefonema:
- Senhor Celestino, o Senhor foi aprovado no processo seletivo do MIT. Por gentileza, poderia passar por aqui amanhã para tratar da documentação necessária?
Por Enio Vedovello - COC
Índice dos capítulos já publicados
Parte II - Entrar no MITs
Capítulo 5 - Reflexões da Grande Padronizadora e do Sopa Letrista
Capítulo 6 - Zé Gerúndio não pega fila
Capítulo 7 - Louco na medida certa
Capítulo 8 - Encoxando a Recrutadora
Parte I - A Descoberta
Capítulo 1 - A Grande Padronizadora
Capítulo 2 - Zé Gerúndio em "Os MITs da vida"
Capítulo 3 - Após a Fuga
Capítulo 4 - Papagaio de Pirata
Segunda Temporada: Encoxando na Clínica
Primeira Temporada: A caça ao Encoxador Misterioso
Marcadores: TI e-ncoxando
Reflexões da Grande Padronizadora e do Sopa Letrista
Terceira Temporada - Capítulo 5
Aquela expressão descansada de Celina, conseguida após uma significativa hora adicional de sono, desapareceu. Seu rosto não mais transparecia o relaxamento de alguns minutos atrás, a expressão agora denotava que estava avaliando criteriosamente as prováveis conseqüências do que acabara de ler.
Depois de respirar um pouco e pousar o olhar na direção da ampla janela de onde podia vislumbrar o belo bairro do Morumbi a partir das margens não tão belas do Rio Pinheiros, abriu o jornal e releu o trecho da entrevista que ativou sua impressão de que uma bomba-relógio havia sido acionada:
"– Juliana Maçã: Entendi, mas que tipo de comportamento o Senhor tem observado nestes profissionais?
- Dr. Gláucio Valério: É um tipo de comportamento que pode ser classificado como característico das pessoas muito ansiosas, que no caso deles envolve a grande importância de se manter atualizado em relação aos novos padrões das tecnologias e do desenvolvimento dos sistemas de informação para as empresas, estabelecidos principalmente pelo que eles mesmos chamam de MITs, que são os Maiores Institutos de Tecnologia, a maior parte estadunidenses, e disseminados através suas universidades filiadas, tornando-se uma nova tendência mundial. Só que cada novo conhecimento torna-se descartável com muita rapidez, ou por serem modismos, ou por não serem plenamente aceitos, ou por não conseguirem se impor através das grandes corporações."
Não havia meias-palavras, o MITs estava sendo apontado como o provável causador de distúrbios de comportamento do pessoal de TI. Certamente não demoraria muito para que seus superiores tomassem conhecimento da entrevista e pedissem uma análise das prováveis implicações, e uma lista das providências que seriam tomadas. A imagem do MITs no Brasil, duramente construída nos últimos 20 anos, não poderia ficar sujeita a este tipo de arranhão.
Mas, como sempre, ela se anteciparia e apresentaria a situação aos seus superiores, já acompanhada de uma estratégia de solução, ainda pela manhã. E a estratégia seria de mostrar que a citação ao MITs na entrevista foi acidental e não intencional, e que também seria importante transformar essa adversidade na oportunidade de tornar mais claro para o público em geral que boa parte da evolução das empresas e instituições financeiras brasileiras no campo da TI se deve ao trabalho do MITs.
Agora era necessário transformar esta idéia em ações, e era o momento em que um nome vinha à sua mente: Leopoldo Irineu Barbosa, um homem com a capacidade incomum de transformar idéias complexas em frases, termos e siglas que sintetizavam a essência dessas idéias, tornando-as de fácil assimilação e disseminação a todos os públicos. Capaz até de reinventar e induzir o uso mais adequado para o seu próprio nome. Não era chamado de Sr. Leopoldo, que soaria cheio de pompas, nem de Irineu, que não lhe agradava, muito menos de Barbosa, que remeteria a um personagem do humor nacional, era o “Seu Lib”, ou “Lib”, o homem dos livros, o bibliotecário-chefe de uma das principais universidades de São Paulo, reconhecida pela formação de bons profissionais de TI.
Lib acreditava na universalização da comunicação a partir da simplificação do inglês, particularmente na área de informática, onde os termos e as siglas têm significado próprio, não literal, mas sempre lógicos e inteligíveis.
Nesse sentido sua criatividade era espantosa, e dava gosto lembrar de conversas nas quais ela própria lhe apresentara novos modelos e soluções de SI e TI, e ele criava um “rótulo” absolutamente genial a partir de associações com coisas que não só estavam acontecendo no mundo, mas também estava no subconsciente das pessoas.
Como, por exemplo, a Banda U2, que serviu de base para as siglas Y2K, que sintetizava todo um conjunto de soluções para o Bug do Milênio, B2B e B2C, para designar os novos padrões de comercialização via internet, P2P, para os serviços de compartilhamento de arquivos pela internet.
Também são da sua lavra o EDI, para as soluções de intercâmbio eletrônico de dados entre fornecedores e clientes, o SOA, para a arquitetura de sistemas orientados para prestação de serviços aos clientes.
Fazia questão de que as siglas tivessem sonoridade; dizia que isto lhes dava vida própria e facilitava sua propagação fora dos ambientes empresariais e acadêmicos. Mas Lib nem sempre conseguiu impor sua vontade: foi voto vencido quando se discutiu o padrão para os sistemas integrados de gestão empresarial, o ERP, e também para os sistemas de gestão do relacionamento com os clientes, o CRM. Alegava que a letra “R” era boa para ajudar a vender carros esportivos, não sistemas e tecnologias.
Foi nesta ocasião de alguns colegas do MITs lhe atribuíram o apelido de Sopaletrista. Pura maldade e inveja. O tempo acabou provando que ele tinha razão. Afinal de contas a maioria das pessoas se refere ao ERP como SAP, que é a sigla de uma das empresas que desenvolve este tipo de solução. Será que a melhor sonoridade determinou a migração?
E do CRM, quem ouve falar de CRM? O que teria acontecido com a divulgação desse modelo de solução se a sigla adotada fosse CREM? Bem, isto é passado, o que importava agora era ligar para ele e ter uma boa conversa sobre o assunto que realmente interessava.
- Oi Lib, tudo bem, sou eu!
- Oi Celina, quanto tempo!
- É, o tempo nos atropela e quando nos damos conta simplesmente já passou.
- Aqui também está assim, cada vez mais cursos, mais livros, mais artigos, revistas e outras publicações, e principalmente mais alunos querendo consultá-los...
- Mas Lib, do que é que você está reclamando, não era você que dizia que o verdadeiro conhecimento está nos livros?
- Eu não estou reclamando, estou achando ótimo, isto aqui é uma fonte inesgotável de diversão e aprendizado. Mas e você, quais as novidades?
- O de sempre, muitas pesquisas e reuniões com outros pesquisadores, com empresários e banqueiros, ajudando alguns amigos a escreverem livros para explicar os novos padrões, e também apresentando palestras nas faculdades para aumentar a divulgação destes padrões e destes livros..., mas, a novidade mesmo é uma notícia estranha que saiu no jornal de hoje.
- Vai me dizer que foi a entrevista de um médico, comentando a fuga do pessoal de TI de uma clínica psiquiátrica?
- É isto mesmo, você leu?
- Hoje pela manhã ouvi o pessoal comentando e dei uma lida sim...
- Então, o problema é que este médico comentou que o pessoal de TI está ficando doente por causa das contínuas exigências para atenderem aos novos padrões da área, e que estes novos padrões são impostos pelo MITs. Não foi uma acusação direta, mas ele mencionou o MITs com todas as letras.
- Vai depender de como a situação será apresentada aos diretores do MITs.
- Quero me antecipar, expor a situação juntamente com um plano de ação para tratar suas eventuais conseqüências.
- Então vamos fazer como sempre fizemos você me diz o que está pensando e eu estruturo uma forma simples e direta de apresentar nossa defesa.
- Ótimo, o importante é que a imagem do MITs seja preservada e os nossos esforços sejam reconhecidos e valorizados como algo que ajudou a facilitar a vida das empresas e das pessoas, se alguns profissionais da área não conseguem acompanhar nosso ritmo isto não é nossa culpa, eles é que têm que se dedicar mais e se preparar melhor em vez de ficar atrás de atestados médicos e licenças para fugir do trabalho.
- Concordo Celina, temos que fazer com que a sociedade fique do nosso lado e nos ajude a cobrar um pouco mais do pessoal de TI e acabar com estas zonas de conforto criadas pelas licenças médicas.
- Talvez até promover alguns encontros com médicos de várias especialidades para mostrar que os padrões e as metodologias são benéficos. Reconheço que podem até exigir um mínimo de interesse e dedicação, mais facilitam muito o trabalho e, desde que o profissional não seja um acomodado, ou esteja na profissão errada, ele consegue acompanhar.
- Se as pessoas enxergarem melhor os benefícios da contribuição dos padrões desenvolvidos pelo MITs não sentirão pena dos profissionais de TI.
- Lib, vamos mostrar que se não fossem os nossos padrões de desenvolvimento, manutenção e gestão de projetos de SI e TI as empresas e os bancos brasileiros estariam completamente defasados.
- Precisamos fazer com que a sociedade em geral entenda isto e a partir daí o pessoal de TI vai é ter que se virar para acompanhar as novas demandas, em vez de ficar arranjando desculpas esfarrapadas, conseguindo atestados médicos fajutos para acobertar suas limitações, se escondendo em clínicas e depois fugindo delas só para aparecer nos jornais.
- É, vamos também nos apoiar no fato de que os empresários e os acadêmicos estão do nosso lado, uns pelas reduções de custos, de pessoal, e pelo aumento da lucratividade, e os outros pela criação de novos cursos, lançamentos de livros e maior visibilidade na mídia.
- Sabe Celina, pensando bem não devemos nos preocupar tanto com esta minoria de insatisfeitos, afinal de contas, a sociedade até ontem não sabia que eles existiam e, amanhã, já os terá esquecido. Sequer devemos nos expor emitindo qualquer comunicado sobre a tal entrevista, este assunto vai se diluir e desaparecer sozinho como a maioria das notícias de pouca importância.
- O que você propõe?
- Olha só, a questão central é que o MITs não é muito conhecido pela sociedade em geral, sendo assim acredito que a melhor coisa a fazer é mostrá-lo às pessoas comuns, fazer com que associem as melhorias no seu dia-a-dia com nosso trabalho, fazer eventualmente até com que elas se envolvam com algumas das novas idéias, conversem sobre isto com seus amigos e familiares, nos passem suas impressões, e consequentemente, quando divulgarmos novos padrões, nos ajudem a fazer com que eles sejam colocados em prática.
- Lib, você é um gênio, já sei o que vou fazer, lembra que eu comentei que estava tentando aprovar uma revisão no orçamento para a contratação de mais algumas pessoas para trabalhar aqui no nosso escritório?
- Sim, inclusive te alertei que suas exigências estavam muito altas e que seria difícil achar um, que dirá dois profissionais com tantas qualificações.
- Isto mesmo! Vou reverter este quadro; em lugar de dois assistentes diretos vou pedir apenas um, e usar a verba da outra vaga para contratar uma ou duas pessoas bem comuns a título de utilizá-las como referência para o desenvolvimento de soluções mais próximas das expectativas da sociedade, que sempre foi o objetivo final do MITs.
-É isto mesmo Celina, não se esqueça de me convidar para participar do processo.
- Com certeza Lib, agora que você me ajudou a clarear as idéias, vamos colocá-las em prática. - Então ao trabalho, e até mais!
- Obrigado Lib e um bom dia para você!
O sentimento era de que as nuvens realmente se dissiparam. Para Celina era mais uma oportunidade de mostrar sua costumeira eficiência, nada como saber o quê deve ser feito e como deve ser feito.
A primeira etapa foi até mais simples do que esperava, ligou para o LA Country Manager (Diretor do MITs para a América Latina) explicou a situação, ressaltou a sua pouca relevância para a imagem institucional do MITs e que estrategicamente seria interessante aproveitar para revitalizar esta imagem e tornar o MITs menos hermético através da atualização do quadro de pessoal com algumas pessoas comuns, mas com potencial para contribuir no desenvolvimento e divulgação dos novos projetos. O aval foi obtido, agora era só cumprir as formalidades de praxe.
A segunda etapa foi cumprida numa reunião com a equipe, onde a situação foi rapidamente explica e a idéia das novas contratações foi tratada com curiosidade, expectativa e bom humor. Discutiu-se o formato da convocação para as vagas, a simplicidade do texto, e a importância de utilizar os meios mais comuns e de fácil acesso para a divulgação de anúncios de emprego, ou seja, os jornais de grande circulação aos domingos.
A terceira etapa foi o contato com o pessoal da Assessoria de Imprensa para solicitar a imediata divulgação de um anúncio de vaga visualmente bem atrativo e com o conteúdo:
"MITs Brasil – Contratação Imediata
Assistente de Desenvolvimento de Soluções
Não é necessária experiência anterior em Tecnologia da Informação. Precisamos de pessoas que possam contribuir para que as novas soluções de tecnologia sejam cada vez mais simples e que atendam de fato as necessidades das pessoas que vão utilizá-las. É importante que o candidato tenha capacidade de:
- expor a visão e a expectativa do usuário sobre as novas tecnologias,
- participar de testes e simulações de uso das novas tecnologias,
- ajudar na divulgação e demonstração de uso destas novas tecnologias.
Os candidatos devem enviar seus currículos para o e-mail do MITs: candidatoassistente@mitsbrasil.com"
Por Adnor Júnior - COC
Índice dos capítulos já publicados
Parte II - Entrar no MITs
Capítulo 5 - Reflexões da Grande Padronizadora e do Sopa Letrista
Capítulo 6 - Zé Gerúndio não pega fila
Capítulo 7 - Louco na medida certa
Capítulo 8 - Encoxando a Recrutadora
Parte I - A Descoberta
Capítulo 1 - A Grande Padronizadora
Capítulo 2 - Zé Gerúndio em "Os MITs da vida"
Capítulo 3 - Após a Fuga
Capítulo 4 - Papagaio de Pirata
Segunda Temporada: Encoxando na Clínica
Primeira Temporada: A caça ao Encoxador Misterioso
Marcadores: TI e-ncoxando
domingo, 20 de setembro de 2009
Miss Universo
Meu nome é Capitão Ócio. Hoje contarei mais um capítulo da saga espacial vivida com Arthur CK 9000, a bordo da Amazon WSS-1. É mais uma história com moral, para lembrar e refletir.
Vamos a ela!
- Para encerrar, a última pergunta!
“- Estou pronta!” – responde a voz sintetizada.
- Qual seu maior desejo?
“- A paz Universal!”
Ainda não era a resposta que esperávamos.
- Arthur, interrompa o programa e reformule, mais uma vez, os protocolos de raciocínio.
“Perfeitamente, Capitão.”
- Diário pessoal do Capitão Ócio. Data estelar 0152 dpc. Eu e Arthur passamos os últimos dias elaborando um concurso para escolher a mais completa entre as fêmeas de todas as espécies inteligentes do Universo. Elaborar as regras, os eventos e a cerimônia de premiação foi a parte fácil. Agora estamos empenhados na tarefa mais complexa de elaborar as candidatas.
Como, além da espécie humana, só sabemos da existência “deles”, e “eles” são hermafroditas, resolvemos improvisar, construindo em nosso programa holográfico - que agora permite inventarmos nossas próprias histórias - onze fêmeas de espécies diferentes, todas humanóides, variando entre si na altura, peso, tipo e cor dos cabelos, cor da pele, cor dos olhos, em um ou outro quesito anatômico diferenciado, entre outros detalhes. E todas com vinte e cinco anos de idade.
Para preencher a mente de cada uma, misturamos os ingredientes que achamos suficientes para a formação de uma verdadeira e completa Miss: todas as obras da filosofia, todos os clássicos da literatura dos séculos XIX a XXIII, todos os livros de receitas, todo o conhecimento das ciências de história, sociologia, psicologia e botânica. E o todo o Kama Sutra, também.
Dividimos o amálgama de conhecimento obtido em doze partes, e destinamos cada uma delas para a fêmea humana e para as fêmeas alienígenas.
A fêmea humana também será uma holografia, uma vez que apenas Eu e o Computador Arthur CK 9000 habitamos esta imensa nave, a Amazônia WSS-1.
Nosso destino é a galáxia M104, onde investigaremos a fonte de emissão de transmissões de rádio com freqüências entre 88 e 108 megahertz, captadas na Nebulosa Mz3 (leia em "Um sinal no espaço"). É uma viagem longa, mesmo para nossa nave, que viaja na velocidade da luz.
Durante o tempo em que deixo a hibernação e “existo” acordado, procuro estudar, pesquisar, ou, simplesmente, me divertir.
As notícias da Terra chegam cada vez mais defasadas, devido à distância. Estamos a tanto tempo longe de casa que já não me sinto habitante do planeta. Não tenho saudades do céu, dos mares, dos desertos, das florestas, das cidades e das pessoas.
Hoje acredito que, quanto maior o tempo passado, e maior a distância que separa, mais profundamente se apaga o que deixamos para trás.
Jamais imaginei que, um dia, me veria um eremita, muito menos um eremita espacial, vivendo em uma caverna cujas paredes, teto e piso são decorados por estrelas, galáxias e nebulosas, tendo só para mim o silêncio, a vastidão, e a inexplicabilidade do Cosmos. Pergunto-me se Deus não seria - apenas – uma forma de descrever tudo isso.
Minha única companhia “humana” é Arthur, e a nave é a concha que nos protege. Somos um infinitamente pequeno molusco à deriva na imensidão de um oceano sem comprimento, sem largura e sem profundidade.
Quando decidimos criar o concurso de “Miss Universo”, conclui que a primeira coisa a fazer era dotar as candidatas de inteligência, conhecimento e capacidade de raciocínio equivalentes e, só depois, cuidar da definição das suas características físicas.
Penso se não seria melhor inverter a ordem, materializando-as primeiro e, depois de uma rigorosa análise, decidir pelo intelecto de cada uma.
“Todas as candidatas com a sinapse revisada, e prontas para novos testes!”.
- Arthur, desta vez começaremos de uma maneira diferente..., processe e materialize a primeira das candidatas, vestindo traje de praia, e depois...
“Desculpe interromper Capitão! Temos um objeto se aproximando em grande velocidade! Todos os sistemas da nave em alerta total!”.
Nosso último contato aconteceu há vinte e dois anos terrestres (leia em “À luz da Criação”).
Encontrar algo viajando pelo espaço, que não seja um cometa ou um asteróide, é improvável como duas bóias, jogadas em oceanos diferentes, um dia se tocarem. Porém, é o acontecimento que faz valer a pena estar aqui.
Ocupo meu lugar, flutuando no centro da esfera transparente que é a minha torre de comando, onde tenho visão 360º do Universo ao redor. Todos os comandos estão ao alcance das mãos, embora raramente os use, pois Arthur comanda a nave totalmente.
- A quê distância estamos do objeto, Arthur?
“Cinco quilômetros, Capitão!”
- Forma e composição?
“Esférico, 24 metros de diâmetro, oco...”
- Oco?
“Por favor, espere que eu conclua minha análise!”
- Oh! Desculpe-me Arthur. Prossiga.
“Esférico, 24 metros de diâmetro, elaborado em liga de ferro, oco. Dentro dele, inúmeros objetos retangulares flutuando magneticamente. São retângulos, de 14cm de perímetro e 10cm de área”.
- Detecta algum elemento químico perigoso?
“Nada que conhecemos como venenoso ou explosivo.”
- Traga a esfera para a área de segurança, Arthur.
“Demorou, Capitão!”
Recentemente estudamos as gírias da língua portuguesa falada no Brasil no início do século XXI. Arthur parece ter incorporado algumas delas.
O raio de teletransporte é acionado, e a esfera desmaterializa-se no espaço e materializa-se em nossa área de segurança, dentro de um cofre de aço carbono transparente, resistente a uma explosão de até 1 megaton.
O melhor procedimento é a espera. O objeto ou a criatura em questão, caso perceba a mudança de ambiente, pode, de alguma forma, se manifestar.
A esfera repousa durante aproximadamente 6 horas. Nesse período, Arthur elabora inúmeras maneiras de abordá-la.
Quando concluímos que a melhor opção era abrirmos um pequeno orifício para, através dele, acessarmos um dos retângulos, a esfera, como se ouvindo nossa conversa, abriu-se, com a metade de cima se encaixando na metade de baixo.
“São cento e doze retângulos,flutuando na área interna da esfera, mesmo com ela aberta. Aguarde minha análise.”
Sinto uma ponta de desgaste em meu relacionamento com Arthur. Estamos juntos há muito tempo, desde que, em nossa primeira missão, nos encontramos com “eles” (leia “Encontro marcado em 2.108). Como dizem, muito tempo em companhia de apenas uma pessoa desgasta o humor de qualquer um. Não sei se ele percebe minha preocupação.
“Capitão?”
- Sim Arthur!
“Todos os retângulos possuem inscrições organizadas em quatro colunas. A escrita pode ser considerada uma precursora do davaganari, alfabeto mais utilizado para a escrita do sânscrito.”
“Veja a tabela que elaborei. A primeira coluna seria algo como ‘nome’, a segunda seria ‘idade’, a terceira, algum tipo de classificação, e a quarta, algum registro temporal, como uma ‘data’ específica.”
- Todas as ‘datas’ são parecidas..., as ‘idades’ podem ser agrupadas em seis ou sete grupos, e os ‘nomes’ parecem bem diferentes entre si. A terceira coluna, classificada com um de três caracteres diferentes, vamos admitir como a designação do ‘sexo’. Nomes, idades, sexo...
“Indivíduos!”
- Oh! – um arrepio de assombro percorre meu corpo como uma corrente elétrica. – Seriam esses cento e doze retângulos apenas..., sarcófagos?
Arthur não responde imediatamente. Quando alguém com tamanha capacidade de processamento fica pensando, é sinal que algo bombástico está para acontecer.
“Se vermos cada retângulo como um compartimento que guarda um ser que já existiu, Capitão, concordaria totalmente com a sua suposição. Porém, podemos considerar que cada retângulo representa, de alguma forma, um ser que ainda existe, mas não possui um corpo, para através dele, se manifestar, pois...”
- Um ser vivo? – interrompo Arthur novamente, mas, desta vez, ele parece não se incomodar. A curiosidade científica, para pessoas como nós, está acima de quaisquer caprichos.
“...todos os retângulos são um tipo de unidade de memória.”
- Interessante...
“O armazenamento de dados utilizando decomposição binária é simples o bastante para ser descoberto e utilizado por mais de uma civilização. Partindo dessa premissa, estimo que todos os retângulos têm aproximadamente 10 Terabytes de capacidade cada um. E o uso dessa memória varia, para maior, nos retângulos cujas ‘idades’ parecem maiores, e para menor nos retângulos de ‘idades’ menores, portanto...”
- Portanto temos seres de várias idades. E quanto à ‘data’ registrada?
“Sugerem que os retângulos foram gravados em um determinado intervalo de tempo.”
- Muito interessante..., se a terceira coluna for realmente o ‘sexo’, temos seres de três sexos distintos.
“É uma possibilidade bastante plausível. Veja que na Terra o terceiro sexo, embora – ainda – não exista biologicamente, há muito tempo é reconhecido e assimilado pela maioria dos nossos grupos sociais.”
- Temos uma questão e tanto em nossas mãos, Arthur.
“Entendo perfeitamente qual é ela, Capitão.”
Enquanto Arthur estuda os retângulos, torço pela possibilidade de combinar favoravelmente condições díspares e circunstâncias improváveis.
Se cada retângulo representa um ser, se as informações contidas possam ser decifradas, se elas trouxerem o DNA da criatura, se sua codificação possa ser entendida pelos nossos decodificadores genéticos, isso significa que, em tese, poderíamos, virtualmente, trazê-lo novamente à vida. Há alguns pontos a serem considerados.
Temos a questão da segurança da nave e de tudo o que ela contém e representa. Somos porta-vozes da espécie humana, distantes alguns milhões de anos-luz do nosso planeta azul.
Graças à outra espécie inteligente, “eles”, estamos evoluindo tecnologicamente na proporção de cem anos em um. Mas ambos, nós e “eles”, temos conhecimento apenas um do outro.
Colocar outra espécie dentro desta relação pode trazer quais benefícios, e quais riscos?
Quanto aos seres em seus retângulos, sem traduzi-los em bytes e códigos genéticos, como poderemos saber quem são? Temos, Eu e Arthur, o direito de “acordá-los”? Será que querem ser “acordados”?
Talvez estejam simplesmente mortos, e a esfera que os transporta seja a nave que supostamente os levaria para o paraíso prometido, mas, que, na verdade, ruma para lugar nenhum.
Minha natureza humana me leva a acreditar que foram ‘gravados’ em seus retângulos por não terem outra opção, uma vez que seus corpos eram perenes como o meu. Por um motivo que só eles podem esclarecer, soltaram suas mentes no espaço em busca de um novo lar.
As migrações são freqüentes no Universo, e definem a história das suas civilizações.
“Análise concluída, Capitão!”
- Prossiga, Arthur.
“O DNA está presente, assim como a memória de cada um. São todos indivíduos de uma mesma espécie. Têm forma humanóide, altura média de dois metros e vinte e quatro centímetros, e quarenta e cinco quilos de peso. As idades variam, em padrões humanos, entre sete e cinqüenta anos. Há quarenta e sete do que chamaríamos de sexo masculino, cinqüenta e três do sexo feminino, e doze de ambos os sexos.”
- Existe a possibilidade de materializá-los?
“Implementei algumas modificações na última versão do programa holográfico, permitindo que ele possa se comunicar com outras tecnologias. Respondendo à sua pergunta: Sim, Capitão, existe uma forma de materializá-los, permitindo que habitem uma área de memória em mim, ou existam holograficamente, soltos pela nave.”
- O que você pensa sobre materializá-los, Arthur?
“Penso que é uma questão bastante prática, Capitão. Criá-los como código binário permitiria que existam como em um jogo virtual, cada um com seus traços físicos e psicológicos, e que interajam e reproduzam seu mundo em uma área definida de memória não volátil. Criá-los como holografia permitira interagir com eles. Independente do que for decidido, se algo perigoso acontecer, basta acionar o comando “release all”.
Arthur percebe que reajo mal às suas últimas palavras.
“Sei que pareço frio aos seus olhos, Capitão. Acontece que sou uma máquina e não tenho conflitos filosóficos. Isso é uma prerrogativa dos seres humanos. Nunca lhe pareceu estranho o homem de lata querer um coração?”
- Entendo Arthur. Incomoda-me a questão de trazer um deles de volta à vida, ainda que virtualmente, como holografia ou não.
- O indivíduo ressuscitado irá querer, antes de qualquer coisa, ver mais um dos seus, e só então se sentirá feliz. Eu não seria cruel de “ressuscitar” alguém só para deixá-lo na solidão.
- E, a cada um que “voltasse à vida”, outros seriam reclamados e, rapidamente, todos os cento e doze estariam conosco.
- Ver-me-ia refém de todos eles, pois jamais poderia “desligá-los”.
- Nossa raça mais tirou do que deu a vida ao longo da nossa história, Arthur, e eu teria a chance de compensar o equilíbrio do Cosmos, trazendo de volta, quem sabe, uma outrora brilhante civilização.
- Mas, considerando tudo o que já vi de belo e assustador em tudo à nossa, penso se é certo brincar de Deus.
“Isso o incomoda, Capitão?”
- Atuar como Deus é provar que ele existe, Arthur..., e eu não tenho essa certeza.
“Entendo. Acredito que precisamos de uma terceira opinião.”
- E de quem seria?
“Da candidata à Miss Universo!”
- Você está debochando da situação, Arthur?
“De forma alguma..., relaxe..., e deixe ‘cair sua ficha’, Capitão!”
Novamente, a gíria do século XXI.
Relaxei, “deixei a ficha cair” e entendi que ele estava certo. Combinamos várias ciências e várias fontes de conhecimento em uma mistura que dá cultura e discernimento a quem a receba e assimile. Nela também colocamos todos os traços e características da psique feminina. Esteticamente, consideramos os conceitos de beleza das culturas latinas, predominantemente a francesa, a espanhola e a brasileira. Quem melhor do que a fêmea resultante dessa mistura para nos dar uma opinião?
“Capitão, escolhi uma candidata ao acaso e já alimentei sua memória com todos os elementos da questão que discutimos. Posso materializá-la?”
- Demorou Arthur!
A candidata a Miss Universo escolhida tem cabelos ruivos encaracolados, boca carnuda, pernas grossas, seios ligeiramente fartos, e pele verde. Muito bonita..., só o biquíni...
“Aprovada, Capitão?”
- Com certeza..., execute o programa do concurso.
Estamos em um palco iluminado. Estou vestindo um terno amarelo cintilante, comandando o show. Atrás de nós, bailarinas dançam sorridentes.
Nossa platéia é quase toda a população da Terra, presa aos provedores de imagem, acompanhando interessada a eleição da primeira Miss Universo de verdade.
Apresento a candidata.
- Com vocês, representando o Planeta Verde, a Srta. Eruca Sativa!
Bilhões de palmas por longos minutos. Ela sorri exibindo seus lindos dentes brancos e seus exóticos lábios alaranjados.
Peço silêncio e sou atendido.
- A Srta. está pronta para responder as três questões fundamentais para seu sucesso no concurso?
“- Estou!” – responde, graciosa.
- A primeira questão!
A música aumenta a expectativa.
- O que é mais efêmero?
“- A existência!”
A resposta é imediata, e os aplausos também.
- A segunda questão!
Novamente, a música concentra as atenções.
- Qual o ato mais belo?
“- O ato de doar!”
Bilhões de aplausos.
Toco em um comando na tela e suspendo o programa. Todos os meus questionamentos foram resolvidos.
- Arthur, quando quiser, processe a construção dos indivíduos gravados nos retângulos. Aloque a todos em uma área segura de memória. Garanta que estejam conscientes, e entendam plenamente a sua condição. Caso manifestem desejo de continuarem “desligados”, considere. Ao contrário, caso queiram ficar, dê-lhes tudo o que precisarem. Avaliaremos o uso da holografia oportunamente.
“Como quiser, Capitão.”
Coloco novamente o programa do concurso para rodar.
- E agora, para todo o Universo, Srta. Eruca Sativa, responda a última pergunta.
Desta vez, o som é do rufar de mil tambores, que cesso com um aceno de mão.
- Qual seu maior desejo?
Ele franze as sobrancelhas, faz biquinho e vira os olhos para cima. Depois de alguns segundos, abre um magnífico sorriso e responde:
“- A paz Universal!”
“Não se esqueça de que criamos um concurso de Miss, Capitão.”
Moral da história
A única coisa que é realmente sua, é efêmera.
domingo, 13 de setembro de 2009
O menino encapuzado
Meu nome é Capitão Ócio. Eu sei que você sabe que eu sei que você sabe disso. Não importa. Minha missão continua sendo contar histórias com moral, para lembrar e refletir. Hoje falaremos sobre como nossa infância influencia, para sempre, nossa vida.
Vamos a ela!
Não me chamam para festas de aniversário. Não recebo convites de casamento. Cartão de Natal, só do banco. Cartão de Aniversário, recebo vinte dias antes, da operadora do cartão de crédito.
Se e quando sua pessoa fica associada à sua função, você se torna um sinônimo. Um dia se olha no espelho pela manhã e diz “- Bom dia Contador!”, “- Bom dia Padeiro!”, ou “- Bom dia (sua profissão)
No meu caso, sou sinônimo de algo que ninguém quer que aconteça consigo, embora deseje, quase diariamente, que aconteça com outros ao seu redor.
Duas horas da tarde. Antes de fechar o browser, vejo que chegou mais um e-mail.
“Alteramos a pessoa que o Sr. receberá às 14:00h. No lugar da Srta. Márcia Moreira, encaminhamos o Sr. Cristovam Alicate.”
Às vezes, por força da decisão de outras pessoas, minha agenda é modificada na última hora. Isso me é desagradável, pois perco a minha preparação.
Tenho sobre a mesa o que pude apurar sobre a Srta. Márcia Moreira. Sei dos seus rendimentos, dos seus horários, conheço seu histórico médico, seus hábitos de consumo, sei quem são suas amizades, e desconfio de algumas coisas esquisitas que ela, provavelmente, faça.
Estava preparado para recebê-la, focado como um gato espreitando um passarinho, afiado como a katana que divide em duas partes o corpo de alguém.
Devo agora reunir as informações que puder sobre a nova pessoa que virá e, quando falar com ela, ser sincero, e, se necessário, improvisar. Ossos do ofício.
Três horas da tarde. Tenho em mãos o mínimo que preciso. Falo no microfone sobre a mesa.
- Sr. Cristovam Alicate.
Alguns segundos depois, ele pede licença e entra cabisbaixo, virando-se para a porta ao fechá-la. Devagar, com andar hesitante, caminha até mim.
- Bom dia! – cumprimenta-me meio sem jeito.
- Bom dia! Sente-se por favor! – abro um sorriso de apresentador de programa dominical da TV. É uma expressão cínica, que desenvolvi minuciosamente desde que comecei a fazer o que faço. Abro minha boca, contraio minhas bochechas expondo meus dentes, e arregalo quase totalmente os olhos.
Os que se sentam à minha mesa já ouviram ou falaram sobre mim nos corredores, no café, nos banheiros. Minha expressão mostra que não tenho por eles a menor consideração.
Para os que se comportam como o rapaz que aqui está, esfregando as mãos, respirando fundo para tranqüilizar o coração que bate aflito no peito, fico alguns minutos em silêncio.
Deixo que ele se remoa em pensamentos sombrios. Que sofra antecipadamente o que ainda sofrerá, sabendo o que acontecerá consigo e, quase que imediatamente, com os seus.
Não me importa se, em seu julgamento, o pobre diabo ensopado de suor me atribua toda a culpa. Foram outros que o colocaram aqui, à minha disposição, por razões que não me interessam.
Não me amedronta que me conjure todas as maldições que conheça, nas crenças, crendices ou religiões que pratique, que ele deve estar invocando agora, se preparando para o que vai ouvir.
Que diferença faz quem ele pensa que sou? Sou o que as pessoas dizem a meu respeito. Convenci-me disso quando encontrei, em meu passado, a razão para me chamarem de: “O Executor”.
Foi no desfile de sete de setembro de 1970. Tinha onze anos. Sai de casa vestindo o uniforme designado para os meninos da minha classe. Camisa branca, calça comprida, tênis, e uma espada de plástico presa no cinto. Seríamos os soldados portugueses que a imaginação das professoras e a renda limitada das nossas famílias permitiam que fossemos.
O desfile era preparado na avenida próxima da escola. Cheguei um pouco antes das sete horas da manhã, e procurei minha classe. Todas as crianças, vestidas como lhes foi determinado, batiam os dentes e tentavam se aquecer como podiam. Naquela cidade, as manhãs de outono eram muito frias.
Fiquei com outros oito meninos, vestidos mais ou menos como eu, cada um portando sua arma: Sabre, florete ou espada. Acabamos com o estoque desse tipo de brinquedo no comércio local.
O frio e a necessidade de alguma coisa para passar o tempo nos levaram a realizar alguns confrontos de brincadeira, onde os que estavam de fora julgavam o vencedor de cada contenda pelos toques que dava no adversário. Brincadeira que ficou séria para mim quando recebi nas costas da mão um golpe maldoso de um garoto do qual não gostava.
Tomei a atitude mais apropriada à data em comemoração: parti sobre ele brandindo minha espada amarela. O primeiro golpe entortou o florete do adversário, e o segundo atingiu seu antebraço esquerdo. Menos nobre do que eu, ele não reagiu com bravura. Chorou e chamou a professora.
A professora, Dna. Joana, conhecia a índole dos seus garotos. Ficou a par da situação e ainda pensava o que fazer quando o Diretor da escola a interrompeu.
Reclamou que o garoto que fazia Tiradentes era loiro, não tinha sequer uma barba postiça, e que, vestido todo de branco, segurando nos braços a ponta da corda que tinha em volta do pescoço, parecia, na verdade, um fantasma.
Outra professora chegou e os três conversaram. Por um momento fiquei aliviado, imaginando que a minha questão seria esquecida. Mas não foi.
Decidiram que o garoto que teve o florete quebrado por mim desfilaria com a minha espada, e que eu seria remanejado para a função de conduzir pela corda o herói nacional, para que todos não tivessem dúvida de quem aquele garoto totalmente inapropriado representava.
Dna. Joana me franziu o rosto como dizendo que a decisão era a melhor para mim. De qualquer forma, eu não tinha escolha.
O Diretor, um senhor alto e magro, de terno preto, sobrancelhas grossas, lembrava o mordomo de uma família de filme de terror. Perguntou para as professoras que roupa elas colocariam no coadjuvante. As mulheres saíram quase que correndo e voltaram alguns minutos depois. Trouxeram uma blusa cinza, de manga comprida, que pegaram de algum garoto maior do que eu.
Novamente o Diretor examinou-me e, insatisfeito, disse que eu ainda não estava adequado. A hora do desfile se aproximava.
- Uma máscara! – exclamou subitamente, fazendo as professoras suspirarem aliviadas por não terem mais a obrigação de resolver rapidamente a questão.
Alguns minutos depois, alguém trouxe um capuz costurado às pressas por uma das senhoras do bairro, que acompanhava, desde a luta de espadas, toda a situação.
As crianças próximas me olharam. Umas cutucavam outras, chamando a atenção para mim. Algumas pareciam assustadas com minha figura, mas a maioria delas morria de inveja, por estarem tremendo de frio enquanto eu estava de blusa, com um enorme capuz preto protegendo minha cara.
Eu as via pelos pequenos orifícios para os olhos, cortados de tamanhos diferentes e não necessariamente nos lugares corretos. Vi também que o garoto que golpeei planejava com outros alguma retaliação. Entendi que eles levavam vantagem pois, além de estar em grupo, estavam armados, e eu não.
Ajeitei o capuz da melhor maneira possível. Conseguia enxergar o que estava à frente, mas não via os meus pés. Naquela época, as ruas eram pavimentadas com paralelepípedos.
Não andei nem vinte metros e chutei com a ponta do meu conga uma pedra saliente. Gritei de dor chamando a atenção dos soldados atrás de mim e dos índios que iam na minha frente, e todos, me vendo pulando em um pé só e praguejando abafado pelo capuz, caíram na gargalhada, só parando quando Dna. Joana deu uma bronca. Ela veio até mim, encontrou e puxou minha orelha, e disse para eu marchar direito como as outras crianças. Tiradentes nem percebeu a agitação. Continuava caminhando de cabeça erguida e andar altivo.
As pessoas nas calçadas aplaudiam mais uma apresentação das origens da nossa – disfarçada – sociedade de castas.
Os mais festejados eram o Imperador, pela sua simpatia, ou pela influência da família dele na cidade, os índios, representados pelas crianças mais escurinhas da escola, sensibilizando as pessoas pelo frio que passavam, e o herói da Inconfidência Mineira, por motivos óbvios.
Os que prestavam atenção em mim diziam “- Olha! Ele que vai enforcar o Tiradentes!”. Uma criança em pé na frente do pai se assustou comigo e se escondeu atrás dele. Duas velhinhas apontaram o dedo para mim e uma disse: “- Que menino malvado!”.
Passamos pela calçada onde estava minha família, que me procurava entre as crianças mas não me via. Minha mãe tinha as mãos na cintura, e espumava de raiva, achando que eu faltara ao desfile para fazer outra coisa. Quando passei em frente a eles, resolvi tirar o capuz e me mostrar, mas o capuz enroscou, me atrapalhei com ele e tropecei em outro paralelepípedo. Caí de boca e bati o nariz.
As pessoas que viram o tombo riram; chamei a atenção do desfile e, do clero para traz todos zombaram da minha situação.
Minha mãe veio para a rua em socorro do menino encapuzado, que deixou Tiradentes, impassível e indiferente a tudo, escapar, arrastando a corda atrás de si.
Ela disse: “- Coitadinho, você é muito atrapalhado, não é menino?”, e puxou o meu capuz...
- Senhor? Senhor?
O rapaz me tira do devaneio. Está ansioso. Pai de família, com mulher dona de casa e dois filhos pequenos. O menor é autista. Mora de aluguel e está endividado na praça.
Olho para ele e, impassível como Tiradentes a caminho da forca, executo a sentença que me foi passada:
- Sr. Cristovam, o senhor está demitido.
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segunda-feira, 7 de setembro de 2009
Viatura 2112 - Dupla Dinâmica
Esta é a segunda parte da história. A primeira está no episódio "Cosplay". Você não precisa ler a primeira parte agora. Porém, se prefere começar do começo, clique aqui.
- Cansei de pesquisar! – exclama o Soldado Rubis (SR).
- É tudo muito parecido! – exclama, por sua vez, o Cabo Valdimir (CV).
Ambos interrompem o silêncio da lan house onde, há mais de duas horas, pesquisam e assistem vídeos sobre Cosplay no Youtube. Olham-se e sorriem, e conversam baixinho.
- Tem uns garotos muito bem montados, nos mínimos detalhes...
- E também tem muita coisa tosca...
- Mas tudo é feito com muito carinho. Eles estudam os personagens, ensaiam, aprendem a cantar, a dançar.
- Tens razão... Mas são todos jovens..., adolescentes, meninos e meninas. Não é o público que a vítima freqüentava.
- Talvez estejamos pesquisando errado.
- Vamos procurar algo além de “Cosplay”. Com certeza existe algum evento com personagens mais antigos, que não seja só um baile a fantasia, mas tenha representação, como a que os garotos e garotas fazem nos vídeos que assistimos.
- De volta ao Google!
Encontram um evento interessante: em uma boate do centro, uma competição que vai premiar três categorias distintas. A primeira, “Personagens Mitológicos”, a segunda, “Heróis dos Quadrinhos”, e a terceira, “Biquíni de Metal da Princesa Leia”.
- É na sexta-feira! Temos só dois dias!
- Precisamos escolher nossos personagens!
- Qual será o seu CV?
- Um que combine com o teu, SR!
Madrugada de sexta para sábado, CV e SR participam da competição. Inscreveram-se na categoria “Heróis dos Quadrinhos”. SR não está satisfeito.
- Eu não queria ser o Robin!
- Tu não podias ser o Batman.
- E por que não?
- Por que o Batman é mais alto, Menino Prodígio.
Estão em uma parte do salão reservada aos competidores. Junto com eles, vários Homens-Aranha, várias Mulheres Maravilha, dois Mr. Magoos, uma tribo de índios mal caracterizados conversando com alguns cowboys sem graça, seis Irmãos Metralha grandões e carecas, um Super-Homem barrigudo, uma Elektra de coxas grossas e seios quase à mostra, que atrai a atenção de alguns personagens de quadrinhos japoneses.
Na categoria seres mitológicos, um grupo de sacis fuma cachimbos que emanam uma fumaça estranha, uma loira alta com um vestido justíssimo, imitando um rabo de sereia, um Cavaleiro Medieval e um Dragão, ambos segurando copos de uísque , e um grupo de Orcs feios e sujos.
- Orcs não são seres mitológicos SR!
- Não mesmo CV. Não ligue; o que importa é a festa!
- Gostaste da apresentação dos Biquines da Princesa Leia?
- Duas ou três mulheres realmente lindas, o resto...
- Tu és sempre cruel!
- Estou errado?
CV coloca a mão no ombro de SR e direciona seu parceiro para um ponto específico do espaço que ocupam.
- Tu vejas ali..., aquele Teseu...
- Que guerreiro grego..., perfeito..., só de sainha...; o grandão segurando a cabeça de touro é o Minotauro, e a loirinha vestida como uma vestal é Ariadne.
- Estão muito bem caracterizados...
- Muito...
O volume da música abaixa, e o Mestre de Cerimônias convoca os competidores da categoria “Seres Mitológicos”.
CV e SR aguardam as apresentações dançando e se divertindo. Só tomam água e refrigerantes, pois estão lá a serviço. Entraram no mundo do Cosplay acreditando encontrar a pista para desvendar o assassinato do corcunda.
A apresentação dos sacis é engraçada. Nenhum deles pára em pé e não conseguem fazer a coreografia. Caem no chão e rolam uns sobre os outros, morrendo de rir. Todos riem com eles e aplaudem quando saem do palco.
A sereia entra a seguir, carregando dois cavalos-marinhos de isopor, e com eles faz um improvável diálogo. Ela tem dificuldade para andar, e caminha em passinhos curtos até a beira do palco. De repente, um movimento mais brusco e seu vestido descostura completamente, mostrando que a sereia estava sem calcinhas, e que era um homem.
Ele deixa o palco rápido e desajeitado. Um dos cavalos-marinhos cai no chão, ele hesita, mas se abaixa e o pega, recebendo mais vaias da platéia.
Uma música do Rick Wakeman anuncia a entrada do Dragão e do Cavaleiro Medieval. Assumem posições de batalha. O Cavaleiro Medieval sai correndo do palco e deixa o Dragão sozinho. Ninguém entende nada. O Dragão fica alguns segundos indeciso, depois sai do palco também.
Os Orcs fazem sucesso com uma dancinha para “Groove is in the Heart”, que todo mundo aprende facilmente e dança igual. Depois que saem, sob aplausos, algumas pessoas colocam grandes almofadas escuras no palco, de formatos irregulares, parecendo rochas.
É anunciado um intervalo antes do último número da categoria começar.
"Teseu contra o Minotauro" começa com todo o lugar no escuro. Gelo seco e uma luz esbranquiçada enchem o palco de névoa, criando com as almofadas a ilusão de paredes e pedras. A música, espacial, pontuada de quase inaudíveis ecos, dá a sensação da caverna, e a repetição de algumas notas, abaixando de volume até desaparecerem, colocam a mente no escuro e claustrofóbico labirinto de Creta.
O silêncio é quase total. Ouvem-se apenas murmúrios e barulhos de copos.
Um facho de luz ilumina o imenso touro de chifres curtos e pontiagudos que surge. Tem olhos arregalados do tamanho de ovos cozidos, narinas dilatadas, e anda sobre as patas de trás. Algumas pessoas próximas ao palco gritam de susto.
Carrega nas patas da frente Ariadne, nua, e a coloca sobre uma pedra fria, onde ela desfalece, com os braços caídos de lado, realçando seus seios pequenos e firmes.
Um suspiro de assombro sobe para o ar em uníssono, e ecoa por toda a platéia.
A besta caminha exibindo seu falo duro, enorme, feio e vermelho. Gesticula e incentiva a plebe a decidir o quê será feito com a oferenda. Arrancar-lhe a pele? Devorar-lhe a carne?
Dentre as várias sugestões, a fera escolhe uma das mais votadas. Ajoelha-se colocando a cabeça na altura do púbis da ninfeta, repousa as coxas macias dela sobre seus ombros largos e peludos, estica a imensa língua e a enfia na fruta cor de rosa, para extrair o suco e preparar a semente.
Ariadne suspira e se contorce. Segura um chifre em cada mão com firmeza, doma o monstro e o comanda, movendo a imensa cabeça do jeito que lhe dá mais prazer. A música espacial quase desaparece, e os gemidos fazem eco no silêncio sepulcral que impera.
O Minotauro levanta-se com os tornozelos de Ariadne em seus ombros; segura-a pela bacia e posiciona sua desproporcional masculinidade no lugar exato da fêmea humana virgem e indefesa, que espera, pronta para o sacrifício.
Uma luz estroboscópica acende, tornando os movimentos fragmentados, e Teseu, surgindo das profundezas como um espectro do mundo dos mortos, ergue sua espada sobre a cabeça e a enfia nas costas do Minotauro, antes que se consumasse a defloração.
A fera lança um braço para trás e atinge Teseu, derrubando-o. Vira-se para atacar, mas não suporta a dor. Tenta retirar a espada e não consegue, pois tem patas no lugar das mãos.
Agoniza, dobra os joelhos, urra seu último e desesperado som, e desaba no centro do palco. Teseu coloca um pé sobre a criatura, retira um punhal da cintura e, esticando o braço, leva-o até Ariadne, que beija a ponta da lâmina, prenunciando a recompensa que dará ao seu salvador.
As pessoas que assistem comunham sentimentos de assombro e tesão, e têm os olhos arregalados pela expectativa.
O herói grego ajoelha-se e, com o movimento preciso de um Toureiro, crava a arma branca na jugular da fera, fazendo o sangue esguichar, molhando as pessoas mais próximas.
A platéia vem abaixo. Gritos, urras, assovios; um “já ganhou” cada vez mais forte culmina em um aplauso caloroso, saudando os competidores que deixam o palco, satisfeitos com o show.
SR está maravilhado!
- Nossa CV, lindo! Lindo! Lindo!
CV e a pulga que habita atrás da sua orelha, apertada sob a máscara de Homem Morcego, estão desconfiados.
- Foi muito proveitoso estar aqui SR, muito proveitoso...
SR vê a expressão “Sherlock Holmes” no rosto de CV mas, antes que possa dizer algo, o apresentador chama os primeiros participantes da categoria “Heróis de Quadrinhos”.
“- Com vocês, Valdimir e Rubis apresentando Batman & Robin!”.
- Caraca! E agora? Não ensaiamos nada!
- Tu só te preocupaste em ficar bem nas roupas..., por isso, esquecemos dessa parte.
- Vamos lá assim mesmo!
- Vamos!
A música do seriado dos Anos 60 toca no máximo volume. Entram no palco juntos, segurando suas capas. A pose, o porte físico e a exatidão dos trajes dão credibilidade aos personagens. Após os aplausos, silêncio. Os dois tiras vestidos de super-heróis aguardam que o espírito de Bob Kane lhes envie do além a inspiração.
CV encara a platéia e percebe os Irmãos Metralha circulando tranquilamente entre as pessoas, batendo carteiras e relógios. Aponta para eles e diz, em alto e bom som:
- Os Irmãos Metralha estão atacando Robin! Vamos pegá-los!
Os brutamontes fantasiados de Irmãos Metralha, surpresos, olham-se e decidem enfrentar seus acusadores. CV e SR saltam no meio das pessoas, e todos pensam que faz parte do show ver a dupla destemida cercada por seis malfeitores. Abrem uma roda deixando dentro dela os heróis e os bandidos que avançam sobre eles.
- Santa Porrada Batman!
- Finalmente uma luta justa, Menino Prodígio!
A pancadaria começa:
Shuto Gamem Uchi: “Plau!”.
Mae Keage Geri: “Urcc!”.
Mawashi Geri: “Swaap!”.
Hiji Uchi: “Eeeyon!”.
Uraken Shomem Uchi: “Ouch!”.
Shuto Sakotsu Uchikomi: “Kaapon!”.
Um a um, os facínoras mais temidos de Patópolis caem nocauteados pelos golpes de karatê da dupla dinâmica de Gotham City. O sucesso da apresentação é total!
Seis horas da manhã do sábado. O escrivão de plantão na Central acaba de pegar um café e voltar para sua mesa de trabalho. De lá observa o longo corredor que dá para a porta do prédio. Toma um susto ao ver entrar por ela uma fila de grandões algemados, vestidos de Irmãos Metralha, com as caras nitidamente amassadas. Atrás deles, Batman e Robin.
CV e SR apresentam-se, sem se dar conta de que não tiraram as máscaras.
- Cabo Valdimir.
- Soldado Rubis.
O escrivão já viu muitas coisas na madrugada, e tem frases prontas para determinadas situações:
- Vocês só podem estar brincando!
Continua...
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domingo, 30 de agosto de 2009
Big Brother 2099
Meu nome é Capitão Ócio. Minha missão é contar histórias com moral, para lembrar e refletir. Também conto piadas e faço palestras. Contate minha secretária.
Nossa história de hoje projeta como será, no futuro, o programa que foi um dos últimos fenômenos da TV mundial.
Vamos à ela.
Gabriel calçou as botas feitas sob medida. Ficou em pé, aprumou-se.
- Perfeitas!
Os calcanhares na altura certa. Palmilhas macias e firmes. Pés bem apoiados. Tornozelos protegidos. Segurança no andar.
Um filete de prata realça o bico fino, contrastando com o couro negro e fosco como uma estrela cadente riscando o céu da pradaria em uma noite escura, sem luar.
Colocou o cinto. Na fivela uma cena de filme: Johw Wayne de costas para a porta, sob o sol.
Camisa de algodão cru, rústica. Colete de couro marrom escuro, com franjas discretas.
Ajeitou o chapéu preto que viu em “A face oculta”; semicerrou os olhos, juntou e projetou para frente os lábios.
- Sou o próprio Marlon Brando.
Não podia ouvir o barulho da platéia em delírio, satisfeita com o gran-finale da sua preparação.
Moisés não se adaptara ao tecido do uniforme da Federação. Sentia coceira no lado de dentro das coxas, dos joelhos até a virilha.
- Droga!
Despiu a roupa e deitou-se, nu. Uma sorridente jovem com insígnia da Starfleet Academy passou pomada em todo ele, sem, porém, tirar-lhe a concentração.
- O que acha de nos conhecermos melhor? – ela sussurrou em seu ouvido.
Ele não respondeu. De olhos fechados, continuou a respirar calmamente. Vinte minutos depois, levantou-se.
O uniforme é bastante prático. Veste completamente do pescoço aos pés, não necessita de roupa de baixo, e se ajusta ao corpo como uma pele.
Os músculos do abdômen, as coxas grossas bem delineadas e o que existe entre elas eram as partes dele mais votadas pela audiência, que, lá fora, suspirava.
De frente para o espelho, era quem imaginava ser: a mistura da lógica do Oficial de Ciências com a canastrice do Capitão.
- James..., Leonard James Uhura.
Vinte e duas horas em ponto. A transmissão viaja pelo éter e pelos cabos, chegando às casas, apartamentos, barracos, palafitas; chamando a atenção de todos, do extremo sul ao Monte Roraima.
Gabriel e Moisés são deixados por seus assessores, cada um atrás de uma porta, nos extremos opostos de um grande palco ovalado. Primeiro sinal sonoro..., segundo..., terceiro: as portas se abrem. A imagem na tela se divide em partes iguais.
Gabriel sorri e acena para a platéia.
“Gabriel! Gabriel! Gabriel!”
Duas dançarinas de Cancan o pegam pelos braços. Uma banda de bluegrass começa a tocar, vários casais aparecem e o palco vira um Saloon do Velho Oeste, com todos dançando e batendo palmas no ritmo do banjo. Ao final da música, aplausos e euforia.
“Gabriel! Gabriel! Gabriel!”
Moisés entra solene, coluna reta, semblante tranqüilo. Na platéia, representantes de todas as raças da Federação. Andorianos, Xyrillians, Bolians...
“Moisés! Moisés! Moisés!”
Sobe em um pequeno tablado no centro do palco e, durante alguns momentos, ouve serenamente as ovações. Depois, pede silêncio.
- Computador: Cerveja Romulana!
Uma taça de vidro azul se materializa em sua mão, exalando uma nuvem de fumaça verde. Com ela, saúda a audiência, e, a seguir, brinda pela sua vitória.
“Moisés! Moisés! Moisés!”
A voz do apresentador assume o comando.
- Quem sobreviverá ao desafio final?
- Gabriel, o Cowboy?
“Gabriel! Gabriel! Gabriel!”
- Moisés, o Oficial da Federação dos Planetas Unidos?
“Moisés! Moisés! Moisés!”
- Quem será o vencedor do Big Brother 2099?
“Gabriel! Gabriel!”
“Moisés! Moisés!”
“Gabriel!”
“Moisés!”
“Moisés!”
“Gabriel!”
- Vocês sabem quais foram as armas que eles escolheram?
- Gabriel escolheu um Smith & Wesson calibre 44 de 1878!
“Gabriel! Gabriel! Gabriel!”
- Moisés, um Type II Hang Phaser!
“Moisés! Moisés! Moisés!”
- Antes de iniciar a disputa final do programa, vamos explicar como os fãs da maior atração da R@e@de podem ajudar um competidor a vencer.
- Aperte o botão "X" se torce por Gabriel, o Cowboy, ou o botão "Y", se prefere Moisés, o Capitão da Federação.
“Gabriel! Gabriel!”. “X!” “X!”.
“Moisés! Moisés!”. “Y!” “Y!”.
“Moisés! Moisés!”. “Y!” “Y!”.
“Gabriel! Gabriel!” . “X!” “X!”.
- Vamos ouvir nossos competidores!
- Primeiro, Gabriel, o Cowboy!
“Gabriel! Gabriel!”
- Estou muito feliz por estar na final. Sei que, na minha última disputa, semana passada, o público preferia a Mireya. Independente de ela ter optado por ser a "Princesa Guerreira Nua", o que garantiu o apoio de grande parte da audiência masculina, reconheço que era a mais bonita e simpática das participantes. Mas, não foi páreo para meu sabre de luz. Prometo que doarei uma parte do prêmio para a família dela.
Retira de um estojo de madeira o belo revólver. Coloca o dedo indicador no aro do gatilho, gira a arma para trás uma, duas, três vezes, e a coloca no coldre.
Puxa a ponta do chapéu um pouco para baixo, solta os braços. Faz cara de mau.
- Estou pronto!
"Gabriel! Gabriel!”
- Agora, Moisés!
“Moisés! Moisés!”
- Sempre soube que, hoje, um dos dois participantes a estar aqui seria eu. Torci para a Myreia na semifinal. Pensava ser muito interessante enfrentá-la, depois de terminado o relacionamento intenso que tivemos ao longo do programa. Quanto ao meu prêmio, vou gastá-lo.
Segura o phaser na altura da cintura, a um palmo de distância do corpo. Em um descolamento sutil, a arma deixa sua mão e se fixa magneticamente ao seu traje. Assume um ar superior, levemente arrogante.
- Estou pronto!
“Moisés! Moisés!”
- Com seu kit "sensações do Big Brother", você sentirá as emoções e as dores dos competidores, na intensidade em que quiser. Vista-o agora! Mas atenção: não desligue a trava de segurança em hipótese alguma!
O palco se ilumina como se fosse dia, Gabriel e Moisés se vêem frente a frente, distante vinte metros um do outro. Tudo em volta fica na escuridão.
Seus pensamentos são captados e mostrados na tela.
Gabriel: “Esse Moisés é um tolo! Um cara enorme, largo como uma porta, vestindo uniforme claro, é um alvo perfeito...”.
Moisés: “Esse otário levou a sério a história do duelo, e viajou que seria um cowboy. Vamos ver se sua arma de duzentos anos é páreo para meu phaser...”.
Gabriel vê Moisés no meio de uma rua poeirenta, com um armazém de um lado e uma estrebaria do outro. A cor predominante é o amarelo areia.
Moisés vê Gabriel em uma planície avermelhada, com montanhas ao fundo, em um planeta classe “M” ainda não catalogado.
- O Big Brother 2099 vai ter seu vencedor!
“Dez! Nove! Oito! Sete! Seis! Cinco! Quatro! Três! Dois! Um! Zero!”.
Noventa milhões de pessoas começam a participar, apertando botões “Y!” ou “X!”, ou simplesmente pensando neles.
Cada competidor vê, acima da cabeça do seu opositor, sua própria barra de energia começar a crescer.
Na escala de 0 a 100%, ambas as barras sobem rapidamente, praticamente juntas, até a marca de 80%. Já é possível utilizar as armas. Eles aguardam.
A barra de Gabriel estaciona, e a de Moisés chega subitamente a 95%. Reflexo da semifinal, onde a maioria masculina preferia Myreia, a “Princesa Guerreira Nua”, que perdeu a disputa, decapitada pelo sabre de luz de Gabriel, vestido de Mestre Yoda.
Moisés posiciona as pernas, leva o tronco para frente e estica o braço direito. Seu phaser se solta do traje e se encaixa em sua mão, e ele o dispara.
Gabriel sente um bisturi incandescente cortar-lhe a barriga na altura do estômago. Coloca a mão esquerda sobre ele e com a direita saca seu revólver..., mas a dor é intensa; suas pernas cedem e cai de joelhos, curvado sobre si mesmo. O chapéu vai ao chão.
Moisés vê o sangue que escorre do seu oponente e relaxa. Ergue os braços e sorri, sentindo o prazer do algoz ao acompanhar o agonizar da presa.
Gabriel, lentamente, pega seu chapéu com a mão esquerda ensangüentada e, ainda curvado, o coloca em sua cabeça.
A audiência vê que ele ainda respira. Sua barra de energia sobre a cabeça de Moisés volta a crescer. Moisés não percebe, ocupado em posar como vencedor.
Gabriel cai sobre o ombro direito, com o braço esticado e a arma apontada. Antes de morrer, aperta o gatilho.
A bala atinge Moisés na têmpora. A tampa da sua cabeça se projeta para o alto, como uma rolha de champanhe.
No palco iluminado como a luz do dia, dois corpos jazem em poças de sangue.
- Sensacional! Sensacional!
O apresentador grita eufórico. Os índices de audiência batem todos os recordes em todas as mídias. A platéia enlouquecida grita o nome dos competidores.
“Gabriel! Gabriel!”
“Moisés! Moisés!”
“Gabriel!”
“Moisés!”
“Moisés!”
“Gabriel!”
Moral da história
Agora que demos a idéia, no ano que vem será assim.
Marcadores: Aventuras do Capitão Ócio
domingo, 23 de agosto de 2009
Descubra o Dicas Sobre Nada
Qual é a do Dicas?
Escrever ficção para pessoas que gostam de ler.
Como assim ficção?
. Contos curtos com sexo, aventura, romance, humor, etc.
. Seriados, como os da televisão.
. Romance em capítulos.
. Sortidos.
Como o blog se estrutura?
. Foto de apresentação, com o slogan do blog.
. Quadro “Em destaque”, logo abaixo da foto, chamando para as novidades.
. Coluna larga do lado esquerdo, com os posts em ordem cronológica.
. Coluna estreita do lado direito, com:
- Lema do blog: “Ler é Pensar”
- Colunas do blog
Quais são as Colunas do blog?
As aventuras do Capitão Ócio
Contos curtos sobre temas variados e gêneros diversos, todos com apresentação e com a "moral da história". Sugestões:
. Punk Rock Táxi-Mirim
. Devoção de fã
. Um defunto indesejado
. Confissões Sexuais da Mulher Maravilha
. Guinevere
. Seu amigo, seu herói
Fragmentos de um Romance
Romance com dezesseis capítulos já publicados, sobre "o preço do que mais se deseja". A história não é apresentada em ordem cronológica. Cada capítulo tem como nome um clássico do rock'n'roll, por razões que ainda ficarão claras. Comece por qualquer um, ou veja o Guia de leitura, logo abaixo da relação dos capítulos.
Viatura 2112
Dois tiras que são parceiros. Uma dupla de policiais éticos, honestos, destemidos e muito íntimos, empenhados em proteger a comunidade. Leia os capítulos abaixo para “entrar na história”, e depois complete com os que ficaram faltando.
.Combate
.Sete de Setembro
.Ocorrência Zero
.Gênio do Crime
.Presentes
.Cosplay
TI e-ncoxando
Terceira temporada da série que faz gemer sem sentir dor. Encoxador Misterioso, Zé Gerúndio e Profeta Celestino na caça da responsável pelo caos de metodologias e siglas que impera na área de Tecnologia da Informação, a vilã invencível: “A Grande Padronizadora”. Criação coletiva com o “Dicas”, o Documento Tupiniquim, o Enio Vedovello e o Adnor Júnior. Oito capítulos já publicados.
Encoxando na Clínica
Segunda temporada da série que faz gemer sem sentir dor. Em parceria com Enio Vedovello, que escreve o Profeta Celestino, novo arquiinimigo do Encoxador, e seu assecla, o ensebado e mulambento Dante Alighieri. A temporada teve dezessete capítulos, todos eles publicados apenas no “Dicas”. Ela fica melhor se forem lidos em ordem cronológica, pois há mais personagens e a convergência para o desfecho conta com a participação de quase todos eles, com referências a fatos apresentados em capítulos anteriores.
A caça ao Encoxador Misterioso
Primeira temporada da série que faz gemer sem sentir dor.
“O tarado que encoxa as gostosas que dão mole no busão”, ou, “O marginal que ataca no coletivo”, ou “O excêntrico que aborda as mulheres no transporte público”. Depende do programa policial que você assiste.
Em parceria com o blog Documento Tupiniquim, que publica o detetive Zé Gerúndio, que “vai estar investigando” e se tornará arquiinimigo do Encoxador. A primeira temporada, de 12 capítulos, já foi publicada. Comece do primeiro. Leia em seqüência ou escolha aleatoriamente. Os capítulos são publicados alternadamente nos dois blogs.
Álcool Man (a tirinha do “Dicas”)
Um herói que você conhece! Pode até conhecer muito bem.
. Vampiro
. In Love
. Sala de Espelhos
. Perdidos na Selva
Detalhe: não sabemos desenhar!
Arthur CK 9000
Um computador gente como a gente. Contos “Arthur Clarkeanos”, escritos dentro das “Aventuras do Capitão Ócio”.
A nave “Amazon WS-1” indo onde homem nenhum jamais esteve (adoro essa frase).
. Encontro marcado em 2.108
. Um Sinal no Espaço
. À luz da Criação
Batalhas
Conflitos de ontem e sempre, escritos dentro das "Aventuras do Capitão Ócio"
As batalhas de Mills & James
A Batalha de Canas
. Polito, o bonito: Um cara mala em situações normais.
. Diálogos populares comentados: A sabedoria popular sob uma ótica diferente.
. Boatos e Fatos: Se comparar com o que sai na mídia, não notará a diferença.
. Lula: Gozações com nosso brilhante digníssimo signatário.
. Declarações de amor: Para ela saber que é só ela.
. Poemoses: poesia; não é – a – nossa rima.
Editorial
A voz do Boss (tão esperto!).
Também tem fotos?
Claro! Tem gente que não vê se não tiver imagens!
. Skate Boiçucanga: Fotos de skate e praia em combinação harmoniosa.
. Boiçucanga meu amor: Foto da semana.
. Poesia com a luz: Um pequeno portfólio do trabalho fotográfico do autor.
. O autor! O autor!: Um homem tem, no mínimo, uma cara.
Finalizando, alguém lê essa bagaça?
Somos lidos em média 48 horas mensais, em mais de 20 países.
Aproveite sem moderação! E comente, para nos ajudar a melhorar.
Braços!
Toninho Moura
Capitão Ócio
Marcadores: Editorial
domingo, 16 de agosto de 2009
Papagaio de Pirata
Terceira Temporada - Capítulo 4
Oito horas da manhã.
Aspiro a fumaça de óleo diesel que cai sobre a fila de pessoas no ponto de ônibus.
Daqui parte uma das linhas que servem a zona sul, especificamente a região que concentra a maioria das empresas de tecnologia.
São esses ônibus que agora freqüento, depois que fugi da Clínica. É na área de tecnologia que acredito estar a mulher que será o troféu da minha vida, a melhor encoxada da minha carreira. Ainda não sei como chegar até ela. Enquanto isso, ocupo-me com a coleção de tipos urbanos que pegam ônibus aqui.
Nerds com a cara cheia de espinhas falando de um videogame que não tem controle, e é comandado pelos movimentos da mão. Imagino como seria um jogo erótico feito para ele.
Jovens entre vinte e trinta anos enfiados em ternos sóbrios, escuros. A maioria das empresas exige que se vistam assim. Bobagem. Seriam mais felizes em roupas esporte, adequadas ao nosso clima e ao nosso jeito de ser.
Muitas mulheres igualmente jovens, algumas bem vestidas, outras pensando estar bem vestidas, e outras parecidas com os Nerds que mencionei.
Estou fora da fila. Só entro após ficar bem longa. Assim posso observar os traseiros das candidatas à sortuda do dia, aquela que receberá a benção divina.
A minha benção divina. Sou o Encoxador Misterioso, baby. Parodiando um samba conhecido, sou eu que trago a alegria para os corações das brasileiras.
Vamos ver como estamos hoje..., hum..., lá na frente..., ruivinha alta, magra, de traseiro quadrado..., hum..., mais para o meio..., negra de calça colante amarela, blusa amarela também..., hum..., que traseiro..., que perfeição nos contornos..., hum...
Uma loirinha vestida de executiva entra na fila. Entro logo atrás dela. Hum..., que perfume delicioso..., um..., que coisa redondinha..., extremamente bem desenhada..., como agradeço a quem inventou as academias..., e aos pesquisadores de novos tecidos também.
É um bom dia para encoxar uma executiva loirinha de traseiro redondo!
Ela retira um jornal da bolsa e o segura em frente ao rosto. Como sou mais alto, posso ler também.
O quê será que você gosta de ler loirinha? Gosta de ler sobre Política, Esportes ou Comportamento?
Se for sobre Comportamento, não se preocupe. Daqui a alguns minutos você vai descobrir algo que não aparece no jornal. Vai aprender a libertar e curtir o que existe dentro dessa menina mal-comportada que você é.
A fila demora para andar. Fico a ler o jornal, de “papagaio de pirata”. Uma manchete chama minha atenção:
“TI além do LER”
"Nossa repórter Juliana Maçã entrevista o Dr. Gláucio Valério que apresenta uma nova visão sobre a grande fuga de internos da clínica psiquiátrica, ocorrida esta semana, envolvendo vários profissionais de TI. (leia na página 15).".
Será que estão falando sobre a minha fuga?
Como que por encanto, a loirinha abre o jornal na página 15, interessada na entrevista.
Vamos lá querida, vamos ler primeiro e nos conhecer depois. Hum..., interessante..., realmente..., a clínica está cheia de loucos vindos de TI..., hum..., muito interessante....
”É um tipo de comportamento que pode ser classificado como característico das pessoas muito ansiosas, que no caso deles envolve a grande importância de se manter atualizado ..., estabelecidos principalmente pelo que eles mesmos chamam de MITs, que são os Maiores Institutos de Tecnologia..., tendência mundial. Só que cada novo conhecimento torna-se descartável com muita rapidez, ou por serem modismos...”.
Hum..., MIT..., só pode ser lá que encontrarei a Grande Padronizadora. Vou te pegar de jeito mais dia menos dia, baby... Hoje, porém, vou no trivial. Chique, mas trivial.
Só tem um detalhe: Como entrar no MIT?
Capítulo 1 - A Grande Padronizadora
Capítulo 2 - Zé Gerúndio em "Os MITs da vida"
Capítulo 3 - Após a Fuga
Capítulo 4 - Papagaio de Pirata
Segunda Temporada: Encoxando na Clínica
Primeira Temporada: A caça ao Encoxador Misterioso
Marcadores: TI e-ncoxando
Após a Fuga
Terceira Temporada - Capítulo 3
Por Enio Vedovello, COC (Captain Ócio Contributor)
Uma vez fora da clínica, o Profeta e Dante trataram de estabelecer-se para, em seguida, começarem a pensar em como se desincumbir da missão que o Profeta afirmava que lhe fora dada por Renato Cordeiro.
A primeira providência a ser pensada seria encontrar um lugar que servisse de moradia. Para o Profeta, isto seria um sério problema, uma vez que, em suas palavras, “desde que tive minha primeira visão reveladora abandonei o mundo e seus confortos”. Ou seja, passou a viver nas ruas, do que conseguisse obter da caridade alheia.
Quem teve condições de salvar a situação foi Dante:
- Profeta, antes de ser internado eu morava em um pequeno apartamento meu. Acredito que minha mãe o tenha mantido intacto. Pode ser um lugar para ficarmos.
- Não sabia que ainda tinha sua mãe viva, Dante.
- Sim, tenho. Ela está bem velhinha, mas ainda é viva. Mora com meu irmão e quase nunca sai de casa. Vamos até a casa dela, vou ver se consigo que ela me entregue a chave do meu apartamento.
- É uma excelente idéia, meu amigo. Pelo menos você fica abrigado. Eu, de minha parte, continuo renunciando aos confortos materiais.
- Mas Profeta, na clínica o senhor tinha o quarto e dormia na cama todas as noites. E até, argh, tomava banho quase todos os dias.
- Verdade. Isto significa que quebrei faz tempo meu voto de abandono e nem me apercebi disto. Se a bondade de Renato Cordeiro permitiu que ele continuasse a me dirigir a palavra, é sinal de que talvez isto não tenha importado tanto assim para ele. Vamos, então. Aceito a oferta de ficar em sua morada.
E foram à casa do irmão de Dante. Este aguardou até ter certeza de que o irmão havia saído, antes de tentar falar com a mãe.
- Se eu encontro com o meu irmão, é bem provável que ele tente me internar novamente. Mas ele não estando em casa, com a minha mãe é mais fácil de lidar. Ela não vai querer saber do filhinho internado novamente.
De fato, ela recebeu Dante com carinho – embora tenha se assustado um pouco com o aspecto físico deste, e mais ainda com o Profeta.
- Este é o Profeta Celestino, mãe. Um grande amigo que conheci na clínica, e que foi quem me tirou de lá.
- Bem, se é amigo e ajudou o meu Titinho, então é meu amigo, também. Seja bem vindo.
- Titinho?
- E um “apelido de mãe”. Só ela me chama assim.
A visita durou pouco mais de uma hora. Depois de saber que o filho estava bem e informar-se sobre os acontecimentos da clínica (exceto a fuga, que Dante achou prudente não mencionar), a mãe de Dante forneceu-lhes a chave do apartamento. Ao despedir-se, Dante pediu a ela que não mencionasse ao irmão que havia estado em casa.
Dali foram diretamente ao apartamento de Dante. Sua mãe, caprichosa, sempre que podia pedia ao outro filho que a levasse até lá, de modo que encontraram o apartamento limpo e arrumado. Apenas não havia o que comer.
- Temos um sério problema, Profeta. Nada para comer e nenhum dinheiro para comprarmos.
- Não, meu amigo, não temos problema. Confiemos na providência de Renato Cordeiro. Agora que estamos estabelecidos, vou sair e caminhar até o centro da cidade. Ali farei como fazia antes de ser internado, irei pregar a palavra de Renato Cordeiro e, certamente, ele nos abençoará com algumas esmolas.
E assim fez, com Dante o acompanhando. Tendo em sua mente apenas um assunto, a missão que lhe fora designada, o Profeta pregou sobre missões e chamados divinos. O bando de curiosos e desocupados que sempre aparece ao redor de tudo que é diferente nas ruas logo se aproximou. Durante a pregação, Dante discretamente passava uma sacolinha entre a audiência, recebendo donativos. Ao final de algum tempo, surpreso, percebeu que a arrecadação fora maior do que imaginaria.
Ao final da pregação, seguiram satisfeitos para comprar alguma comida. Melhor dizendo, Dante seguia satisfeito. O Profeta permanecia preocupado e pensativo:
“Amado Renato Cordeiro, estou disposto a cumprir a missão que me designaste. Mas por onde posso começar? Não tenho a menor idéia do que fazer...”
Absorto nestes pensamentos, nem se apercebeu de que estava passando diante de uma banca de revistas onde havia uma pilha de publicações recém-recebidas. Menos ainda percebeu que estava em rota de colisão direta com a pilha. Até o momento em que, tropeçando, voou por cima dela, aterrisando de cara no chão. Ao levantar-se, porém, estava exultante:
- Dante, meu amigo! Renato Cordeiro, como sempre, foi tão providencial que me fez literalmente cair em cima da resposta necessária. Preciso de algum dinheiro, agora mesmo.
- Como assim, Profeta? Não estou entendendo-o.
- Veja isto aqui.
Dante aproxima-se e vê, bem em frente ao Profeta, a manchete estampada no jornal:
“TI além do LER”
"Nossa repórter Juliana Maçã entrevista o Dr. Gláucio Valério que apresenta uma nova visão sobre a grande fuga de internos da clínica psiquiátrica, ocorrida esta semana, envolvendo vários profissionais de TI. (leia na página 15)".
Vão direto à página 15, ler a entrevista.
- Profeta, é exatamente isto que acontece. Foi o que aconteceu comigo e com todos os conhecidos que encontrei na clínica.
- Sagrado Renato Cordeiro que nos dá todas as respostas. Então temos um caminho. O grande mal está no MIT, e é para lá que temos de ir, para realizarmos nossa missão. Apenas uma pergunta nos resta: Como entrar no MIT?
Capítulo 1 - A Grande Padronizadora
Capítulo 2 - Zé Gerúndio em "Os MITs da vida"
Capítulo 3 - Após a Fuga
Capítulo 4 - Papagaio de Pirata
Segunda Temporada: Encoxando na Clínica
Primeira Temporada: A caça ao Encoxador Misterioso
Marcadores: TI e-ncoxando
A Grande Padronizadora
Terceira Temporada - Capítulo 1
Por Adnor Júnior, COC (Captain Ócio Contributor)
Já passava das nove horas da manhã quando Celina Iara Ollegari entrou em seu escritório. Seu pessoal já estava pensando que ela tinha se dirigido diretamente para algum dos seus habituais compromissos, mas não. Na realidade, aquela manhã um pouco mais fria, nublada e de garoa fina de maio a prendeu na cama por uma hora a mais.
Celina não tinha o hábito de se permitir esse tipo de luxo. Seus colegas e seus poucos amigos a consideravam metódica e espartana, além de muito inteligente. A maioria de seus colegas a chamavam de “Lina”, que sua bem disfarçada vaidade gostava de pensar que estava diretamente associado a uma referência que as pessoas faziam à sua forma longilínea. Outros, mais íntimos, e por motivos bastante específicos a chamavam de “Cel”, o que a deixava intimamente orgulhosa porque era uma alusão ao verdadeiro “céu” que ela abriu para essas pessoas. Uma minoria de invejosos transformou seu nome em sigla e a chamavam, evidentemente de forma reservada, de “CIO”, a Executiva-Chefe de Tecnologia de Informações. Seu cargo não era este, mas a referência era a admissão da influência que o seu trabalho exercia sobre as pessoas que ocupam cargos de gestão de sistemas de informação e tecnologia da informação, tanto em médias e grandes corporações, quanto em empresas que prestam consultoria ou desenvolvem projetos dessa natureza.
Na verdade a função de Celina era de Chefe de Representação e Relações Públicas dos MITs, Maiores Institutos de Tecnologia dos EUA no Brasil, e sua missão era ajudar a disseminar as novas tendências em TI nas principais empresas e universidades brasileiras, o que envolvia muitos contatos, viagens, reuniões, seminários, palestras, e muito, muito trabalho.
De volta à entrada no escritório, Celina passou pela mesa de sua assistente e pegou os jornais, revistas e correspondências do dia. Este ato sempre a levava a refletir sobre até quando essa papelada continuaria circulando pelo planeta. Fazer o quê? Tanto empresas quanto pessoas demoram em substituir seus velhos hábitos de manuseio e a sensação de segurança proporcionada pela guarda de papéis.
A idéia era folhear rapidamente o material, mas uma chamada de matéria no canto inferior esquerdo da primeira página do jornal chamou a sua atenção, o título era “TI além do LER” e o texto logo abaixo dizia “Nossa repórter Juliana Maçã entrevista o Dr. Gláucio Valério que apresenta uma nova visão sobre a grande fuga de internos da clínica psiquiátrica, ocorrida esta semana, envolvendo vários profissionais de TI. (leia na página 15)”. Aquilo era algo realmente inusitado e inesperado sobre o seu público-alvo, melhor então saber o que está acontecendo. Abriu o jornal na página 15 e leu a entrevista.
Julian Maçã: Dr. Gláucio, o Senhor tomou conhecimento sobre a fuga de internos, ocorrida na última semana, de uma clínica psiquiátrica?
Dr. Gláucio Valério: Li recentemente essa notícia no jornal e isto me causou uma particular preocupação, era sobre a fuga de um grupo de internos de uma clínica psiquiátrica, mas a particularidade que me causou preocupação foi o relato de que boa parte destes internos fugitivos foi identificada como profissionais de TI, ou seja, trabalhavam como analistas, programadores, especialistas em bases de dados, gerentes de projetos, e outras funções da área de Tecnologia da Informação, ou como se dizia antigamente “esse pessoal que trabalha com os computadores”.
J.M.: Mas Doutor, porque esta preocupação em particular, em que aspecto sua atividade esta relacionada aos profissionais de TI?
Dr. G.V.: Na verdade minha preocupação se deve ao fato de que sou médico, especializado em LER (Lesões do Esforço Repetitivo), e durante muito tempo me acostumei a cuidar de profissionais de nível operacional que passavam boa parte de seu dia de trabalho realizando o mesmo tipo de movimento para operar máquinas e equipamentos diversos.
De alguns anos para cá venho observando uma consistente mudança no perfil dos meus pacientes, boa parte deles passou a ser da área de TI. Inicialmente os casos envolviam as lesões de mãos e antebraços, típicas do uso intenso de teclados e mouses, depois começaram a surgir casos de problemas de visão causados pelo tempo excessivo à frente de terminais de luz intensa e dimensões limitadas.
J.M.: Ok Doutor, mas pelo que se pode deduzir estes não os tipos de lesão que levam alguém para uma clínica psiquiátrica ...
Dr. G.V.: Concordo com você, mas, o que me chamou a atenção deste público foi algo além do LER, algo mais comportamental e associado à forma como estes profissionais se comunicam.
J.M.: Entendi, mas que tipo de comportamento o Senhor tem observado nestes profissionais?
Dr. G.V.: É um tipo de comportamento que pode ser classificado como característico das pessoas muito ansiosas, que no caso deles envolve a grande importância de se manter atualizado em relação aos novos padrões das tecnologias e do desenvolvimento dos sistemas de informação para as empresas, estabelecidos principalmente pelo que eles mesmos chamam de MITs, que são os Maiores Institutos de Tecnologia, a maior parte estadunidenses, e disseminados através suas universidades filiadas, tornando-se uma nova tendência mundial. Só que cada novo conhecimento torna-se descartável com muita rapidez, ou por serem modismos, ou por não serem plenamente aceitos, ou por não conseguirem se impor através das grandes corporações.
J.M.: Muito interessante, mas qual é problema relacionado à comunicação?
Dr. G.V.: A comunicação com eles envolve uma série de dificuldades porque costumam se expressar em frases curtas, quase telegráficas, misturando português com termos em inglês e siglas, sendo que os termos em inglês nem sempre correspondem a uma tradução literal e sim ao seu significado entre os profissionais de TI, e as siglas também nem sempre têm um significado claro para quem não trabalha nesta área.
J.M.: Então, quando juntamos este tipo de comportamento com esta forma de comunicação ...
Dr. G.V.: Acredito que estes dois aspectos estão levando estes profissionais a terem problemas de relacionamento e isolamento em relação a outros grupos de pessoas. Em alguns casos isto pode levar ao desenvolvimento de problemas psicológicos relacionados à auto-estima e em outros à preferência pela convivência apenas com outros profissionais da área, o que reforçaria os padrões de comportamento e comunicação descritos anteriormente.
J.M.: Podemos então concluir que isto também pode ser caracterizado como um tipo de lesão?
Dr. G.V.: Minha opinião médica é que isto tecnicamente mereceria ser tratado como um novo tipo de lesão de esforço repetitivo, que está além dos atuais parâmetros identificados como Lesões de Esforço Repetitivo.
Penso também que é um problema sistêmico (sem trocadilho), ou seja, funciona como um tipo de epidemia causada por um tipo de “vírus” que ataca um tipo específico de “indivíduos” da nossa população. Este vírus são os padrões mutantes e em contínua evolução com os quais estes indivíduos são obrigados a conviver diariamente sob pena de comprometerem a evolução da própria carreira profissional.
J.M.: Bem, gostaríamos de agradecer ao Dr. Gláucio Valério pela exposição desta nova visão sobre a fuga de internos da clínica psiquiátrica. Dr. Gláucio, algum comentário final?
Dr. G.V.: Sim, acredito que já é tempo da nossa sociedade se preocupar com este novo tipo de doença, para evitar que tenhamos nossas clínicas de reabilitação psicológica cada vez mais ocupadas por profissionais de TI.
Celina Iara Ollegari fechou o jornal e disfarçou uma possível preocupação.
Capítulo 1 - A Grande Padronizadora
Capítulo 2 - Zé Gerúndio em "Os MITs da vida"
Capítulo 3 - Após a Fuga
Capítulo 4 - Papagaio de Pirata
Segunda Temporada: Encoxando na Clínica
Primeira Temporada: A caça ao Encoxador Misterioso
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domingo, 9 de agosto de 2009
Três pedidos para um Gênio
Meu nome é Capitão Ócio. Minha missão é contar histórias com moral, para lembrar e refletir. Sei que você já sabe disso, mas, paciência. Todo super-herói tem uma chamada. Pelo menos não uso um uniforme ridículo.
Nossa história de hoje trata dos desejos que todos sonham em um dia fazer para um Gênio.
Vamos a ela!
Minha história pode parecer manjada, dado o seu enredo. Ela tem dois personagens: Eu, e um Gênio.
Gênio!
Desses que aparecem numa nuvem de fumaça e concedem três desejos.
Não! Esse não saiu da garrafa... Acredite..., não é piada..., foi real!
Aconteceu comigo, hoje de manhã.
Confesso que tive medo de estar lunático, e até uma hora atrás me questionava se aquilo de fato ocorreu.
Quando você chegou, vindo de tão longe, enfrentando esse trânsito..., fiquei surpreso..., muito surpreso.
Aí me dei conta que tudo havia sido real, e fiquei feliz por ter feito três pedidos perfeitos.
Faltavam dois minutos para as nove horas quando entrei no prédio. Cumprimentei os porteiros e fui direto pegar o elevador.
Depois de alguns instantes esperando, notei que não havia ninguém no hall além de mim, o que é estranho para o horário.
O primeiro elevador a abrir a porta veio do estacionamento do subsolo, e estava vazio. Isso me intrigou ainda mais.
Hesitei. A porta do elevador continuou aberta.
Pensei se não seria feriado, ou final de semana. Talvez alguém importante tivesse morrido, era luto oficial e só eu não sabia.
Estiquei o olhar para lá fora e vi pessoas e motocicletas, distorcidas pelas paredes de vidro, e conclui que era um dia útil. Portanto, estava tudo perfeitamente normal, e eu vivia um momento interessante, de uma enorme coincidência, que adoraria depois, desvendar.
Entrei no amplo elevador, apertei o botão do décimo. Coloquei a cabeça para fora para ver se alguém viria correndo, dizendo “Sobe! Sobe!”, mas ninguém apareceu.
Um dos porteiros me observava. Talvez estivesse me comportando de forma estranha. Ou talvez ele estivesse achando estranho também..., ou soubesse de algo que eu não sabia.
Ao sinal sonoro, dei um passo para trás e as portas se fecharam. Virei para o espelho, para conferir a aparência, e ver novamente a minha cara.
Imaginei o que faria se tivesse aquele prédio totalmente vazio, só para mim.
O elevador chegou rapidamente ao terceiro andar, parou, e a campainha fez “plim!”. Recompus-me para receber a pessoa que entraria. A porta não abriu.
Depois de alguns segundos, fiquei impaciente. Apertei novamente o botão do décimo, depois o botão de abrir a porta, depois o de fechar, o botão do quarto andar..., mas nada aconteceu.
Abri uma portinhola e peguei o telefone para falar com a portaria. Antes de tirá-lo do gancho, a luz apagou.
Nem tive tempo de ficar assustado. Um aroma diferente encheu o ar, irritou minhas narinas e me fez respirar fundo, enchendo meus pulmões com ele.
Uma onda de relaxamento subiu das unhas dos pés ao topo da cabeça. Meu rosto se abriu em um sorriso.
Uma seqüência de imagens sobrepostas de Hair e Woodstock passou diante dos meus olhos.
A luz acendeu, me ofuscou e por alguns instantes só vi uma parede branca. Depois, gradativamente, a imagem dele em pé, de frente para mim, foi se formando.
Vestia uma roupa colorida e um chapéu esquisito.
A calça era de seda azul brilhante, toda..., como posso dizer..., bufante. Tinha umas estrelinhas prateadas bordadas por toda ela. Não usava camisa. Apenas um colete amarelo ouro, repleto de penduricalhos reluzentes. Usava colares, anéis de metal com e sem pedras, e pulseiras douradas. Em um dos colares havia um imenso pingente: um morango esculpido em rubi.
O chapéu parecia um copo de papel pintado de vermelho e decorado com miçangas, com dois broches espetados: um sol dourado e uma lua minguante branco fosco. Não vi os sapatos devido à fumaça que se acumulava no chão.
Era quase da minha altura, gordo, com a barriga peluda sugerindo que não conseguia abotoar o colete. Talvez por causa do aroma que tomava conta do elevador, achei aquele visual de desenho animado muito natural. Quem sabe, talvez, todos os gênios se vistam mais ou menos assim.
Achei educado falar primeiro, disse bom dia e me apresentei.
Com voz grossa e forte sotaque árabe, combinação sonora muito agradável, ele disse bom dia, e se apresentou: era um Gênio.
Parecia pouco à vontade. Talvez se incomodasse por sempre se apresentar às pessoas dizendo o óbvio.
Sorri para quebrar o gelo. Perguntei pela sua garrafa.
Acho que minha pergunta foi óbvia também, pois ele não mudou o semblante.
Argumentei que a situação era totalmente inusitada. Se soubesse que iria conhecer um Gênio, normalmente esperaria que ele saísse de uma garrafa, de uma lamparina ou de algo semelhante.
Explicou que existem gênios de vários tipos. Gênios de garrafa, de caixas de fósforo, de peruas Kombi azuis e brancas, de elevador, de montanha russa...
O Gênio que me aparecera era um Gênio de Elevador.
Os Gênios de Elevador são uma classe nobre, que precisa de espaço, e gosta de se sociabilizar, conviver com pessoas, ouvir suas histórias, seus segredos, e observar suas expressões quando se olham no espelho.
Ia fazer mais uma pergunta, mas, com um gesto, ele me interrompeu, e sugeriu que eu ficasse calado.
Não estava bem humorado. Talvez não tivesse poder para decidir para quem aparecer, e adorasse começar o expediente surpreendendo uma pessoa mais bonita, como, por exemplo, uma mocinha magra, alta, morena, olhos negros, de sapatos de salto, vestido sério com decote exuberante, cabelos presos e óculos quadrados de aro preto.
Não é preciso ser Gênio para pensar assim. Fiquei calado e aguardei ele continuar.
Disse-me que eu tinha direito a três desejos, que teriam que ser feitos antes que o elevador, que voltava a se mover, chegasse ao décimo andar.
Quando me dei conta do que deveria fazer o elevador já estava no quinto.
Uma aflição..., senti falta de ar..., o quê pedir..., o quê eu queria? Ficar rico? Morrer com mais de 200 anos, com saúde e ereção? Sem envelhecimento, é claro...
O quê pedir..., pedir para mim..., pedir para outros..., respirei fundo.
O led vermelho sobre a porta indicou o sétimo andar.
Na minha mente, letra a letra, uma frase foi rapidamente se formando “P E Ç A A Q U I L O Q U E V O C Ê N U N C A T E R Á !”. Esse conselho só aumentou exponencialmente as opções.
Então, repentinamente, arregalei os olhos, e identifiquei, dentre todas as coisas que nunca teria, uma que me faria muito, muito feliz.
Pigarreei para limpar a garganta, e fiz meus três pedidos. O elevador chegou ao décimo andar.
A luz apagou, e depois de algum tempo, acendeu. O Gênio fora embora, e levara aquele aroma maravilhoso com ele.
Entrei no escritório. Sentei na minha mesa às nove horas e sete minutos. Coloquei a carteira e o celular na primeira gaveta, peguei uma pasta e olhei os papéis.
Entendi que não conseguiria trabalhar. Como explicaria aquela alucinação? Achei que poderia estar insano...
Destravei o encosto da cadeira, coloquei as mãos entrelaçadas atrás da cabeça e me soltei para trás. Tirei os sapatos e coloquei as pernas sobre a mesa. Fiquei assim de bobeira, pensando em um monte de coisas, por umas três horas, até que a campainha tocou.
Quando olhei pelo olho mágico e vi que era você..., bem..., já falei sobre isso.
O momento de escolher meus três desejos foi e será, sem dúvida, o mais intenso da minha vida.
Assim que fiz meus pedidos para o Gênio, uma satisfação imensa, um orgasmo diferente..., astral, extra-sensorial, dominou o meu corpo; minha mente viajou e, durante os segundos que se passaram, eu, Carlos Castaneda e Don Juan tomamos chá e comemos biscoitos, fumamos cachimbo, conversamos e filosofamos.
Eles disseram que a razão de existir é simples, clara, senão óbvia..., e que só nossos desejos nos definem.
Vou contar os meus.
O primeiro: você estar aqui, ajoelhada, com o batom todo borrado..., linda,
fazendo carinha de menina comportada, envergonhada por que se lambuzou.
O segundo, que o prédio estivesse vazio. Só com os porteiros no térreo, para te receber.
Deixa eu tirar seus óculos..., você não está enxergando nada com eles...
Agora..., ajoelhe ali, no sofá, de costas para mim, para eu te mostrar o terceiro desejo que fiz.
Moral da história
Genial, não foi?
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domingo, 2 de agosto de 2009
O Mito do Padrão
Antes que TI e-ncoxando, a terceira temporada da série que faz gemer sem sentir dor estréie, você precisa saber o quê é que está encostando.
Leia e sinta-se encaixado no contexto.
O Mito do Padrão
por Enio Vedovello (Captain Ócio Contributor)
A área de Tecnologia da Informação apresenta uma situação um tanto paradoxal: enquanto o hardware caminha no sentido de uma padronização cada vez maior, o software parece seguir em situação contrária.
O hardware já foi menos padronizado. Muito menos. Atendo-nos aos computadores pessoais, como exemplo, dá para citar a confusão que havia antes do surgimento do Padrão IBM-PC, quando mesmo equipamentos da mesma família eram incompatíveis entre si, dificultando o intercâmbio de componentes. A IBM teve a grande idéia de lançar um padrão aberto, que se tornasse referência. Deu tão certo que mesmo a tecnologia que tentaram lançar em seguida, do OS-2, não decolou como o desejado. Tudo bem, sei que existe o Mac. Sei que hoje em dia pena na Santa Ifigênia quem tenta comprar um disco EISA, ou um pente de memória para uma máquina um pouco mais antiga. Mas ainda é mais fácil de conseguir do que foi no passado. E o padrão USB, a meu ver, veio para ficar. E facilitar.
Já com o software, ocorreu o inverso. Não é difícil olharmos para o passado e reconhecermos umas poucas linguagens de programação, cada uma buscando um nicho específico de aplicações. Não havia a popularização do uso de computadores, então não havia softwares de uso pessoal. Hoje, existe uma variedade cada vez maior de linguagens, aplicativos, softwares de gerenciamento...
Novas metodologias surgem da noite para o dia. Um profissional que hoje está aparentemente atualizado, amanhã já tem de correr atrás do prejuízo, pois se tornou obsoleto rapidamente. E não estou falando apenas de analistas e programadores, mas de toda a cadeia. A começar do diretor.
Nomes de aplicativos, de metodologias e de linguagens se sucedem em uma verdadeira sopa de letrinhas. A maioria siglas. A maioria das siglas, incompreensível para a maioria das pessoas.
Sem falar nos modismos. Um dia é Java. No dia seguinte, tem de ser ActiveX. Dali a uma semana, Java novamente. Estas idas e vindas têm um custo, que não é baixo, e que certamente será repassado a alguém.
Nós, pois tudo que consumimos têm o "custo da informática" computado.
É verdade que alguns produtos conseguem se impor na preferência dos usuários. Mas isto não significa, necessariamente, uma sinalização no sentido de uma padronização.
Mesmo entre estes campeões de preferência, tudo muda de uma versão para outra. E é normal os arquivos e documentos produzidos em uma versão serem totalmente incompatíveis com a versão seguinte.
Para mim faz sentido que uma versão mais antiga não leia arquivos de outra, mais recente. Mas não faz sentido que o inverso aconteça. Muito menos faz sentido que se descontinue o suporte aos arquivos mais antigos. Depois temos uma situação absurda, como a do MS-Office, que é obrigado a ver um de seus concorrentes fazer a conversão de seus arquivos melhor que o próprio criador.
As curvas de aprendizado são constantes. Tudo bem, isto faz sentido, sempre há coisas novas a aprender. Mas não deveriam começar sempre praticamente do zero. Nada facilita a mudança, nada possibilita um maior direito de escolha. É uma situação desgastante. E de alto custo, pois o tempo gasto no aprendizado também é remunerado.
Não sou contra a inclusão digital, acho bom que cada vez mais pessoas tenham acesso à informática. Não sou, em absoluto, contra a concorrência. Sou da opinião que os consumidores só têm a ganhar com a concorrência saudável. Mas sou fortemente a favor de uma padronização. De uma melhor facilidade de intercâmbio. Seria bom, para todos, se tudo fosse mais fácil. Se as diversas opções tivessem mais compatibilidade entre si. Se não houvesse tantos modismos. Mas, infelizmente, a realidade não é esta.
É como se mentes malignas conspirassem para ganhar cada vez mais dinheiro, sem se preocupar em enlouquecer os profissionais.
É para desmascarar os vilões responsáveis por essa situação que TI e-ncoxando vem aí!
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sábado, 25 de julho de 2009
História de Vampiro - 2
Meu nome é Capitão Ócio. Não sou o gerente da sua conta mas vou sugar seu sangue com o desabafo de um amigo muito chegado, em mais uma história com moral, para lembrar e refletir. Vamos a ela.
Você também pensa que ser Vampiro é bom?
Pois você está errado(a)!
E todos que pensam assim também!
Ser Vampiro já foi bom.
Do quê um Vampiro mais gosta?
Adolescentes virgens!
E você encontra adolescentes virgens?
Hoje é praticamente impossível manter uma dieta saudável!
O quê você acha que circula no sangue das meninas que freqüentam os lugares que freqüento?
Vitaminas?
Álcool, cocaína, maconha, LSD, extasy, nicotina, calmantes, estimulantes, inibidores de apetite...
Pelo menos três desses ingredientes misturados.
E o sangue continua nutritivo como antigamente?
Não!
Está cheio de gorduras, colesterol, sal, açúcares diversos, conservantes, acidulantes, hormônios...
Imagine o meu fígado como fica!
E a dor de cabeça que dá!
Moral da história
Antigamente, sangue não causava ressaca.
Veja "História de Vampiro - 1"
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sexta-feira, 24 de julho de 2009
História de Vampiro - 1
Esses pêlos macios?
Para te esquentar!
Esses braços fortes?
Para te abraçar!
Essas mãos grandes?
Para te tocar.
Esses dedos longos?
Para te apertar.
Essas unhas compridas?
Para te arranhar.
Essa língua grande?
Para te molhar.
Esses dentes caninos afiados?
Para te chupar!
Ai!
Ai...
Veja "História de Vampiro - 2"
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domingo, 19 de julho de 2009
Quem tem coragem de pular da ponte?
Meu nome é Capitão Ócio! Minha missão é contar histórias com moral, para lembrar e refletir. Hoje nossa história nos leva de volta aos verdes anos de nossa vida, quando tudo era novo, e tínhamos tempo para descobrir o mundo.
Vamos a ela!
Quico me provocou durante toda a semana, na escola, na piscina, no futebol, no meio da molecada!
Antes do jogo de vôlei, olhei para as montanhas no horizonte, e resolvi aceitar o desafio. Passei por baixo da rede e entrei no lado adversário. Parei em frente a ele e falei:
- Vou pular com você!
- Eu sabia que você não ia mijá prá trás! – ele arregalou os olhos verdes e mostrou satisfação.
Em seguida, fui sincero, e disse o que estava sentindo.
- Mas..., porra cara..., não sei se consigo sair de lá...
- Nada rapaz! – sua boca imensa mostra seus dentes meio tortos.
- Que nada! É só você pular bem no centro, com os braços abertos para não afundar muito. Caiu n’água, já começa a remar para sair do meio dele e entrar na correnteza que puxa para a esquerda. Aí você rema para cima com força, tira a cabeça d’água e enche o pulmão de ar.
Ele era um dos poucos que não tinha medo de pular da ponte, no meio do redemoinho. Outro da estirpe dele era o Branco, que saiu da sua posição na quadra e juntou-se a nós.
- A água está fria prá caralho! Outono... – é um detalhe que me incomoda, mas o que ele diz em seguida me tranqüiliza.
- Você sai prá fora d’agua nadando, e eu te agarro na ponta da pedra, bem na curva.
Branco já me acudira anos antes, quando uma cãibra traiçoeira me pegou na travessia de retorno, bem no meio de uma represa. Ele estava na frente do grupo de uns dez moleques; me ouviu chamando e voltou mais de cinqüenta metros.
- Cãibra cara?
- É!
- Segura no meu ombro..., estica bem a perna e estica os dedos do pé prá cima...
- Dói prá caralho!
- Faz aí!
Ficou comigo por longos dez minutos, ajudando-me a boiar, até a câimbra passar e eu ter condições de nadar.
- Vamo pará com essa conversinha aí, as meninas?
- Uhhhhhhhhhhh!
O resto da classe goza com a nossa cara aproveitando a bronca que tomamos do Prof. de Educação Física.
- Amanhã, oito horas, na frente da Prefeitura?
- Fechado!
Quando tinha doze anos, o melhor dia da semana era o sábado, a melhor parte do dia era a manhã, e a melhor manhã era aquela quando eu saía com meus camaradas, de bicicleta.
Dobramos a esquerda na esquina do Banco do Brasil, entrando na Rua do Meio. O primeiro trecho era o mais movimentado, por causa do mercado, do açougue, da farmácia e de uma loja de sapatos. Não dava para correr.
Ali era quase o ponto mais alto da cidade. Mais acima ficava a Praça da Matriz. O sino do relógio da torre da igreja, marcando nove horas, podia ser ouvido na cidade inteira.
Logo depois começava a descida. No lado esquerdo existiam belos prédios comerciais de fachada alta, construídos no começo do século passado, que eram a beleza da rua.
Duas meninas da escola nos viram e acenaram. Cidinha, a morena, e Margarida, a loirinha. Passavam em frente à porta da loja de tecidos dos turcos, incomodando as pessoas com o barulho dos seus bate-begues. Na platibanda do prédio, duas pombas esculpidas em pedra testemunhavam as coisas daquele tempo.
A descida se tornava mais íngreme, aumentando nossa velocidade. Depois de cem metros “no pau”, a rua terminava e o terreno ficava plano. Passamos rápido entre a oficina do técnico eletrônico e o bebedouro dos cavalos, entrando na avenida que levava para fora da cidade. Na direita dela, o longo muro do campo de futebol do time local, que nunca subia de divisão.
Paramos cinco minutos depois, na Capela de Santa Edwiges.
- Quem quiser rezar, aproveita agora! – Quico estava no comando.
Rimos! Éramos cristãos, íamos à missa do domingo à tarde. Ficamos em silêncio e rezamos por alguns minutos, pedindo proteção para nós e para nossas bicicletas, para que voltássemos para casa cansados, arranhados, doloridos e inteiros.
A capela, pequena, simples, de linhas harmoniosas e elegantes, estava recém-pintada de amarelo, e destacava-se como uma pepita de ouro sobre um pedaço de veludo azul. Imaginei um dia fazer aquela fotografia.
- Vãobóra!
Deixamos a Santa da Capela zelando pelo nosso destino e cruzamos o pontilhão sobre a Raposo Tavares, a caminho da nossa aventura.
A estrada para a ponte pênsil era um traço reto de asfalto riscando a terra roxa.
Pedalamos sem pressa, conversando sobre o uso do vidro de relógio de bolso no futebol de botão, sobre as pernas grossas da professora de geografia, sobre o Passat..., sobre a Copa da Alemanha, que já ia começar.
Uma caminhonete passou por nós; alguém apareceu na janela do passageiro e gritou: - Aí Quicão!
- Olha o cara!
- Fazer o quê? Sou famoso!
Quatro quilômetros depois e estamos no início da descida para o vale. De lá até a margem do rio eram seis quilômetros, divididos em três descidas: a primeira, mais suave, a segunda, íngreme e a mais longa, e a terceira, que termina na ponte pênsil, a mais íngreme e também a mais curta.
Do lado direito, distante uns quinhentos metros, no topo de uma elevação aonde se chegava por uma estrada auxiliar, ficava o cemitério. Seus vidros, espelhos, cruzes e azulejos refletiam a luz do sol como uma roupa do Michael Jackson pendurada no varal. Eu gostava da paisagem. Ainda não sabia que lá seria o meu destino quando eu der meu último passeio pela estrada da ponte pênsil.
Lá embaixo, no horizonte, as montanhas da margem oposta do Rio Paranapanema formavam um paredão azulado, de um tom diferente do azul do céu. Mais à esquerda, ainda mais longe, um morro, cortado na transversal como se por uma faca, destoava na cordilheira de linhas suaves e arredondadas.
Não conversamos mais. Começamos a pedalar com força, sem parar, para ficarmos cada vez mais rápidos e entrarmos com tudo na longa e assustadora segunda descida, e deixarmos nossos corpos e nossas bicicletas deslizarem vale abaixo, sugadas pela gravidade.
Soltamos as mãos e fizemos ziguezague. O vento soprava nas orelhas a sensação dos incríveis quarenta quilômetros por hora. Os cabelos voavam soltos. Toda a liberdade do mundo era nossa. Todo o verde, todo o azul, toda luz e todo o ar, também.
Éramos motoqueiros de fantasia, sem lenço ou documento, sem jaquetas de couro, sem as letras “k”,”w” ou “y” em nossos nomes.
Sobre nossas bicicletas, nossas fêmeas magrelas, netas de Zeus, íamos para qualquer lugar. Éramos cavaleiros brancaleones sem espadas e armaduras, armados com a fé do espírito livre e a coragem do coração puro.
A terceira descida era curta e perigosa. Velocidade total por um..., dois minutos! Depois ela acabava. Freamos todos juntos, tatuando três longos riscos de borracha no asfalto quente.
Debruço sobre a amurada da ponte, fico a olhar o rio. O barulho da correnteza é o rugido de uma criatura que nunca dorme. O pio dos pássaros e o assovio do vento nas árvores misturam-se a ele.
- Escutem! É o mantra da natureza!
- O que é mantra?
- Largamão disso..., vamos lá pular!
Olho pelo vão das tábuas a água que passa lá embaixo e sinto uma vertigem passageira, que dá lugar a uma alegria diferente, quase uma euforia, que infla meu peito, acelera meu coração, arrepia meus pêlos e me faz sorrir.
- A gente vai pular lá de cima, ó! – Quico aponta para o topo da primeira coluna de sustentação dos cabos de aço da ponte. No ponto mais alto, elas têm trinta metros de altura.
- Só por que você quer!
- Bundão! – Branco goza com a minha cara.
Nascendo na nossa margem, entrando uns vinte metros no rio, paralelamente à ponte, virando para a direita, e depois margeando o rio por cem metros, havia uma estreita formação rochosa, longa e plana, de pedras escuras, lisas, lavadas pela água doce e cristalina. Forma uma espécie de praia de pedra, com algumas piscinas rasas aqui e ali. Nos dias de rio baixo, fica cheia de pescadores. A comporta da represa da usina hidrelétrica está aberta, e o rio está alto e rápido, belo e perigoso.
Na altura do segundo pilar da ponte, a água, batendo nas formações de pedra do fundo, forma um redemoinho de uns três metros de diâmetro, pesado e lento em seu centro, e veloz nas suas bordas. Saindo dele uma correnteza se torna mais forte na medida em que margeia a praia de pedra para a esquerda, em direção ao meio do rio.
Descemos da ponte para o concreto do pilar. Tiramos tênis e camisetas e ficamos só de calção.
- Ali ó, tá vendo? Você tem que pular no meio do panelão que o redemoinho faz...
- E depois tem que sair dele e já pegar a correnteza. Se não você afunda...
- Senão você afunda..., ele suga você para baixo...
- E não é muito fundo, por isso que a água lá embaixo é mais forte...
- Quanto tem de fundura, uns cinco metros?
- Uns cinco metros...
- Tem que ficar esperto...
- E a água deve tá fria prá caralho!
Branco e Quico falando ao mesmo tempo me tiram a concentração. Não estou com medo, mas não estou tranqüilo. Felizmente, é muito fácil terminar com a falação.
- Quem vai pular primeiro?
Branco nem se dá ao trabalho de responder. Salta do pilar e cai com estilo, de pé, com os braços abertos, bem no centro vagaroso do redemoinho. Menos de três segundos depois emerge fora dele, mais à esquerda, e se deixa levar pela correnteza, quase se esfregando na margem, até se firmar em uma pedra uns dez metros adiante.
- Vai que é você!
Faço o sinal da cruz. Salto de pé com os braços colados ao corpo, olhando para baixo, para o imenso olho d’água que me olha de volta e parece abrir a boca para me engolir.
A água gelada desperta meus sentidos e entendo que pulei errado...
Sou sugado para baixo, indo direto para o fundo. Bato com os pés no chão e a dor sobe dos tornozelos aos ombros explodindo em meu pescoço, como um choque. Meu grito não produz som. Tudo escurece e em seguida clareia novamente.
Descubro-me flutuando um pouco acima do chão de pedra do redemoinho, girando em torno do meu eixo, da direita para a esquerda. Penso “Que estranho...., não deveria ser o contrário?”. Olho para cima. Lá no alto a luz do sol brilha na superfície, e mergulha difusa para iluminar ao meu redor. Movo os braços e as mãos, mas não consigo mover as pernas...
Eu sabia que não conseguiria sair dali...
Imagino a cara do Quico quando perceber que não voltarei. Vai arregalar os olhos e falar “- O cara não voltou! Nossa! Meu!”.
Dou mais uma, mais uma e mais uma volta completa. O ar começa a me faltar. Sinto o primeiro arrepio do desespero subir pela coluna. Parece que meu saco e o meu ventre vão encolher, com meu pulmão exigindo de volta todo o ar que ainda há em mim.
Do desespero passo para uma calma intensa, uma serenidade lúcida, como se aquela situação extrema me fosse familiar. Um sentimento de já ter estado ali, no olho do redemoinho, com a luz iluminando tímida. Lembro do gosto de terra da água gelada entrando em mim.
Um corpo cai no rio e isso chama minha atenção.
“Será o Quico ou o Branco?”.
Alguém que não conheço passa por mim, bate violentamente no fundo, desfalece, desliza para a borda e é levado pela correnteza que passa a alguns metros, criando o redemoinho onde estou. Depois dele, dezenas de corpos caem simultaneamente.
Homens, mulheres, velhos, crianças. São jogados de qualquer jeito, uns sobre os outros; pés para cima, mãos para baixo; se enroscam, se agarram, brincando na borda do redemoinho uma grotesca dança de roda, especialmente para mim.
Movem suas bocas tentando em vão fazer soar seus gemidos, seus gritos, seus lamentos. Mas só conseguem criar silenciosas bolhinhas de ar.
Estendo os braços para agarrar em alguém, ser levado para fora do centro e jogado na correnteza, onde posso ter melhor sorte. Mas nenhum deles olha para mim, nenhum me estica a mão. Nenhum deles me vê. Grito para eles em meu pensamento:
"- Por que não me vêem?".
"- Estou no centro do redemoinho, sozinho!".
"- Por que não me vêem?".
Uma mulher clara com os cabelos presos em um lenço branco passa com o rosto virado para mim. Ela não tem olhos.
Um novo arrepio e estou sozinho, à mercê da natureza. Tenho a consciência tranqüila de que nunca desrespeitei o rio, e que por isso ele será justo comigo, deixando que me encontrem com facilidade, antes que outros seres vivos se alimentem dos restos de mim. Penso em várias pessoas para as quais eu gostaria de ainda poder dizer: “Adeus!”.
Súbito, uma mão forte pega firme na cintura do meu calção e me impulsiona para fora do redemoinho.
Assim que sinto a correnteza me levando começo a mover os braços como um cachorrinho apavorado, tão cansado que não consegue mais nadar. A superfície fica cada vez mais próxima. Tiro a cabeça da água e respiro desesperadamente.
- Levanta o braço!
Levanto o braço e alguém me pega pelo pulso, me puxa e me coloca escorado em uma pedra.
- Demorou prá burro! Eu já ia pular lá! Bateu os pés no fundo?
- Bati Branco! Me ajuda a sentar mais alto!
Ele me apóia novamente e saio do rio subindo nas pedras com as mãos e os joelhos. Sento-me, estico as pernas e observo os tornozelos. Sinto dores, mas não vejo nenhum sangue ou sinal de algo quebrado. Respiro ofegante, porém aliviado.
- Pulou com os braços colados no corpo! Burrão!
- Puta que pariu Branco! Susto da puta que pariu! Caralho!
- E aí, machucou?
- Parece que não! Só mais tarde é que vou saber!
Falta a pessoa que me tirou de lá.
- O Quico não saiu do rio?
- Que Quico? Ele ainda nem pulou! Olha ele lá!
Quico não pulou atrás de mim.
Não estava em seus planos pular do pilar, dentro do redemoinho. O vejo escalando os cabos de aço da ponte pênsil, chegando ao topo da coluna de sustentação da nossa margem. A coluna que é par dela está cinqüenta metros adiante, do outro lado do rio. Ele começa a descida para o meio da ponte, de costas, como se o cabo de aço cor de laranja fosse um coqueiro.
Enquanto o vejo, encenando mais um capítulo da sua lenda, penso nos fantasmas que vieram até mim no redemoinho, mas rapidamente os esqueço, de olho na atração principal.
Quico está agora parado sobre os cabos de aço pendurados nas colunas de sustentação da ponte pênsil, no ponto mais baixo da “barriga” que eles fazem.
Lá embaixo está a parte mais funda do rio, onde as correntezas são mais fortes e os redemoinhos não costumam dar nenhuma chance.
Ele não tem pressa. Ficamos os três em silêncio, ouvindo o rio respirar, tossir, falar conosco.
Quico pede e aguarda, em respeitosa veneração, saber permitido o seu mergulho.
Então ele alonga os braços sobre a cabeça, depois os solta ao longo do corpo; estica o peito, respira profundamente, e pula!
Voa elegante e gracioso como os caras que vi pularem do rochedo em Acapulco, naquele filme do Elvis.
Sinto um arrepio vendo-o no ar. Mas, não me preocupo por ele.
Temos um amigo comum dentro do rio, e ele nos protege.
Quico desaparece na água.
- O Quico é louco!
- É!
Para Quico e Branco.
Para Guinho, Jaime, Mario, Miguel, Xandrão e Zé Luiz.
Moral da história
Há sempre uma época da nossa vida que merecemos relembrar, e reescrever.
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domingo, 12 de julho de 2009
Viatura 2112 - Cosplay
O corpo aos pés do Cabo Valdimir (CV) e do Soldado Rubis (SR), mostra explicitamente a causa que o levou a estar ali, morto, estendido na calçada, logo de manhã.
- É uma baioneta CV!
SR ajoelha-se junto ao morto e examina mais de perto a baioneta cravada profundamente em suas costas.
A expressão da vítima, enrijecida e congelada pelo rigor cadavérico, poderia ser descrita como de surpresa e dor.
A de SR é aquela de admiração que fazemos quando nos deparamos com coisas que nos são verdadeiramente belas.
- É uma baioneta de Fuzil Mauser..., peça muito cara. Veja aqui CV, na parte limpa, do lado de fora do corpo, como o aço reflete a luz do sol. Perceba como o fio é perfeito. Fabricada em Solingen, Alemanha..., centro de cutelaria desde o século XIV. Aqui, em baixo relevo, está a suástica...
- Realmente, é uma bela peça! – CV também é um admirador das coisas de bom gosto.
- Mas, mudando um pouco o foco da questão, tu não achas que a corcunda desse cidadão não é um cepo apropriado para essa magnífica arma branca?
SR volta sua atenção para a vítima.
- Quem era você antes de enfiarem essa jóia em sua corcunda, meu amigo?
Com calma, SR vasculha os bolsos e depois por dentro das roupas do morto, usando luvas e cuidando para não alterar a cena do crime. Encontra uma carteira sobre a bexiga, dentro da cueca.
- Vamos ver... Aqui tem uma conta dobrada..., conta de luz. Nosso amigo é o Sr. Aderval Cavalcanti.
- Esta é uma carteira de deficiente físico..., ele era corcunda..., o que nos parece óbvio.
- Corcundas são pessoas solitárias, SR.
- São CV... Caraca! Olhe para ele e diga-me quantos anos ele tinha.
- Difícil..., entrando nos sessenta anos.
- Trinta e sete!
CV pega a carteirinha nas mãos e faz questão de conferir. Fica a olhar para ela durante alguns instantes. Sobe o lábio inferior pressionando para cima o superior, e levanta as sobrancelhas, ligeiramente triste.
- Não te parece uma maldição, SR, vir para o mundo em uma condição tão diferente? Imagine as dificuldades, as humilhações...
- Acho que é uma sina realmente, CV.
- Por isso que acredito em alma, SR. Vejo uma vida de provações como uma etapa de penitência, de amadurecimento, nas tantas etapas de purificação da alma, na existência - talvez - infinita, do espírito.
- Talvez seja apenas uma punição, CV.
SR tem uma medalhinha de Santa Paula colada na coronha do seu M-16. Presente de CV. A Santa já o salvou de um balaço no peito, e, em retribuição, a beija sempre que, por força da profissão, precisa meter um balaço no peito, ou na cabeça de alguém. É o máximo de religiosidade que ele pratica. SR é materialista.
- A perícia está chegando para cuidar do cadáver, SR. Vamos fazer as anotações.
O corpo está na calçada do Parque Trianon, descendo a Alameda Casa Branca, a partir da Avenida Paulista, distante uns cinco metros da esquina.
CV saca a caderneta e SR dita o registro da cena do crime:
- A vítima é o Sr. Aderval Cavalcanti, brasileiro, solteiro, 37 anos, morador da Rua do Trianon, número 606 apartamento 66. Morreu entre quatro e seis horas, a ser confirmado pela Polícia Técnica, vítima de esfaqueamento. Foi atingido na parte de baixo da sua corcunda por uma baioneta de Fuzil Mauser, marca Solingen, fabricada em 1938, que penetrou aproximadamente 20 centímetros em direção ao seu tórax. A quantidade de sangue no local indica a lâmina ter cortado uma artéria ou atingido o coração. A vítima tem as mãos fortemente fechadas; traja sapatos azuis, estilo mocassim, com uma correntinha e um pingente e dourado, calça azul escura com listra dourada ao longo das pernas, do lado de fora. Usa jaqueta igualmente azul, do mesmo tecido da calça, enfeitada com medalhas e dragonas, como..., não sei definir...
- A mim me parece um mestre de cerimônias! – CV lembrou-se de um circo que viu quando era criança. Ficou assustadíssimo com os anões, vestidos de fraque. Um primo um pouco mais velho disse-lhe que eles eram duendes do mal.
- Não sei CV. Vou virar o corpo um pouco mais..., assim... Tem um emblema no bolso da jaqueta. Parece um brasão de hotel..., deixa ver... Hotel..., caraca, é alemão..., não ria do meu sotaque: “Schlosshotel Lerbach”. Algo como “Hotel do Castelo Lerbach”.
- Seria sotaque se tu falasses alemão!
CV coloca a caneta marcando a página na caderneta e a entrega a SR.
- Anote aqui onde eu marquei com um “x”.
Horas depois, na Central, entregam os relatórios e fazem uma reunião com o Capitão, que ouve atentamente a narrativa dos dois. Ao final, ele faz uma ligação e diz algo como “confirmando qualquer coisa”. Depois se dirige aos dois policiais.
- Cabo Valdimir e Soldado Rubis. Ambos prestaram um grande serviço para a comunidade no último ano. Poucos policiais têm um registro de ocorrências com a quantidade de ações importantes com a de vocês.
Retira de um envelope uma carta que desdobra e coloca sobre a mesa.
- Podem olhar! É de uma menina agradecendo por vocês terem tirado o gato dela de cima da árvore.
CV, sério, estica os olhos e olha para a carta com estudada indiferença.
SR nota os coraçõezinhos cor-de-rosa e uma decoraçãozinha feita com algodão. Ambos sorriem protocolarmente.
- É importante que as pessoas saibam que nosso trabalho é apoiar a comunidade, e ações como essa, na sua simplicidade, são parte importante desse processo. Mas..., não os trouxe aqui apenas para mostrar isso... Por sinal, vai para o arquivo da Corporação..., meus parabéns.
O Capitão pigarreia, denunciando que seu vício de quase quarenta anos já começou a matá-lo há pelo menos dois.
- Como os senhores relataram, uma pessoa, corcunda, foi encontrada, ferida mortalmente por uma baioneta, na calçada do Parque Trianon.
- Acontece que a vítima era pessoa querida em alguns meios importantes da nossa sociedade, e a Central recebeu uma ordem direta do Gabinete do Secretário de Segurança Pública para que colocasse uma equipe exclusiva na investigação do caso.
- Quando apresentamos as opções de detetives para o crivo do Governador do Estado..., para nossa surpresa, confesso..., recebemos não só como sugestão, mas quase como uma ordem direta, a indicação dos seus nomes para responsáveis pela investigação.
SR sabia que se tornaria detetive um dia. Mas esse dia chegou inesperadamente, e ele só consegue pensar nas roupas para compor seu guarda-roupa de trabalho. Pensando bem, já estava na hora de dar um tempo no uniforme.
CV imediatamente se dá conta que essa indicação só aconteceu por causa do episódio com o gringo, meses atrás. Quem sabe, mesmo não dando o braço a torcer, o pessoal da Secretaria da Segurança Pública percebeu a perspicácia e a coragem diferenciadas dele e do seu parceiro. Ou, seria só uma punição, como poderia dizer, com muita propriedade, SR.
Ambos saem rapidamente de seus pensamentos e manifestam sua satisfação com a oportunidade. Estão surpresos e felizes. Só não podem se expressar abertamente ali.
- Não vejam isso como uma promoção, senhores. – alerta o Capitão. – Pois não é. É apenas uma condição especial que pode, dependendo dos resultados, colocá-los em uma situação melhor na Corporação. Muita gente vai estar de olho em vocês. Tratem de tudo com muito cuidado. Vocês só falam comigo. Serei sempre o primeiro a saber de qualquer coisa, e nada acontece sem a minha palavra final. Entendido?
Os policiais acenam positivamente com a cabeça.
- Devolvam os uniformes na rouparia. Passem na minha secretária e peguem as normas para as roupas à paisana. As armas podem ser as mesmas. Quer dizer, seu fuzil Soldado Rubis, só poderá ser utilizado com a minha autorização.
- Os distintivos são os antigos. Coloquem junto com eles esse documento, que os autoriza para a operação..., aqui, uma cópia para cada. O material coletado na cena do crime está no Instituto Médico Legal, e de lá deve seguir para a Polícia Técnica. Apresentem-se no IML amanhã de manhã. Acho que é só isso...
CV e SR entendem a deixa e levantam-se respeitosamente. CV sente uma ponta de angústia quando pensa que a novidade pode estar custando a companhia de uma velha amiga.
- Capitão, se me permite a pergunta, o que acontecerá com nossa viatura?
- A viatura de vocês será remodelada para o serviço. Vocês a terão de volta em breve. Boa sorte rapazes!
Os dois policiais fazem continência e deixam a sala do Capitão. Andam calmamente pelos corredores, controlando o desejo de correr e gritar para expulsar o ar do peito, purificado pela felicidade que lhes acometeu.
Fora do prédio, olham um para o outro. Olhos arregalados, sorriso escancarado.
- Tu acreditas nisso SR? Somos detetives! Em experiência, é lógico, mas somos detetives, tu e eu! Como Popeye e Cloudy, o Riggs e o Murtaugh. Nossa SR, nem consigo acreditar! O quê vamos fazer?
- Vamos às compras CV!
No dia seguinte, pontualmente às nove da manhã, CV e SR chegam ao Instituto Médico Legal.
CV veste terno preto, camisa branca, cinto e sapatos pretos. A gravata é de seda, azul escura, lisa. Leva a Beretta no coldre, abaixo do braço esquerdo.
SR está de terno azul marinho, camisa amarela bem clarinha, cinto e sapatos pretos. A gravata é cor de creme, decorada com losangos em suaves tons de vermelho. Carrega sua Walther PPK em um coldre preso no cinto, bem no meio das costas.
Estão um pouco ansiosos no primeiro dia na nova função. Porém, sentem-se bem em suas roupas novas, de caimento perfeito.
- Não gosto de ficar andando de táxi, CV. Quando a viatura será devolvida?
- Só amanhã SR!
São recebidos por um funcionário que pede suas identificações e estranha não serem detetives, mas não liga. Pede que o acompanhe e os leva até onde está o corpo. Chegando lá, o legista os cumprimenta formalmente; depois, retira o lençol que cobre o cadáver, e o expõe sob uma forte luz fluorescente: nu, esbranquiçado, lembrando um estranho, feio e encurvado boneco de cera.
- A vítima morreu quase instantaneamente, quando a ponta da lâmina cortou a artéria aorta.
Pega de dentro de uma caixa de papelão, sobre uma mesa auxiliar, um saco plástico de onde tira a baioneta, quase toda suja de sangue, e chama a atenção para ela.
- Como os senhores podem ver, apesar de ser uma peça antiga, está praticamente nova. Não há dentes no fio nem riscos na lâmina.
- É uma peça magnífica! – exclama SR.
- Realmente! – concorda o legista. – É um item de colecionador.
- Digitais?
- Nenhuma digital foi encontrada. O autor do crime usava luvas. Nas reentrâncias do cabo da arma encontramos resíduos de pelica.
“Mais um apaixonado por armas brancas!”, conclui CV, que quer saber mais sobre o corcunda.
- A vítima ingeriu alguma coisa, ou portava algo que pode ser relevante?
- Eu já vou chegar lá! – responde o legista, acostumado com a pressa de investigadores iniciantes. Calmamente, coloca a baioneta de volta em seu invólucro, de onde sairá poucas vezes durante a investigação e o provável processo, para, depois, ficar renegada ao esquecimento. Triste fim para uma arma tão magnificamente forjada, coadjuvante de grandiosas paradas militares em um passado não muito distante.
- O conteúdo estomacal da vítima indica consumo de uísque, de muito boa qualidade, talvez de dezoito anos de idade. Havia também resíduos de amendoim, de castanha do Pará, castanha de caju, de macadâmia, de uvas passas e pistache.
- A roupa da vítima é um uniforme legítimo de porteiro de hotel. Não parece muito velho. Mas é de um número maior do que ela usaria. As pernas da calça e as mangas da jaqueta estavam dobradas para dentro. Na mão direita, bem amassado dentro dela, a vítima segurava este pedaço de tecido.
Sem pedir licença, CV pega das mãos do legista o pedaço de renda preta de uns quinze centímetros de comprimento e uma polegada de largura. Estica-a com ambas as mãos e a coloca na frente dos olhos, contra a luz.
- Parece uma renda de lingerie. Vê-se que se descosturou em quase toda a extensão, e rasgou um pouco na ponta, indicando ter sido arrancada bruscamente. Tu percebes esse detalhe SR?
Antes de SR responder, o legista acrescenta mais um fato.
- A vítima manteve relações sexuais pelo menos duas horas antes de morrer. Havia vários pêlos pubianos femininos misturados aos seus, e sinais de ejaculação recente.
- Pelo menos estava fazendo algo interessante! – conclui SR. – A baioneta teria sido então uma grande surpresa, não acha CV?
- Ou uma grande punição, SR! Algo mais além do pedaço de tecido?
O legista balança a cabeça negativamente, pega o pedaço de renda da mão de CV e o coloca, junto com o saco plástico da baioneta, de volta na caixa de papelão.
- Nada! Aproveitando, vocês poderiam levar o laudo da autópsia e a caixa com as evidências para a Central?
- Perfeitamente!
- Um de vocês, por favor, assine aqui.
Às dez e meia da manhã CV e SR tocam a campainha do apartamento 44, da Sra. Anabela, síndica do condomínio do prédio onde o Sr. Aderval residia. Um prédio luxuoso, de um apartamento por andar, muito bem localizado, próximo a Avenida Paulista.
- Bom dia! Sou o Cabo Valdimir e este é meu parceiro, Soldado Rubis.
- Bom dia! – uma simpática senhora, muito bem vestida, segurando um poodle branco no colo, responde. – Por favor, entrem. Não liguem para a Fifi, ela não morde.
CV e SR acomodam-se no confortável sofá da sala. A cachorrinha, vestida com blusinha cor-de-rosa, cheira os pés deles e depois deita ao lado da dona, e fica a observá-los atentamente, com os olhinhos abertos, as orelhas levantadas e a língua para fora. Uma empregada coloca uma bandeja com água e café sobre uma mesa de centro. Eles agradecem.
A Sra. Anabela pede que se sirvam e fiquem a vontade, e enquanto eles bebem um copo de água, começa a falar sobre o falecido, sem esperar ser questionada.
- Estou chocada com o que aconteceu. É uma tragédia! Ele não era meu amigo, éramos apenas vizinhos. O Sr. Aderval não era uma pessoa muito sociável. Praticamente não tinha amigos aqui no prédio. Talvez devido à sua condição, coitado. Mas, sempre que encontrava alguém nos elevadores, ou nas raras reuniões de condomínio em que participava, tratava a todos com muita cordialidade e educação. A mim, principalmente. Nenhum funcionário tinha qualquer queixa em relação a ele. Ele trabalhava em casa, com computadores. Sempre que surgia alguma novidade tecnológica, logo em seguida chegava uma entrega no 66. Foi o primeiro a ter Internet aqui no prédio, quando eu nem sabia o que era isso. Ele...
CV observa em silêncio. Aos pés do sofá defronte a eles, Fifi parece fazer as mesmas caras e bocas que sua dona faz.
SR aguarda uma deixa e, polidamente, interrompe a fluente narrativa.
- Me desculpe por interrompê-la, Sra. Anabela...
- Pois não!
- Gostaria de destacar o que a senhora disse sobre ele não ter amigos aqui no prédio.
- Sim, foi o que eu disse. Ele só tinha conhecidos aqui.
- E ele recebia visitas, além das entregas que a senhora mencionou?
- Não que eu saiba. As visitas ficam registradas na portaria e eu saberia..., pois vejo a relação das visitas..., faz parte do trabalho do síndico...
- Eu entendo. Ele viajava bastante?
- Sim..., ele viajava bastante sim, praticamente duas a três vezes por ano. Deixava cheques pré-datados para pagar o condomínio nas suas ausências. Quando voltava, acertava alguma diferença que ficasse.
- Ele alguma vez organizou algum encontro com amigos?
- Não! Nunca houve qualquer festa no 66.
- E ele já recebeu a visita de alguma mulher, uma amiga ou namorada?
- Nunca... Se me permite a sinceridade, ele era muito feio! Até metia um pouco de medo nas pessoas. Sei por que minhas amigas e suas empregadas comentavam. Se ele tinha encontros com mulheres, não o fazia aqui no prédio.
- Desculpe-me, não quis ser inconveniente.
- Fique tranqüilo, senhor...
- Rubis!
- Fique tranqüilo senhor Rubis, são perguntas necessárias. Eu, e tenho certeza de que falo pelos moradores e funcionários do condomínio, quero que os responsáveis por isso sejam punidos.
- Com certeza serão identificados, presos, processados e punidos, Sra. Anabela!
CV, até então calado, entra na conversa.
- Como síndica do condomínio, a senhora tem a chave reserva do apartamento do Sr. Aderval, não estou certo?
A Sra. Anabela perde um pouco a pose, e Fifi, sua cachorrinha, coloca a cabeça entre as patinhas, como se quisesse escondê-la.
- Veja bem, senhor..., senhor...
- Valdimir!
- Veja, senhor Valdimir, que coincidência. Anteontem pela manhã o Sr. Aderval pediu-me minha cópia da sua chave, dizendo que não podia entrar em casa, pois havia perdido a cópia dele, indo ou voltando da padaria. Prometeu-me fazer uma nova cópia e entregar-me a noite, mas, depois disso, como os senhores sabem, ele não voltou para casa.
Depois de mais algumas perguntas relacionadas ao funcionamento do prédio e aos seus funcionários, e da promessa da Sr. Anabela em providenciar uma nova chave do apartamento 66, CV e SR agradecem e despedem-se.
Na portaria, param para conversar com o porteiro, um crioulo alto e forte, na casa dos cinqüenta anos de idade, que tem seu nome, Heráclito, escrito no crachá.
Mostram seus distintivos e sentam-se nas poltronas em frente ao balcão da portaria.
- O que posso fazer pelos senhores? – o porteiro mostra-se solícito.
- Tu poderias falar a respeito do Sr. Aderval?
- Claro, o falecido Sr. Aderval. Antes, se me permite perguntar, o senhor é do sul?
- Sou, meu sotaque me denuncia. Mas, não vamos falar de mim, e sim do antigo morador do 66. Pode ser?
- Claro! O que os senhores querem saber?
- Qualquer coisa que tu disseres pode nos ser útil. Para começar, ele tinha alguma atividade ou atitude que chamasse a atenção?
O porteiro sorri. O Sr. Aderval sempre chamou sua atenção, com sua aparência um tanto grotesca, e suas atitudes sempre tão adequadas, bem colocadas, convencionais.
- Vou falar uma coisa para vocês, senhores, o Sr. Aderval era um homem acima de qualquer suspeita aqui no prédio. Trabalho aqui há doze anos e nunca vi ou ouvi nada de ruim a respeito dele.
- Tu achas que alguém pode ser assim, acima de qualquer suspeita?
- Não podemos generalizar, é claro, o senhor tem razão, mas, neste caso, aqui no prédio, ele era!
A ênfase chama a atenção de CV e SR, que dialogam rapidamente com o olhar. CV se manifesta.
- E fora do prédio, tu sabes de alguma coisa diferente?
O porteiro hesita por alguns segundos, depois sai de trás do balcão e aproxima-se dos policiais, ficando em pé próximo a eles.
A porta do elevador social se abre e uma moradora passa por eles apressada. Após ela sair e a bela porta de vidro do prédio se fechar, ele diz, falando um pouco mais baixo, com o cuidado de estar sendo ouvido somente pelos policiais:
- Uma vez, não faz muito tempo, eu vi o Sr. Aderval descer de um carro e entrar no prédio vestindo uma fantasia.
- Fantasia? Tu sabes de quê?
- Não sei exatamente..., a luz da entrada não é muito forte..., estava ventando..., ele usava uma cartola e uma capa. Quando começou a subir as escadas antes de chegar à porta, o vento levantou a capa e pude ver um tipo de fraque, decorado com cartas de baralho..., e no pescoço ele trazia pendurado um relógio grande, redondo, que balançava com o andar desengonçado dele. Mas ele se cobriu com a capa e tirou a cartola assim que entrou no prédio. Falou-me “boa noite” e subiu.
- É tarde..., é muito tarde. – murmura SR.
- Estamos atrasados para o compromisso com a Catherine? – questiona CV.
- Depois explico! Obrigado pela colaboração senhor Heráclito! Se precisarmos de mais alguma coisa, voltaremos! – SR levanta-se e dirige-se para a porta. O porteiro se despede.
- Sempre à disposição, senhores!
CV segue SR, com a pulga que vive atrás da sua orelha desperta pela curiosidade.
Na hora do almoço, encontram-se com Catherine no centro, em um restaurante vegetariano próximo da Clínica onde ela faria mais uma consulta de pré-natal.
- Como estão lindos os meus queridos! – é a primeira vez que ela os vê trabalhando à paisana.
CV e SR ficam meio sem jeito com o elogio, e também com os olhares das outras mulheres em volta, atentas aos dois rapazes bonitos e bem vestidos.
– E então, como estão as investigações?
- No começo! – responde SR. – Ainda estamos juntando as peças.
- Como está o bebê?
- Está tudo bem com ele CV, obrigada! Está crescendo normalmente..., graças a vocês, meus amigos!
- Tu não queres mesmo saber o sexo?
- Ainda não sei..., gostaria que fosse surpresa..., tanto faz para mim..., mas, me contem..., que lance bizarro esse de um corcunda morto com uma baioneta!
- Tu estejas à vontade para contar, SR! Vou pegar suco de frutas para nós.
- Então Catherine..., temos um corcunda vestido com um uniforme de porteiro de um hotel alemão, morto com uma baioneta cerimonial nazista, da segunda guerra – linda de morrer, você tinha que ver!
- Literalmente! – ela acrescenta. SR continua.
- No prédio onde morava, a síndica do condomínio falou sem parar a respeito dele, como se tivesse ensaiado antes o que dizer. Quando CV perguntou sobre as chaves do apartamento onde ele morava, ela desconversou. Mas, prometeu conseguir uma cópia nova até amanhã. O porteiro do prédio disse, muito em off, que um dia ele chegou fantasiado...
- Fantasiado?
- É..., fantasiado com um fraque decorado com cartas de baralho, uma cartola, e um relógio redondo pendurado no pescoço.
- Estou atrasado! Estou atrasado! – ela exclama abrindo um sorriso, no momento em que CV volta para a mesa.
- De novo essa história de estar atrasado! Vocês me contem – agora - o que isso quer dizer!
- É que você não leu “Alice no País das Maravilhas”, seu bobo. – explica-lhe SR.
- Tu também não leste todos os livros!
- Calma meninos..., eu explico. - Catherine intervém. - O fraque e a cartola caracterizam o “Chapeleiro Louco”, que achava que sempre era hora do chá, e o relógio era carregado pelo “Coelho Branco”,que dizia o tempo todo que estava atrasado; ambos são personagens da história de Alice.
- Isso quer dizer que, talvez, nosso corcunda gostasse de se fantasiar. – conclui SR. - Acrescentando, na noite em que morreu teve momentos íntimos com alguém. Apresentava sinais de relação sexual recente, e estava cheio de uísque, amendoins, pistache e coisas do tipo.
- E, na mão direita, ele segurava isto!
CV mostra para Catherine o pedaço de renda preta encontrado na mão do morto.
- Você estava com isso no bolso o tempo todo CV?
- Trouxe para quem entende do assunto SR, tu não achas uma boa idéia?
Catherine analisa a renda preta com cuidado.
- É de boa qualidade..., parece renda portuguesa. Acho que poderia ser aquela renda usada em espartilhos, logo acima dos seios. Mas, usada naqueles modelos mais antigos..., hoje em dia há espartilhos de vários estilos.
Ela percebe que a costura soltou em quase toda a extensão.
- Vejam aqui que interessante. Essa renda não estava bem costurada. Foi presa com um ponto mais firme na ponta. Isso não aconteceria com um espartilho de qualidade. Talvez fosse só uma peça de fantasia, ou um espartilho estilizado.
- Será que precisaremos investigar as festas a fantasia CV?
- Não sei se seria o caso, SR. As festas têm listas de convidados, e todos sabem quem é quem...
Catherine lembra de algo que viu na televisão.
- Há uns dias atrás, eu estava ajudando sua mãe com o almoço, CV, e vi no jornal da tarde que haveria um festival de Cosplay na cidade.
- Cosplay? – CV e SR perguntam ao mesmo tempo.
- Cosplay meus queridos! É muito mais do que uma festa a fantasia. Vou explicar para vocês. Mas primeiro vou comer. Essa coisinha linda que carrego aqui dentro está com fome e reclamando.
Continua em "Dupla Dinâmica".
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domingo, 5 de julho de 2009
A fuga
Segunda Temporada, Décimo-sétimo e último capítulo.
Hora do almoço. Estamos na fila do bandejão. Pessoalmente, preferia o sistema anterior, quando éramos servidos na mesa. Porém, com a chegada de um grande número de novos internos, quase todos oriundos da área de tecnologia, esse sistema foi implantado para agilizar as refeições, mas não foi bem aceito pela maioria.
Estou na fila da refeição, logo atrás de Dante. Adiante de nós, além de alguns internos que só conheço de vista, percebo o maldito que acredito ser o Encoxador Misterioso, junto aos seus capangas, Duplo V e Zé Rola.
Ainda que absorto em meus pensamentos e orações, percebo que algum rumor se inicia logo na frente do grupo deles. Procuro ouvir o que se passa. Um dos internos está reclamando que a sobremesa é goiabada, mas não tem queijo. Fala algo sobre Julieta sem Romeu.
Dante vira-se para mim, com cara de dúvida. Esclareço para ele o que está acontecendo:
- Estão reclamando que a sobremesa é goiabada sem queijo.
Dante parece não se importar; vira-se para o balcão de comidas, onde o atendente coloca uma porção de arroz em sua bandeja. Volto aos meus pensamentos.
Preciso encontrar um meio de cumprir a missão que recebi de Renato Cordeiro, de deter o Grande Mal que tem atacado os profissionais de Tecnologia da Informação.
Acredito que meu guia, o grande Renato Cordeiro, providenciará os meios para que eu cumpra a missão que me confiou.
Agora todos estão falando ao mesmo tempo!
- Imagine! Goiabada sem queijo!
- Julieta sem Romeu!
- Quem é a Julieta, a goiabada ou o queijo?
- Claro que é a goiabada, que é doce!
- Você quer dizer que o Romeu é fresco?
- O queijo que é fresco!
- Aí Romeu, o doido aqui te chamou de fresco!
O Romeu, um esquisito que vive pelos corredores declamando Shakespeare, dá um empurrão no que disse que o queijo era fresco, e joga sobre ele seu prato cheio de arroz.
Era o que faltava! Os miolos-moles começam a jogar comida uns nos outros.
É neste momento que a minha mente se ilumina. Maravilhoso Renato Cordeiro! A solução pode estar na minha frente. Literalmente falando! Basta que eu saiba como tirar proveito da situação...
Não perco tempo. Aproximo-me de Dante e comento:
- Infelizmente existem pessoas que não são nada solidárias. Alguns acabam com o queijo, outros não abrem mão da última empadinha, e sequer se importam se as outras pessoas também querem comer...
A reação é imediata, e melhor do que eu poderia imaginar. Dante, irritado, enfia a mão na bandeja, agarra um bocado de seu arroz com feijão e o atira contra Zé Rola:
- Seu ladrão de empadinhas! Aposto que foi você que acabou com o queijo, também!
Zé Rola comenta algo sobre nem ter chegado ao doce ainda. Agarra um bife acebolado no balcão e o atira contra Dante. O bife bate no casaco eternamente imundo e escorre para o chão. O casaco é tão seboso que nem se percebe o ponto onde o bife bateu. Uma rodela de cebola pendurou-se em um dos botões, mas Dante nem percebeu. Está procurando algo mais para jogar em Zé Rola.
Outros internos começam a entrar na confusão, a maioria sem sequer sabe o que está acontecendo. O que importa para eles é a confusão em si, a possibilidade de atirarem coisas uns nos outros.
O Dante, assecla do Profeta Celestino, joga coisas sobre o Zé Rola, que revida.
Outros internos entram na bagunça. Pronto, começou a Babilônia!
Por outro lado, esse tumulto pode ser a oportunidade que eu aguardava para sair daqui. Tenho um objetivo maior a me esperar.
Você vai ganhar seu troféu, querida! Não perde por esperar!
Para minha sorte, Duplo V sai do transe e fica sem saber o que fazer assim que se dá conta do que acontece.
- De pensar morreu um burro! – é seu primeiro ditado do dia.
Vou instruí-lo segundo meus interesses:
- Duplo V, veja essa multidão enlouquecida. Eles não sabem o que fazem. Precisam do comando de alguém firme e decidido, capaz de levá-los ao objetivo maior, a entrega do “grande projeto”. Esse é o momento Duplo V! Não pense! Chame-os e leve-os para sua ilha!
Duplo V arregala os olhos, respira fundo e grita a plenos pulmões:
- Malta! A ilha é Malta!
Tira as roupas em uma fração de segundo e começa a correr pelado entre a multidão, derrubando todos que ficam na frente do seu corpanzil imenso e desengonçado. Sua cabecinha de ovo cozido treme a cada grito que dá.
- Malta! A ilha é Malta!
Pega a bandeja com a goiabada e começa a jogar os pedaços nas paredes. Pobre diabo, como eu poderia querer que conduzisse alguém, se não tem condições nem de conduzir a si mesmo?
A confusão está generalizada. Com exceção de alguns internos que ficam sentados em silêncio, sem dar a entender que sabem o que se passa, todos os demais jogam comida uns nos outros, e riem às gargalhadas. O chão está escorregadio com a carne de panela que viraram no centro da sala de refeições.
Apenas dois internos estão lúcidos neste momento. Eu e o Profeta Celestino, que está parado do outro lado da sala de refeição. Trocamos um rápido olhar. Sempre desconfiei que ele não era tão biruta como os outros. O quê estará tramando?
A confusão que criei é excelente para meu objetivo, mas ainda não o consegui. Preciso encontrar um meio de direcionar tudo isto, de modo que eu consiga fugir da Clínica. Afasto-me alguns passos, buscando espaço para conseguir pensar.
Observando a multidão de internos que se aglomera, trocando tapas, puxões de cabelo e atirando porções de comida uns nos outros, mentalmente oro a Renato Cordeiro, pedindo que me ilumine e me auxilie a encontrar uma maneira de transformar esta oportunidade em meio de fuga.
É nesta hora que meu olhar se cruza com outro olhar, frio e calculista. Percebo que, como eu, o maldito também está afastado do tumulto. Também observa com atenção o que está ocorrendo e tem um ar pensativo.
Não muito distante de mim encontra-se a solução. Vejo Theodore Roosevelt tentando inutilmente conter a multidão. Ele corre de um para outro, tenta segurar um interno aqui, afasta dois brigando ali, tira uma bandeja das mãos de um interno que está prestes a arremessá-la, corre de um lado para outro, quase se esborrachando no chão, ao escorregar em um bife que estava em seu caminho.
De repente, ele parece se dar conta da inutilidade de seu esforço. Como um jovem diante de uma coluna de tanques, ele para defronte à multidão em tumulto. Aproximo-me dele.
- A coisa está feia, caro Theodore!
- Nem fale! Eu bem que tentei controlar, seu Profeta! Mas é muito mais gente do que eu consigo. E justo num dia que não tem quase ninguém trabalhando. Estou pensando em chamar o Diretor...
- E o que o Diretor vai fazer Theodore? Sentar-se atrás da mesa e dar ordens? Ele não vai resolver nada. A gente precisa é chamar a polícia!
- O senhor acha seu Profeta?
- Claro Theodore! Primeiro que a simples visão de um policial geralmente é suficiente para amedrontar as pessoas. Além disto, se for preciso, eles têm condições de chamar a tropa de choque para e segurar esse bando de loucos...
- É mesmo! Acho que o senhor tem razão seu Profeta... Vou telefonar para eles.
- Telefonar demora demais Theodore. Vamos lá, eu vou com você, ajudar a encontrar algum policial na rua, é mais rápido.
No caminho, passamos próximos a Dante. Ele não está mais brigando com Zé Rola. Preocupa-se apenas em pegar coisas no chão para atirar em alguém. O agarro pelo braço e o arrasto comigo.
O Profeta Celestino está conversando com o enfermeiro chefe, o Theodore, um dos mais birutas daqui. Estão indo em direção a porta. O Profeta resgata Dante da multidão e o leva junto com eles. Estarão indo para a saída?
Não tenho tempo a perder! O quê fazer? O quê fazer? Já sei!
Subo em uma mesa e grito o mais alto que posso:
- Atenção! Atenção! Atenção! Caros companheiros de clínica! A resposta que todos procuram está aqui, ao nosso alcance. Vejam, lá, na direção da saída: O Profeta está nos mostrando o caminho! Sigam o Profeta!
Enquanto caminhamos em direção à porta, percebo que a massa de malucos começa a vir em nossa direção, ainda que não pareçam ter idéia do que estão fazendo. Concluo que preciso fazer Theodore ser mais rápido. Afinal, eu não posso correr o risco de que ele note o que está acontecendo às nossas costas.
- Precisamos ser rápidos, Theodore. Veja como o barulho está crescendo, aqueles loucos daqui a pouco começam a se matar, e é capaz de alguém ainda dizer que a culpa é sua!
- O senhor acha seu Profeta?
- Infelizmente, eu acho. Existem pessoas maldosas e aproveitadoras em todos os lugares.
Theodore aperta o passo. As coisas começam a dar certo para mim.
Todos os malucos que ouviram meu chamado seguem comigo atrás do Profeta Celestino, que está com seu assecla, o Dante, e o Theodore, o enfermeiro chefe, na porta principal da saída da clínica. É uma oportunidade única que tem que ser aproveitada.
Começo a gritar e conclamo a todos para gritarem comigo:
- Abra a porta, Profeta! Abra a porta, Profeta! Abra a porta, Profeta!
E todos se apertam em direção à saída. A questão já ficou séria. A porta precisa ser aberta para evitar uma tragédia.
- Abra a porta, Profeta! Abra a porta, Profeta! Abra a porta, Profeta!
Chegando à porta, um novo problema: Theodore, que não é muito melhor que os pacientes que ele cuida, se confunde todo tentando encontrar a chave. Uma confusão inútil, já que basta olhar para a porta e ver que a chave é tetra, ao contrário da maioria das outras, que são chaves simples.
- E agora, qual é a chave? Eu nunca sei, geralmente quando saio tem alguém aqui...
- Deve ser uma destas maiores, aqui, Theodore. Elas são diferentes das outras, como a fechadura da porta.
A turba de malucos já está próxima. Começo a me preocupar, afinal se eles chegarem até nós, Theodore pode perceber meu intuito e todo o meu esforço será em vão.
Piorando, ele está tão nervoso que tem dificuldades em enfiar a chave na fechadura. Tenho de segurar a sua mão para ajudá-lo. Para minha sorte, a porta abre-se na segunda tentativa.
Com a porta aberta, não me importa mais que ele perceba ou não que os outros estão nos seguindo. Mas Renato Cordeiro faz tudo da melhor forma possível, e Theodore está tão concentrado em procurar um policial que ainda não percebeu o tumulto atrás de nós.
- E agora seu Profeta, o que eu faço?
- Agora é que você precisa ser rápido: corra até aquela esquina, vi um carro de polícia passar por ali.
- Está bem, vou correr para lá.
Então ele segue sem olhar para trás. Vou sentir saudade do Theodore e das suas trapalhadas. Agora, é chegado o momento de deixarmos a clínica. Arrasto Dante em direção ao portão externo. Atrás de nós, vem um monte de gente.
As portas da Clínica se abrem e todos saem em confusão. Não olho para trás; corro sem parar em direção aos portões externos, que são meramente decorativos e fáceis de transpor. Não me importa o que acontecerá com meus, agora antigos, assessores, Duplo V e Zé Rola. São apenas dois pirados que um dia atravessaram a perigosa linha entre o profissionalismo e a obsessão, e acabaram internados, desequilibrados e confusos. Devem ficar cuidado um do outro, acredito.
Após corrermos alguns passos em direção à liberdade, permito que paremos para respirar um pouco. Com a ajuda de Renato Cordeiro, estou livre para cumprir minha nova missão. Tenho um futuro incerto pela frente, mas acredito que serei capaz de cumprir o destino que me foi estabelecido pelo meu mestre.
Ao longe, seguindo em outra direção, entre outros loucos que fogem para todos os lados, percebo meu adversário, que sempre acreditei ser o Encoxador Misterioso.
Dou-me conta que, mesmo sem nos falarmos, de alguma forma trabalhamos juntos, e ambos conseguirmos fugir. Não que isso o torne mais agradável a mim, mas me faz ver que mesmo com pessoas que não suporto, existindo um objetivo comum, é possível trabalhar em equipe.
- Vamos Dante, temos uma missão divina para cumprir!
Salto o muro externo e olho ao redor. Poucos internos chegaram comigo até aqui. Muitos que estavam na agitação não tinham noção da possibilidade de fuga, e ficarão presos lá na clínica, indefinidamente.
Olha só quem vai lá longe: o Profeta Celestino, e o seu inseparável assecla, o Dante. Tenho que admitir que ele foi o responsável pelas portas serem abertas. Acabamos trabalhando juntos, mesmo sem querer. Uma hora ou outra, alguém que julgamos desprezível acaba nos dando uma mão.
No dia seguinte:
Zé Gerúndio há muito tempo estava quieto. Nada de atender aos chamados de perigo. Nada de ler jornais procurando algo a investigar, agir e desvendar. Zé era outro homem. Difícil achar a vida excitante depois de seu derradeiro confronto, onde ele foi exigido por completo. Corpo e mente trabalhando em sua totalidade pra finalmente se sair vitorioso..., mais uma vez.
Zé nunca perdera um caso, mas agora não aceitava mais qualquer caso. Nada lhe parecia atraente no mundo calmo, e Zé Gerúndio, o detetive herói, dava o braço a torcer admitindo que o crime lhe fazia sentir vivo.
Mais um dia em seu QG e mais um dia sem nada a fazer. Muito tempo assim, e se assim continuasse, Zé teria até que começar a procurar um emprego. Isso seria o fim dele. O fim de uma história gloriosa. Entrar numa rotina qualquer seria como morrer para Zé Gerúndio. Dog já se preocupava e tentava animá-lo de alguma forma. Seu cão fiel e mais esperto que carcará, segundo o próprio Zé Gerúndio, apontava os perigos como de habitual, mas Zé olhava e suspirava.
- Ah! Dog... Pede pra eles estarem chamando a polícia. Eles com certeza estarão resolvendo isso.
E Dog saía cabisbaixo sem saber o que fazer. Dava dó de ver esse grande homem andando e manquitolando de um lado a outro sem vontade de viver. Porém, dava mais dó ainda de ver Dog, seu fiel escudeiro, desesperado e sedento por ação. Desesperado por pressentir o perigo e avisar a Zé como sempre: correndo e se escondendo do confronto. Contudo, Dog não era de desistir fácil...
Caminhando pelas ruas próximas ao QG, atento a tudo e a uma lingüiça pendurada no açougue da esquina, Dog salivava e ouviu um comentário:
- Oxente menina! Tu viu no jornal de hoje?
- Vi não...
- Aquele doido dos ônibus que encoxava as mulherada fugiu e...
Dog esqueceu a lingüiça. Era isso! Zé precisava saber... e logo. Dog se dirigiu até a banca de jornais e viu a foto da repórter responsável pela notícia. Era Juliana Maçã. Dessa ele lembrava bem, pois além de estar envolvida no caso do Encoxador Misterioso, o mais difícil de toda a carreira da dupla, ela foi mais uma das tantas que caiu diante dos encantos estrábicos de Zé Gerúndio.
Dog não pestanejou e afanou um jornal. Saiu correndo com ele na boca seguido de perto pelo dono da banca, Seu Severino. Entrou no QG e foi correndo em direção a Zé, que estava sentado na frente da porta. Dog largou o jornal aos pés dele e em disparada se escondeu. Zé percebeu a aflição do seu fiel escudeiro e pressentiu algo diferente naquela manobra de Dog, mas foi atrapalhado pela chegada do Seu Severino:
- Aquele seu cachorro filo duma rapariga roubou um jornal na minha banca! Devolve!
Zé pegou o jornal. Deu nas mãos do Seu Severino e quando voltava à sua cadeira viu Dog abalado e inquieto.
- Seu Severino! Vou estar comprando esse jornal...
- Então tá! É cinco real.
- Tudo isso nesse jornalzinho?
- É! Ele custa só dois, mas teve entrega a domicílio e...
- Tá bom... Tá bom...
Zé abriu o jornal e viu entre as babas de Dog a foto de Juliana Maçã. Zé nunca esquecia uma de suas pequenas. Viu que ela era responsável pela manchete principal que dizia “Criminosos famosos fogem de manicômio”. Seu coração palpitou descompassado. Pegou o telefone para ligar para Juliana.
Índice de capítulos
17) A fuga
16) Uma missão para o Profeta
15) Um troféu para o Encoxador
14) Encoxando as Enfermeiras
13) Pastoreando as Ovelhas
12) Encoxando a Beata
11) Encoxaram o Profeta
10) A empadinha, por Dante
09) A empadinha, por Zé Rola
08) A encoxada que cura
07) A fé que salva
06) Ao encontro das ovelhas
05) Na Ala Feminina
04) Um cara atrapalhado
03) Troca Perigosa
02) Big Boss
01) A visão do Profeta
Primeira temporada completa: A caça ao Encoxador Misterioso
Marcadores: Encoxando na Clínica
domingo, 28 de junho de 2009
Não basta querer
Meu nome é Capitão Ócio. Hoje tenho o prazer de trazer minha grande amiga Creuza, uma manicure e pedicure com tato e pés no chão. Ela é personagem de uma história com moral, para lembrar e refletir.
Vamos a ela.
Dizem que nos momentos que antecedem a concepção, quando estamos sendo “montados” na área de manufatura da imensa fábrica do Criador, alguns entram mais de uma vez na mesma fila e acabam adquirindo alguma qualidade em dose superior a que seria normalmente atribuída.
Dayse entrou mais de uma vez na fila da gostosura. Ela é muito, muito gostosa.
Dos pés à cabeça, qualquer parte do seu corpo pode ser utilizada como referência das medidas ideais para uma mulher, segundo o gosto vigente em nosso belo país tropical. Seu rosto não tem nenhum traço marcante, nada que possa ser considerado exótico ou diferente; é apenas bonito, e completa positivamente o conjunto.
Está com 29 anos, e é solteira. Mantém uma vida sexual relativamente intensa graças à caravana de homens que batem na sua porta; peregrinos carregados de oferendas sonhando ganhar a benção da Deusa, entrar em seu palácio e mergulhar em sua fonte infinita de prazeres.
Ela os seleciona com critério e usufrui dos escolhidos com sabedoria, extraindo-lhes o suco e jogando o bagaço fora.
Até os 25 anos nunca havia se apaixonado. Dizia que não via vantagem em estar com um homem só. Trocando de parceiro com certa freqüência, poderia ter o melhor de cada um.
Um dia, como acontece com quase todas as pessoas, pelo menos uma vez na vida, se apaixonou. Descobriu o homem para o qual daria seu coração em um pires de prata, coberto com chantili e morangos, no dia do casamento da sua irmã mais velha.
Já o conhecia de algum tempo. Mas, até o momento em que o viu no altar, empolado como o Príncipe da Pérsia, esperando pela sua irmã, que caminhava linda e radiante pelo corredor da capela em direção a ele, não tinha se dado conta do quanto seu futuro cunhado era atraente.
Nos cumprimentos após o final da cerimônia, tremeu de tesão quando o abraçou e o beijou no rosto. Sentiu o calor que lhe brotava das faces e entendeu que não descansaria até aquele suor gotejar aos borbotões sobre seu corpo, ensopando seu ventre e seus seios.
No começo viveu um terrível conflito de consciência. Procurou ajuda com uma psicóloga, que diagnosticou um leque de causas, conflitos, tendências e coisas afins, e a orientou a se afastar até que aquilo passasse.
Mas não passou. A atração sexual pelo marido da sua irmã continua arrebatadora, capaz de fazê-la sussurrar, sinceramente ou não, o nome dele no ouvido de outros homens. O passar dos anos só acentua em sua boca o gosto salgado daquele suor, e ela não descansará enquanto não descobrir quais sabores os demais fluídos do corpo dele têm.
- Não Dayse, não trabalhei no Dia dos Namorados! Imagina minha filha! O patrão até tinha me agendado. Mas o quê? Minha agenda já estava pronta, e lá estava anotado “Tirar o atraso!”. E foi o que eu fiz: peguei o meu nêgo e fiquei um dia inteiro de pernas para cima, sem miséria! Você sabe..., claro que você sabe como é!
- Essa sua unha encravada aqui está delicada, querida. Coloque o pé aqui na água morna..., isso..., agora vou enxugar..., passar esse creme gostoso nele..., massagear..., isso..., assim você relaxa..., isso. Agora coloca aqui sobre a almofada..., pronto..., vou limpar com esse produto..., agora vou pôr xilocayna no seu dedão, cobrir de levinho com essa cobertinha térmica..., está quentinho? Vamos esperar um pouco.
- E então, até agora nada? Não acredito... Claro que você não deve se sentir incompetente, claro que não. Você tem quem você quiser querida.
- Acontece que existem homens que passam a vida de solteiro galinhando. Deixam a namorada ou a noiva em casa e partem para a gandaia. Depois que casam, tornam-se fiéis como um Cavaleiro Templário, colocando a espada a serviço apenas da própria mulher.
- Está doendo? Vamos esperar mais um pouquinho. Enquanto isso os apetrechos continuam na esterilização...
- Conta..., como foi na festa de aniversário da sua sobrinha? Ele gostou do decote? Você conseguiu criar alguma situação onde vocês ficassem sozinhos? O que ele falou? Chamou você de atrevida? Que mal educado!
- Bom, pelo menos ele é cavalheiro, entende o que está acontecendo e não vai comentar com a sua irmã. Não podemos esquecer que ele tem medo de ser mal entendido e parecer que está dando em cima de você. Engraçado, não é? Nós sempre colocamos a culpa neles!
- Onde já se viu querer dar para um homem e ele não querer te comer? Tem algumas mulheres que ninguém quer comer, a gente sabe disso... Mas você, um mulherão desses...
- Vou lhe disser o que você vai fazer querida. Mas cuidado, por que depois não vai mais ter volta, e nem eu, nem você, e nem ninguém pode prever o que acontecerá, na vida dele, na sua e na da tua irmã. Você quer realmente correr o risco? Claro que eu sei que você quer, mas é sempre bom perguntar.
- De qual fruta ele mais gosta? Manga? Fácil!
- Você vai a uma casa de plantas, e compra um vaso com uma muda de mangueira. O quê? Chazinho? Que chazinho nada minha filha!
- Sabe aquela loja de lingerie lá do shopping, aquela que tem umas peças bem diferentes? Então, lá você compra a menor calcinha que te cair bem. Tem que ser cor de manga. Isso!
- Depois você compra uma embalagem bem pequenininha. Antes de colocar a calcinha na caixinha, pense bastante nele, imagine as coisas que você gostaria de fazer, imagine ele fazendo as coisas que você gostaria que ele fizesse..., até que tua frutinha fique bem molhadinha, bem cheirosinha... Isso!
- Aí você a enxuga com a calcinha, o suficiente para ela ficar com seu cheirinho. Depois dobra, coloca a calcinha na caixinha, embrulha com um papel bem bonito..., cor de manga também, é uma boa idéia. No cartão você escreve: “Essa aqui é só a casquinha da fruta!”. Manda um motoboy entregar, a planta e a caixinha, logo de manhã, no trabalho dele.
- Quando ele abrir a caixinha, querida, vai sentir o seu cheirinho entrando gostoso nas narinas... Imagina o efeito que vai causar! Logo de manhã, o cheirinho dessa frutinha gostosa, madurinha..., cheirinho novo, diferente do que ele está acostumado...
- Claro que ele vai querer saber o gosto que a fruta tem! Nem que ele tenha entrado três vezes na fila da fidelidade querida! Homem nenhum consegue resistir.
- Mas, por enquanto, vamos sofrer um pouquinho. Dê-me aqui esse pezinho lindo que vou consertar tua unha encravada...
Moral da história
Um dia, meu amigo, ela vai te pegar.
Marcadores: Aventuras do Capitão Ócio
Michael Jackson
A morte de um ídolo é um marco importante na nossa percepção da passagem do tempo. É o fim da possibilidade de que ele nos traga algo novo, e a certeza de que todos os sentimentos e emoções que o trabalho dele despertou pertencem inexoravalmente ao passado.
De Michael Jackson e do Jackson Five terei sempre as lembranças dos bailinhos nas garagens, da luz negra, da câmera de eco, dos beijos, dos suores, dos sabores novos e inesperados.
Sempre que escuto "Ben" ou "I'll be there", sinto um coraçãozinho palpitando na palma da minha mão.
Valeu Michael! Pegue o James Brow e o Marvin Gaye e faça um pusta som aí no céu!
Marcadores: Editorial
domingo, 21 de junho de 2009
Uma missão para o Profeta
Segunda Temporada - Décimo sexto capítulo
- Celestino, meu filho!
- Renato Cordeiro? É mesmo você?
- Sim. Você tem feito um grande trabalho em meu nome, Celestino, mas eu preciso pedir-lhe um pouco mais...
- Sua vontade é a minha lei, basta pedir...
- Sei que você tem demonstrado sua fé e empenho em seguir a minha vontade. Gostei de sua pregação de ontem e da firmeza que você teve com aquela ovelha que falou-lhe de poucas-vergonhas. Mas existe uma ameaça rondando as pessoas que é ainda maior que a falta de pudor e o pecado da carne que você tem combatido.
- Como algo pode ser pior que isto, Mestre?
- Pode, filho. Um mal que ataca a mente e alma das pessoas, e não apenas a carne. E uma alma atormentada não consegue defender sua carne.
- E a quem devo combater? Alguém aqui dentro? Aquele depravado maldito que insiste em me desafiar?
- Não, Celestino. O inimigo, desta vez, é mais sutil, e está fora desse ambiente onde você se encontra. No momento certo você entenderá quem deve ser procurado e combatido para atender a minha vontade.
- Mas como vou sair daqui?
- Não se aflija, quando for a hora, tudo será providenciado.
O Profeta acordou de sobressalto. Sonho ou conversa real, a experiência foi bastante marcante para ele. Não conseguiu voltar a dormir, e ficou rolando na cama até o amanhecer.
Ao sair de seu quarto para o café da manhã, encontrou-se com Dante, que conversava com um novo interno, desconhecido dele. Aproximou-se.
- Bom dia!
- Profeta! Que bom vê-lo! Gostaria de apresentar-lhe um amigo, Miro Pinguinha. Nós trabalhamos juntos. Quer dizer, quando eu trabalhava, antes de vir parar aqui...
O Profeta cumprimenta o desconhecido:
- Prazer!
- Shend “O prazer é todo meu” to vocal interrrrrfashe.
O Profeta quase pulou para trás de espanto. Dante explica.
- O Miro era analista-programador, nós trabalhamos juntos. Ele tem um jeito de falar meio arrastado, parece que está sempre bêbado, por isto já tinha o apelido de “Pinguinha”. Mas agora parece que piorou, ele mistura códigos de programação em tudo o que diz. Entendi que é por isto que ele está aqui.
- Mas por que essa mistura? O que aconteceu para causar isto?
- Perform explanation “Eu comecei a tentar correr atrash de tudo que é linguagem que shaia, queria aprender para não ficar pra trás no mercado. Só que apareshe uma linguagem nova a toda hora. No começo eu mishturava os comandos das linguagens. Depoish eu comecei a mishturar os comandos em tudo que eu falo”.
- Deve ser horrível viver o tempo todo assim...
- If o senhor acha que é complicado, then multiply por muito mais...
- Eu imagino que não seja fácil. Espero que seja apenas um estresse passageiro e logo esteja bem, e fora daqui da clínica.
- Não sei... Para correr atrásh de novas linguagens tudo de novo? Ishto me desanima demais...
- Bem eu não sou médico, não posso dizer muito a respeito. Mas creio que Renato Cordeiro agirá de modo que o melhor lhe aconteça.
- Inquire “Quem é esse? O médico?”
Dante tenta explicar.
- O Profeta Celestino, aqui, diz que sua missão é anunciar a vinda de Renato Cordeiro, o Cordeiro de Deus renascido, que virá para estar entre nós.
- Virá, não, Dante. Ele já está.
- Declare “Eu quero aprender mais sobre isso, se puder”...
- Claro que pode! Sempre que possível eu realizo minhas pregações aos internos na... O que é isto?
O tumulto começou de repente. Pelo salão o Big Boss, estranhamente fora de seu quarto, avançava jogando merda para todos os lados. Os internos gritavam e tentavam fugir. No tumulto, muitos acabavam caindo e sendo atingidos pelos fedorentos projéteis.
De repente, um grito diferente se faz ouvir:
- Exclamação de Atena!
Enquanto grita, um desconhecido avança em direção ao Big Boss. Seus traços denunciam sua ascendência japonesa.
Com um poderoso Mae-Geri no queixo, o japonês derruba o Big Boss.
- Você não contava com a minha astúcia!
Theodore aproxima-se correndo, e aplica-lhe rapidamente um sossega-leão, enquanto comenta que distraiu-se cuidando do carrinho de medicamentos e esqueceu a porta do quarto aberta, mas o japonês não o escuta. Sua atenção está voltada para o pequeno grupo à sua frente.
- Oh... My... God! Dante, é você!
- Jiraya! Há quanto tempo! Como anda?
- Ah, amigo! Nem te conto... Diga-me uma coisa: estou enganado, ou acabo de derrubar o Big Boss?
- É ele mesmo. Deve ter escapado do quarto.
- O enfermeiro estava falando algo, parece que foi sem querer, querendo...
- Mas que belo golpe você deu nele! Derrubou-o de primeira...
- Graças ao Poder do Prisma Lunar. Tudo bem com você? Quem são estes?
- Este é o Miro Pinguinha, trabalhei com ele há algum tempo. O outro é o Profeta Celestino, eu o conheci aqui na clínica. É o meu guru espiritual.
- Prazer em conhecê-los.
- Quer dizer que vocês trabalharam juntos? Eu não sabia que você havia trabalhado com o Big Boss, Dante...
- Não, não trabalhei. O Jiraya trabalhou com ele em outra época, eu só o conheci quando vim para cá... Trabalhei com o Miro antes, o Jiraya eu conheci no último projeto que participei.
- E eu trabalhei antes dessa época com o Big Boss. Ele era um grande diretor, antes de surtar...
Enquanto falava, Jiraya quase atingiu o Profeta com um giro de seu braço, ao fazer a pose do dragão, como um membro do Esquadrão Relâmpago.
- Você trabalhava com ele nessa época? O que aconteceu, que até hoje eu não entendi direito?
- O mesmo que acontece a todos. A maldição de Biolon de nossas vidas. Excesso de padrões...
- Mas ter um padrão não é bom para trabalhar?
- UM padrão, sim, é bom. O problema é que aqueles incas venusianos malditos aparecem com novos padrões o tempo todo. São novas formas de avaliar e gerenciar projetos, novos aplicativos de controle, novas linguagens. É impossível ficar atualizado com tudo, mas ao mesmo tempo o mercado exige que sejamos especialistas em todos eles. Fora a verdadeira sopa de letrinhas que é a confusão de nomes e siglas. Foi esta loucura que me levou a surtar, e ao Big Boss, também. Aparentemente, também foi o que aconteceu ao nosso amigo Miro, aqui.
- MessageDisplay “De fato, meu problema foi tentar correr atrash das linguagens”.
O Profeta estava intrigado:
- Mas as empresas não tendem a se fixar em alguns poucos padrões? Não é o lógico?
- Deveria. Mas a cada dia aparecem novidades e consultores dizendo maravilhas sobre elas. Como na maioria das vezes quem toma as decisões não é quem vai trabalhar, fica difícil evitar que seja exigido.
- Mas de onde surgem tantos padrões?
- Não sei. Pode ser do vizinho marciano, de uma galáxia distante, quem sabe?
- Não acredito. Mais provável alguém mais real...
- É... Não sei... Bem, eu já ouvi dizer uma outra versão, mas sabe como é, todo mundo mente...
- E que versão é essa?
- Há quem diga que todos esses padrões são inventados por uma única pessoa. Acho difícil, mas é uma versão. Mas, mudando de assunto: Dante, percebo uma coisa interessante: somos três profissionais de TI, aqui. Isto quer dizer que logo estaremos fora, pois o poder dos três nos libertará.
- Poder dos três? Nem sei do que está falando. Mas, pela graça de Renato Cordeiro, já sei qual é o inimigo que devo enfrentar. Só falta pensar em como sair daqui...
Por Enio Vedovello - COC
Índice de capítulos
17) A fuga
16) Uma missão para o Profeta
15) Um troféu para o Encoxador
14) Encoxando as Enfermeiras
13) Pastoreando as Ovelhas
12) Encoxando a Beata
11) Encoxaram o Profeta
10) A empadinha, por Dante
09) A empadinha, por Zé Rola
08) A encoxada que cura
07) A fé que salva
06) Ao encontro das ovelhas
05) Na Ala Feminina
04) Um cara atrapalhado
03) Troca Perigosa
02) Big Boss
01) A visão do Profeta
Primeira temporada completa: A caça ao Encoxador Misterioso
Marcadores: Encoxando na Clínica
Um troféu para o Encoxador
Segunda Temporada - Décimo quinto capítulo
Quatro horas da tarde.
Faz algum tempo que não me ocupo dos assuntos daqui. Deleguei o acompanhamento da rotina diária da clínica aos meus assessores, Duplo V e Zé Rola, que me fazem companhia neste momento em nossa mesa habitual, na biblioteca.
Todas as noites me entregam relatórios reportando a rotina dos enfermeiros, a movimentação de terceiros que prestam serviços diversos, fatos relevantes sobre um ou de outro interno, enfim, qualquer coisa que pareça interessante deve ser trazida ao meu conhecimento.
Não posso correr o risco de ficar desatualizado, visto que tenho pleno acesso a quase todos os cômodos e funcionários, e o desconhecimento de algum fato ou fofoca pode despertar a desconfiança de alguém. Passar algumas horas incógnito da Ala Feminina é uma aventura cheia de riscos; compensada deliciosamente pelo prazer que proporciona.
Minha dificuldade está em entender o que escrevem. Duplo V, às vezes, desenha centenas de aviõezinhos de formas e tamanhos diversos, uns em cima dos outros. Zé Rola escreve extensas laudas cheias de diagramas e linguajar técnico, de onde é preciso extrair o escasso conteúdo.
Esses são meus assessores, o melhor que consegui obter aqui, na Clínica Correcional da Pedra Grande.
O meu antagonista na clínica é o Profeta Celestino, louco de pedra que se veste de pastor, e diz que é representante de uma “entidade mística” chamada Renato Cordeiro, que deve ter sido outro maluco do mesmo naipe. Ele tem um assessor também, um camarada asqueroso, avesso a higiene pessoal de um modo geral, chamado Dante. É um cara esperto, que deve ser constantemente monitorado. Já o fizemos de palhaço uma vez, quando o jogamos e o trancamos no quarto do Big Boss. Saiu de lá coberto de merda, tomou uma rasteira do Zé Rola – que, aliás, o detesta -, e foi levado à força para um banho e depois para a solitária.
O Profeta parece ter se ocupado de alguma coisa diferente recentemente, pois não o tenho visto nos espionando, ou especulando com outros internos sobre mim.
Esse seria o assunto que gostaria de discutir com meus assessores, mas a leitura dos últimos relatórios aponta para algo muito interessante acontecendo: a Clínica recebeu vários novos internos, todos profissionais da área de Tecnologia da Informação, apresentando perturbações psíquicas e os mais variados desvios de comportamento.
- Diga-me Zé Rola, já conheceu pessoalmente algum dos novos internos?
Zé Rola aguardava ansiosamente que eu me dirigisse a ele.
- Já! Conversamos com quase todos..., um deles, em especial, pode ser útil para descobrirmos o que está acontecendo. Era especialista em metodologias.
Lúcido, Zé Rola é um sempre competente.
- Chame-o para conversarmos!
Ele toca em Duplo V, que está catatônico, mexendo as mãos como se segurasse um manche, comandando um avião.
- Duplo V, vá lá chamar o Mister Sigla! Diga-lhe que está na hora da reunião! – ordena-lhe Zé Rola.
- Manda quem pode, obedece quem tem juízo. – Duplo V coloca seus ditados admiravelmente.
- Mister Sigla? Reunião? – pergunto.
- Você já vai entender... – Zé Rola deixa o mistério no ar.
Duas horas e quinze em ponto, um senhor de meia idade, barbeado, penteado e de terno, se junta a nós.
- Como vai o senhor? – cumprimento-o cordialmente.
- VB! – ele responde.
- Vou Bem – Duplo V traduz quase simultaneamente.
Zé Rola pisca para mim, e entendo que Duplo V é o tradutor das coisas que Mister Sigla fala. Interessante como alguns loucos possuem afinidades e se complementam em suas maluquices. Tomo a iniciativa da conversa e passo a fazer perguntas pontuais.
- O senhor sabe por que está aqui?
- COBIT! – depois de responder, faz alguma anotação no caderno que abriu sobre a mesa.
- Comecei Ouvindo Besouros Imitando Tamanduás! – é a tradução de Duplo V.
Talvez Mister Sigla esteja utilizando alguma figura de linguagem. Em tempo, mais do que apropriado o apelido que Zé Rola lhe deu.
- O que o senhor fazia antes de vir para cá?
- JAVA! – nova anotação no caderno.
- Julgava, Avaliava, Validava, Apitava! – Duplo V poderia trabalhar com tradução simultânea das babaquices que são ditas diariamente, nos escritórios pelo país afora.
Zé Rola entra subitamente em seu estado canino, com a língua de fora e olhar perdido, balançando a cabeça, bobo como um cachorro da raça Boxer. Temporariamente, não poderá me ajudar.
Continuo meu diálogo com Mister Sigla.
- O senhor sabe que estamos em uma clínica para pessoas perturbadas, e que todos aqui, menos eu, são desmiolados?
- TCP-IP!
- Tenho Conhecimento Pleno, Inferi Probabilidades – Duplo V traduz pontualmente.
- O senhor tem alguma idéia sobre o que aconteceu consigo?
- PMI!
- Pressão Muito Intensa!
Faz sentido a resposta. Talvez Mister Sigla tenha uma idéia da causa intrínseca do seu problema.
- O senhor saberia dizer o que fez com que o PMI lhe causasse um COBIT?
Ele não responde imediatamente, parece pensar por alguns instantes.
- CTRL-ALT-DEL!
- Comi Trivial Ravióli Libanês, Alteração Linear Transcendente, Delírio Estético Leve. – Duplo V trava e retorna ao seu estado catatônico.
Fico sem tradutor. De qualquer forma, com tradução ou não, pessoas que falam usando siglas, no fundo, nada têm para dizer. Vou dispensar meu interlocutor.
- Nosso tempo acabou! O senhor não tem mais uma reunião agendada?
- SOA ITIL! CRM! – é a sua saudação.
Levanta-se e dirige-se a uma mesa próxima, onde estão o Profeta Celestino, o Dante e mais um dos internos novos. Ninguém dá bola para ele, que vai tentar a sorte com outro grupo, em uma mesa mais distante.
Não estou satisfeito. Preciso ficar a par do que está acontecendo.
Theodore Roosevelt, o enfermeiro chefe, chega trazendo pelo braço outro interno que desconheço.
- Oi..., não quero atrapalhar..., mas acontece que este interno aqui estava desenhando diagramas na parede do banheiro. Posso deixá-lo aqui com vocês?
Concordo. Gosto do Theodore e do jeitão dele, da sua simplicidade beirando a estupidez. Sempre posso utilizá-lo em algo útil para mim. Entrega-me um papel de onde o interno copiava o diagrama quando foi pego em flagrante, depois se retira.
O novato me lembra um desses pirados do cinema..., acho que o Emmett Brown, um pouco menos descabelado. Agora somos quatro pessoas na mesa, e sou o único são dentre elas.
- Vamos estabelecer uma relação 1 para 1? – ele se manifesta.
- Por que não? – respondo. Não fosse ele vindo da área de TI, eu até poderia imaginar segundas intenções.
- Qual o domínio do seu problema?
A pergunta que me fez é técnica demais. Porém, talvez seja exatamente esse o caminho que eu deva seguir. Vou experimentar.
- Loucura..., demência..., ramo..., especialidade. – Apresento os atributos principais do meu problema.
Ele coloca uma mão no queixo e com a outra começa a escrever no ar.
- Loucura, alfanumérico de 30, demência, campo lógico, valendo “Sim” ou “Não”..., ramo, chave primária; especialidade, chave primária...; chave composta: ramo e especialidade!
Arregala os olhos pensando ter inventado a roda. Vamos ver seu tempo de resposta para meu questionamento.
- Quero saber todas as doenças possíveis no ramo da Tecnologia da Informação.
Num nanosegundo, ele responde.
- Peste bubônica, câncer, pneumonia, raiva, rubéola, tuberculose, anemia, rancor, cisticircose, caxumba, difteria, encefalite, faringite, gripe e leucemia...
Será que o Banco de Dados ambulante sentado à minha mesa conseguiria extrair algo comum a todas as doenças que afligem os profissionais de TI?
- Relacione todas as doenças extraindo causas comuns.
Desta vez, a resposta demora dois nanosegundos.
- “Padronização, normalização, metodologia, desorganização”!
Muito bom! Vou aprofundar a pesquisa.
- Identifique informações comuns para “padronização” e “desorganização”.
Desta vez ele fica em silêncio por vários minutos. Chego a pensar que está travado. Subitamente, apresenta sua resposta.
- “Domínio”, ”Dominação Padrão”,“Dominação Feminina padrão”,”Dominação Feminina padronizadora”.
- “Domínio”, ”Dominação Padrão”,“Dominação Feminina padrão”,”Dominação Feminina padronizadora”.
- “Domínio”, ”Dominação Padrão”,“Dominação Feminina padrão”,”Dominação Feminina padronizadora”.
- “Domínio”, ”Dominação Padrão”,“Dominação Feminina padrão”,”Dominação Feminina padronizadora”.
- “Domínio”, ”Dominação Padrão”,“Dominação Feminina padrão”,”Dominação Feminina padronizadora”.
...
Não para de repetir a mesma coisa, o pobre coitado. Chamo um dos enfermeiros e peço que o levem para o bosque que há ao lado da biblioteca. Fico em companhia dos birutas de sempre.
Interessantes em todos os sentidos as informações que ele “processou”.
Primeiro, analiso a questão dos profissionais de TI serem maioria aqui na Clínica. O que eles têm em comum? Eram profissionais com ocupações de responsabilidade, participando de projetos em grandes instituições comerciais e financeiras.
Big Boss, por exemplo. Era CEO de uma consultoria multinacional. Todo poderoso, respeitado como um Deus por seus Diretores, Gerentes e Coordenadores, que o seguiam como devotos, flagelando a si e aos subalternos com chicotadas de stress e excesso de trabalho. Um belo dia, Big Boss começou a cagar na mão e jogar a merda nas pessoas mais próximas. Hoje vive trancado em seu quarto. Dizem que acumula merda para jogar no primeiro que aparecer.
Duplo V é outro caso. Gerenciava projetos. Um dia tirou a roupa e saiu correndo pelado, com seu corpanzil de hipopótamo obeso e sua cabecinha de ovo cozido, balançando suas gorduras pelos corredores.
Zé Rola trabalhava com TI. Dante, o assessor do Profeta Celestino, também.
Observando com atenção, conto mais de quinze novos internos. Alguns andam pela biblioteca, carregando livros que não lêem. Outros conversam entre si, com todos falando ao mesmo tempo e ninguém se entendendo. Será que estamos a caminho de uma nova Babilônia?
Agora, a questão que realmente me interessa: “Dominação Feminina padronizadora”.
Minha intuição treinada nos campos de batalha, aliada a meu instinto de lutador de artes marciais, indica que há uma mulher por trás do que está acontecendo. Uma mulher poderosa!
- Hum..., hum..., uma mulher poderosa..., hum!
Já estava na hora de aparecer um motivo para sair daqui. Estou acomodado demais. Acostumei-me a visitar a Ala Feminina com certa freqüência para, lá, encoxar a interna que aparecesse. Claro que, na média, a qualidade era sofrível. Mas tive ótimos momentos, com a Jô Gozô, a Piedade e principalmente, com as duas enfermeiras. Porém, estaria condenado a essa rotina?
Não, claro que não! Sou o Encoxador Misterioso, baby. A resposta para a comichão que você sente de repente, e que ninguém ainda conseguiu curar.
Avise o Comissário Gordon para ligar o holofote pois, na primeira oportunidade, voltarei às ruas, para investigar, descobrir, alcançar e encoxar aquela que será o maior troféu da minha carreira, aquela a qual chamarei, a partir de agora, de “A Grande Padronizadora”.
De repente, vários internos começam a correr em direção a porta, passando pela minha mesa. Gritam apavorados.
Big Boss escapou! Carrega um balde de bosta e começa a jogá-la em todos. Levanto-me e corro. Duplo V e Zé Rola ficam lá, em transe. Coitados...
Índice de capítulos
17) A fuga
16) Uma missão para o Profeta
15) Um troféu para o Encoxador
14) Encoxando as Enfermeiras
13) Pastoreando as Ovelhas
12) Encoxando a Beata
11) Encoxaram o Profeta
10) A empadinha, por Dante
09) A empadinha, por Zé Rola
08) A encoxada que cura
07) A fé que salva
06) Ao encontro das ovelhas
05) Na Ala Feminina
04) Um cara atrapalhado
03) Troca Perigosa
02) Big Boss
01) A visão do Profeta
Primeira temporada completa: A caça ao Encoxador Misterioso
Marcadores: Encoxando na Clínica
quinta-feira, 11 de junho de 2009
Palavras "Te amo!" não ditas
Uma da tarde e estamos sentados em um banquinho no meio da praça, depois do almoço e antes do cafezinho.
Há um restaurante indiano defronte a ela. O dono do restaurante me impressiona pelo tom da sua pele, e acho que a presença dele, do lado de fora, falando com os fregueses, dá um toque exótico ao lugar.
Você está sorrindo para mim, tão de perto, tão pertinho..., e de repente estamos nos beijando. Sinto pela primeira vez a maciez dos seus cabelos e a doçura da sua boca.
As palavras “Te amo!” não são ditas; são riscadas com a ponta de uma Urumi no lado de dentro do meu peito.
Parado na janela do bangalô, sinto no pescoço o vento amenizando o maravilhoso calor do Caribe. As ondas batem nas pedras logo ali, bem perto, e as gotas de água salgada vêm com ele, ajudando-o a me refrescar.
Minha Nikon MF está pronta. A luz entra pela janela e pelas frestas das paredes de madeira entrelaçada, e ilumina a porta rústica do box do chuveiro. De repente, ela se abre.
Você toma um susto, joga as mãos para cima, colando no corpo os cotovelos, dá um gritinho e um pulinho, desses de jogar os pés para trás. Seu rosto se ilumina com um sorriso doce, de menina.
O “click” chama a luz para registrar em negativo a imagem da fadinha branquinha e nuazinha, de lindos cabelos vermelhos e asas de cristal, que flutua no meu banheiro.
As palavras “Te amo!” não são ditas; ficam gravadas “!oma eT".
Dentro de um táxi, em uma noite de inverno, passamos pelo Obelisco do Ibirapuera. Da minha janela vejo a 23 de maio, com a enguia de luz amarela e a serpente de luz vermelha seguindo seus caminhos opostos e paralelos.
Os edifícios à esquerda..., suas paredes de janelas, escuras ou iluminadas, são um grande mosaico de pontinhos que se estende até o horizonte. As gigantescas antenas coloridas das TVs me lembram um filme de monstro, japonês.
Do outro lado do banco, você está de perfil. Usa boina e cachecol. Seu rosto se desenha a cada luz que passa pela janela. Bela, feminina, cosmopolita, mulher do mundo; você está aqui, mas poderia estar em qualquer lugar.
Ao som da música nos imagino em um táxi em alguma cidade do planeta; na sua noite, nas suas ruas, com suas luzes e seus amantes abraçados sussurrando as coisas que têm nome e significado para qualquer um que se dispuser a amar.
As palavras “Te amo!” não são ditas, pois, quando eu ia dizê-las, você olhou para mim. Hipnotizado, com as palavras presas na garganta, fiquei em silêncio, ouvindo o cantor no rádio cantar:
“- I love you”
“- I love you”
“- I lo-ve y-ouuuuuuuuuu”
Para Désirée
Marcadores: Declarações de Amor
Viatura 2112 - Presentes
O Cabo Valdimir (CV) está na seção de livros de design.
Folheia um exemplar de Equestrean Style, sobre o uso de temas eqüestres na decoração. Sob o braço esquerdo prende um exemplar de Hatch Show Print Rodeo Journal, que já decidiu comprar.
Junto à prateleira cheia de livros sobre armas diversas, o Soldado Rubis (SR) sente-se como uma criança no Reino da Fantasia.
É feriado, estão de folga, e resolveram passar o dia na Avenida Paulista. Almoçaram em um restaurante italiano, tomaram um café e agora fazem compras na Livraria Cultura. Mais tarde, irão ao Cine Belas Artes, assistir ao filme “Desejo e Perigo”.
CV leva os livros até o caixa, onde uma funcionária solícita e educada os guarda. Depois segue até a seção de culinária, esperando encontrar um livro de receitas para presentear a mãe de SR, dona Hilda; “sua namorada”, como ela mesma gosta de se proclamar.
SR escolhe Gun Digest Book Of Beretta Pistols, depois vai para a seção de cinema procurar algo para dona Otília, mãe de CV. Imagina levar algo sobre Hollywood.
A livraria está cheia de pessoas lendo, ouvindo música, conversando, ou simplesmente passeando. Todas parecem felizes, aproveitando a beleza, a tranqüilidade e a harmonia do lugar.
CV escolhe “160 Receitas de Molhos” e o leva até o caixa, encerrando sua compra. Depois, segue até o balcão onde os livros serão embalados.
- Tu podes embrulhar para presente?
- Todos juntos? – responde a funcionária.
- Não, são três presentes, por favor.
- Como o senhor quer os pacotes?
- Tu fazes com papel colorido, e coloca um lacinho?
- Claro..., como o senhor quiser!
SR escolhe alguns exemplares de livros sobre cinema e os leva até um dos pufs que estão espalhados na área de convivência, no vão central. Apenas um está livre, próximo a uma jovem.
- Boa tarde! Posso me sentar aqui?
A jovem, que está grávida, sorri, meio secamente.
SR senta-se e se deixa afundar no almofadão confortável, que faz aquele barulho de ar sendo expelido: “puuuuuffffffffff”.
Folheia calmamente um exemplar de Hollywood Musicals Year By Year, V.1. A jovem ao lado está em silêncio. SR percebe que algo nela chama sua atenção, mas não sabe o que é.
- Quantos meses? – pergunta.
- Desculpe? – ela responde.
- Perdão..., não quis incomodar..., perguntei quantos meses faltam para o bebê nascer.
- Estou de quatro meses..., dá para perceber? – olha para baixo com olhar terno - Minha barriga não cresceu muito...
- Parabéns! - SR sorri e a parabeniza; ela sorri e agradece.
- Ah! Tu estás aí! Já escolhestes o que vai levar? Eu já estou com a minha sacola!
- Oi CV! Já..., mas não vale olhar. Sente-se aqui que vou ao caixa e já volto.
CV também cumprimenta a jovem, antes de afundar-se no puf.
Depois de pagar pelos livros, SR dirige-se ao balcão dos pacotes.
- Você pode embrulhar para presente?
- Os dois juntos?
- Não..., são dois presentes.
- Como o senhor quer os pacotes?
- Você os faz bem bonitinhos, com papel fosco e um lacinho?
- Claro..., como o senhor quiser!
A jovem deixa a área de convivência, dirigindo-se às prateleiras de livros. CV a observa.
- Pronto CV! Já fizemos nossas compras! Vamos ao cinema?
- Vamos..., mas deixa-me falar uma coisa...
- Diga!
- Tu viste a jovem que estava aqui, no puf ao lado?
- A jovem grávida? Claro! Até dei parabéns para ela..., você também notou algo esquisito.
- Notei..., mas não sei o que é...
SR sabe que CV não vai relaxar até sossegar a pulga que ele abriga atrás da orelha. Pulga que se manifesta a qualquer hora, sem aviso.
- Vamos ver se ela ainda está na livraria? O cinema pode esperar...
- A última sessão é a meia-noite!
- Tu não ligas de dormir mais tarde?
- Claro que não CV!
Deixam as sacolas no guarda-volumes no térreo, e começam uma ronda. A amplitude da livraria, com seu imenso vão central, permite a visão de quase todo o lugar.
Andam pelo primeiro, segundo e terceiro pavimento. Não vêem a jovem.
- Acho que ela já foi embora CV!
- Vamos esperar perto do banheiro feminino...
- Feminino?
- Tu não sabes que grávidas urinam bastante?
SR acha graça, mas confia na perspicácia de CV. Posicionam-se próximos ao banheiro do terceiro pavimento. Alguns minutos se passam. Uma jovem grávida sai pela porta, devagar, com uma das mãos sobre a barriga, e começa a descer a rampa que leva ao pavimento inferior. CV e SR a seguem.
- Tu vês como ela caminha com agilidade entre as pessoas?
Ela desce a rampa com naturalidade, aproveitando a prioridade de passagem que todos lhe dão. Finda a primeira rampa, vira à esquerda.
- Ela não tem a dificuldade para caminhar que a gente vê nas mulheres em final de gravidez, tu não achas?
- Mas ela está só de quatro meses, CV. Sei por que perguntei para ela.
- Quatro meses e aquele barrigão?
SR observa mais atentamente e vê que a gravidez da jovem evoluiu bastante, da hora em que ela estava sentada no puf, até aquele momento.
- Deixa que eu falo com ela CV!
- Certo! Aguardo vocês no Café!
SR aperta o passo, ultrapassa a jovem e a aguarda próximo da porta da saída, que dá para o Conjunto Nacional. Assim que ela se aproxima, SR, discretamente, lhe diz:
- Moça, quando você passar pela porta, os alarmes vão tocar tão alto que vai parecer que há um incêndio.
Ela se assusta e imediatamente fica pálida. SR, delicadamente, pega-a pelo braço.
- Pode ficar tranqüila, não sou segurança da loja. Mas não posso permitir que continue com o que está fazendo.
- Moço..., o senhor não entende...
- Venha comigo, vamos até o Café, e lá conversaremos. Confie em mim, por favor.
Aturdida, sem saber direito o que fazer, ela se deixa levar por SR. No Café, CV já tem uma mesa à espera, com uma garrafa de água sobre ela. Levanta-se e puxa uma cadeira para a jovem.
- Sente-se aqui, por favor. Vou lhe servir um copo de água.
Ela se ajeita na cadeira e bebe um pouco. Passa de pálida a envergonhada, e fica com os olhos cheios de lágrimas.
- Por favor, não chore. – consola-a SR.
- Tu estás fazendo uma coisa errada. Somos policiais e não podemos deixá-la continuar.
- Vocês vão me prender? – pergunta como se tivesse certeza de que isso aconteceria.
CV e SR sabem que depende da história que ela irá contar. Viram que é uma jovem desorientada, que deveria ter um motivo para o que estava fazendo.
- Sou o Cabo Valdimir e meu parceiro é o Soldado Rubis.
- Meu nome é Catherine.
- Por favor, diga-nos por que está com uma barriga falsa cheia de livros! – SR fala macio, mas com autoridade.
Ela enxuga as lágrimas com a manga da blusa.
- Peguei alguns livros caros, para vender.
- Tu precisas de dinheiro para o parto? – CV, às vezes, é formal demais.
Catherine abaixa os olhos e não responde, esperando que eles entendam o que seu silêncio quer dizer. Sua postura é sóbria e altiva, de quem mantém a dignidade quando erra.
- O pai do seu bebê..., ele sabe o que você pretende fazer? – SR vai direto ao ponto.
- Não sei quem é o pai dele! – ela volta a ficar com as faces coradas, e toma mais um pouco de água.
- Tu tens alguém que cuide de você? – CV manifesta sua preocupação.
- Não, não tenho! Moro sozinha em um quarto de pensão.
- Quantos anos tu tens?
- Vinte!
- Quando planejou levar alguns livros daqui, não pensou nos alarmes? – SR quer entender a atitude dela.
- Não planejei nada..., entrei para ver o lugar, me distrair..., depois sentei lá onde você me viu..., e pensei em pegar alguns livros caros, que fossem pequenos, colocá-los em duas sacolas de plástico, uma dentro da outra; prender a alça das sacolas no sutiã, deixar as sacolas sobre a barriga, cobri-las com o vestido e segurá-las com uma das mãos.
- Você tem um trabalho?
- Tenho..., mas eles me demitirão em breve..., demitem todas as grávidas..., eu preciso do emprego..., não posso continuar assim.
- E sua família, onde está?
- Minha família sou eu!
A jovem Catherine é sincera.
- Tu tens sorte que aparecemos..., os seguranças da loja chamariam uma viatura e você seria presa e fichada por roubo.
- Eu sei..., agradeço..., eu estava fazendo uma bobagem..., mas..., estou desesperada..., preciso resolver minha situação..., o que vocês farão comigo?
SR saca um pequeno canivete que carrega preso ao cinto, do lado de dentro.
- Tome..., com cuidado, corte a alça das bolsas e deixe a sacola cair para o lado. Fique tranqüila, ninguém vai perceber.
Ela consegue cortar a alça com alguma dificuldade. A sacola escorre sob seu vestido, caindo aos seus pés. CV abaixa-se discretamente e a recolhe.
- Tu és uma menina forte! – exclama ao sentir o peso da carga que ela levava. Em seguida, levanta-se com a sacola nas mãos.
- Vou até a administração; digo que encontrei o pacote por aí. Tu ficas com ela SR!
- Pode ir CV!
- SR? CV? Vocês se tratam por siglas?
CV retorna e os três começam a conversar. Explicam para Catherine a razão de se chamarem daquela forma, e falam do seu trabalho nas ruas, com a companhia e proteção da brava e destemida Viatura 2112. Falam da adrenalina nas horas de risco, dos sentimentos a que estão expostos diariamente, cuidando um do outro, e zelando pela segurança das pessoas de bem.
Ela fala da sua infância pobre, da vinda para a cidade, da dureza dos seus dias. Mostra que por baixo das suas feições de menina, já amadureceu uma mulher.
Comem sanduíches, bebem sucos, tomam café. CV conta histórias, SR tem algumas piadas. Eles ficam a vontade com ela e ela com eles. Riem bastante.
- Venha conosco ao cinema! Já li sobre o filme, outros amigos assistiram e todos dizem que é muito bom!
Catherine aceita. Saem da livraria e do Conjunto Nacional, e param no farol de pedestres da rua Augusta.
CV fica de um lado e SR do outro, com Catherine entre eles. Cada um prende um braço em um braço dela, para protegê-la ao atravessar a rua.
Catherine sente-se querida, entre amigos, e pergunta no momento em que a luz verde acende:
- Assim de braços dados, o que nós parecemos?
- Namorados! – respondem CV e SR, simultaneamente.
O próximo capítulo de Viatura 2112 será em 7 de setembro. Ou antes.
Marcadores: Viatura 2112
Horóscopo do Dia dos Namorados
Carneiro ou Áries (21 de Março - 20 de abril)
Relaxe e aproveite a tosa.
Touro (21 de Abril - 20 de maio)
Não ligue, são coisas que colocam na sua cabeça.
Gémeos ou Gêmeos (21 de maio - 20 de Junho)
Experimente o ménage-a-trois.
Caranguejo ou Câncer (21 de Junho - 21 de julho)
Prefira relacionamentos curtos.
Leão (22 de Julho - 22 de Agosto)
É necessário mais que pose.
Virgem (23 de Agosto - 22 de Setembro)
Ainda...
Balança ou Libra (23 de Setembro - 22 de outubro)
Sexo ou dinheiro?
Escorpião (23 de Outubro - 21 de novembro)
Tenha cuidado com a sua natureza.
Sagitário (22 de Novembro - 21 de dezembro)
Acerte em alguém!
Capricórnio (22 de Dezembro - 20 de janeiro)
Chega de cabeçadas.
Aquário (21 de Janeiro - 19 de fevereiro)
Conheça novas pessoas.
Peixes (20 de Fevereiro - 20 de Março)
Morda a isca.
Marcadores: Dicas sobre nada
domingo, 7 de junho de 2009
domingo, 31 de maio de 2009
Punk Rock Táxi-mirim
Meu nome é Capitão Ócio. Venha comigo em uma corrida de taxi na São Paulo dos anos setenta, viver uma aventura com moral, para lembrar e refletir.
Vamos a ela!
Um vento frio entra pelo quebra-vento e bate direto no meu rosto; fico desperto e alerta. É um dos – muitos - truques que se deve conhecer para trabalhar na noite.
- Se incomoda se eu fumar? – respeito as pessoas que não fumam.
Meu passageiro dá de ombros, mostrando que não se importa.
Coloco um Minister na boca e aperto o botão do acendedor. Alguns segundos depois o saco do painel e acendo o cigarro. Gosto da brasa vermelha, intensa, perigosa, que o acendedor faz.
As luzes que iluminam a estrada traçam uma linha iluminada que segue sinuosa à minha frente. Meu táxi-mirim é um pequeno tatu-bola comendo cada pontinho de luz, apagando-o atrás de si.
Meu passageiro é um cara esquisito. Faz meia hora que estamos rodando, e ele está silencioso e tenso. Tenso demais para quem, supostamente, se divertia. Tenso demais para quem disse que iria pescar. Está na hora de conversarmos um pouco.
- Tem muita vadia gostosa naquela boate, não é mesmo cara? Volta e meia levo algumas delas para algum lugar, sozinhas ou acompanhadas. Tem umas que tentam ser parecidas com atrizes de cinema. Cabelo, maquiagem... Você já imaginou estar com uma atriz de cinema?
O silêncio dele me estimula a continuar.
- Quando penso em uma atriz do cinema cara, uma bem gostosa, não imagino algum lance romântico com ela, tipo dançando ou passeando de barco, ou..., sei lá! Penso logo é em estar comendo o rabo dela..., em qualquer lugar, na banheira, na poltrona do avião... Dar o meu troféu para aquela bunda premiada! Imagina comer o rabo da Maria Schneider com manteiga..., cara! Você não imagina não, cara?
- Sei quem é essa mulher aí não...
Não deve saber mesmo. Tenho dúvidas se sabe escrever o próprio nome.
Há milhares iguais a ele, vivendo do que a centrífuga do capitalismo joga para as bordas do redemoinho em que vivemos: resto.
Estamos na Via Anchieta. Passa das duas horas.
- Sou fã de rock’n’roll cara..., sabe..., hard-rock. Mas esse lance punk está fazendo minha cabeça! Ouve como os caras tocam rápido cara!
Empurro o cassete que está na boca do toca-fitas e regulo o volume.
“Now I wanna sniff some glue
Now I wanna have somethin' to do
All the kids wanna sniff some glue
All the kids want somethin' to do”
Banda nova, americana…, gravei de um vinil de coletânea.
- Não escuto isso não...
Claro que não escuta. Quase ninguém por aqui conhece.
- Está rolando uma revolução lá fora cara! Os caras estão pegando guitarra, baixo, bateria..., escrevendo umas letras e fazendo um puta som... Olha essa..., são umas meninas muito loucas!
“Hello world I'm your wild girl
I'm your ch ch ch ch ch cherry bomb”
- Para mim é só uma merda de uma barulheira..., sabe direito onde temos que sair?
- Sei...
Quem trabalha na noite não escolhe passageiro ou destino. Bêbados, drogados, michês, putas, traficantes, esquisitos, solitários, ladrões, caipiras, psicopatas, turistas, tarados..., a noite tem um pouco de tudo..., e um pouco de todos também.
Eu os observo por um cantinho do retrovisor.
Já levei uma puta esfaqueada, com o intestino saindo para fora, deitada no colo de um camarada enorme, de uns dois metros de altura. A mulher vestia uma camisola encharcada de sangue, que brilhava e refletia as luzes, como um vestido de gala sob os holofotes. Dava para ouvir o barulho de alguma coisa funcionando dentro dela..., parecendo uma esponja encharcada sendo apertada. Ela respirava como uma cadelinha afônica.
O cara pediu para deixá-los perto do rio Tamanduateí. Pagou-me o triplo do que deu a corrida, apostando que estava comprando o meu silêncio.
E estava! De que me interessava o destino de mais uma desafortunada que nasceu pobre?
- Não dá para ir mais rápido? - meu passageiro está impaciente.
- Dá, mas não quero tomar multa!
- Que porra de multa você vai levar a essa hora? – ele gesticula com as mãos ressaltando o absurdo da minha resposta.
- Cara..., você entrou no meu carro lá no Centro e me disse para onde eu devia te levar..., agora..., quem pilota o Mustang aqui sou eu!
Ficou irritado..., o trouxa. Está com pressa. Saiu da boate e pegou meu táxi para ir até uma chácara no Riacho Grande.
Perguntei-lhe se fazia idéia de quanto ia dar a corrida; bandeira 2 no Capelinha e mais cinqüenta por cento, por ser em outro município.
Respondeu que eu não precisava me preocupar. Dinheiro não seria problema.
- Já estamos chegando cara..., enquanto isso, conta como foi lá na boate..., com aquelas vadiazinhas gostosas, loucas por dinheiro e cocaína.
- Não mexo com essas coisas...
Vira-se para a janela. Vou tornar o assunto mais interessante.
- Falando sério cara! Esse barato do pó está começando a tomar conta de tudo. Não faz muito tempo, duas meninas aí no banco de trás bateram umas carreiras nas costas de um livro. Depois deram um beijo de língua e começaram a apertar os peitos uma da outra.
- É... – se ajeita no banco e continua a olhar para a escuridão lá fora.
- Queriam que eu rodasse pela cidade enquanto trepavam no meu táxi. Uma se ajoelhou e caiu de boca na outra, cara! Ficaram quase uma hora se chupando e enfiando os dedos..., peladinhas..., aqui, do meu lado. Entrei em uma avenida longa e reta, engatei a terceira, estiquei o braço direito e enchi a mão com uma bucetinha..., tinha que participar, sabe como é! E elas gemiam alto cara! Fechei os vidros para não chamar a atenção nos semáforos, e ficaram tão embaçados que até atrapalhou para dirigir. Deixei as duas em frente a um casarão no Morumbi, e elas me deram uma grana muito boa. Loucura na madrugada, cara!
Percebo sua respiração alterada..., ficou excitado..., otário.
Saiu da boate com a boca cheia d’água, entrou no táxi e disse para eu levá-lo até uma chácara onde os amigos dele estão, mais de quarenta quilômetros longe dali. Filho de uma puta! Quem vai pescar nessa hora da madrugada?
- Escuta essa então cara! Sex Pistols! Já ouviu falar?
“Don't ask us to attend cos we're not all there
Oh don't pretend cos I don't care
I don't believe illusions cos too much is real
so stop your cheap commentcos
we know what we feel”
- Já falei que não conheço essa porra! Ali é a entrada, depois do viaduto!
Saio da rodovia e entro em uma estrada de terra, meio esburacada. Meu passageiro está de olhos arregalados e semblante sério. Segura com firmeza no apoio da porta. Sigo por uns duzentos metros, bem devagar.
- É aqui! Pode parar! Acenda a luz! – meu passageiro chega ao destino dele, e aproveita para anunciar o meu.
- É um assalto, seu motorista tagarela filho de uma puta!
O trinta e oito preto parece novo em folha. Ele o aponta a uns 120º de mim. Outra pessoa aparece na janela do passageiro. Não vejo seu rosto, apenas uma arma que ela segura na altura da barriga, apontada para mim. A fraca luz do teto reflete na sua camisa amarelo ouro.
Outra coisa que quem dirige na noite sabe, é que sempre pode aparecer uma chance para reagir.
- Tira ele do carro! – é a ordem que meu passageiro dá para seu comparsa, que começa a dar a volta pela frente.
Meu passageiro, excitado com a história que contei, afundado no banco de trás, parece estar incomodado. Apóia-se no banco e se projeta para frente, para sentar-se melhor. No movimento, seu ângulo de tiro vai para uns 80º.
Com a mão direita saco o acendedor que tive o cuidado de apertar antes de ligar a luz e me lanço sobre ele. Com a mão esquerda seguro seu revólver.
Minha perna esfrega no botão do volume e o gira até o máximo.
“Don't be told what you want
Don't be told what you need
There's no future
No future
no future for you”
Enfio o acendedor no olho dele, e escuto claramente o “ssssss” do globo ocular fritando. Ele urra de dor. Tomo-lhe a arma, abaixo-me e procuro seu comparsa, que terminou de dar a volta e aparece como uma grande mancha amarela na minha janela.
Disparo um, dois, três tiros. O vidro estilhaça e um corpo cai. Sento no meu banco novamente, aponto a arma para cabeça do meu passageiro e aperto o gatilho... click!
Ele retira o acendedor do olho esquerdo; cheio de adrenalina e enlouquecido de dor, parece que vai reagir. Saco a chave de fenda comprida e pontiaguda que está enfiada em um espaço na lataria, sobre o quebra-vento; quando ele vem sobre mim o seguro com a mão direita e com a esquerda enfio a chave de fenda no seu olho direito..., até ela sofrer a resistência do osso do crânio, depois de atravessar o cérebro.
Meu passageiro amolece e cai para trás. Balbucia algumas coisas desconexas durante alguns segundos, depois se cala.
Saio do carro com cuidado. O comparsa está largado no chão com três buracos vermelhos jorrando sangue na camisa amarela. Parece morto.
Pego sua arma, é um trinta e dois, de cinco tiros. Não há nada nos seus bolsos. Afasto-me e faço pontaria em sua têmpora. A cabeça pula com o impacto.
Volto para o fusca para verificar se meu passageiro tem algo para pagar a corrida, além do trinta e oito novo que já é meu.
Mexo nos seus bolsos e encontro oito papelotes de cocaína, e algumas centenas de Cruzeiros. Nada mal..., pagam meu prejuízo.
Ele ainda respira. Coloco-o sentado com a cabeça caída para trás, com o cabo verde da chave de fenda raspando no forro do teto.
‘We're the poison
In your human machine
We're the future
Your future”
Aperto o botão “eject” e pego minha fita cassete. Retiro de baixo do banco o dinheiro que ganhei desde antes de ontem, quando peguei este carro.
Pela janela do motorista disparo os quatro tiros que restam no trinta e dois, bem em cheio no peito do meu passageiro.
- Cortesia da casa, seu filho de uma puta!
Arrasto o cadáver do comparsa e o empurro para debaixo do carro. Abro o capô da frente e pego uma mangueira; com ela esvazio o tanque, jogando a gasolina sobre o corpo e também dentro do carro. Acendo um fósforo e agora uma grande fogueira queima iluminando o breu da madrugada úmida e fria.
- Louca noite a de vocês, não foi, seus otários?
Despeço-me dos dois bandidinhos incompetentes, que não terão nova chance para se aprimorar.
Sinto pelo fusca; puxava um pouco para a direita, precisava trocar os amortecedores..., mas eu já gostava dele.
Quanto a mim, só me resta caminhar o longo caminho de volta até a cidade. Não me preocupo. Conto com a proteção da madrugada, e sempre chego em casa são e salvo.
Hoje e amanhã vou descansar. Depois, saio atrás de outro carro para roubar. Aí, o mesmo de sempre..., alterar alguns detalhes..., trocar a placa por uma placa fria, desovar o motorista em algum lugar..., e voltar para a noite alucinada da cidade, pilotando um táxi-mirim qualquer.
Moral da história
Ladrão que rouba ladrão, também acaba no caixão.
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segunda-feira, 25 de maio de 2009
Encoxando as enfermeiras
Segunda Temporada - Décimo quarto capítulo
Três e meia da tarde.
Novamente estou frente a frente com as gatinhas cor de rosa estampadas na calcinha amarelinha de fitinha e bordinhas vermelhas. Elas sorriem para mim, macias e perfumadas.
Um privilégio, estar soterrado por centenas de peças íntimas femininas. A variedade de cores, de tamanhos, de modelos, prova a diversidade desta terra abençoada.
Algumas peças são comportadas, conservadoras; outras totalmente ousadas, como esta que está em minhas mãos. Imagino que, com esse corte e desse tamanho, ela deve, inevitavelmente, gerar algum tipo de desconforto.
O barulho do molho de chaves batendo na porta de metal soa como o sinal para o recreio. Confesso que estou condicionado como o cão de Pavlov.
A chave é girada e a porta se abre, com seu rangido habitual, que incomoda meus ouvidos e me causa um arrepio. As enfermeiras saem por ela e cada uma pega o seu carrinho.
Como sempre, vão falar sobre a experiência que estão fazendo com os enfermeiros.
- Finalmente! Passamos todos eles!
- Veja você..., e você achou que era uma idéia maluca! E então..., gostou?
- Gostei! Quer dizer..., gostei..., mas esperava um pouco mais...
Dá para ouvir a risada meio amarelada delas.
- É..., eu também! Mas, na média...
- Na média? Nota 7!
- É..., que coisa..., a gente não dar nenhuma nota 10!
O silêncio que se segue mostra que minhas amigas desconhecidas estão decepcionadas. Será que são muito exigentes, ou nenhum jogador do time dos enfermeiros foi competente para satisfazê-las? Não faço idéia.
Se pudesse sair do carrinho e mostrar-me, elas colocariam as mãos espalmadas nas faces, e, de olhos arregalados e bocas fazendo biquinho, exclamariam “- Oh!”. Uma olharia para a outra e ambas diriam ao mesmo tempo “- Ah!”.
Pretensão? Claro que não!
Se é o que você pensa, é por que está chegando agora.
Sou o Encoxador Misterioso, baby, a resposta para essa dúvida que a persegue e faz seu ventre repuxar e você colocar a mão aberta sobre ele.
Conheça minha história desde o começo, e entenderá!
Não posso ajudá-las..., as desiludidas enfermeiras não são o meu público. Pelo menos não aqui, incógnito na Ala Feminina. Interessante, pensei agora, nunca ter me interessado por elas...
Param em frente ao quadro de avisos, e lêem o nome das internas escaladas para guardar as roupas de cama, e para organizar o quarto de roupas íntimas. A segunda, obviamente, terá muito mais diversão do que a primeira.
- A Patricinha vai arrumar as roupas de cama, e a..., deixa ver, alteraram aqui..., a Lourdes Miau vai guardar as roupas íntimas.
- Certo! Vamos deixar logo os carrinhos e tomar um café!
Passamos pela porta do quarto de roupas. O carrinho é deixado ao lado de uma grande mesa central, usada para qualquer tipo de arrumação. E perfeita para se deslizar por sobre ela, como já descobri.
Saio do carrinho e escondo-me sob a mesa, protegido pelas cortininhas laterais, de uma brancura meio amarelada, precisando lavar. Agora, é só aguardar a sortuda do dia..., Lourdes Miau! Hum..., quem sabe..., não é raro as pessoas justificarem seus apelidos.
O tempo normal de espera passa, e depois mais vinte e cinco minutos. E ninguém aparece.
Alguma coisa errada está acontecendo. Ouço vozes se aproximando.
- Vamos logo separar e guardar tudo isso!
- As meninas da segurança estão lá acompanhando...
- Que estranho..., não me lembro dessa nova interna..., nem bem chegou e já conversa com um monte de outras...
- Também acho! Mas, olha..., se for uma louca que mantenha as outras sob controle, é muito bem vinda!
As minhas amigas desconhecidas, por algum motivo que não importa, vieram guardar as roupas.
As duas!
Uma situação inusitada - obviamente inesperada - exige alguns segundos de reflexão.
Quantas enfermeiras já encoxei?
Tanto faz..., como posso ter certeza de que eram enfermeiras, se nunca as olhei de frente, e nunca vi um bordado ou um crachá?
Podiam ser dentistas..., fisioterapeutas..., doutoras..., hum...
E as enfermeiras, e todas as estudantes das profissões acima, todas elas se vestem de branco.
Roupa branca dá tesão até no varal!
Volto minha atenção para minha dupla de beldades e faço uma rápida, porém completa, avaliação.
- Hum..., hum...
Como são parecidas..., parece que estou vendo em dobro...
Acho que sei quem gosta dessas calcinhas pequenininhas..., hum..., as duas gostam.
Duas enfermeiras, perfeitas para o meu consolo, a minha benção, ou a minha cura.
E o que nós três poderemos ser? Poderemos ser qualquer coisa!
Toques logo abaixo dos joelhos... elas ficam surpresas. Uma parece assustada!
Rápido, mais dois toques um pouco mais para dentro, onde é mais quentinho. Assombro e satisfação!
Elas entendem bem rápido que já brincaram muito de Chapeuzinho Vermelho, e finalmente encontraram o Lobo Mau.
Olham-se com a intimidade que só as mulheres têm; ambas felizes por compartilharem com a melhor amiga tudo o que vai acontecer. Debruçam sobre as roupas passadas, ao mesmo tempo e com os mesmos gestos.
Encostam seus corpos um no outro; gêmeas siamesas, unidas pelo expectativa do prazer.
Vamos lá queridas, vamos viajar. Ocupem seus lugares em nosso tapete voador, interestelar.
Pega teu alaúde, ó Bardo, e inspira-te nas musas da alcova do teu Senhor!
“Quatro pontinhas durinhas no tecido,
gerando a faísca para a ignição."
"Ninfas conduzindo o Conde pela madrugada escura,
e o entregando nos braços da perdição."
"Potrancas de ancas musculosas,
tremendo e suportando a pressão."
"Ulisses agarrado às sereias,
cantando com elas a mais linda canção."
"O explorador e as mocinhas,
cozinhando em um caldeirão.“
Vejam queridas, os continentes encolhendo lá embaixo..., tudo ficando pequenino..., a faixa azul da estratosfera..., o brilho assustador das estrelas surgindo todas de uma vez.
Milhões de graus centígrados nos consomem, e regamos os desertos secos do planeta com nosso suor. Um trio afinado de vozes ecoa pelo quarto o êxtase da morte e ressurreição: "- Ahhhhhhhh!".
O calor infinito nos funde e modela um novo astro, um pequenino novo sol, para ficar orbitando junto a Ela, que não será mais cantada como solitária, pois finalmente terá seu par.
E as noites de Lua Cheia além de claras, serão mornas, aquecendo os corações dos homens, e restaurando a esperança para todos nós.
Acabou a viagem queridas! Aterrissar!
Duas majestosas aves brancas pousam lentamente sob uma mesa cheia de roupas espalhadas. Encolhem-se e ficam imóveis, de olhos fechados, corpos relaxados, respirando tranquilamente, senhoras de si e do lugar.
Entro rapidamente no carrinho das roupas íntimas usadas que irão para a lavanderia. Aprendi a fazer um gostoso e prático travesseiro, utilizando algumas camisetas dobradas, enfiadas dentro de uma perna de uma calça de pijama. Acomodo-me com o maior conforto possível.
Nossa..., como estou cansado..., preciso voltar a fazer flexões.
Uma dúvida me incomoda: terei ultrapassado uma fronteira perigosa?
Não sei..., o que me ocorre agora é que as astronautas também usam roupa branca.
Índice de capítulos
17) A fuga
16) Uma missão para o Profeta
15) Um troféu para o Encoxador
14) Encoxando as Enfermeiras
13) Pastoreando as Ovelhas
12) Encoxando a Beata
11) Encoxaram o Profeta
10) A empadinha, por Dante
09) A empadinha, por Zé Rola
08) A encoxada que cura
07) A fé que salva
06) Ao encontro das ovelhas
05) Na Ala Feminina
04) Um cara atrapalhado
03) Troca Perigosa
02) Big Boss
01) A visão do Profeta
Primeira temporada completa: A caça ao Encoxador Misterioso
Marcadores: Encoxando na Clínica
Pastoreando as ovelhas
Segunda temporada - Décimo terceiro capítulo
O Profeta Celestino correu os olhos pela sala onde habitualmente se reunia com as internas da ala feminina para suas pregações. Estava muito mais cheia que o normal.
“Que Renato Cordeiro nos proteja e não permita que esta quantidade de ovelhas chame a atenção das funcionárias. Qualquer problema que ocorra hoje certamente significará o fim da possibilidade de vir para cá e, consequentemente, das pregações.”
Este pensamento, entretanto, não durou um segundo sequer. Respirando fundo, iniciou sua pregação:
- Amadas irmãs, a mensagem que o Cordeiro Renascido deseja trazer ao mundo é a mensagem do amor do Pai. Não se trata do despudorado amor erótico, que deveria ser reservado exclusivamente para a procriação entre marido e mulher, com a adequada purificação antes e depois do ato vergonhoso. Nem se trata do amor fraternal, que muitas vezes disfarça uma atitude egoísta, mas aquele amor sublime, transcendente, superior a tudo.
- Não que o Pai condene totalmente o amor entre o homem e a mulher. Ele mesmo disse “Frutificai e multiplica-vos”. Mas eu acrescento, respeitem os limites! Tampouco o amor fraternal é condenado, pois em sua primeira vinda, o Cordeiro já mandava amarmos ao Pai sobre todas as coisas, e ao próximo como a nós mesmos. Muitas coisas no mundo seriam diferentes se todas as pessoas apenas seguissem este mandamento, tão simples e ao mesmo tempo tão difícil de ser seguido.
- Infelizmente, porém, na grande maioria das vezes, as demonstrações de amor fraternal que vemos não são do fundo do coração. Servem mais para que a pessoa que as realiza se auto-engrandeça, aos seus próprios olhos e aos olhos do mundo. O benefício levado ao irmão necessitado não é tão importante quanto a preocupação em transmitir uma imagem de pessoa bondosa, de alguém preocupado. De pura autopromoção.
- O amor entre o homem e a mulher, se não tiver em si a pureza do desejo do Pai de servir para a geração de filhos vai apenas tentar que os desejos e as vontades de cada um sejam realizados. O que leva a brigas, discussões e separações.
- Tudo isto ocorre porque não existe uma preocupação das pessoas com o mais puro e verdadeiro amor, aquele que transcende, supera e transforma estes outros já citados. E este verdadeiro amor já foi bastante bem definido nas escrituras: “O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece. Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não produz o mal. Não se alegra com a injustiça, mas fica feliz com a verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, e a tudo apoia.”
- Antes de assim defini-lo, o Missivista deixa bem clara a importância deste amor superior: “Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine. E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria. E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me serviria.”
- E é importante ressaltar esta passagem: “ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, se não tivesse amor, nada disso me serviria.” Ou seja, por mais que se façam obras de caridade, se estas são feitas apenas para a autopromoção de seu praticante, não agradarão ao Cordeiro. Mas, se feitas de coração, por menores que sejam, agradarão e contarão méritos junto ao Pai.
- Irmãs, Deus, através da mensagem do Cordeiro, nos chama a este verdadeiro amor, que tudo transforma e a tudo sublima. Este amor que, quando permeia as nossas relações interpessoais, santifica cada um de nossos atos. Este amor que originou um mandamento tão simples, mas tão difícil de ser realmente seguido. Este amor que muitos, ao vê-lo sendo praticado, chamarão de tolos os que o praticam. Mas lembrem-se sempre: “Não se amoldem aos padrões deste mundo, mas transformem-se pela renovação de sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade do Pai”. Desejo agora que todas possam retornar aos seus afazeres dentro da paz que o Cordeiro nos traz. Guiadas e acompanhadas por Deus. Lembro-lhes que permanecerei ainda por alguns momentos, para atender às irmãs que necessitem de alguma orientação ou palavra adicional.
Com estas palavras, o Profeta afastou-se até um dos cantos, o mais distante do ângulo de visão da porta, onde se sentou e aguardou pelas internas que, eventualmente, viriam até ele buscando um conselho mais pessoal, ou uma pequena explicação sobre algum ponto de sua fala.
A primeira delas era desconhecida dele. Aproximou-se um tanto tímida e disse, apreensiva:
- Foi a primeira vez que eu vim escutar suas palavras. Quero aprender melhor sobre esse amor que o Senhor falou, assim o que eu fizer em minha vida colocando esse amor nos meus atos, decerto compensará todo o ódio que sinto por estar presa aqui.
- Não, minha irmã. Na verdade, o que tem a fazer é orar para que o Cordeiro limpe esse ódio do seu coração. Na verdade, “Aquele que diz que está na luz, e odeia a seu irmão, até agora está em trevas. Aquele que ama a seu irmão está na luz, e nele não há escândalo, mas aquele que odeia a seu irmão está em trevas, e anda em trevas, e não sabe para onde deva ir; porque as trevas lhe cegaram os olhos”. “Não faleis mal uns dos outros. Quem fala mal de um irmão, e julga a seu irmão, fala mal da lei, e julga a lei; e, se tu julgas a lei, já não és observador da lei, mas juiz”. Ore e peça que o Pai limpe o ódio do seu coração, aprenda a perdoar e aceite ser perdoada. Depois é que poderá pedir que o Cordeiro a auxilie a amar como ele nos ama.
Outra interna a sucede:
- Profeta, o que é mais importante que eu faça para seguir as coisas que o senhor nos ensina nestes encontros?
- Irmã, em primeiro lugar, eu não ensino nada a ninguém. Apenas transmito as palavras que Renato Cordeiro um dia me ensinou. Quanto ao que fazer, o mais importante é observar o que o Cordeiro e o Pai nos pedem. “Bem-aventurados os retos em seus caminhos, que andam na lei do Senhor. Bem-aventurados os que guardam os seus testemunhos, e que o buscam com todo o coração. E não praticam iniqüidade, mas andam nos seus caminhos. Tu ordenaste os teus mandamentos, para que diligentemente os observássemos. Quem dera que os meus caminhos fossem dirigidos a observar os teus mandamentos. Então não ficaria confundido, atentando eu para todos os teus mandamentos. Louvar-te-ei com retidão de coração quando tiver aprendido os teus justos juízos. Observarei os teus estatutos; não me desampares totalmente. Com que purificará o jovem o seu caminho? Observando-o conforme a tua palavra. Com todo o meu coração te busquei; não me deixes desviar dos teus mandamentos. Escondi a tua palavra no meu coração, para eu não pecar contra ti. Bendito és tu, ó SENHOR; ensina-me os teus estatutos. Com os meus lábios declarei todos os juízos da tua boca. Folguei tanto no caminho dos teus testemunhos, como em todas as riquezas. Meditarei nos teus preceitos, e terei respeito aos teus caminhos. Recrear-me-ei nos teus estatutos; não me esquecerei da tua palavra”. Lembra-te disto e segue a palavra do Pai.
Mais uma se aproxima:
- Profeta, meu noivo me prometeu buscar-me na noite de um domingo. Iríamos fugir e nos casar. A noite passou, outras noites e outros domingos, e ele ainda não veio buscar-me. O que devo fazer?
- Irmã, se ele lhe propôs que fugissem, é evidente que não possuía intenções puras para com você. “Na verdade, na verdade vos digo que aquele que não entra pela porta no curral das ovelhas, mas sobe por outra parte, é ladrão e salteador”. “O ladrão não vem senão a roubar, a matar, e a destruir”. “Quem do imundo tirará o puro? Ninguém”. “Desvia-te dele, para que tenha repouso, até que, como o jornaleiro, tenha contentamento no seu dia.”
- Ah, mas admito que sinto falta de nossas noites de sexo ardente...
Esta frase enlouqueceu o profeta:
- Meretriz! Ainda ousa falar descaradamente sobre sua pouca vergonha? Afaste-se de mim, não quero me contaminar com a sua impureza! “Porque cova profunda é a prostituta, e poço estreito a estranha. Pois ela, como um salteador, se põe à espreita, e multiplica entre os homens os iníquos”. Portanto, meretriz, ouça a palavra do Pai: “Foste como a mulher adúltera que, em lugar de seu marido, recebe os estranhos”. “Mas o corpo não é para a prostituição, senão para o Senhor, e o Senhor para o corpo”.
Havia mais algumas internas, que esperavam do Profeta algum conforto e orientação, da forma como geralmente ele fazia, sempre usando citações da bíblia para ilustrar e, de alguma forma, reafirmar o que dizia a elas. Mas, em sua irritação, ele afastou-se, dando por encerrada sua visita no dia. Novamente disfarçou-se com as roupas de muçulmana que utilizava em suas incursões à ala feminina e seguiu para a sala dos lençóis, de onde voltaria para sua ala, oculto no carrinho de lençóis sujos. Entretanto, mesmo em meio à irritação que a última interna ouvida lhe causara, uma coisa o preocupava: Piedade, que sempre fora assídua e atenta em suas pregações, que sempre ficara após a pregação, auxiliando na orientação das outras internas, nos últimos tempos andava bastante distraída, sonhadora. E hoje simplesmente desaparecera após a pregação. Algo estranho estava acontecendo e era necessário que ele descobrisse rapidamente do que se tratava.
Por Enio Vedovello, COC.
Índice de capítulos
17) A fuga
16) Uma missão para o Profeta
15) Um troféu para o Encoxador
14) Encoxando as Enfermeiras
13) Pastoreando as Ovelhas
12) Encoxando a Beata
11) Encoxaram o Profeta
10) A empadinha, por Dante
09) A empadinha, por Zé Rola
08) A encoxada que cura
07) A fé que salva
06) Ao encontro das ovelhas
05) Na Ala Feminina
04) Um cara atrapalhado
03) Troca Perigosa
02) Big Boss
01) A visão do Profeta
Primeira temporada completa: A caça ao Encoxador Misterioso
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domingo, 24 de maio de 2009
terça-feira, 19 de maio de 2009
Poema Urgente - 1
É!
E não é?
Pois é!
Contudo
averiguo
a possibilidade
Foi?
E não foi?
Se foi!
Para além
do horizonte
deve ser
Há
uma linha contínua:
Espaço
Sideral?
Longitudinal?
Infinito!
Vale mais o homem ou o mito?
Em vão
admito:
- Sou um tolo!
É!
E não é?
Pois é!
Marcadores: Poema
sábado, 16 de maio de 2009
As batalhas de Mills e James
Meu nome é Capitão Ócio. Se já me conhece, pule essa parte.
Minha missão é contar histórias com moral, para lembrar e refletir.
A de hoje trata do conflito entre homens e nações.
Vamos à ela!
França, maio de 1918.
Seis exércitos alemães atacam ao longo de uma linha que vai de Vimy, na região de Artois, ao norte, à Reims, na Champagne, ao sul.
É o desenrolar da mais recente ofensiva alemã, na tentativa de romper as defesas aliadas e chegar até Paris.
Ao norte, o 4o Exército alemão, do General Arnin, encontra a feroz resistência das quatorze divisões do 2o Exército Britânico, comandado pelo General Plumer, e seu avanço é mais lento.
Devido ao provável sucesso da iniciativa alemã ao sul, a maioria das reservas de homens, armas e munições foi deslocada para lá, destinadas ao 3o e 5o exército britânicos, localizados em Arras e Amiens, respectivamente.
A luta no norte é aguerrida. Ambos os exércitos, o alemão, que ataca, e o inglês, que se defende, empenham-se em conquistar terreno rapidamente, evitando impasses. Aprenderam no matadouro de homens que já dura quatro longos anos, que a guerra de atrito destrói ambos os lados, quase que simultaneamente.
A 3a divisão do 2o Exército Britânico defende os arredores do complexo ferroviário da cidade de Hazebrouk. Após sucessivos ataques e contra-ataques, os ingleses obrigaram os alemães a recuar até La Bassee, onde esses se reagruparam em um conjunto de fortificações construídas durante seus dois anos de ocupação daquela região.
Uma delas, em especial, impede o progresso dos ingleses pela estrada que liga La Bassee à Lens, e está cobrando alto preço para ser conquistada.
Os ingleses elaboraram um plano arriscado, com o objetivo de colocar alguns soldados dentro do forte alemão, levando consigo, como elemento surpresa, um lança-chamas capturado dos alemães, que foram os primeiros a introduzir essa arma na frente de batalha.
Doze soldados são voluntários para compor a tropa de assalto. O Sgto. Mills, 25 anos, comanda o grupo, auxiliado pelo Cabo Stevens, 24. Os soldados rasos são David, Gareth, Frank e Emile, ingleses, todos com 20 anos de idade, procedentes de vilas da região de Yorkshire Dales; Downing, 19, Crouch, 18 e Carson, 20, são de Stevenage, próxima a Londres; Ragan, 18, e Valentine, 19, são canadenses de Ontário; e, por último, James, 17, natural de Dublin, Irlanda. O ataque será realizado na manhã do dia seguinte.
A probabilidade de sucesso é pequena, mas o custo em vidas poderá ser igualmente pequeno. Principalmente se consideradas as baixas sofridas nas tentativas anteriores, frustradas pelo poder de fogo dos alemães.
A fortificação alemã é uma trincheira de 2m a 4m de profundidade e 250m de extensão, escavada em forma de um círculo irregular de 40m de raio em torno do topo de uma elevação de aproximadamente 20m de altura. Foi construída com alvenaria e concreto, com sacos de areia cercando seu parapeito.
Suas armas são um morteiro Minenwerfer, e quatro metralhadoras MG08 que ocupam as posições norte, sul, leste e oeste, com cada par de metralhadoras apoiando-se mutuamente. A guarnição é de 60 soldados e oficiais. Domina uma grande extensão de terreno à sua volta. Terreno coberto de corpos de soldados abatidos.
Os voluntários aproximaram-se durante a madrugada, rastejando lentamente na escuridão, congelando o corpo na terra úmida e gelada, esfolando as mãos e os joelhos nos estilhaços cortantes, e misturando-se aos cadáveres quando os foguetes de fósforo branco subiam ao céu iluminando o palco do teatro dos mortos.
Já amanheceu. O sol dissolveu a névoa matutina. Vê-se a cabeça das sentinelas aparecendo nos pequenos espaços abertos na proteção de sacos de areia.
Os atacantes aguardam a hora “H” escondidos em um buraco criado pela explosão de um morteiro, bem defronte a metralhadora alemã do lado sul, a 30m de distância dela.
Dividem o espaço com cadáveres e partes de cadáveres. Como observou o Sgto. Mills, poucos poderiam ser “montados” novamente. Provavelmente faltariam algumas cabeças, que são arremessadas à maior distância quando ocorre a explosão.
Todos usam máscaras incômodas, prevenindo-se do possível uso do gás mostarda, e, oportunamente, do odor nauseabundo daquela manhã. Parecem um grupo de larvas gigantes com olhos grandes e longos narizes, que se alimentam do que está em putrefação.
James retira sorrateiramente as botas de um par de pernas ainda preso a um quadril e as calça. Botas de oficial inglês são bem melhores do que as dos soldados rasos vindos de onde ele veio.
David e Frank jogam cartas com um minúsculo baralho. Difícil dizer se conseguem ver o naipe delas através do visor embaçado das máscaras contra gás. Devem usar as cartas como uma forma de linguagem, para poderem conversar um com o outro.
Downing está sofrendo com uma dor de dente. Sente a face direita latejando, mas não há nada que possa fazer. Crouch têm o pensamento em um lugar muito diferente daquele, um lugar onde a terra está coberta de verde e os pássaros voam caçando insetos, o sol brilha atrás das nuvens e viver significa celebrar a existência, sem se preocupar se ela pode acabar a qualquer momento.
Ouve-se o barulho das colheres raspando nas marmitas alemãs, e a voz dos que conversam durante o desjejum..., despreocupadamente, como se o dia que começa não pudesse ser mais terrível do que o dia anterior.
O plano dos ingleses consiste em atacar os flancos leste e oeste da elevação, com outros soldados da divisão, que estão posicionados a uma distância maior e atacarão simultaneamente com tiros de fuzis e de metralhadoras Vickers, obrigando os alemães a se defenderem.
Um canhão Rimailho de 155 mm, recém trazido a esta linha de frente, está posicionado 800m a oeste, e bombardeará os alemães, começando pela metralhadora do lado norte.
Acreditam que o comandante alemão, vendo os soldados ingleses surgirem nos flancos, não recebendo fogo do lado sul, e sofrendo o bombardeio da sua metralhadora norte, deduzirá que o ataque principal será naquela direção, e levará sua metralhadora da posição sul para lá, deixando suas “costas” desprotegidas para os soldados do Sgto. Mills que, apoiados por uma metralhadora Lewis, atacarão até chegarem à borda, para lançarem suas granadas e depois usarem o lança-chamas.
- Mais um plano suicida... – sussurra entre dentes o Sgto. Mills para seu subalterno imediato.
- Não temos alternativa Sargento – conforma-se o Cabo Stevens. - As tentativas anteriores de ataque nas quatro direções é que foram equivocadas, principalmente sem apoio de artilharia. Graças a Deus que conseguimos o canhão...
- Concordo Stevens – responde o sargento -, é uma missão arriscada e para ela somos voluntários. Já não faz mais diferença para nós o que vai acontecer..., ainda estamos vivos, sabe-se lá por quê..., mas..., sinto pelos garotos.
- Todos muito corajosos, Sargento. É muito triste ver nossa juventude jogada nessa máquina de moer carne...
- Não só a nossa juventude Cabo..., a fina flor da população masculina da Europa está sendo aniquilada...
- Começamos mal o século XX Sargento...
- Muito mal Stevens..., muito mal...
O Sgto. Mills e o Cabo Stevens são veteranos com dois anos de serviço na frente ocidental. Juntos receberam o batismo de fogo e horror na Batalha do Somme. Ambos são de Keelby, pequena cidade ao nordeste da Inglaterra, e chegaram com mais quinze conterrâneos, que já foram mortos ou feridos.
O sargento sabe que, estatisticamente, caso tenham sucesso, apenas um quarto deles sobreviverá. Caso falhem, serão mais um lote de cadáveres apodrecendo na encosta da elevação dominada pelas metralhadoras alemãs.
Os bravos garotos serão lançados em dois grupos. O primeiro, comandado pelo Cabo Stevens, é formado por David, Gareth, Frank e Emile. Correrão os 30m carregando oito granadas cada um. O segundo grupo, que seguirá com o sargento, tem Downing, Crouch e Carson, bem treinados no combate corpo-a-corpo com baionetas, e James levando o lança-chamas, sendo ele o soldado mais vulnerável do grupo. Um tiro ou um simples estilhaço que atinja seus tanques o transformará em uma bola incandescente.
- Não gosto do irlandês, Stevens – confidencia o Sgto. Mills.
- É um bom garoto sargento – Cabo Stevens elogia o irlandês -, é disciplinado, calado. Prontificou-se para carregar o lança-chamas. E acho que ele confia no senhor..., lembro-me de que se ofereceu como voluntário assim que soube que o senhor comandaria o grupo.
- Não sei Cabo, não sei...
O Sgto. Mills não se incomodava por sentir ódio de todo um povo. Para ele, todos os irlandeses eram iguais. São vivas em sua memória as imagens da Páscoa de 1916, em Dublin, Irlanda. Imagens que o perseguem, registradas tão vivamente que não são substituídas pelas infinitamente mais terríveis que viu na guerra. Retira o relógio do bolso e confere o horário.
- Oito horas, vai começar! Ninguém se move até o meu comando! Lembrem-se das instruções e concentrem-se na ação. Quero que saibam que admiro e respeito a coragem de todos, e que estamos fazendo nosso papel na defesa do nosso país e da nossa causa.
Os soldados entreolham-se com a serenidade de animais a caminho do abate.
Um projétil de 155 mm passa sobre as cabeças dos doze homens com um assovio, e explode alguns metros à frente do alvo, anunciando o início do ataque. O choque com o solo faz a terra tremer.
Os soldados ingleses posicionados dos lados leste e oeste começam uma intensa fuzilaria contra os alemães, que revidam.
O segundo disparo do canhão cai mais próximo da metralhadora do lado norte. O oficial de tiro que acompanha a operação dá instruções aos artilheiros através de um sistema de código com bandeiras. O terceiro e o quarto disparos vão ajustando a mira, até que o quinto atinge o alvo em cheio.
Os ingleses comemoram ao ver sacos de areia e soldados alemães voarem pelos ares. Começa de ambos os lados do ataque uma operação de movimento e tiro, com uma parte dos soldados contornando a elevação e se posicionando na encosta do lado norte, para atirar na direção do buraco onde havia a metralhadora destruída. É uma manobra diversiva, para que a principal parte do plano possa ser executada. O canhão inglês dispara quatro projéteis por minuto. O morteiro alemão também é posto fora de ação.
O Sgto. Mills vê os alemães retirando a metralhadora do lado sul para substituir a destruída no lado oposto. Ordena aos dois canadenses que posicionem a Lewis e iniciem fogo de cobertura.
- Chegou nossa hora rapazes! Primeiro grupo, ao ataque!
O Cabo Stevens e os soldados David, Gareth, Frank e Emile saem do esconderijo e correm em duas equipes, uma à direita e a outra à esquerda, em direção ao buraco de metralhadora vazio, que está sendo alvejado pelos canadenses.
Os alemães nunca deixam um espaço sequer sem proteção. Oito deles estabelecem uma linha de defesa e recebem os ingleses com disparos de fuzis e das novas e temidas submetralhadoras MP18.
A Lewis dos canadenses derruba três deles, mas não impede que os demais revidem ao fogo. Emile é atingido no pescoço e corre mais alguns metros antes de desabar. Gareth é alvejado no peito e grita o nome de Frank, que olha para o companheiro ferido e vacila por um instante, tempo suficiente para ter um pedaço da cabeça arrancado pelo rombo no capacete, e morrer antes de dobrar os joelhos. Cabo Stevens corre mais para o centro entrando na linha de tiro dos canadenses, que no calor da batalha não o percebem e o acertam com fogo amigo, abrindo quatro buracos simetricamente espaçados em suas costas. David continua sua corrida e chega ao parapeito. Arma uma granada e estica o braço para arremessá-la, mas no meio do movimento sua mão é arrancada por um tiro de fuzil. Procura pelo pedaço do seu corpo e o encontra a tempo de ser vítima da explosão da granada que ele segurava.
O Sgto. Mills, com o rosto enterrado na terra e apenas os olhos para fora do buraco, vê o primeiro grupo aniquilado e o plano indo por água abaixo. O ataque coordenado do canhão e dos outros soldados continua. A sua missão precisa ter sucesso. Ordena aos soldados do segundo grupo para que o sigam e todos se lançam ao ataque. Afortunadamente, um tiro do canhão acerta o lado sul da trincheira alemã, eliminando temporariamente a resistência e dando-lhes o tempo que precisam para subir colina acima.
Correm desajeitados pelos 30m de campo aberto. Downing sente o coração bater dentro da sua garganta. Crouch escuta uma voz dentro dele dizendo que vai morrer; chora e as lágrimas embaçam sua visão; Carson quer sentir a emoção de matar alguém à baioneta.
Alcançam o parapeito, protegem-se e jogam suas granadas sobre ele. As explosões lançam no ar o som de gritos abafados, e uma mistura de terra, tijolos e gente. Uma bomba de fumaça cai aos pés deles e cinco alemães saem para o combate corpo-a-corpo. O primeiro é derrubado pela metralhadora dos canadenses, depois de lançar uma granada entre Downing e Crouch, matando-os. Ragan e Valentine, devido à fumaça, não conseguem mais fazer pontaria. Deixam o buraco e correm para apoiar o grupo, levando a metralhadora.
Carson crava sua baioneta no primeiro vulto que distingue: um alemão baixo e magro, que engasga com o próprio sangue quando a lâmina é puxada do seu peito. O Sgto. Mills dispara sua pistola explodindo a face de outro inimigo, que saia da fumaça com a baioneta em riste, a boca aberta e olhos arregalados, gritando de medo e fúria.
James protege sua carga explosiva encostando-se nos sacos de areia. Ao seu lado, o tronco de David está sentado como um boneco sem pernas e sem braços, acompanhando de boca aberta e olhar indiferente a luta que acontece.
Outro alemão dispara contra eles com sua Luger P08, mas atira primeiro em David, que é alvejado impassível. James descarrega sua pistola de tão perto que o uniforme do alemão queima ao redor do buraco das balas. O quinto inimigo estoura a barriga de Carson com tiros de MP18, e em seguida é quase cortado ao meio por uma rajada da Lewis disparada por Valentine.
O Sgto. Mills e seus três soldados remanescentes entram na fortificação. James segue para sudeste com Ragan em sua cobertura, e o sargento leva Valentine para sudoeste.
O inferno de ódio e sofrimento se completa com o fogo que James despeja. Rapidamente todo o lado sudeste arde em chamas, acendendo a pira que queima as vidas ofertadas à Deusa Morte, na celebração da infinita irracionalidade dos homens.
James mantém a chama o maior tempo possível. Além de incinerar tudo o que encontra, ela consome o oxigênio de tocas e abrigos, matando por asfixia os que não são queimados vivos.
O canhão inglês recebe ordens de cessar fogo. Os soldados que atacam pelo lado norte vêem nas labaredas que sobem o sinal que esperavam e invadem a trincheira, seguindo para os lados noroeste e nordeste. Gritam como bárbaros invadindo um castelo.
Lá dentro, as balas voam no caos instalado, derrubando homens que urram de dor. Nomes de mulheres são ditos pela última vez. As paredes são encharcadas com uma gosma suja, misturada a pedaços de tecido, que escorre para o chão.
Quando a distância entre os inimigos torna-se pequena, as baionetas e os punhais imitam as lanças e as espadas que soldados há muito mortos usaram em suas contendas. Como não há utilidade para escudos, mata-se e morre-se mais rapidamente.
James termina sua tarefa daquele lado e faz meia volta, deixando atrás de si corpos ardendo em chamas. Alguns ainda agonizando. Ragan o segue até ser vítima de uma granada inimiga e cair, com os intestinos desabando sobre suas pernas.
Saltando sobre destroços e escorregando em cadáveres, James corre para o lado sudoeste, até encontrar o Sgto. Mills e Valentine, que se protegem atrás de sacos de areia e atiram em um grupo de alemães que resiste, encurralado por eles de um lado, e por outros soldados ingleses do outro. James saca sua pistola, a recarrega e se junta a eles. O tiroteio é intenso. Os ingleses mantêm a pressão, mas os alemães conseguem resistir. Ragan não se protege o suficiente para trocar o pente da Lewis e é atingido na testa; sua cabeça se parte como uma abóbora, jogando o capacete para trás e espalhando miolos para cima e para os lados.
- Nossa situação é crítica, soldado! – grita o sargento, com pequenos pedaços do cérebro de Ragan escorrendo pela máscara.
James não diz nada. Deita-se e começa a rastejar na direção aos alemães como uma grande tartaruga metálica, com o sargento dando-lhe cobertura. Os alemães percebem os poucos disparos vindo daquele lado e decidem fugir por ali.
Deitado, James os vê vindo ao seu encontro. Espera que se aproximem e aciona sua arma cruel e monstruosa, envolvendo os inimigos com sua labareda infernal. Atrás dos alemães em chamas chegam alguns soldados ingleses, que disparam os tiros de misericórdia. A batalha está vencida.
O Sgto. Mills ordena que façam a limpeza da área, eliminando qualquer resistência.
- Prisioneiros custam caro! – é a ordem que ele dá.
Vê ao seu lado o soldado James, ofegante, enegrecido pela fumaça do combustível que queimou, e percebe que nunca esteve tão próximo assim de um irlandês. Senta-se no chão, encostando-se na parede ensangüentada. James senta-se do lado oposto. Tiram suas máscaras contra gás. O cheiro dos corpos queimando não é tão ruim.
Os tiros tornam-se cada vez mais esparsos. Alguns são precedidos de vozes soando palavras que eles não entendem, mas que lembram uma súplica ou uma prece. Depois, alguns momentos de silêncio..., que terminam em um grito de euforia de um e depois de quase todos os soldados sobreviventes. Como prêmio pela vitória, ganham mais alguns dias de vida.
O sargento limpa o rosto com a manga do uniforme, acende um cigarro e o entrega a James, que aceita sem agradecer. Depois, acende outro para si, e, enquanto fumam calados, observa o garoto irlandês. “Burro e destemido”, pensa.
Mesmo achando todos os irlandeses parecidos, nota algo familiar no olhar de James e tem a impressão de que já o viu antes, em outras circunstâncias.
- Soldado James..., já nos conhecemos de algum lugar..., antes da guerra?
James olha fixamente nos olhos do sargento, e sente seu dedo indicador, instintivamente, pressionar levemente o gatilho do lança-chamas.
Continua...
Moral da história:
Só no próximo capítulo, em 28 de junho.
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A longevidade do Rock'n'roll
1974
Em minha casa ainda não havia “aparelho de som”. Tínhamos uma vitrola, item imprescindível nas casas de família, que havia sido moderna há pelo menos dez anos. O auto-falante monaural era potente, e destacava as freqüências graves.
Abri a gaveta do toca-discos e coloquei no prato a segunda aquisição da minha recém iniciada coleção de discos de vinil:
“Masters of reality”, do Black Sabbath.
Sob a grossa agulha de cerâmica, a primeira faixa, “After Forever”..., “tisssssss” , e Iommi e Geezer começam a celebração.
“tum tum tum tum, tururum tum tum tum tum tururum tum tum tum tum"
“parará parará parará tanana“
“parará parará parará tananá”
Ozzy Osbourne irrompe pela casa, com sua voz reverberando por toda ela, como um sacerdote no templo:
“Have you ever thought about your soul - can it be saved? Or perhaps you think that when you're dead you just stay in your grave? Is God just a thought within your head or is he a part of you? Is Christ just a name that you read in a book when you were in school?”
Minha mãe grita da cozinha:
- Que coisa é essa que está tocando?
Abri a boca para responder mas só fiquei com ela aberta: naquele momento, eu não sabia o que era aquilo.
Maio de 2009
Tratando uma gripe e uma inflamação de garganta com “antis” diversos, após uma hora e meia de ônibus, duas horas e meia na fila sob temperatura de 13 graus e chuva fina, mais duas de espera na fila do gargarejo, vejo o sorriso largo do meu filho de quinze anos, ansioso pelo seu primeiro show de rock. Já esquecemos das horas de martírio. Somos só expectativa.
As luzes se apagam, uma música instrumental de introdução e...
“tchãrarã tchãrarararãrã”
“Oh come on! Close the city and tell the people that something's coming to call. Death and darkness are rushing forward to take a bite from the wall, oh!".
Iommi com sua cruz prateada pendurada sobre o peito, refletindo a luz direto nos meus olhos, Geezer fazendo o chão tremer com as cordas do seu baixo e, em toda sua feiúra, Dio, o duende que guarda a chave da porta do Inferno.
Somos envolvidos na multidão de seres primitivos em êxtase, cada um com seu passo no compasso do barulho extremo, e dançamos, cantamos e nos acotovelamos sem parar.
Uma hora e meia depois, ensopado de suor, com os ouvidos doendo e cansado de pisotear e ser pisoteado, lembro-me da minha mãe me perguntando da cozinha que música era aquela.
Vejo nas pessoas que pulam na minha frente um garoto que parece ser meu filho, totalmente tomado pelo prazer de viver o momento, e penso ter encontrado a resposta. Mas outra música começa e me esqueço do que estava pensando.
“tumtumtumtumtumtumtumtumtumtumtumtum... pam pam pam pam...”
"Oh no, here it comes again. Can't remember when we came so close to love before. Hold on, good things never last, nothing's in the past, it always seems to come again again and again and again."
…
Neon Knights! Neon Knights! All right!”
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