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Capitão Ócio apresenta Creuza, uma manicure com tato e pés no chão em "Não basta querer".

Veja também
Encoxando na Clínica em seus momentos decisivos:
Uma missão para o Profeta
Um troféu para o Encoxador

Domingo, 28 de Junho de 2009

Não basta querer

Meu nome é Capitão Ócio. Hoje tenho o prazer de trazer minha grande amiga Creuza, uma manicure e pedicure com tato e pés no chão. Ela é personagem de uma história com moral, para lembrar e refletir.
Vamos a ela.

Dizem que nos momentos que antecedem a concepção, quando estamos sendo “montados” na área de manufatura da imensa fábrica do Criador, alguns entram mais de uma vez na mesma fila e acabam adquirindo alguma qualidade em dose superior a que seria normalmente atribuída.

Dayse entrou mais de uma vez na fila da gostosura. Ela é muito, muito gostosa.
Dos pés à cabeça, qualquer parte do seu corpo pode ser utilizada como referência das medidas ideais para uma mulher, segundo o gosto vigente em nosso belo país tropical. Seu rosto não tem nenhum traço marcante, nada que possa ser considerado exótico ou diferente; é apenas bonito, e completa positivamente o conjunto.
Está com 29 anos, e é solteira. Mantém uma vida sexual relativamente intensa graças à caravana de homens que batem na sua porta; peregrinos carregados de oferendas sonhando ganhar a benção da Deusa, entrar em seu palácio e mergulhar em sua fonte infinita de prazeres.
Ela os seleciona com critério e usufrui dos escolhidos com sabedoria, extraindo-lhes o suco e jogando o bagaço fora.
Até os 25 anos nunca havia se apaixonado. Dizia que não via vantagem em estar com um homem só. Trocando de parceiro com certa freqüência, poderia ter o melhor de cada um.

Um dia, como acontece com quase todas as pessoas, pelo menos uma vez na vida, se apaixonou. Descobriu o homem para o qual daria seu coração em um pires de prata, coberto com chantili e morangos, no dia do casamento da sua irmã mais velha.
Já o conhecia de algum tempo. Mas, até o momento em que o viu no altar, empolado como o Príncipe da Pérsia, esperando pela sua irmã, que caminhava linda e radiante pelo corredor da capela em direção a ele, não tinha se dado conta do quanto seu futuro cunhado era atraente.
Nos cumprimentos após o final da cerimônia, tremeu de tesão quando o abraçou e o beijou no rosto. Sentiu o calor que lhe brotava das faces e entendeu que não descansaria até aquele suor gotejar aos borbotões sobre seu corpo, ensopando seu ventre e seus seios.

No começo viveu um terrível conflito de consciência. Procurou ajuda com uma psicóloga, que diagnosticou um leque de causas, conflitos, tendências e coisas afins, e a orientou a se afastar até que aquilo passasse.
Mas não passou. A atração sexual pelo marido da sua irmã continua arrebatadora, capaz de fazê-la sussurrar, sinceramente ou não, o nome dele no ouvido de outros homens. O passar dos anos só acentua em sua boca o gosto salgado daquele suor, e ela não descansará enquanto não descobrir quais sabores os demais fluídos do corpo dele têm.

- Não Dayse, não trabalhei no Dia dos Namorados! Imagina minha filha! O patrão até tinha me agendado. Mas o quê? Minha agenda já estava pronta, e lá estava anotado “Tirar o atraso!”. E foi o que eu fiz: peguei o meu nêgo e fiquei um dia inteiro de pernas para cima, sem miséria! Você sabe..., claro que você sabe como é!
- Essa sua unha encravada aqui está delicada, querida. Coloque o pé aqui na água morna..., isso..., agora vou enxugar..., passar esse creme gostoso nele..., massagear..., isso..., assim você relaxa..., isso. Agora coloca aqui sobre a almofada..., pronto..., vou limpar com esse produto..., agora vou pôr xilocayna no seu dedão, cobrir de levinho com essa cobertinha térmica..., está quentinho? Vamos esperar um pouco.

- E então, até agora nada? Não acredito... Claro que você não deve se sentir incompetente, claro que não. Você tem quem você quiser querida.
- Acontece que existem homens que passam a vida de solteiro galinhando. Deixam a namorada ou a noiva em casa e partem para a gandaia. Depois que casam, tornam-se fiéis como um Cavaleiro Templário, colocando a espada a serviço apenas da própria mulher.
- Está doendo? Vamos esperar mais um pouquinho. Enquanto isso os apetrechos continuam na esterilização...

- Conta..., como foi na festa de aniversário da sua sobrinha? Ele gostou do decote? Você conseguiu criar alguma situação onde vocês ficassem sozinhos? O que ele falou? Chamou você de atrevida? Que mal educado!
- Bom, pelo menos ele é cavalheiro, entende o que está acontecendo e não vai comentar com a sua irmã. Não podemos esquecer que ele tem medo de ser mal entendido e parecer que está dando em cima de você. Engraçado, não é? Nós sempre colocamos a culpa neles!

- Onde já se viu querer dar para um homem e ele não querer te comer? Tem algumas mulheres que ninguém quer comer, a gente sabe disso... Mas você, um mulherão desses...
- Vou lhe disser o que você vai fazer querida. Mas cuidado, por que depois não vai mais ter volta, e nem eu, nem você, e nem ninguém pode prever o que acontecerá, na vida dele, na sua e na da tua irmã. Você quer realmente correr o risco? Claro que eu sei que você quer, mas é sempre bom perguntar.

- De qual fruta ele mais gosta? Manga? Fácil!
- Você vai a uma casa de plantas, e compra um vaso com uma muda de mangueira. O quê? Chazinho? Que chazinho nada minha filha!
- Sabe aquela loja de lingerie lá do shopping, aquela que tem umas peças bem diferentes? Então, lá você compra a menor calcinha que te cair bem. Tem que ser cor de manga. Isso!
- Depois você compra uma embalagem bem pequenininha. Antes de colocar a calcinha na caixinha, pense bastante nele, imagine as coisas que você gostaria de fazer, imagine ele fazendo as coisas que você gostaria que ele fizesse..., até que tua frutinha fique bem molhadinha, bem cheirosinha... Isso!
- Aí você a enxuga com a calcinha, o suficiente para ela ficar com seu cheirinho. Depois dobra, coloca a calcinha na caixinha, embrulha com um papel bem bonito..., cor de manga também, é uma boa idéia. No cartão você escreve: “Essa aqui é só a casquinha da fruta!”. Manda um motoboy entregar, a planta e a caixinha, logo de manhã, no trabalho dele.
- Quando ele abrir a caixinha, querida, vai sentir o seu cheirinho entrando gostoso nas narinas... Imagina o efeito que vai causar! Logo de manhã, o cheirinho dessa frutinha gostosa, madurinha..., cheirinho novo, diferente do que ele está acostumado...

- Claro que ele vai querer saber o gosto que a fruta tem! Nem que ele tenha entrado três vezes na fila da fidelidade querida! Homem nenhum consegue resistir.
- Mas, por enquanto, vamos sofrer um pouquinho. Dê-me aqui esse pezinho lindo que vou consertar tua unha encravada...


Moral da história
Um dia, meu amigo, ela vai te pegar.

Michael Jackson

A morte de um ídolo é um marco importante na nossa percepção da passagem do tempo. É o fim da possibilidade de que ele nos traga algo novo, e a certeza de que todos os sentimentos e emoções que o trabalho dele despertou pertencem inexoravalmente ao passado.
De Michael Jackson e do Jackson Five terei sempre as lembranças dos bailinhos nas garagens, da luz negra, da câmera de eco, dos beijos, dos suores, dos sabores novos e inesperados.
Sempre que escuto "Ben" ou "I'll be there", sinto um coraçãozinho palpitando na palma da minha mão.

Valeu Michael! Pegue o James Brow e o Marvin Gaye e faça um pusta som aí no céu!

Domingo, 21 de Junho de 2009

Uma missão para o Profeta

Segunda Temporada - Décimo sexto capítulo


- Celestino, meu filho!
- Renato Cordeiro? É mesmo você?
- Sim. Você tem feito um grande trabalho em meu nome, Celestino, mas eu preciso pedir-lhe um pouco mais...
- Sua vontade é a minha lei, basta pedir...
- Sei que você tem demonstrado sua fé e empenho em seguir a minha vontade. Gostei de sua
pregação de ontem e da firmeza que você teve com aquela ovelha que falou-lhe de poucas-vergonhas. Mas existe uma ameaça rondando as pessoas que é ainda maior que a falta de pudor e o pecado da carne que você tem combatido.
- Como algo pode ser pior que isto, Mestre?
- Pode, filho. Um mal que ataca a mente e alma das pessoas, e não apenas a carne. E uma alma atormentada não consegue defender sua carne.
- E a quem devo combater? Alguém aqui dentro? Aquele depravado maldito que insiste em me desafiar?
- Não, Celestino. O inimigo, desta vez, é mais sutil, e está fora desse ambiente onde você se encontra. No momento certo você entenderá quem deve ser procurado e combatido para atender a minha vontade.
- Mas como vou sair daqui?
- Não se aflija, quando for a hora, tudo será providenciado.


O Profeta acordou de sobressalto. Sonho ou conversa real, a experiência foi bastante marcante para ele. Não conseguiu voltar a dormir, e ficou rolando na cama até o amanhecer.
Ao sair de seu quarto para o café da manhã, encontrou-se com Dante, que conversava com um novo interno, desconhecido dele. Aproximou-se.
- Bom dia!
- Profeta! Que bom vê-lo! Gostaria de apresentar-lhe um amigo, Miro Pinguinha. Nós trabalhamos juntos. Quer dizer, quando eu trabalhava, antes de vir parar aqui...
O Profeta cumprimenta o desconhecido:
- Prazer!
- Shend “O prazer é todo meu” to vocal interrrrrfashe.
O Profeta quase pulou para trás de espanto. Dante explica.
- O Miro era analista-programador, nós trabalhamos juntos. Ele tem um jeito de falar meio arrastado, parece que está sempre bêbado, por isto já tinha o apelido de “Pinguinha”. Mas agora parece que piorou, ele mistura códigos de programação em tudo o que diz. Entendi que é por isto que ele está aqui.
- Mas por que essa mistura? O que aconteceu para causar isto?
- Perform explanation “Eu comecei a tentar correr atrash de tudo que é linguagem que shaia, queria aprender para não ficar pra trás no mercado. Só que apareshe uma linguagem nova a toda hora. No começo eu mishturava os comandos das linguagens. Depoish eu comecei a mishturar os comandos em tudo que eu falo”.
- Deve ser horrível viver o tempo todo assim...
- If o senhor acha que é complicado, then multiply por muito mais...
- Eu imagino que não seja fácil. Espero que seja apenas um estresse passageiro e logo esteja bem, e fora daqui da clínica.
- Não sei... Para correr atrásh de novas linguagens tudo de novo? Ishto me desanima demais...
- Bem eu não sou médico, não posso dizer muito a respeito. Mas creio que Renato Cordeiro agirá de modo que o melhor lhe aconteça.
- Inquire “Quem é esse? O médico?”
Dante tenta explicar.
- O Profeta Celestino, aqui, diz que sua missão é anunciar a vinda de Renato Cordeiro, o Cordeiro de Deus renascido, que virá para estar entre nós.
- Virá, não, Dante. Ele já está.
- Declare “Eu quero aprender mais sobre isso, se puder”...
- Claro que pode! Sempre que possível eu realizo minhas pregações aos internos na... O que é isto?
O tumulto começou de repente. Pelo salão o Big Boss, estranhamente fora de seu quarto, avançava jogando merda para todos os lados. Os internos gritavam e tentavam fugir. No tumulto, muitos acabavam caindo e sendo atingidos pelos fedorentos projéteis.
De repente, um grito diferente se faz ouvir:
- Exclamação de Atena!
Enquanto grita, um desconhecido avança em direção ao Big Boss. Seus traços denunciam sua ascendência japonesa.
Com um poderoso Mae-Geri no queixo, o japonês derruba o Big Boss.
- Você não contava com a minha astúcia!
Theodore aproxima-se correndo, e aplica-lhe rapidamente um sossega-leão, enquanto comenta que distraiu-se cuidando do carrinho de medicamentos e esqueceu a porta do quarto aberta, mas o japonês não o escuta. Sua atenção está voltada para o pequeno grupo à sua frente.
- Oh... My... God! Dante, é você!
- Jiraya! Há quanto tempo! Como anda?
- Ah, amigo! Nem te conto... Diga-me uma coisa: estou enganado, ou acabo de derrubar o Big Boss?
- É ele mesmo. Deve ter escapado do quarto.
- O enfermeiro estava falando algo, parece que foi sem querer, querendo...
- Mas que belo golpe você deu nele! Derrubou-o de primeira...
- Graças ao Poder do Prisma Lunar. Tudo bem com você? Quem são estes?
- Este é o Miro Pinguinha, trabalhei com ele há algum tempo. O outro é o Profeta Celestino, eu o conheci aqui na clínica. É o meu guru espiritual.
- Prazer em conhecê-los.
- Quer dizer que vocês trabalharam juntos? Eu não sabia que você havia trabalhado com o Big Boss, Dante...
- Não, não trabalhei. O Jiraya trabalhou com ele em outra época, eu só o conheci quando vim para cá... Trabalhei com o Miro antes, o Jiraya eu conheci no último projeto que participei.
- E eu trabalhei antes dessa época com o Big Boss. Ele era um grande diretor, antes de surtar...
Enquanto falava, Jiraya quase atingiu o Profeta com um giro de seu braço, ao fazer a pose do dragão, como um membro do Esquadrão Relâmpago.
- Você trabalhava com ele nessa época? O que aconteceu, que até hoje eu não entendi direito?
- O mesmo que acontece a todos. A maldição de Biolon de nossas vidas. Excesso de padrões...
- Mas ter um padrão não é bom para trabalhar?
- UM padrão, sim, é bom. O problema é que aqueles incas venusianos malditos aparecem com novos padrões o tempo todo. São novas formas de avaliar e gerenciar projetos, novos aplicativos de controle, novas linguagens. É impossível ficar atualizado com tudo, mas ao mesmo tempo o mercado exige que sejamos especialistas em todos eles. Fora a verdadeira sopa de letrinhas que é a confusão de nomes e siglas. Foi esta loucura que me levou a surtar, e ao Big Boss, também. Aparentemente, também foi o que aconteceu ao nosso amigo Miro, aqui.
- MessageDisplay “De fato, meu problema foi tentar correr atrash das linguagens”.
O Profeta estava intrigado:
- Mas as empresas não tendem a se fixar em alguns poucos padrões? Não é o lógico?
- Deveria. Mas a cada dia aparecem novidades e consultores dizendo maravilhas sobre elas. Como na maioria das vezes quem toma as decisões não é quem vai trabalhar, fica difícil evitar que seja exigido.
- Mas de onde surgem tantos padrões?
- Não sei. Pode ser do vizinho marciano, de uma galáxia distante, quem sabe?
- Não acredito. Mais provável alguém mais real...
- É... Não sei... Bem, eu já ouvi dizer uma outra versão, mas sabe como é, todo mundo mente...
- E que versão é essa?
- Há quem diga que todos esses padrões são inventados por uma única pessoa. Acho difícil, mas é uma versão. Mas, mudando de assunto: Dante, percebo uma coisa interessante: somos três profissionais de TI, aqui. Isto quer dizer que logo estaremos fora, pois o poder dos três nos libertará.
- Poder dos três? Nem sei do que está falando. Mas, pela graça de Renato Cordeiro, já sei qual é o inimigo que devo enfrentar. Só falta pensar em como sair daqui...


Por Enio Vedovello - COC

Um troféu para o Encoxador

Segunda Temporada - Décimo quinto capítulo


Quatro horas da tarde.
Faz algum tempo que não me ocupo dos assuntos daqui. Deleguei o acompanhamento da rotina diária da clínica aos meus assessores, Duplo V e Zé Rola, que me fazem companhia neste momento em nossa mesa habitual, na biblioteca.
Todas as noites me entregam relatórios reportando a rotina dos enfermeiros, a movimentação de terceiros que prestam serviços diversos, fatos relevantes sobre um ou de outro interno, enfim, qualquer coisa que pareça interessante deve ser trazida ao meu conhecimento.
Não posso correr o risco de ficar desatualizado, visto que tenho pleno acesso a quase todos os cômodos e funcionários, e o desconhecimento de algum fato ou fofoca pode despertar a desconfiança de alguém. Passar algumas horas incógnito da Ala Feminina é uma aventura cheia de riscos; compensada deliciosamente pelo prazer que proporciona.
Minha dificuldade está em entender o que escrevem. Duplo V, às vezes, desenha centenas de aviõezinhos de formas e tamanhos diversos, uns em cima dos outros. Zé Rola escreve extensas laudas cheias de diagramas e linguajar técnico, de onde é preciso extrair o escasso conteúdo.
Esses são meus assessores, o melhor que consegui obter aqui, na Clínica Correcional da Pedra Grande.

O meu antagonista na clínica é o Profeta Celestino, louco de pedra que se veste de pastor, e diz que é representante de uma “entidade mística” chamada Renato Cordeiro, que deve ter sido outro maluco do mesmo naipe. Ele tem um assessor também, um camarada asqueroso, avesso a higiene pessoal de um modo geral, chamado Dante. É um cara esperto, que deve ser constantemente monitorado. Já o fizemos de palhaço uma vez, quando o jogamos e o trancamos no quarto do Big Boss. Saiu de lá coberto de merda, tomou uma rasteira do Zé Rola – que, aliás, o detesta -, e foi levado à força para um banho e depois para a solitária.
O Profeta parece ter se ocupado de alguma coisa diferente recentemente, pois não o tenho visto nos espionando, ou especulando com outros internos sobre mim.
Esse seria o assunto que gostaria de discutir com meus assessores, mas a leitura dos últimos relatórios aponta para algo muito interessante acontecendo: a Clínica recebeu vários novos internos, todos profissionais da área de Tecnologia da Informação, apresentando perturbações psíquicas e os mais variados desvios de comportamento.

- Diga-me Zé Rola, já conheceu pessoalmente algum dos novos internos?
Zé Rola aguardava ansiosamente que eu me dirigisse a ele.
- Já! Conversamos com quase todos..., um deles, em especial, pode ser útil para descobrirmos o que está acontecendo. Era especialista em metodologias.
Lúcido, Zé Rola é um sempre competente.
- Chame-o para conversarmos!
Ele toca em Duplo V, que está catatônico, mexendo as mãos como se segurasse um manche, comandando um avião.
- Duplo V, vá lá chamar o Mister Sigla! Diga-lhe que está na hora da reunião! – ordena-lhe Zé Rola.
- Manda quem pode, obedece quem tem juízo. – Duplo V coloca seus ditados admiravelmente.
- Mister Sigla? Reunião? – pergunto.
- Você já vai entender... – Zé Rola deixa o mistério no ar.

Duas horas e quinze em ponto, um senhor de meia idade, barbeado, penteado e de terno, se junta a nós.
- Como vai o senhor? – cumprimento-o cordialmente.
- VB! – ele responde.
- Vou Bem – Duplo V traduz quase simultaneamente.
Zé Rola pisca para mim, e entendo que Duplo V é o tradutor das coisas que Mister Sigla fala. Interessante como alguns loucos possuem afinidades e se complementam em suas maluquices. Tomo a iniciativa da conversa e passo a fazer perguntas pontuais.
- O senhor sabe por que está aqui?
- COBIT! – depois de responder, faz alguma anotação no caderno que abriu sobre a mesa.
- Comecei Ouvindo Besouros Imitando Tamanduás! – é a tradução de Duplo V.
Talvez Mister Sigla esteja utilizando alguma figura de linguagem. Em tempo, mais do que apropriado o apelido que Zé Rola lhe deu.
- O que o senhor fazia antes de vir para cá?
- JAVA! – nova anotação no caderno.
- Julgava, Avaliava, Validava, Apitava! – Duplo V poderia trabalhar com tradução simultânea das babaquices que são ditas diariamente, nos escritórios pelo país afora.
Zé Rola entra subitamente em seu estado canino, com a língua de fora e olhar perdido, balançando a cabeça, bobo como um cachorro da raça Boxer. Temporariamente, não poderá me ajudar.
Continuo meu diálogo com Mister Sigla.
- O senhor sabe que estamos em uma clínica para pessoas perturbadas, e que todos aqui, menos eu, são desmiolados?
- TCP-IP!
- Tenho Conhecimento Pleno, Inferi Probabilidades – Duplo V traduz pontualmente.
- O senhor tem alguma idéia sobre o que aconteceu consigo?
- PMI!
- Pressão Muito Intensa!
Faz sentido a resposta. Talvez Mister Sigla tenha uma idéia da causa intrínseca do seu problema.
- O senhor saberia dizer o que fez com que o PMI lhe causasse um COBIT?
Ele não responde imediatamente, parece pensar por alguns instantes.
- CTRL-ALT-DEL!
- Comi Trivial Ravióli Libanês, Alteração Linear Transcendente, Delírio Estético Leve. – Duplo V trava e retorna ao seu estado catatônico.
Fico sem tradutor. De qualquer forma, com tradução ou não, pessoas que falam usando siglas, no fundo, nada têm para dizer. Vou dispensar meu interlocutor.
- Nosso tempo acabou! O senhor não tem mais uma reunião agendada?
- SOA ITIL! CRM! – é a sua saudação.
Levanta-se e dirige-se a uma mesa próxima, onde estão o Profeta Celestino, o Dante e mais um dos internos novos. Ninguém dá bola para ele, que vai tentar a sorte com outro grupo, em uma mesa mais distante.

Não estou satisfeito. Preciso ficar a par do que está acontecendo.
Theodore Roosevelt, o enfermeiro chefe, chega trazendo pelo braço outro interno que desconheço.
- Oi..., não quero atrapalhar..., mas acontece que este interno aqui estava desenhando diagramas na parede do banheiro. Posso deixá-lo aqui com vocês?
Concordo. Gosto do Theodore e do jeitão dele, da sua simplicidade beirando a estupidez. Sempre posso utilizá-lo em algo útil para mim. Entrega-me um papel de onde o interno copiava o diagrama quando foi pego em flagrante, depois se retira.
O novato me lembra um desses pirados do cinema..., acho que o Emmett Brown, um pouco menos descabelado. Agora somos quatro pessoas na mesa, e sou o único são dentre elas.
- Vamos estabelecer uma relação 1 para 1? – ele se manifesta.
- Por que não? – respondo. Não fosse ele vindo da área de TI, eu até poderia imaginar segundas intenções.
- Qual o domínio do seu problema?

A pergunta que me fez é técnica demais. Porém, talvez seja exatamente esse o caminho que eu deva seguir. Vou experimentar.
- Loucura..., demência..., ramo..., especialidade. – Apresento os atributos principais do meu problema.
Ele coloca uma mão no queixo e com a outra começa a escrever no ar.
- Loucura, alfanumérico de 30, demência, campo lógico, valendo “Sim” ou “Não”..., ramo, chave primária; especialidade, chave primária...; chave composta: ramo e especialidade!
Arregala os olhos pensando ter inventado a roda. Vamos ver seu tempo de resposta para meu questionamento.
- Quero saber todas as doenças possíveis no ramo da Tecnologia da Informação.
Num nanosegundo, ele responde.
- Peste bubônica, câncer, pneumonia, raiva, rubéola, tuberculose, anemia, rancor, cisticircose, caxumba, difteria, encefalite, faringite, gripe e leucemia...
Será que o Banco de Dados ambulante sentado à minha mesa conseguiria extrair algo comum a todas as doenças que afligem os profissionais de TI?
- Relacione todas as doenças extraindo causas comuns.
Desta vez, a resposta demora dois nanosegundos.
- “Padronização, normalização, metodologia, desorganização”!
Muito bom! Vou aprofundar a pesquisa.
- Identifique informações comuns para “padronização” e “desorganização”.
Desta vez ele fica em silêncio por vários minutos. Chego a pensar que está travado. Subitamente, apresenta sua resposta.
- “Domínio”, ”Dominação Padrão”,“Dominação Feminina padrão”,”Dominação Feminina padronizadora”.
- “Domínio”, ”Dominação Padrão”,“Dominação Feminina padrão”,”Dominação Feminina padronizadora”.
- “Domínio”, ”Dominação Padrão”,“Dominação Feminina padrão”,”Dominação Feminina padronizadora”.
- “Domínio”, ”Dominação Padrão”,“Dominação Feminina padrão”,”Dominação Feminina padronizadora”.
- “Domínio”, ”Dominação Padrão”,“Dominação Feminina padrão”,”Dominação Feminina padronizadora”.
...
Não para de repetir a mesma coisa, o pobre coitado. Chamo um dos enfermeiros e peço que o levem para o bosque que há ao lado da biblioteca. Fico em companhia dos birutas de sempre.

Interessantes em todos os sentidos as informações que ele “processou”.
Primeiro, analiso a questão dos profissionais de TI serem maioria aqui na Clínica. O que eles têm em comum? Eram profissionais com ocupações de responsabilidade, participando de projetos em grandes instituições comerciais e financeiras.
Big Boss, por exemplo. Era CEO de uma consultoria multinacional. Todo poderoso, respeitado como um Deus por seus Diretores, Gerentes e Coordenadores, que o seguiam como devotos, flagelando a si e aos subalternos com chicotadas de stress e excesso de trabalho. Um belo dia, Big Boss começou a cagar na mão e jogar a merda nas pessoas mais próximas. Hoje vive trancado em seu quarto. Dizem que acumula merda para jogar no primeiro que aparecer.
Duplo V é outro caso. Gerenciava projetos. Um dia tirou a roupa e saiu correndo pelado, com seu corpanzil de hipopótamo obeso e sua cabecinha de ovo cozido, balançando suas gorduras pelos corredores.
Zé Rola trabalhava com TI. Dante, o assessor do Profeta Celestino, também.
Observando com atenção, conto mais de quinze novos internos. Alguns andam pela biblioteca, carregando livros que não lêem. Outros conversam entre si, com todos falando ao mesmo tempo e ninguém se entendendo. Será que estamos a caminho de uma nova Babilônia?

Agora, a questão que realmente me interessa: “Dominação Feminina padronizadora”.
Minha intuição treinada nos campos de batalha, aliada a meu instinto de lutador de artes marciais, indica que há uma mulher por trás do que está acontecendo. Uma mulher poderosa!
- Hum..., hum..., uma mulher poderosa..., hum!
Já estava na hora de aparecer um motivo para sair daqui. Estou acomodado demais. Acostumei-me a visitar a Ala Feminina com certa freqüência para, lá, encoxar a interna que aparecesse. Claro que, na média, a qualidade era sofrível. Mas tive ótimos momentos, com a Jô Gozô, a Piedade e principalmente, com as duas enfermeiras. Porém, estaria condenado a essa rotina?

Não, claro que não! Sou o Encoxador Misterioso, baby. A resposta para a comichão que você sente de repente, e que ninguém ainda conseguiu curar.
Avise o Comissário Gordon para ligar o holofote pois, na primeira oportunidade, voltarei às ruas, para investigar, descobrir, alcançar e encoxar aquela que será o maior troféu da minha carreira, aquela a qual chamarei, a partir de agora, de “A Grande Padronizadora”.

De repente, vários internos começam a correr em direção a porta, passando pela minha mesa. Gritam apavorados.
Big Boss escapou! Carrega um balde de bosta e começa a jogá-la em todos. Levanto-me e corro. Duplo V e Zé Rola ficam lá, em transe. Coitados...

Quinta-feira, 11 de Junho de 2009

Palavras "Te amo!" não ditas

Uma da tarde e estamos sentados em um banquinho no meio da praça, depois do almoço e antes do cafezinho.
Há um restaurante indiano defronte a ela. O dono do restaurante me impressiona pelo tom da sua pele, e acho que a presença dele, do lado de fora, falando com os fregueses, dá um toque exótico ao lugar.
Você está sorrindo para mim, tão de perto, tão pertinho..., e de repente estamos nos beijando. Sinto pela primeira vez a maciez dos seus cabelos e a doçura da sua boca.
As palavras “Te amo!” não são ditas; são riscadas com a ponta de uma Urumi no lado de dentro do meu peito.

Parado na janela do bangalô, sinto no pescoço o vento amenizando o maravilhoso calor do Caribe. As ondas batem nas pedras logo ali, bem perto, e as gotas de água salgada vêm com ele, ajudando-o a me refrescar.
Minha Nikon MF está pronta. A luz entra pela janela e pelas frestas das paredes de madeira entrelaçada, e ilumina a porta rústica do box do chuveiro. De repente, ela se abre.
Você toma um susto, joga as mãos para cima, colando no corpo os cotovelos, dá um gritinho e um pulinho, desses de jogar os pés para trás. Seu rosto se ilumina com um sorriso doce, de menina.
O “click” chama a luz para registrar em negativo a imagem da fadinha branquinha e nuazinha, de lindos cabelos vermelhos e asas de cristal, que flutua no meu banheiro.
As palavras “Te amo!” não são ditas; ficam gravadas “!oma eT".

Dentro de um táxi, em uma noite de inverno, passamos pelo Obelisco do Ibirapuera. Da minha janela vejo a 23 de maio, com a enguia de luz amarela e a serpente de luz vermelha seguindo seus caminhos opostos e paralelos.
Os edifícios à esquerda..., suas paredes de janelas, escuras ou iluminadas, são um grande mosaico de pontinhos que se estende até o horizonte. As gigantescas antenas coloridas das TVs me lembram um filme de monstro, japonês.
Do outro lado do banco, você está de perfil. Usa boina e cachecol. Seu rosto se desenha a cada luz que passa pela janela. Bela, feminina, cosmopolita, mulher do mundo; você está aqui, mas poderia estar em qualquer lugar.
Ao som da música nos imagino em um táxi em alguma cidade do planeta; na sua noite, nas suas ruas, com suas luzes e seus amantes abraçados sussurrando as coisas que têm nome e significado para qualquer um que se dispuser a amar.
As palavras “Te amo!” não são ditas, pois, quando eu ia dizê-las, você olhou para mim. Hipnotizado, com as palavras presas na garganta, fiquei em silêncio, ouvindo o cantor no rádio cantar:
“- I love you”
“- I love you”
“- I lo-ve y-ouuuuuuuuuu”



Para Désirée

Imagine

Um casal de namorados que influenciou a sua vida.

Viatura 2112 - Presentes

O Cabo Valdimir (CV) está na seção de livros de design.
Folheia um exemplar de Equestrean Style, sobre o uso de temas eqüestres na decoração. Sob o braço esquerdo prende um exemplar de Hatch Show Print Rodeo Journal, que já decidiu comprar.
Junto à prateleira cheia de livros sobre armas diversas, o Soldado Rubis (SR) sente-se como uma criança no Reino da Fantasia.
É feriado, estão de folga, e resolveram passar o dia na Avenida Paulista. Almoçaram em um restaurante italiano, tomaram um café e agora fazem compras na Livraria Cultura. Mais tarde, irão ao Cine Belas Artes, assistir ao filme “Desejo e Perigo”.
CV leva os livros até o caixa, onde uma funcionária solícita e educada os guarda. Depois segue até a seção de culinária, esperando encontrar um livro de receitas para presentear a mãe de SR, dona Hilda; “sua namorada”, como ela mesma gosta de se proclamar.
SR escolhe Gun Digest Book Of Beretta Pistols, depois vai para a seção de cinema procurar algo para dona Otília, mãe de CV. Imagina levar algo sobre Hollywood.
A livraria está cheia de pessoas lendo, ouvindo música, conversando, ou simplesmente passeando. Todas parecem felizes, aproveitando a beleza, a tranqüilidade e a harmonia do lugar.

CV escolhe “160 Receitas de Molhos” e o leva até o caixa, encerrando sua compra. Depois, segue até o balcão onde os livros serão embalados.
- Tu podes embrulhar para presente?
- Todos juntos? – responde a funcionária.
- Não, são três presentes, por favor.
- Como o senhor quer os pacotes?
- Tu fazes com papel colorido, e coloca um lacinho?
- Claro..., como o senhor quiser!

SR escolhe alguns exemplares de livros sobre cinema e os leva até um dos pufs que estão espalhados na área de convivência, no vão central. Apenas um está livre, próximo a uma jovem.
- Boa tarde! Posso me sentar aqui?
A jovem, que está grávida, sorri, meio secamente.
SR senta-se e se deixa afundar no almofadão confortável, que faz aquele barulho de ar sendo expelido: “puuuuuffffffffff”.
Folheia calmamente um exemplar de Hollywood Musicals Year By Year, V.1. A jovem ao lado está em silêncio. SR percebe que algo nela chama sua atenção, mas não sabe o que é.
- Quantos meses? – pergunta.
- Desculpe? – ela responde.
- Perdão..., não quis incomodar..., perguntei quantos meses faltam para o bebê nascer.
- Estou de quatro meses..., dá para perceber? – olha para baixo com olhar terno - Minha barriga não cresceu muito...
- Parabéns! - SR sorri e a parabeniza; ela sorri e agradece.

- Ah! Tu estás aí! Já escolhestes o que vai levar? Eu já estou com a minha sacola!
- Oi CV! Já..., mas não vale olhar. Sente-se aqui que vou ao caixa e já volto.
CV também cumprimenta a jovem, antes de afundar-se no puf.
Depois de pagar pelos livros, SR dirige-se ao balcão dos pacotes.
- Você pode embrulhar para presente?
- Os dois juntos?
- Não..., são dois presentes.
- Como o senhor quer os pacotes?
- Você os faz bem bonitinhos, com papel fosco e um lacinho?
- Claro..., como o senhor quiser!

A jovem deixa a área de convivência, dirigindo-se às prateleiras de livros. CV a observa.
- Pronto CV! Já fizemos nossas compras! Vamos ao cinema?
- Vamos..., mas deixa-me falar uma coisa...
- Diga!
- Tu viste a jovem que estava aqui, no puf ao lado?
- A jovem grávida? Claro! Até dei parabéns para ela..., você também notou algo esquisito.
- Notei..., mas não sei o que é...
SR sabe que CV não vai relaxar até sossegar a pulga que ele abriga atrás da orelha. Pulga que se manifesta a qualquer hora, sem aviso.
- Vamos ver se ela ainda está na livraria? O cinema pode esperar...
- A última sessão é a meia-noite!
- Tu não ligas de dormir mais tarde?
- Claro que não CV!

Deixam as sacolas no guarda-volumes no térreo, e começam uma ronda. A amplitude da livraria, com seu imenso vão central, permite a visão de quase todo o lugar.
Andam pelo primeiro, segundo e terceiro pavimento. Não vêem a jovem.
- Acho que ela já foi embora CV!
- Vamos esperar perto do banheiro feminino...
- Feminino?
- Tu não sabes que grávidas urinam bastante?
SR acha graça, mas confia na perspicácia de CV. Posicionam-se próximos ao banheiro do terceiro pavimento. Alguns minutos se passam. Uma jovem grávida sai pela porta, devagar, com uma das mãos sobre a barriga, e começa a descer a rampa que leva ao pavimento inferior. CV e SR a seguem.
- Tu vês como ela caminha com agilidade entre as pessoas?
Ela desce a rampa com naturalidade, aproveitando a prioridade de passagem que todos lhe dão. Finda a primeira rampa, vira à esquerda.
- Ela não tem a dificuldade para caminhar que a gente vê nas mulheres em final de gravidez, tu não achas?
- Mas ela está só de quatro meses, CV. Sei por que perguntei para ela.
- Quatro meses e aquele barrigão?
SR observa mais atentamente e vê que a gravidez da jovem evoluiu bastante, da hora em que ela estava sentada no puf, até aquele momento.
- Deixa que eu falo com ela CV!
- Certo! Aguardo vocês no Café!

SR aperta o passo, ultrapassa a jovem e a aguarda próximo da porta da saída, que dá para o Conjunto Nacional. Assim que ela se aproxima, SR, discretamente, lhe diz:
- Moça, quando você passar pela porta, os alarmes vão tocar tão alto que vai parecer que há um incêndio.
Ela se assusta e imediatamente fica pálida. SR, delicadamente, pega-a pelo braço.
- Pode ficar tranqüila, não sou segurança da loja. Mas não posso permitir que continue com o que está fazendo.
- Moço..., o senhor não entende...
- Venha comigo, vamos até o Café, e lá conversaremos. Confie em mim, por favor.
Aturdida, sem saber direito o que fazer, ela se deixa levar por SR. No Café, CV já tem uma mesa à espera, com uma garrafa de água sobre ela. Levanta-se e puxa uma cadeira para a jovem.
- Sente-se aqui, por favor. Vou lhe servir um copo de água.
Ela se ajeita na cadeira e bebe um pouco. Passa de pálida a envergonhada, e fica com os olhos cheios de lágrimas.

- Por favor, não chore. – consola-a SR.
- Tu estás fazendo uma coisa errada. Somos policiais e não podemos deixá-la continuar.
- Vocês vão me prender? – pergunta como se tivesse certeza de que isso aconteceria.
CV e SR sabem que depende da história que ela irá contar. Viram que é uma jovem desorientada, que deveria ter um motivo para o que estava fazendo.
- Sou o Cabo Valdimir e meu parceiro é o Soldado Rubis.
- Meu nome é Catherine.
- Por favor, diga-nos por que está com uma barriga falsa cheia de livros! – SR fala macio, mas com autoridade.

Ela enxuga as lágrimas com a manga da blusa.
- Peguei alguns livros caros, para vender.
- Tu precisas de dinheiro para o parto? – CV, às vezes, é formal demais.
Catherine abaixa os olhos e não responde, esperando que eles entendam o que seu silêncio quer dizer. Sua postura é sóbria e altiva, de quem mantém a dignidade quando erra.
- O pai do seu bebê..., ele sabe o que você pretende fazer? – SR vai direto ao ponto.
- Não sei quem é o pai dele! – ela volta a ficar com as faces coradas, e toma mais um pouco de água.
- Tu tens alguém que cuide de você? – CV manifesta sua preocupação.
- Não, não tenho! Moro sozinha em um quarto de pensão.
- Quantos anos tu tens?
- Vinte!

- Quando planejou levar alguns livros daqui, não pensou nos alarmes? – SR quer entender a atitude dela.
- Não planejei nada..., entrei para ver o lugar, me distrair..., depois sentei lá onde você me viu..., e pensei em pegar alguns livros caros, que fossem pequenos, colocá-los em duas sacolas de plástico, uma dentro da outra; prender a alça das sacolas no sutiã, deixar as sacolas sobre a barriga, cobri-las com o vestido e segurá-las com uma das mãos.
- Você tem um trabalho?
- Tenho..., mas eles me demitirão em breve..., demitem todas as grávidas..., eu preciso do emprego..., não posso continuar assim.
- E sua família, onde está?
- Minha família sou eu!

A jovem Catherine é sincera.
- Tu tens sorte que aparecemos..., os seguranças da loja chamariam uma viatura e você seria presa e fichada por roubo.
- Eu sei..., agradeço..., eu estava fazendo uma bobagem..., mas..., estou desesperada..., preciso resolver minha situação..., o que vocês farão comigo?
SR saca um pequeno canivete que carrega preso ao cinto, do lado de dentro.
- Tome..., com cuidado, corte a alça das bolsas e deixe a sacola cair para o lado. Fique tranqüila, ninguém vai perceber.
Ela consegue cortar a alça com alguma dificuldade. A sacola escorre sob seu vestido, caindo aos seus pés. CV abaixa-se discretamente e a recolhe.
- Tu és uma menina forte! – exclama ao sentir o peso da carga que ela levava. Em seguida, levanta-se com a sacola nas mãos.
- Vou até a administração; digo que encontrei o pacote por aí. Tu ficas com ela SR!
- Pode ir CV!
- SR? CV? Vocês se tratam por siglas?

CV retorna e os três começam a conversar. Explicam para Catherine a razão de se chamarem daquela forma, e falam do seu trabalho nas ruas, com a companhia e proteção da brava e destemida Viatura 2112. Falam da adrenalina nas horas de risco, dos sentimentos a que estão expostos diariamente, cuidando um do outro, e zelando pela segurança das pessoas de bem.
Ela fala da sua infância pobre, da vinda para a cidade, da dureza dos seus dias. Mostra que por baixo das suas feições de menina, já amadureceu uma mulher.
Comem sanduíches, bebem sucos, tomam café. CV conta histórias, SR tem algumas piadas. Eles ficam a vontade com ela e ela com eles. Riem bastante.
- Venha conosco ao cinema! Já li sobre o filme, outros amigos assistiram e todos dizem que é muito bom!
Catherine aceita. Saem da livraria e do Conjunto Nacional, e param no farol de pedestres da rua Augusta.
CV fica de um lado e SR do outro, com Catherine entre eles. Cada um prende um braço em um braço dela, para protegê-la ao atravessar a rua.
Catherine sente-se querida, entre amigos, e pergunta no momento em que a luz verde acende:
- Assim de braços dados, o que nós parecemos?
- Namorados! – respondem CV e SR, simultaneamente.


O próximo capítulo de Viatura 2112 será em 7 de setembro. Ou antes.

Horóscopo do Dia dos Namorados

Carneiro ou Áries (21 de Março - 20 de abril)

Relaxe e aproveite a tosa.

Touro (21 de Abril - 20 de maio)

Não ligue, são coisas que colocam na sua cabeça.

Gémeos ou Gêmeos (21 de maio - 20 de Junho)

Experimente o ménage-a-trois.

Caranguejo ou Câncer (21 de Junho - 21 de julho)

Prefira relacionamentos curtos.

Leão (22 de Julho - 22 de Agosto)

É necessário mais que pose.

Virgem (23 de Agosto - 22 de Setembro)

Ainda...

Balança ou Libra (23 de Setembro - 22 de outubro)

Sexo ou dinheiro?

Escorpião (23 de Outubro - 21 de novembro)

Tenha cuidado com a sua natureza.

Sagitário (22 de Novembro - 21 de dezembro)

Acerte em alguém!

Capricórnio (22 de Dezembro - 20 de janeiro)

Chega de cabeçadas.

Aquário (21 de Janeiro - 19 de fevereiro)

Conheça novas pessoas.

Peixes (20 de Fevereiro - 20 de Março)

Morda a isca.

Álcool Man em: In Love


Domingo, 7 de Junho de 2009

Inspiração: Stones

Wordle: NI 14

Inspiração: Ga-a-go

Wordle: NI 13

Inspiração: Dualidade

Wordle: NI 12

Inspiração: Rumo

Wordle: NI 11

Inspiração: Escuro

Wordle: N 10

Inspiração: Matemática

Wordle: NI 7

Inspiração: Erótica

Wordle: NI 6

Inspiração: Embromeichon

Wordle: ni 5

Inspiração: Concreta

Wordle: NI 3

Domingo, 31 de Maio de 2009

Punk Rock Táxi-mirim

Meu nome é Capitão Ócio. Venha comigo em uma corrida de taxi na São Paulo dos anos setenta, viver uma aventura com moral, para lembrar e refletir.
Vamos a ela!

Um vento frio entra pelo quebra-vento e bate direto no meu rosto; fico desperto e alerta. É um dos – muitos - truques que se deve conhecer para trabalhar na noite.
- Se incomoda se eu fumar? – respeito as pessoas que não fumam.
Meu passageiro dá de ombros, mostrando que não se importa.
Coloco um Minister na boca e aperto o botão do acendedor. Alguns segundos depois o saco do painel e acendo o cigarro. Gosto da brasa vermelha, intensa, perigosa, que o acendedor faz.
As luzes que iluminam a estrada traçam uma linha iluminada que segue sinuosa à minha frente. Meu táxi-mirim é um pequeno tatu-bola comendo cada pontinho de luz, apagando-o atrás de si.
Meu passageiro é um cara esquisito. Faz meia hora que estamos rodando, e ele está silencioso e tenso. Tenso demais para quem, supostamente, se divertia. Tenso demais para quem disse que iria pescar. Está na hora de conversarmos um pouco.

- Tem muita vadia gostosa naquela boate, não é mesmo cara? Volta e meia levo algumas delas para algum lugar, sozinhas ou acompanhadas. Tem umas que tentam ser parecidas com atrizes de cinema. Cabelo, maquiagem... Você já imaginou estar com uma atriz de cinema?
O silêncio dele me estimula a continuar.
- Quando penso em uma atriz do cinema cara, uma bem gostosa, não imagino algum lance romântico com ela, tipo dançando ou passeando de barco, ou..., sei lá! Penso logo é em estar comendo o rabo dela..., em qualquer lugar, na banheira, na poltrona do avião... Dar o meu troféu para aquela bunda premiada! Imagina comer o rabo da Maria Schneider com manteiga..., cara! Você não imagina não, cara?
- Sei quem é essa mulher aí não...
Não deve saber mesmo. Tenho dúvidas se sabe escrever o próprio nome.
Há milhares iguais a ele, vivendo do que a centrífuga do capitalismo joga para as bordas do redemoinho em que vivemos: resto.
Estamos na Via Anchieta. Passa das duas horas.

- Sou fã de rock’n’roll cara..., sabe..., hard-rock. Mas esse lance punk está fazendo minha cabeça! Ouve como os caras tocam rápido cara!
Empurro o cassete que está na boca do toca-fitas e regulo o volume.
“Now I wanna sniff some glue
Now I wanna have somethin' to do
All the kids wanna sniff some glue
All the kids want somethin' to do”
Banda nova, americana…, gravei de um vinil de coletânea.
- Não escuto isso não...
Claro que não escuta. Quase ninguém por aqui conhece.
- Está rolando uma revolução lá fora cara! Os caras estão pegando guitarra, baixo, bateria..., escrevendo umas letras e fazendo um puta som... Olha essa..., são umas meninas muito loucas!
“Hello world I'm your wild girl
I'm your ch ch ch ch ch cherry bomb”
- Para mim é só uma merda de uma barulheira..., sabe direito onde temos que sair?
- Sei...
Quem trabalha na noite não escolhe passageiro ou destino. Bêbados, drogados, michês, putas, traficantes, esquisitos, solitários, ladrões, caipiras, psicopatas, turistas, tarados..., a noite tem um pouco de tudo..., e um pouco de todos também.
Eu os observo por um cantinho do retrovisor.

Já levei uma puta esfaqueada, com o intestino saindo para fora, deitada no colo de um camarada enorme, de uns dois metros de altura. A mulher vestia uma camisola encharcada de sangue, que brilhava e refletia as luzes, como um vestido de gala sob os holofotes. Dava para ouvir o barulho de alguma coisa funcionando dentro dela..., parecendo uma esponja encharcada sendo apertada. Ela respirava como uma cadelinha afônica.
O cara pediu para deixá-los perto do rio Tamanduateí. Pagou-me o triplo do que deu a corrida, apostando que estava comprando o meu silêncio.
E estava! De que me interessava o destino de mais uma desafortunada que nasceu pobre?

- Não dá para ir mais rápido? - meu passageiro está impaciente.
- Dá, mas não quero tomar multa!
- Que porra de multa você vai levar a essa hora? – ele gesticula com as mãos ressaltando o absurdo da minha resposta.
- Cara..., você entrou no meu carro lá no Centro e me disse para onde eu devia te levar..., agora..., quem pilota o Mustang aqui sou eu!
Ficou irritado..., o trouxa. Está com pressa. Saiu da boate e pegou meu táxi para ir até uma chácara no Riacho Grande.
Perguntei-lhe se fazia idéia de quanto ia dar a corrida; bandeira 2 no Capelinha e mais cinqüenta por cento, por ser em outro município.
Respondeu que eu não precisava me preocupar. Dinheiro não seria problema.
- Já estamos chegando cara..., enquanto isso, conta como foi lá na boate..., com aquelas vadiazinhas gostosas, loucas por dinheiro e cocaína.
- Não mexo com essas coisas...
Vira-se para a janela. Vou tornar o assunto mais interessante.

- Falando sério cara! Esse barato do pó está começando a tomar conta de tudo. Não faz muito tempo, duas meninas aí no banco de trás bateram umas carreiras nas costas de um livro. Depois deram um beijo de língua e começaram a apertar os peitos uma da outra.
- É... – se ajeita no banco e continua a olhar para a escuridão lá fora.
- Queriam que eu rodasse pela cidade enquanto trepavam no meu táxi. Uma se ajoelhou e caiu de boca na outra, cara! Ficaram quase uma hora se chupando e enfiando os dedos..., peladinhas..., aqui, do meu lado. Entrei em uma avenida longa e reta, engatei a terceira, estiquei o braço direito e enchi a mão com uma bucetinha..., tinha que participar, sabe como é! E elas gemiam alto cara! Fechei os vidros para não chamar a atenção nos semáforos, e ficaram tão embaçados que até atrapalhou para dirigir. Deixei as duas em frente a um casarão no Morumbi, e elas me deram uma grana muito boa. Loucura na madrugada, cara!
Percebo sua respiração alterada..., ficou excitado..., otário.

Saiu da boate com a boca cheia d’água, entrou no táxi e disse para eu levá-lo até uma chácara onde os amigos dele estão, mais de quarenta quilômetros longe dali. Filho de uma puta! Quem vai pescar nessa hora da madrugada?
- Escuta essa então cara! Sex Pistols! Já ouviu falar?
“Don't ask us to attend cos we're not all there
Oh don't pretend cos I don't care
I don't believe illusions cos too much is real
so stop your cheap commentcos
we know what we feel”
- Já falei que não conheço essa porra! Ali é a entrada, depois do viaduto!
Saio da rodovia e entro em uma estrada de terra, meio esburacada. Meu passageiro está de olhos arregalados e semblante sério. Segura com firmeza no apoio da porta. Sigo por uns duzentos metros, bem devagar.
- É aqui! Pode parar! Acenda a luz! – meu passageiro chega ao destino dele, e aproveita para anunciar o meu.
- É um assalto, seu motorista tagarela filho de uma puta!

O trinta e oito preto parece novo em folha. Ele o aponta a uns 120º de mim. Outra pessoa aparece na janela do passageiro. Não vejo seu rosto, apenas uma arma que ela segura na altura da barriga, apontada para mim. A fraca luz do teto reflete na sua camisa amarelo ouro.
Outra coisa que quem dirige na noite sabe, é que sempre pode aparecer uma chance para reagir.
- Tira ele do carro! – é a ordem que meu passageiro dá para seu comparsa, que começa a dar a volta pela frente.
Meu passageiro, excitado com a história que contei, afundado no banco de trás, parece estar incomodado. Apóia-se no banco e se projeta para frente, para sentar-se melhor. No movimento, seu ângulo de tiro vai para uns 80º.
Com a mão direita saco o acendedor que tive o cuidado de apertar antes de ligar a luz e me lanço sobre ele. Com a mão esquerda seguro seu revólver.
Minha perna esfrega no botão do volume e o gira até o máximo.
“Don't be told what you want
Don't be told what you need
There's no future
No future
no future for you”

Enfio o acendedor no olho dele, e escuto claramente o “ssssss” do globo ocular fritando. Ele urra de dor. Tomo-lhe a arma, abaixo-me e procuro seu comparsa, que terminou de dar a volta e aparece como uma grande mancha amarela na minha janela.
Disparo um, dois, três tiros. O vidro estilhaça e um corpo cai. Sento no meu banco novamente, aponto a arma para cabeça do meu passageiro e aperto o gatilho... click!
Ele retira o acendedor do olho esquerdo; cheio de adrenalina e enlouquecido de dor, parece que vai reagir. Saco a chave de fenda comprida e pontiaguda que está enfiada em um espaço na lataria, sobre o quebra-vento; quando ele vem sobre mim o seguro com a mão direita e com a esquerda enfio a chave de fenda no seu olho direito..., até ela sofrer a resistência do osso do crânio, depois de atravessar o cérebro.
Meu passageiro amolece e cai para trás. Balbucia algumas coisas desconexas durante alguns segundos, depois se cala.

Saio do carro com cuidado. O comparsa está largado no chão com três buracos vermelhos jorrando sangue na camisa amarela. Parece morto.
Pego sua arma, é um trinta e dois, de cinco tiros. Não há nada nos seus bolsos. Afasto-me e faço pontaria em sua têmpora. A cabeça pula com o impacto.
Volto para o fusca para verificar se meu passageiro tem algo para pagar a corrida, além do trinta e oito novo que já é meu.
Mexo nos seus bolsos e encontro oito papelotes de cocaína, e algumas centenas de Cruzeiros. Nada mal..., pagam meu prejuízo.
Ele ainda respira. Coloco-o sentado com a cabeça caída para trás, com o cabo verde da chave de fenda raspando no forro do teto.
‘We're the poison
In your human machine
We're the future
Your future”
Aperto o botão “eject” e pego minha fita cassete. Retiro de baixo do banco o dinheiro que ganhei desde antes de ontem, quando peguei este carro.
Pela janela do motorista disparo os quatro tiros que restam no trinta e dois, bem em cheio no peito do meu passageiro.
- Cortesia da casa, seu filho de uma puta!

Arrasto o cadáver do comparsa e o empurro para debaixo do carro. Abro o capô da frente e pego uma mangueira; com ela esvazio o tanque, jogando a gasolina sobre o corpo e também dentro do carro. Acendo um fósforo e agora uma grande fogueira queima iluminando o breu da madrugada úmida e fria.
- Louca noite a de vocês, não foi, seus otários?
Despeço-me dos dois bandidinhos incompetentes, que não terão nova chance para se aprimorar.
Sinto pelo fusca; puxava um pouco para a direita, precisava trocar os amortecedores..., mas eu já gostava dele.
Quanto a mim, só me resta caminhar o longo caminho de volta até a cidade. Não me preocupo. Conto com a proteção da madrugada, e sempre chego em casa são e salvo.
Hoje e amanhã vou descansar. Depois, saio atrás de outro carro para roubar. Aí, o mesmo de sempre..., alterar alguns detalhes..., trocar a placa por uma placa fria, desovar o motorista em algum lugar..., e voltar para a noite alucinada da cidade, pilotando um táxi-mirim qualquer.


Moral da história
Ladrão que rouba ladrão, também acaba no caixão.

Segunda-feira, 25 de Maio de 2009

Encoxando as enfermeiras

Segunda Temporada - Décimo quarto capítulo

Três e meia da tarde.
Novamente estou frente a frente com as gatinhas cor de rosa estampadas na calcinha amarelinha de fitinha e bordinhas vermelhas. Elas sorriem para mim, macias e perfumadas.
Um privilégio, estar soterrado por centenas de peças íntimas femininas. A variedade de cores, de tamanhos, de modelos, prova a diversidade desta terra abençoada.
Algumas peças são comportadas, conservadoras; outras totalmente ousadas, como esta que está em minhas mãos. Imagino que, com esse corte e desse tamanho, ela deve, inevitavelmente, gerar algum tipo de desconforto.

O barulho do molho de chaves batendo na porta de metal soa como o sinal para o recreio. Confesso que estou condicionado como o cão de Pavlov.
A chave é girada e a porta se abre, com seu rangido habitual, que incomoda meus ouvidos e me causa um arrepio. As enfermeiras saem por ela e cada uma pega o seu carrinho.
Como sempre, vão falar sobre a experiência que estão fazendo com os enfermeiros.
- Finalmente! Passamos todos eles!
- Veja você..., e você achou que era uma idéia maluca! E então..., gostou?
- Gostei! Quer dizer..., gostei..., mas esperava um pouco mais...
Dá para ouvir a risada meio amarelada delas.
- É..., eu também! Mas, na média...
- Na média? Nota 7!
- É..., que coisa..., a gente não dar nenhuma nota 10!
O silêncio que se segue mostra que minhas amigas desconhecidas estão decepcionadas. Será que são muito exigentes, ou nenhum jogador do time dos enfermeiros foi competente para satisfazê-las? Não faço idéia.
Se pudesse sair do carrinho e mostrar-me, elas colocariam as mãos espalmadas nas faces, e, de olhos arregalados e bocas fazendo biquinho, exclamariam “- Oh!”. Uma olharia para a outra e ambas diriam ao mesmo tempo “- Ah!”.

Pretensão? Claro que não!
Se é o que você pensa, é por que está chegando agora.
Sou o Encoxador Misterioso, baby, a resposta para essa dúvida que a persegue e faz seu ventre repuxar e você colocar a mão aberta sobre ele.
Conheça minha história desde o começo, e entenderá!

Não posso ajudá-las..., as desiludidas enfermeiras não são o meu público. Pelo menos não aqui, incógnito na Ala Feminina. Interessante, pensei agora, nunca ter me interessado por elas...
Param em frente ao quadro de avisos, e lêem o nome das internas escaladas para guardar as roupas de cama, e para organizar o quarto de roupas íntimas. A segunda, obviamente, terá muito mais diversão do que a primeira.
- A Patricinha vai arrumar as roupas de cama, e a..., deixa ver, alteraram aqui..., a Lourdes Miau vai guardar as roupas íntimas.
- Certo! Vamos deixar logo os carrinhos e tomar um café!
Passamos pela porta do quarto de roupas. O carrinho é deixado ao lado de uma grande mesa central, usada para qualquer tipo de arrumação. E perfeita para se deslizar por sobre ela, como já descobri.
Saio do carrinho e escondo-me sob a mesa, protegido pelas cortininhas laterais, de uma brancura meio amarelada, precisando lavar. Agora, é só aguardar a sortuda do dia..., Lourdes Miau! Hum..., quem sabe..., não é raro as pessoas justificarem seus apelidos.

O tempo normal de espera passa, e depois mais vinte e cinco minutos. E ninguém aparece.
Alguma coisa errada está acontecendo. Ouço vozes se aproximando.
- Vamos logo separar e guardar tudo isso!
- As meninas da segurança estão lá acompanhando...
- Que estranho..., não me lembro dessa nova interna..., nem bem chegou e já conversa com um monte de outras...
- Também acho! Mas, olha..., se for uma louca que mantenha as outras sob controle, é muito bem vinda!
As minhas amigas desconhecidas, por algum motivo que não importa, vieram guardar as roupas.
As duas!
Uma situação inusitada - obviamente inesperada - exige alguns segundos de reflexão.

Quantas enfermeiras já encoxei?
Tanto faz..., como posso ter certeza de que eram enfermeiras, se nunca as olhei de frente, e nunca vi um bordado ou um crachá?
Podiam ser dentistas..., fisioterapeutas..., doutoras..., hum...
E as enfermeiras, e todas as estudantes das profissões acima, todas elas se vestem de branco.
Roupa branca dá tesão até no varal!

Volto minha atenção para minha dupla de beldades e faço uma rápida, porém completa, avaliação.
- Hum..., hum...
Como são parecidas..., parece que estou vendo em dobro...
Acho que sei quem gosta dessas calcinhas pequenininhas..., hum..., as duas gostam.
Duas enfermeiras, perfeitas para o meu consolo, a minha benção, ou a minha cura.
E o que nós três poderemos ser? Poderemos ser qualquer coisa!

Toques logo abaixo dos joelhos... elas ficam surpresas. Uma parece assustada!
Rápido, mais dois toques um pouco mais para dentro, onde é mais quentinho. Assombro e satisfação!
Elas entendem bem rápido que já brincaram muito de Chapeuzinho Vermelho, e finalmente encontraram o Lobo Mau.
Olham-se com a intimidade que só as mulheres têm; ambas felizes por compartilharem com a melhor amiga tudo o que vai acontecer. Debruçam sobre as roupas passadas, ao mesmo tempo e com os mesmos gestos.
Encostam seus corpos um no outro; gêmeas siamesas, unidas pelo expectativa do prazer.
Vamos lá queridas, vamos viajar. Ocupem seus lugares em nosso tapete voador, interestelar.

Pega teu alaúde, ó Bardo, e inspira-te nas musas da alcova do teu Senhor!
“Quatro pontinhas durinhas no tecido,
gerando a faísca para a ignição."
"Ninfas conduzindo o Conde pela madrugada escura,
e o entregando nos braços da perdição."
"Potrancas de ancas musculosas,
tremendo e suportando a pressão."
"Ulisses agarrado às sereias,
cantando com elas a mais linda canção."
"O explorador e as mocinhas,
cozinhando em um caldeirão.“


Vejam queridas, os continentes encolhendo lá embaixo..., tudo ficando pequenino..., a faixa azul da estratosfera..., o brilho assustador das estrelas surgindo todas de uma vez.
Milhões de graus centígrados nos consomem, e regamos os desertos secos do planeta com nosso suor. Um trio afinado de vozes ecoa pelo quarto o êxtase da morte e ressurreição: "- Ahhhhhhhh!".
O calor infinito nos funde e modela um novo astro, um pequenino novo sol, para ficar orbitando junto a Ela, que não será mais cantada como solitária, pois finalmente terá seu par.
E as noites de Lua Cheia além de claras, serão mornas, aquecendo os corações dos homens, e restaurando a esperança para todos nós.
Acabou a viagem queridas! Aterrissar!

Duas majestosas aves brancas pousam lentamente sob uma mesa cheia de roupas espalhadas. Encolhem-se e ficam imóveis, de olhos fechados, corpos relaxados, respirando tranquilamente, senhoras de si e do lugar.
Entro rapidamente no carrinho das roupas íntimas usadas que irão para a lavanderia. Aprendi a fazer um gostoso e prático travesseiro, utilizando algumas camisetas dobradas, enfiadas dentro de uma perna de uma calça de pijama. Acomodo-me com o maior conforto possível.

Nossa..., como estou cansado..., preciso voltar a fazer flexões.
Uma dúvida me incomoda: terei ultrapassado uma fronteira perigosa?
Não sei..., o que me ocorre agora é que as astronautas também usam roupa branca.


Índice de capítulos
14) Encoxando as Enfermeiras
13) Pastoreando as Ovelhas
12) Encoxando a Beata
11) Encoxaram o Profeta
10) A empadinha, por Dante
9) A empadinha, por Zé Rola
8) A encoxada que cura
7) A fé que salva
6) Ao encontro das ovelhas
5) Na Ala Feminina
4) Um cara atrapalhado
3) Troca Perigosa
2) Big Boss
1) A visão do Profeta

Primeira temporada completa: A caça ao Encoxador Misterioso

Pastoreando as ovelhas

Segunda temporada - Décimo terceiro capítulo

O Profeta Celestino correu os olhos pela sala onde habitualmente se reunia com as internas da ala feminina para suas pregações. Estava muito mais cheia que o normal.
“Que Renato Cordeiro nos proteja e não permita que esta quantidade de ovelhas chame a atenção das funcionárias. Qualquer problema que ocorra hoje certamente significará o fim da possibilidade de vir para cá e, consequentemente, das pregações.”
Este pensamento, entretanto, não durou um segundo sequer. Respirando fundo, iniciou sua pregação:
- Amadas irmãs, a mensagem que o Cordeiro Renascido deseja trazer ao mundo é a mensagem do amor do Pai. Não se trata do despudorado amor erótico, que deveria ser reservado exclusivamente para a procriação entre marido e mulher, com a adequada purificação antes e depois do ato vergonhoso. Nem se trata do amor fraternal, que muitas vezes disfarça uma atitude egoísta, mas aquele amor sublime, transcendente, superior a tudo.
- Não que o Pai condene totalmente o amor entre o homem e a mulher. Ele mesmo disse “Frutificai e multiplica-vos”. Mas eu acrescento, respeitem os limites! Tampouco o amor fraternal é condenado, pois em sua primeira vinda, o Cordeiro já mandava amarmos ao Pai sobre todas as coisas, e ao próximo como a nós mesmos. Muitas coisas no mundo seriam diferentes se todas as pessoas apenas seguissem este mandamento, tão simples e ao mesmo tempo tão difícil de ser seguido.
- Infelizmente, porém, na grande maioria das vezes, as demonstrações de amor fraternal que vemos não são do fundo do coração. Servem mais para que a pessoa que as realiza se auto-engrandeça, aos seus próprios olhos e aos olhos do mundo. O benefício levado ao irmão necessitado não é tão importante quanto a preocupação em transmitir uma imagem de pessoa bondosa, de alguém preocupado. De pura autopromoção.
- O amor entre o homem e a mulher, se não tiver em si a pureza do desejo do Pai de servir para a geração de filhos vai apenas tentar que os desejos e as vontades de cada um sejam realizados. O que leva a brigas, discussões e separações.
- Tudo isto ocorre porque não existe uma preocupação das pessoas com o mais puro e verdadeiro amor, aquele que transcende, supera e transforma estes outros já citados. E este verdadeiro amor já foi bastante bem definido nas escrituras: “O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece. Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não produz o mal. Não se alegra com a injustiça, mas fica feliz com a verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, e a tudo apoia.
- Antes de assim defini-lo, o Missivista deixa bem clara a importância deste amor superior: “Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine. E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria. E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me serviria.
- E é importante ressaltar esta passagem: “ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, se não tivesse amor, nada disso me serviria.” Ou seja, por mais que se façam obras de caridade, se estas são feitas apenas para a autopromoção de seu praticante, não agradarão ao Cordeiro. Mas, se feitas de coração, por menores que sejam, agradarão e contarão méritos junto ao Pai.
- Irmãs, Deus, através da mensagem do Cordeiro, nos chama a este verdadeiro amor, que tudo transforma e a tudo sublima. Este amor que, quando permeia as nossas relações interpessoais, santifica cada um de nossos atos. Este amor que originou um mandamento tão simples, mas tão difícil de ser realmente seguido. Este amor que muitos, ao vê-lo sendo praticado, chamarão de tolos os que o praticam. Mas lembrem-se sempre: “Não se amoldem aos padrões deste mundo, mas transformem-se pela renovação de sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade do Pai”. Desejo agora que todas possam retornar aos seus afazeres dentro da paz que o Cordeiro nos traz. Guiadas e acompanhadas por Deus. Lembro-lhes que permanecerei ainda por alguns momentos, para atender às irmãs que necessitem de alguma orientação ou palavra adicional.
Com estas palavras, o Profeta afastou-se até um dos cantos, o mais distante do ângulo de visão da porta, onde se sentou e aguardou pelas internas que, eventualmente, viriam até ele buscando um conselho mais pessoal, ou uma pequena explicação sobre algum ponto de sua fala.
A primeira delas era desconhecida dele. Aproximou-se um tanto tímida e disse, apreensiva:
- Foi a primeira vez que eu vim escutar suas palavras. Quero aprender melhor sobre esse amor que o Senhor falou, assim o que eu fizer em minha vida colocando esse amor nos meus atos, decerto compensará todo o ódio que sinto por estar presa aqui.
- Não, minha irmã. Na verdade, o que tem a fazer é orar para que o Cordeiro limpe esse ódio do seu coração. Na verdade, “Aquele que diz que está na luz, e odeia a seu irmão, até agora está em trevas. Aquele que ama a seu irmão está na luz, e nele não há escândalo, mas aquele que odeia a seu irmão está em trevas, e anda em trevas, e não sabe para onde deva ir; porque as trevas lhe cegaram os olhos”. “Não faleis mal uns dos outros. Quem fala mal de um irmão, e julga a seu irmão, fala mal da lei, e julga a lei; e, se tu julgas a lei, já não és observador da lei, mas juiz”. Ore e peça que o Pai limpe o ódio do seu coração, aprenda a perdoar e aceite ser perdoada. Depois é que poderá pedir que o Cordeiro a auxilie a amar como ele nos ama.
Outra interna a sucede:
- Profeta, o que é mais importante que eu faça para seguir as coisas que o senhor nos ensina nestes encontros?
- Irmã, em primeiro lugar, eu não ensino nada a ninguém. Apenas transmito as palavras que Renato Cordeiro um dia me ensinou. Quanto ao que fazer, o mais importante é observar o que o Cordeiro e o Pai nos pedem. “Bem-aventurados os retos em seus caminhos, que andam na lei do Senhor. Bem-aventurados os que guardam os seus testemunhos, e que o buscam com todo o coração. E não praticam iniqüidade, mas andam nos seus caminhos. Tu ordenaste os teus mandamentos, para que diligentemente os observássemos. Quem dera que os meus caminhos fossem dirigidos a observar os teus mandamentos. Então não ficaria confundido, atentando eu para todos os teus mandamentos. Louvar-te-ei com retidão de coração quando tiver aprendido os teus justos juízos. Observarei os teus estatutos; não me desampares totalmente. Com que purificará o jovem o seu caminho? Observando-o conforme a tua palavra. Com todo o meu coração te busquei; não me deixes desviar dos teus mandamentos. Escondi a tua palavra no meu coração, para eu não pecar contra ti. Bendito és tu, ó SENHOR; ensina-me os teus estatutos. Com os meus lábios declarei todos os juízos da tua boca. Folguei tanto no caminho dos teus testemunhos, como em todas as riquezas. Meditarei nos teus preceitos, e terei respeito aos teus caminhos. Recrear-me-ei nos teus estatutos; não me esquecerei da tua palavra”. Lembra-te disto e segue a palavra do Pai.
Mais uma se aproxima:
- Profeta, meu noivo me prometeu buscar-me na noite de um domingo. Iríamos fugir e nos casar. A noite passou, outras noites e outros domingos, e ele ainda não veio buscar-me. O que devo fazer?
- Irmã, se ele lhe propôs que fugissem, é evidente que não possuía intenções puras para com você. “Na verdade, na verdade vos digo que aquele que não entra pela porta no curral das ovelhas, mas sobe por outra parte, é ladrão e salteador”. “O ladrão não vem senão a roubar, a matar, e a destruir”. “Quem do imundo tirará o puro? Ninguém”. “Desvia-te dele, para que tenha repouso, até que, como o jornaleiro, tenha contentamento no seu dia.
- Ah, mas admito que sinto falta de nossas noites de sexo ardente...
Esta frase enlouqueceu o profeta:
- Meretriz! Ainda ousa falar descaradamente sobre sua pouca vergonha? Afaste-se de mim, não quero me contaminar com a sua impureza! “Porque cova profunda é a prostituta, e poço estreito a estranha. Pois ela, como um salteador, se põe à espreita, e multiplica entre os homens os iníquos”. Portanto, meretriz, ouça a palavra do Pai: “Foste como a mulher adúltera que, em lugar de seu marido, recebe os estranhos”. “Mas o corpo não é para a prostituição, senão para o Senhor, e o Senhor para o corpo”.
Havia mais algumas internas, que esperavam do Profeta algum conforto e orientação, da forma como geralmente ele fazia, sempre usando citações da bíblia para ilustrar e, de alguma forma, reafirmar o que dizia a elas. Mas, em sua irritação, ele afastou-se, dando por encerrada sua visita no dia. Novamente disfarçou-se com as roupas de muçulmana que utilizava em suas incursões à ala feminina e seguiu para a sala dos lençóis, de onde voltaria para sua ala, oculto no carrinho de lençóis sujos. Entretanto, mesmo em meio à irritação que a última interna ouvida lhe causara, uma coisa o preocupava: Piedade, que sempre fora assídua e atenta em suas pregações, que sempre ficara após a pregação, auxiliando na orientação das outras internas, nos últimos tempos andava bastante distraída, sonhadora. E hoje simplesmente desaparecera após a pregação. Algo estranho estava acontecendo e era necessário que ele descobrisse rapidamente do que se tratava.

Por Enio Vedovello, COC.


Índice de capítulos
14) Encoxando as Enfermeiras
13) Pastoreando as Ovelhas
12) Encoxando a Beata
11) Encoxaram o Profeta
10) A empadinha, por Dante
9) A empadinha, por Zé Rola
8) A encoxada que cura
7) A fé que salva
6) Ao encontro das ovelhas
5) Na Ala Feminina
4) Um cara atrapalhado
3) Troca Perigosa
2) Big Boss
1) A visão do Profeta

Primeira temporada completa: A caça ao Encoxador Misterioso

Domingo, 24 de Maio de 2009

Álcool Man em: Sala de Espelhos


Terça-feira, 19 de Maio de 2009

Poema Urgente - 1

É!
E não é?
Pois é!

Contudo
averiguo
a possibilidade

Foi?
E não foi?
Se foi!

Para além
do horizonte
deve ser


uma linha contínua:
Espaço

Sideral?
Longitudinal?
Infinito!

Vale mais o homem ou o mito?
Em vão
admito:

- Sou um tolo!

É!
E não é?
Pois é!

Sábado, 16 de Maio de 2009

As batalhas de Mills e James

Meu nome é Capitão Ócio. Se já me conhece, pule essa parte.
Minha missão é contar histórias com moral, para lembrar e refletir.
A de hoje trata do conflito entre homens e nações.
Vamos à ela!


França, maio de 1918.
Seis exércitos alemães atacam ao longo de uma linha que vai de Vimy, na região de Artois, ao norte, à Reims, na Champagne, ao sul.
É o desenrolar da mais recente ofensiva alemã, na tentativa de romper as defesas aliadas e chegar até Paris.
Ao norte, o 4o Exército alemão, do General Arnin, encontra a feroz resistência das quatorze divisões do 2o Exército Britânico, comandado pelo General Plumer, e seu avanço é mais lento.
Devido ao provável sucesso da iniciativa alemã ao sul, a maioria das reservas de homens, armas e munições foi deslocada para lá, destinadas ao 3o e 5o exército britânicos, localizados em Arras e Amiens, respectivamente.
A luta no norte é aguerrida. Ambos os exércitos, o alemão, que ataca, e o inglês, que se defende, empenham-se em conquistar terreno rapidamente, evitando impasses. Aprenderam no matadouro de homens que já dura quatro longos anos, que a guerra de atrito destrói ambos os lados, quase que simultaneamente.
A 3a divisão do 2o Exército Britânico defende os arredores do complexo ferroviário da cidade de Hazebrouk. Após sucessivos ataques e contra-ataques, os ingleses obrigaram os alemães a recuar até La Bassee, onde esses se reagruparam em um conjunto de fortificações construídas durante seus dois anos de ocupação daquela região.
Uma delas, em especial, impede o progresso dos ingleses pela estrada que liga La Bassee à Lens, e está cobrando alto preço para ser conquistada.

Os ingleses elaboraram um plano arriscado, com o objetivo de colocar alguns soldados dentro do forte alemão, levando consigo, como elemento surpresa, um lança-chamas capturado dos alemães, que foram os primeiros a introduzir essa arma na frente de batalha.
Doze soldados são voluntários para compor a tropa de assalto. O Sgto. Mills, 25 anos, comanda o grupo, auxiliado pelo Cabo Stevens, 24. Os soldados rasos são David, Gareth, Frank e Emile, ingleses, todos com 20 anos de idade, procedentes de vilas da região de Yorkshire Dales; Downing, 19, Crouch, 18 e Carson, 20, são de Stevenage, próxima a Londres; Ragan, 18, e Valentine, 19, são canadenses de Ontário; e, por último, James, 17, natural de Dublin, Irlanda. O ataque será realizado na manhã do dia seguinte.
A probabilidade de sucesso é pequena, mas o custo em vidas poderá ser igualmente pequeno. Principalmente se consideradas as baixas sofridas nas tentativas anteriores, frustradas pelo poder de fogo dos alemães.

A fortificação alemã é uma trincheira de 2m a 4m de profundidade e 250m de extensão, escavada em forma de um círculo irregular de 40m de raio em torno do topo de uma elevação de aproximadamente 20m de altura. Foi construída com alvenaria e concreto, com sacos de areia cercando seu parapeito.
Suas armas são um morteiro Minenwerfer, e quatro metralhadoras MG08 que ocupam as posições norte, sul, leste e oeste, com cada par de metralhadoras apoiando-se mutuamente. A guarnição é de 60 soldados e oficiais. Domina uma grande extensão de terreno à sua volta. Terreno coberto de corpos de soldados abatidos.
Os voluntários aproximaram-se durante a madrugada, rastejando lentamente na escuridão, congelando o corpo na terra úmida e gelada, esfolando as mãos e os joelhos nos estilhaços cortantes, e misturando-se aos cadáveres quando os foguetes de fósforo branco subiam ao céu iluminando o palco do teatro dos mortos.
Já amanheceu. O sol dissolveu a névoa matutina. Vê-se a cabeça das sentinelas aparecendo nos pequenos espaços abertos na proteção de sacos de areia.

Os atacantes aguardam a hora “H” escondidos em um buraco criado pela explosão de um morteiro, bem defronte a metralhadora alemã do lado sul, a 30m de distância dela.
Dividem o espaço com cadáveres e partes de cadáveres. Como observou o Sgto. Mills, poucos poderiam ser “montados” novamente. Provavelmente faltariam algumas cabeças, que são arremessadas à maior distância quando ocorre a explosão.
Todos usam máscaras incômodas, prevenindo-se do possível uso do gás mostarda, e, oportunamente, do odor nauseabundo daquela manhã. Parecem um grupo de larvas gigantes com olhos grandes e longos narizes, que se alimentam do que está em putrefação.
James retira sorrateiramente as botas de um par de pernas ainda preso a um quadril e as calça. Botas de oficial inglês são bem melhores do que as dos soldados rasos vindos de onde ele veio.
David e Frank jogam cartas com um minúsculo baralho. Difícil dizer se conseguem ver o naipe delas através do visor embaçado das máscaras contra gás. Devem usar as cartas como uma forma de linguagem, para poderem conversar um com o outro.
Downing está sofrendo com uma dor de dente. Sente a face direita latejando, mas não há nada que possa fazer. Crouch têm o pensamento em um lugar muito diferente daquele, um lugar onde a terra está coberta de verde e os pássaros voam caçando insetos, o sol brilha atrás das nuvens e viver significa celebrar a existência, sem se preocupar se ela pode acabar a qualquer momento.
Ouve-se o barulho das colheres raspando nas marmitas alemãs, e a voz dos que conversam durante o desjejum..., despreocupadamente, como se o dia que começa não pudesse ser mais terrível do que o dia anterior.

O plano dos ingleses consiste em atacar os flancos leste e oeste da elevação, com outros soldados da divisão, que estão posicionados a uma distância maior e atacarão simultaneamente com tiros de fuzis e de metralhadoras Vickers, obrigando os alemães a se defenderem.
Um canhão Rimailho de 155 mm, recém trazido a esta linha de frente, está posicionado 800m a oeste, e bombardeará os alemães, começando pela metralhadora do lado norte.
Acreditam que o comandante alemão, vendo os soldados ingleses surgirem nos flancos, não recebendo fogo do lado sul, e sofrendo o bombardeio da sua metralhadora norte, deduzirá que o ataque principal será naquela direção, e levará sua metralhadora da posição sul para lá, deixando suas “costas” desprotegidas para os soldados do Sgto. Mills que, apoiados por uma metralhadora Lewis, atacarão até chegarem à borda, para lançarem suas granadas e depois usarem o lança-chamas.

- Mais um plano suicida... – sussurra entre dentes o Sgto. Mills para seu subalterno imediato.
- Não temos alternativa Sargento – conforma-se o Cabo Stevens. - As tentativas anteriores de ataque nas quatro direções é que foram equivocadas, principalmente sem apoio de artilharia. Graças a Deus que conseguimos o canhão...
- Concordo Stevens – responde o sargento -, é uma missão arriscada e para ela somos voluntários. Já não faz mais diferença para nós o que vai acontecer..., ainda estamos vivos, sabe-se lá por quê..., mas..., sinto pelos garotos.
- Todos muito corajosos, Sargento. É muito triste ver nossa juventude jogada nessa máquina de moer carne...
- Não só a nossa juventude Cabo..., a fina flor da população masculina da Europa está sendo aniquilada...
- Começamos mal o século XX Sargento...
- Muito mal Stevens..., muito mal...
O Sgto. Mills e o Cabo Stevens são veteranos com dois anos de serviço na frente ocidental. Juntos receberam o batismo de fogo e horror na Batalha do Somme. Ambos são de Keelby, pequena cidade ao nordeste da Inglaterra, e chegaram com mais quinze conterrâneos, que já foram mortos ou feridos.
O sargento sabe que, estatisticamente, caso tenham sucesso, apenas um quarto deles sobreviverá. Caso falhem, serão mais um lote de cadáveres apodrecendo na encosta da elevação dominada pelas metralhadoras alemãs.

Os bravos garotos serão lançados em dois grupos. O primeiro, comandado pelo Cabo Stevens, é formado por David, Gareth, Frank e Emile. Correrão os 30m carregando oito granadas cada um. O segundo grupo, que seguirá com o sargento, tem Downing, Crouch e Carson, bem treinados no combate corpo-a-corpo com baionetas, e James levando o lança-chamas, sendo ele o soldado mais vulnerável do grupo. Um tiro ou um simples estilhaço que atinja seus tanques o transformará em uma bola incandescente.

- Não gosto do irlandês, Stevens – confidencia o Sgto. Mills.
- É um bom garoto sargento – Cabo Stevens elogia o irlandês -, é disciplinado, calado. Prontificou-se para carregar o lança-chamas. E acho que ele confia no senhor..., lembro-me de que se ofereceu como voluntário assim que soube que o senhor comandaria o grupo.
- Não sei Cabo, não sei...
O Sgto. Mills não se incomodava por sentir ódio de todo um povo. Para ele, todos os irlandeses eram iguais. São vivas em sua memória as imagens da Páscoa de 1916, em Dublin, Irlanda. Imagens que o perseguem, registradas tão vivamente que não são substituídas pelas infinitamente mais terríveis que viu na guerra. Retira o relógio do bolso e confere o horário.
- Oito horas, vai começar! Ninguém se move até o meu comando! Lembrem-se das instruções e concentrem-se na ação. Quero que saibam que admiro e respeito a coragem de todos, e que estamos fazendo nosso papel na defesa do nosso país e da nossa causa.
Os soldados entreolham-se com a serenidade de animais a caminho do abate.

Um projétil de 155 mm passa sobre as cabeças dos doze homens com um assovio, e explode alguns metros à frente do alvo, anunciando o início do ataque. O choque com o solo faz a terra tremer.
Os soldados ingleses posicionados dos lados leste e oeste começam uma intensa fuzilaria contra os alemães, que revidam.
O segundo disparo do canhão cai mais próximo da metralhadora do lado norte. O oficial de tiro que acompanha a operação dá instruções aos artilheiros através de um sistema de código com bandeiras. O terceiro e o quarto disparos vão ajustando a mira, até que o quinto atinge o alvo em cheio.
Os ingleses comemoram ao ver sacos de areia e soldados alemães voarem pelos ares. Começa de ambos os lados do ataque uma operação de movimento e tiro, com uma parte dos soldados contornando a elevação e se posicionando na encosta do lado norte, para atirar na direção do buraco onde havia a metralhadora destruída. É uma manobra diversiva, para que a principal parte do plano possa ser executada. O canhão inglês dispara quatro projéteis por minuto. O morteiro alemão também é posto fora de ação.
O Sgto. Mills vê os alemães retirando a metralhadora do lado sul para substituir a destruída no lado oposto. Ordena aos dois canadenses que posicionem a Lewis e iniciem fogo de cobertura.
- Chegou nossa hora rapazes! Primeiro grupo, ao ataque!

O Cabo Stevens e os soldados David, Gareth, Frank e Emile saem do esconderijo e correm em duas equipes, uma à direita e a outra à esquerda, em direção ao buraco de metralhadora vazio, que está sendo alvejado pelos canadenses.
Os alemães nunca deixam um espaço sequer sem proteção. Oito deles estabelecem uma linha de defesa e recebem os ingleses com disparos de fuzis e das novas e temidas submetralhadoras MP18.
A Lewis dos canadenses derruba três deles, mas não impede que os demais revidem ao fogo. Emile é atingido no pescoço e corre mais alguns metros antes de desabar. Gareth é alvejado no peito e grita o nome de Frank, que olha para o companheiro ferido e vacila por um instante, tempo suficiente para ter um pedaço da cabeça arrancado pelo rombo no capacete, e morrer antes de dobrar os joelhos. Cabo Stevens corre mais para o centro entrando na linha de tiro dos canadenses, que no calor da batalha não o percebem e o acertam com fogo amigo, abrindo quatro buracos simetricamente espaçados em suas costas. David continua sua corrida e chega ao parapeito. Arma uma granada e estica o braço para arremessá-la, mas no meio do movimento sua mão é arrancada por um tiro de fuzil. Procura pelo pedaço do seu corpo e o encontra a tempo de ser vítima da explosão da granada que ele segurava.
O Sgto. Mills, com o rosto enterrado na terra e apenas os olhos para fora do buraco, vê o primeiro grupo aniquilado e o plano indo por água abaixo. O ataque coordenado do canhão e dos outros soldados continua. A sua missão precisa ter sucesso. Ordena aos soldados do segundo grupo para que o sigam e todos se lançam ao ataque. Afortunadamente, um tiro do canhão acerta o lado sul da trincheira alemã, eliminando temporariamente a resistência e dando-lhes o tempo que precisam para subir colina acima.

Correm desajeitados pelos 30m de campo aberto. Downing sente o coração bater dentro da sua garganta. Crouch escuta uma voz dentro dele dizendo que vai morrer; chora e as lágrimas embaçam sua visão; Carson quer sentir a emoção de matar alguém à baioneta.
Alcançam o parapeito, protegem-se e jogam suas granadas sobre ele. As explosões lançam no ar o som de gritos abafados, e uma mistura de terra, tijolos e gente. Uma bomba de fumaça cai aos pés deles e cinco alemães saem para o combate corpo-a-corpo. O primeiro é derrubado pela metralhadora dos canadenses, depois de lançar uma granada entre Downing e Crouch, matando-os. Ragan e Valentine, devido à fumaça, não conseguem mais fazer pontaria. Deixam o buraco e correm para apoiar o grupo, levando a metralhadora.
Carson crava sua baioneta no primeiro vulto que distingue: um alemão baixo e magro, que engasga com o próprio sangue quando a lâmina é puxada do seu peito. O Sgto. Mills dispara sua pistola explodindo a face de outro inimigo, que saia da fumaça com a baioneta em riste, a boca aberta e olhos arregalados, gritando de medo e fúria.
James protege sua carga explosiva encostando-se nos sacos de areia. Ao seu lado, o tronco de David está sentado como um boneco sem pernas e sem braços, acompanhando de boca aberta e olhar indiferente a luta que acontece.
Outro alemão dispara contra eles com sua Luger P08, mas atira primeiro em David, que é alvejado impassível. James descarrega sua pistola de tão perto que o uniforme do alemão queima ao redor do buraco das balas. O quinto inimigo estoura a barriga de Carson com tiros de MP18, e em seguida é quase cortado ao meio por uma rajada da Lewis disparada por Valentine.
O Sgto. Mills e seus três soldados remanescentes entram na fortificação. James segue para sudeste com Ragan em sua cobertura, e o sargento leva Valentine para sudoeste.
O inferno de ódio e sofrimento se completa com o fogo que James despeja. Rapidamente todo o lado sudeste arde em chamas, acendendo a pira que queima as vidas ofertadas à Deusa Morte, na celebração da infinita irracionalidade dos homens.
James mantém a chama o maior tempo possível. Além de incinerar tudo o que encontra, ela consome o oxigênio de tocas e abrigos, matando por asfixia os que não são queimados vivos.

O canhão inglês recebe ordens de cessar fogo. Os soldados que atacam pelo lado norte vêem nas labaredas que sobem o sinal que esperavam e invadem a trincheira, seguindo para os lados noroeste e nordeste. Gritam como bárbaros invadindo um castelo.
Lá dentro, as balas voam no caos instalado, derrubando homens que urram de dor. Nomes de mulheres são ditos pela última vez. As paredes são encharcadas com uma gosma suja, misturada a pedaços de tecido, que escorre para o chão.
Quando a distância entre os inimigos torna-se pequena, as baionetas e os punhais imitam as lanças e as espadas que soldados há muito mortos usaram em suas contendas. Como não há utilidade para escudos, mata-se e morre-se mais rapidamente.

James termina sua tarefa daquele lado e faz meia volta, deixando atrás de si corpos ardendo em chamas. Alguns ainda agonizando. Ragan o segue até ser vítima de uma granada inimiga e cair, com os intestinos desabando sobre suas pernas.
Saltando sobre destroços e escorregando em cadáveres, James corre para o lado sudoeste, até encontrar o Sgto. Mills e Valentine, que se protegem atrás de sacos de areia e atiram em um grupo de alemães que resiste, encurralado por eles de um lado, e por outros soldados ingleses do outro. James saca sua pistola, a recarrega e se junta a eles. O tiroteio é intenso. Os ingleses mantêm a pressão, mas os alemães conseguem resistir. Ragan não se protege o suficiente para trocar o pente da Lewis e é atingido na testa; sua cabeça se parte como uma abóbora, jogando o capacete para trás e espalhando miolos para cima e para os lados.
- Nossa situação é crítica, soldado! – grita o sargento, com pequenos pedaços do cérebro de Ragan escorrendo pela máscara.
James não diz nada. Deita-se e começa a rastejar na direção aos alemães como uma grande tartaruga metálica, com o sargento dando-lhe cobertura. Os alemães percebem os poucos disparos vindo daquele lado e decidem fugir por ali.
Deitado, James os vê vindo ao seu encontro. Espera que se aproximem e aciona sua arma cruel e monstruosa, envolvendo os inimigos com sua labareda infernal. Atrás dos alemães em chamas chegam alguns soldados ingleses, que disparam os tiros de misericórdia. A batalha está vencida.

O Sgto. Mills ordena que façam a limpeza da área, eliminando qualquer resistência.
- Prisioneiros custam caro! – é a ordem que ele dá.
Vê ao seu lado o soldado James, ofegante, enegrecido pela fumaça do combustível que queimou, e percebe que nunca esteve tão próximo assim de um irlandês. Senta-se no chão, encostando-se na parede ensangüentada. James senta-se do lado oposto. Tiram suas máscaras contra gás. O cheiro dos corpos queimando não é tão ruim.
Os tiros tornam-se cada vez mais esparsos. Alguns são precedidos de vozes soando palavras que eles não entendem, mas que lembram uma súplica ou uma prece. Depois, alguns momentos de silêncio..., que terminam em um grito de euforia de um e depois de quase todos os soldados sobreviventes. Como prêmio pela vitória, ganham mais alguns dias de vida.
O sargento limpa o rosto com a manga do uniforme, acende um cigarro e o entrega a James, que aceita sem agradecer. Depois, acende outro para si, e, enquanto fumam calados, observa o garoto irlandês. “Burro e destemido”, pensa.
Mesmo achando todos os irlandeses parecidos, nota algo familiar no olhar de James e tem a impressão de que já o viu antes, em outras circunstâncias.
- Soldado James..., já nos conhecemos de algum lugar..., antes da guerra?
James olha fixamente nos olhos do sargento, e sente seu dedo indicador, instintivamente, pressionar levemente o gatilho do lança-chamas.

Continua...

Moral da história:
Só no próximo capítulo, em 28 de junho.

Álcool Man em: Perdidos na Selva








A longevidade do Rock'n'roll

1974
Em minha casa ainda não havia “aparelho de som”. Tínhamos uma vitrola, item imprescindível nas casas de família, que havia sido moderna há pelo menos dez anos. O auto-falante monaural era potente, e destacava as freqüências graves.
Abri a gaveta do toca-discos e coloquei no prato a segunda aquisição da minha recém iniciada coleção de discos de vinil:
Masters of reality”, do Black Sabbath.
Sob a grossa agulha de cerâmica, a primeira faixa, “After Forever”..., “tisssssss” , e Iommi e Geezer começam a celebração.

“tum tum tum tum, tururum tum tum tum tum tururum tum tum tum tum"
“parará parará parará tanana“
“parará parará parará tananá”


Ozzy Osbourne irrompe pela casa, com sua voz reverberando por toda ela, como um sacerdote no templo:

“Have you ever thought about your soul - can it be saved? Or perhaps you think that when you're dead you just stay in your grave? Is God just a thought within your head or is he a part of you? Is Christ just a name that you read in a book when you were in school?”

Minha mãe grita da cozinha:
- Que coisa é essa que está tocando?
Abri a boca para responder mas só fiquei com ela aberta: naquele momento, eu não sabia o que era aquilo.

Maio de 2009
Tratando uma gripe e uma inflamação de garganta com “antis” diversos, após uma hora e meia de ônibus, duas horas e meia na fila sob temperatura de 13 graus e chuva fina, mais duas de espera na fila do gargarejo, vejo o sorriso largo do meu filho de quinze anos, ansioso pelo seu primeiro show de rock. Já esquecemos das horas de martírio. Somos só expectativa.
As luzes se apagam, uma música instrumental de introdução e...

“tchãrarã tchãrarararãrã”
“Oh come on! Close the city and tell the people that something's coming to call. Death and darkness are rushing forward to take a bite from the wall, oh!".


Iommi com sua cruz prateada pendurada sobre o peito, refletindo a luz direto nos meus olhos, Geezer fazendo o chão tremer com as cordas do seu baixo e, em toda sua feiúra, Dio, o duende que guarda a chave da porta do Inferno.

Somos envolvidos na multidão de seres primitivos em êxtase, cada um com seu passo no compasso do barulho extremo, e dançamos, cantamos e nos acotovelamos sem parar.
Uma hora e meia depois, ensopado de suor, com os ouvidos doendo e cansado de pisotear e ser pisoteado, lembro-me da minha mãe me perguntando da cozinha que música era aquela.
Vejo nas pessoas que pulam na minha frente um garoto que parece ser meu filho, totalmente tomado pelo prazer de viver o momento, e penso ter encontrado a resposta. Mas outra música começa e me esqueço do que estava pensando.

“tumtumtumtumtumtumtumtumtumtumtumtum... pam pam pam pam...”
"Oh no, here it comes again. Can't remember when we came so close to love before. Hold on, good things never last, nothing's in the past, it always seems to come again again and again and again."

Neon Knights! Neon Knights! All right!”

Domingo, 10 de Maio de 2009

Carta para Mamãe

Meu nome é Capitão Ócio. Minha missão é contar histórias com moral, para lembrar e refletir. A de hoje, como não poderia deixar de ser, será uma homenagem a todas as mães.
Vamos a ela!


Bom dia, boa tarde ou boa noite, Mãe.
Estou com saudades. Não nos vemos há tanto tempo... Tanto tempo que..., parei de contar. Resolvi trocar a angústia dos dias passando, pela esperança de que esses dias estariam me deixando mais perto de vê-la novamente.
Hoje o dia amanheceu límpido, sem uma nuvem no céu. Toda a abóboda celeste está azul. Sinto-me como vivendo dentro daqueles enfeites de vidro, com uma paisagem dentro. Sabe, daqueles que quando agitados fazem cair uns flocos de neve sobre um castelo colorido, e a pessoa que o segura olha para dentro dele e por um instante imagina como seria viver naquele mundo em miniatura.
Se eu vivesse dentro de um objeto assim, desejaria que fosse você, Mãe, que o pegasse e, quando olhasse para ele com seus olhos arregalados e seu sorriso curioso, me enxergasse, bem pequenininho, acenando e te chamando para viver lá comigo, na sua imaginação.

No café da manhã cozinhei dois ovos. Diferentes dos ovos que você conhece. Tem uma textura diferente, um pouco áspera..., e são muito difíceis de quebrar. Esmaguei vários até descobrir o jeito certo de bater na casca.
São um pouco indigestos..., mas muito gostosos, e me acostumei a comê-los todas as manhãs. Causam um pouco de gazes, mas me acostumei com isso também. Não Mãe, não os solto em público..., pode ficar tranqüila.

Você deve ter feito várias roupas para mim, e elas devem estar aí, dobradinhas em alguma gaveta, esperando eu aparecer. Imagino que costurou cada peça sempre um pouquinho maior, apostando na tendência que eu tinha de engordar.
Acredito que, com seu inquestionável bom senso, tenha parado em algum momento, pensando algo como “- Mais que isso ele não vai aumentar!”.
Pensando bem, você estaria certa. Emagreci tanto que não vai acreditar; e é bom ficar sabendo disto agora, para não se assustar quando me ver.

Estou bem Mãe. Bem mesmo, dadas as circunstâncias. Moro em um lugar simples, mas bastante acolhedor. Quando chove intensamente, o que não é raro por aqui, não é muito confortável, pois, por mais que eu tente, não consigo descobrir uma forma de evitar que a água entre por algumas frestas.
A varanda que fiz, grande, cheia de plantas e palmeiras, faz uma sombra muito gostosa, e é nela que estou agora, com o vento batendo em meu cabelo e em minha barba, sentado em um banco de tronco de árvore, escrevendo para você. Não tenho certeza..., você se lembra de já ter me visto barbudo?

A maioria dos dias é como este, com o sol amarelo brilhando inclemente no céu azul. Que tamanha injustiça será, penso eu, quando daqui sei lá quantos anos o Sol morrer e nosso lindo planeta morrer junto com ele.
Será Mãe, que existe outro mundo que tenha um lugar tão lindo como este em que vivo: um borrão de areia branca cheia de verde, rodeado do mar que se confunde com o céu azul, definindo a linha do horizonte?

Vou parar por aqui Mãe. Preciso começar minhas tarefas rotineiras. Não que eu tenha muita coisa para fazer. No fundo, tudo que faço se resume a me preocupar com a próxima refeição. Não me tome por desocupado, por favor. Quando nos vermos novamente, conto tudo detalhadamente. Sei que adorará escutar.
Desejo que a saudade que sente só te faça lembrar de tudo de bom que fizemos juntos. E que te ajude a perdoar qualquer coisa que eu tenha feito para te magoar.
Te amo e sinto sua falta!
Feliz Dia das Mães!


PS: Não sei quando esta carta estará em suas mãos. Tenho fé que alguma corrente marítima a levará até uma praia e lá, alguém a ache, a leia e atenda o pedido que mando em anexo.
Fechei muito bem a garrafa. Um dia, ela chegará.



Moral da história
Da mãe, a gente nunca esquece.

Quinta-feira, 30 de Abril de 2009

Viatura 2112 - Dia de Trabalho

08h30min.
O chamado da Central comunica a ocorrência.
“Briga de casal na rua Pasteur, número 1300!”.


O Soldado Rubis (SR) gostaria de responder, mas deve esperar pelo parceiro, o Cabo Valdimir (CV), que foi fazer um xixi no banheiro do bar da esquina.
Um minuto se passa. A Central não tem resposta de nenhuma viatura.
“Briga de casal na rua Pasteur, número 1300!”.
CV chega e é repreendido por SR.
- Caraca CV! Precisa de tanto tempo assim para fazer um xixi?
- Até parece que tu não me conheces!
“Briga de casal na rua Pasteur, número 1300!”
- Viatura 2112 a caminho! - CV responde. Depois, repreende SR.
- Tu já não podias ter respondido?
SR fica calado. Bobagem discutir por uma banalidade logo pela manhã.

A viatura segue para atender ao chamado. No caminho, CV divaga a respeito da relação matrimonial.
- Tu sabes SR, eu fico pensando..., tantas ocorrências de briga de casal que a polícia atende diariamente...
- Pelo menos duas, segundo as estatísticas. – concorda SR.
- Tu vejas, a gente sabe que a vida conjugal não é fácil. Para viver bem com alguém tu precisas abrir mão de algumas coisas, fazer algumas concessões.... Concessões são fáceis quando a gente ama... Mas, quando se deixa de gostar, tudo fica diferente..., algumas coisas perdem a importância, outras passam a ter..., tudo muda. Mas..., até as pessoas começarem a se agredir, muita coisa já tem que ter acontecido, tu não achas?
- Concordo CV. Mas, nós nunca sabemos a verdadeira história, os verdadeiros motivos que levaram o casal a brigar... , quando chegamos, a confusão já está armada.
A viatura pára em frente ao endereço informado. A situação está como SR acabou de mencionar.
Na calçada, em frente ao portão, um homem de uns trinta e cinco anos, só de meias e cuecas, segura um pano ensangüentado sobre a orelha esquerda.

- Graças a Deus! Ela está lá em cima! Ela deu um tiro em mim!
- Tu ficas calmo..., já estamos aqui e vamos resolver a situação..., qual o nome da tua mulher?
- Dalvinha..., Dalva!
- Tem mais alguém com ela?
- Não, nossa filha foi para a escola logo cedo.
- Que revólver tua mulher tem?
- Ela pegou meu revólver..., olha, ela sabe atirar..., ela está louca...
- Tu ficas calmo..., deves responder o que precisamos saber, tu compreendes?
- Ela pegou meu 38!
- E ela sabe atirar?
- Eu ensinei!
- Quantas balas ainda restam?
- Seis..., eu o guardo carregado!
- Tu guardas um 38 carregado? Não sabes a merda que isso pode causar?
SR tem suas perguntas para fazer.
- O que causou a briga entre vocês?
- Ciúme..., ela é ciumenta demais..., um ciúme doentio...
- E de quem ela tem tanto ciúme? De alguma mulher em especial?
O homem de cuecas parece não entender a pergunta, e não a responde. SR insiste.
- O senhor não me respondeu. Sua mulher tem ciúmes de alguma mulher em especial?
O homem continua sem responder, constrangido.
- O senhor prefere que eu vá perguntar para sua esposa?
- Não..., tudo bem..., ela tem ciúmes da irmã dela!
CV e SR trocam olhares de reprovação. Se Maxwell Smart estivesse ali, diria: “- Ha! Ha! O velho truque de comer a cunhada!”.
- O senhor precisa nos contar o que aconteceu, para que eu possa falar com a sua esposa.
- Não aconteceu nada..., eu passei a noite no trabalho..., liguei para casa e avisei..., cheguei cedo e passei na padaria..., aí encontrei a irmã dela lá, e ela me abraçou e me deu um beijinho no rosto... Ai! Está doendo...
- Aí tu chegaste em casa cheirando a perfume de mulher com uma marca de batom em algum lugar..., mas..., a tua mulher tem motivos para desconfiar de tu e da irmã dela?
- Olha..., entre elas..., mas eu nunca..., falando a verdade..., nunca traí minha mulher.
SR faz cara de “conta outra”.
- Tudo bem..., mas nunca com a minha cunhada..., isso é briga delas.
CV coloca o homem sentado no banco de trás da viatura; em seguida pega o kit de primeiros socorros para fazer um curativo rápido.
- Tu tens sorte de não ter ensinado tua mulher a atirar bem! Foi só um cortezinho de raspão!
- Ai!

SR pede, e insiste até que os curiosos se dispersam. Depois, entra e toca a campainha. A porta da frente está aberta. Ninguém responde. Ele analisa a situação e dá um passo para dentro da casa.
- Senhora Dalva, sou o policial Rubis! Gostaria de falar com a senhora!
- Já vou descer! – uma voz feminina, meio anasalada, responde.
Alguns minutos depois uma mulher magra e alta, vestida de jeans, camiseta e chinelos desce do andar superior e encontra SR, que a espera em pé, na sala. Cumprimentam-se. SR fala com tom de voz tranqüilo.
- Dona Dalva, a senhora está mais calma?
Ela tem os olhos vermelhos de quem esteve chorando, e os cabelos mal penteados.
- Sim, estou..., onde está meu marido?
- Está na viatura, com o meu parceiro.
- Ele está bem?
- Mais ou menos..., a senhora atirou nele?
- Atirei..., mas só queria dar um susto nele..., eu estava fora de mim..., ele está machucado?
- A bala cortou de raspão a orelha esquerda dele..., onde está o revólver?
- Na cozinha, sobre a mesa.
- Posso ir até lá pegá-lo?
- Claro..., é só seguir pelo corredor.
SR vai até a cozinha e encontra o revólver. Descarrega-o e confere que tem cheiro de recém disparado e uma cápsula vazia no tambor. Na parede há um grande buraco de bala e alguns respingos de sangue. Volta para a sala.
- Dona Dalva, a senhora tem consciência do que fez?
- Eu estava nervosa..., meu marido chegou aqui de manhã, depois de uma noite de trabalho..., ele disse que era trabalho..., com um cheiro forte do perfume que minha irmã usa...
- Eles têm alguma história?
- Não..., quero dizer..., sim...; foram namorados antes dele se apaixonar por mim...
- Quanto tempo faz?
- Cinco anos!
- E a sua irmã já deu em cima dele depois que vocês se casaram?
Ela não responde. Abaixa a cabeça e fica em silêncio.
SR tem a situação sob controle.
- Vamos fazer assim, eu levo umas roupas para o seu marido e depois ele vai conosco até a delegacia. Como houve um disparo de arma de fogo e um ferido, teremos que fazer a ocorrência e o exame de corpo delito. Depois, voltamos para levar a senhora para dar seu depoimento também. A senhora entendeu?
- Sim, entendi..., olha..., eu não queria fazer mal a ele..., só queria dar um susto...
- Eu sei..., eu sei..., mas terá que ser assim. A senhora pode pegar roupas para eu levar para ele?
SR leva algumas roupas e um par de tênis, e o homem se troca na viatura. Depois, o entregam na delegacia, realizam os procedimentos necessários, voltam para pegar a mulher dele, que já se apresenta bem vestida, penteada e maquiada, e a levam até a delegacia também.
Para ambos CV deu um sermão a respeito do perigo de se ter uma arma de fogo em casa, carregada e pronta para uso. Não entrou no mérito do problema conjugal dos dois.
Mais tarde, de novo na ronda, conversam sobre a ocorrência.
- Que coisa..., cinco centímetros mais para a direita e aquela família estaria destruída.
- Tu vejas como são as coisas..., uma arma carregada, uma irmã enciumada..., um mal entendido...



13h00min.
O chamado da Central comunica a ocorrência.
“Suspeito de tráfico de drogas próximo a Escola Estadual General Gomes de Louzada”.


- Viatura 2112 a caminho! – responde prontamente SR.
- Será que é algum dos que já prendemos?
- Não sei CV..., são tantos.
- Eu não sei de tu, mas eu gostaria muito de amaciar umas orelhas novas.
- Tudo bem CV..., mas não exagere!
A escola fica em frente a um terreno asfaltado, perfeitamente retangular, onde semanalmente acontece uma feira livre. Nos outros dias é utilizado para estacionamento. Algumas crianças gostam de empinar pipas ali.
Antes e depois dos horários de aula há um grande movimento de adolescentes, que são freguesia potencial para o tráfico de drogas, maconha em especial.
A Ronda Escolar consegue minimizar o problema, mas não evita totalmente a presença de traficantes na área, pois não há uma viatura para cada escola. Os funcionários comunicam a polícia sempre que desconfiam de alguma coisa.
CV e SR já conhecem o local. Chegam alguns minutos antes do sinal de entrada da turma da tarde. Há uma rua entre a escola e o terreno, e outra do lado oposto, onde SR desce, e espera até que a viatura contorne a escola pela direita e apareça na rua em frente a ela.
A viatura vem devagar com as luzes das sirenes ligadas, e SR desce a pé. A visão das luzes da viatura alarma um rapaz que conversava com alguns alunos. Ele pega sua mochila e caminha calmamente atravessando o terreno.
CV dá um toque na sirene e o rapaz acelera o passo, de cabeça baixa. Olhando para o chão, vê na sua frente um par de sapatos pretos zelosamente engraxados, levanta a cabeça e dá de cara com SR, que sorri e diz:
- Espere um pouco aqui, até a viatura chegar!
- Que é isso senhor? – o garoto argumenta. - O quê o senhor quer comigo? Sou estudante..., estou indo para casa!
A viatura chega e SR é taxativo.
- Coloque as mãos na viatura e abra as pernas! No vidro não, que vai sujar!
CV junta-se a eles.
- O que temos aqui?
- Este rapaz diz que é aluno da escola!
- Pois vamos ver os livros dele então!
Vários estudantes acompanham, à distância, a ação dos policiais.
CV abre a mochila e a vira para o chão. Caem algumas notas de dez, algumas de vinte, outra de cinqüenta, e vários quadradinhos de uma coisa escura, embalada em filme plástico, desses domésticos.
- Tu vejas o que temos aqui! – sorri CV, assumindo aquela expressão que deixa SR com os pêlos arrepiados.
O rapaz continua a argumentar em sua defesa.
- Sou “de menor”!
SR pega a carteira que também caiu no chão e encontra a identidade dele.
- Ele tem dezessete anos e dez meses, CV!
- Então, nosso rapaz aqui não tem idade para ir para a delegacia..., mas já é bem crescidinho para tomar uns tapas..., tu não achas?
CV detesta traficantes. Sabe como é difícil chegar até os chefões..., bem..., nem tão difícil, já que teve um deles na mão meses atrás (leia Gênio do Crime).
Sabe também ser necessária uma dose de intimidação para desestimular os garotos que servem de “avião”, e assustar um pouco a clientela.
- Quantos pacotes têm aí no chão? – pergunta para o rapaz, que vira a cabeça o suficiente para contar e contabilizar o prejuízo.
- Sete! – ele responde.
- A quanto tu vendes cada um?
- Esse aí é um por um!
- Um por um – repete CV -, então tu vais tomar um tapão nas orelhas para cada um deles.
Vira o rapaz para ele e aplica-lhe o castigo. Sem força para machucar, mas com força suficiente para doer.
“Plaft!”..., “Plaft!”..., “Plaft!”..., “Plaft!”..., “Plaft!”..., “Plaft!”..., e “Plaft!”.
O barulho dos tabefes é ouvido claramente pelos estudantes do outro lado do terreno. Alguns os sentem como se fossem nas próprias orelhas.
- E agora, como foi que tu ficaste com as orelhas inchadas?
- O senhor me bateu! – o rapaz tem o rosto molhado pelas lágrimas que escorrem.
“Plaft!”
- Tu deste a resposta errada! Como foi que tu ficaste com as orelhas inchadas?
- Caí e bati no chão! Caí e bati no chão!
- Tu tens boa memória para lembrar-se disso?
- Tenho! Tenho!
- Então, tu lembrarás de mim! Escute bem, se te pegar novamente fazendo o que estás fazendo, tu já podes ser “de maior” e não vou me contentar em só te dar uns tapas! Vais se lembrar de mim?
- Vou! Vou!
- Tu vês como ele aprende direitinho SR? Pena não estar na escola..., mas isso não é problema nosso.
SR não gosta dessa atitude. Mas concorda que não dá para simplesmente colocar o rapaz na viatura e levá-lo para um passeio até a delegacia especializada.
É uma tragédia o que acontece em nossa sociedade, com o poder da droga se expandindo, infiltrando-se nas instituições.
Porém, CV e SR não são políticos ou legisladores. São apenas responsáveis por manter a ordem, e alguns tapas, bem dados, às vezes servem para colocar um garoto no caminho certo.



17h30min.
O chamado da Central comunica a ocorrência.
“Assalto com reféns na rua Argentina, número 1813”.


- Viatura 2112 a caminho!
CV e SR chegam ao endereço informado. Outras viaturas já estão posicionadas. Um Capitão comanda a operação, e relata aos policiais a situação.
- As informações que temos foram passadas pela empregada da casa, que fugiu sem ser percebida pulando o muro do quintal para a casa vizinha.
- Trata-se de um homem de 40 anos, aproximadamente 90 kg, mais ou menos 1,80m de altura, branco, de cabelos pretos cortados curtos. Veste uniforme de carteiro. Está armado com uma pistola, que imaginamos ser uma 765. Pela descrição, pode ser o “Benê Mão Vermelha”, fugitivo da Penitenciária de Presidente Bernardes. Cumpria pena por latrocínio e seqüestro. É um bandido de alta periculosidade.
- O objetivo dele deveria ser roubar jóias e outros objetos de valor. Não sabemos se houve algum critério para a escolha dessa casa em especial. Quando ouviu a primeira viatura chegar, fechou as cortinas da sala e tirou o telefone do gancho. Ainda não fizemos contato com ele. Estão reféns um casal de idosos e um menino de oito anos, neto deles.

O assalto com reféns é uma situação bastante delicada. Recentes ocorrências terminaram de maneira trágica, obrigando a polícia a adotar, como procedimento padrão, decidir com rapidez se vale a pena negociar - até determinado ponto -, ou eliminar o invasor, utilizando um atirador de elite. As opções estratégicas são apresentadas e a palavra final é do Governador do Estado.
Estão em um condomínio fechado, de classe média alta. As ruas têm oito metros de largura e as calçadas, dois metros. No quarteirão da casa invadida e no quarteirão em frente há apenas casas, com no máximo dois pavimentos. Já no próximo quarteirão subseqüente há uma bela capela, estilo colonial, da época em que o bairro era uma fazenda. Tem uma torre de uns quinze metros de altura, de onde é possível ver toda a região.
Um policial informa que conseguiram ligar para a casa e fizeram contato. O Capitão conversa com o assaltante durante alguns minutos. SR pega o M-16 na viatura, mais uma bolsa com acessórios, e os coloca a tiracolo. Terminada a conversa, o Capitão informa a todos.
- Realmente, é o fugitivo que imaginávamos. Ele quer um carro forte, estacionado na garagem da casa, exatamente às 20:00h, e vai levar o garoto como garantia. Nossa estratégia será tentar convencê-lo a se render, enquanto buscamos viabilizar um tiro de precisão.
- Soldado Rubis, já ouvi muito sobre a sua competência. O senhor será responsável pelo tiro.
- Estou à disposição, Capitão! – SR não dá um tiro de precisão já faz algum tempo (leia Combate).
- Há uma capela no próximo quarteirão. Já temos uma viatura lá. Vá e faça uma avaliação. Os demais podem, em grupos, ver a fita da câmera de vigilância no escritório da administração do condomínio.
CV olha para SR e, sem dizer nada, deseja-lhe boa sorte. Seu parceiro sorri e parte para executar a tarefa.

SR sobe até a torre da capela. De lá vê as janelas superiores da casa invadida, e a janela da sala, onde estão o bandido e os reféns, e está com a cortina fechada.
Organiza a área da melhor maneira para o tiro. Instala a mira telescópica no seu M-16, lustra com um paninho de limpeza a coronha, e beija a medalhinha de Santa Paula que está colada nela. Tudo preparado, posiciona-se.
Depois de alguns minutos, passa ao Capitão a sua avaliação.
- É um tiro de 110m a 130m. Linha de tiro livre. Sem visão do alvo.
O Governador do Estado não quer correr o risco de mais um caso mal resolvido, e instrui a polícia para negociar a rendição do assaltante. Se ele não ceder, e existir risco real para os reféns, deverá ser abatido por um tiro de precisão. A hipótese da invasão da casa está descartada.
O sol se põe; as luzes das ruas acendem. A imprensa acompanha o caso à distância. Há um acordo com a polícia para evitar qualquer sensacionalismo.
As negociações não avançam. O assaltante não tem a intenção de se entregar; sabe que a polícia não quer que ocorra uma tragédia.
CV conversa pelo rádio com SR, que aguarda pacientemente a hora de agir.
- Tu queres que eu mande um lanche?
- Não CV, obrigado, está tudo bem! Estou com fome, mas não posso me distrair. O zelador da capela já providenciou uma garrafa de água.
- Tu que sabes!

São 18:30h e tudo continua na mesma. CV está ansioso. Pega um binóculo e analisa a casa invadida. O portão da garagem é automático, acionado por controle remoto. Em uma das laterais do telhado, há um painel para aquecimento solar. “Essa casa é bastante moderna...”, pensa.
Mentaliza o filme de vigilância que assistiu.
“Um carteiro chega no portão. As calças dele não são do tom do azul dos correios. Ele toca a campainha..., dá para ver as cortinas se abrindo, depois um senhor vem ao portão conversar. O carteiro mostra uma prancheta para ele..., o senhor não consegue pegar a prancheta pela grade do portão..., então ele abre o portão..., o carteiro fica de costas para a câmera..., não dá para ver se ele aponta uma arma. Ele passa pelo portão e ambos seguem para a casa. Não dá para ver a porta, que fica dentro da área da garagem. Aqui o pessoal da segurança já desconfia, liga pelo interfone, não tem resposta, e em seguida a empregada aparece na câmera da rua oposta, no portão do vizinho que faz fundos com a casa. A polícia é acionada. Então..., quando chega a primeira viatura, o invasor aparece rapidamente na janela e as cortinas se fecham..., harmoniosamente...”.
“Hum..., não são cortinas, são persianas... E abrem-se e fecham-se harmoniosamente. Sem aqueles trancos, como quando é fechada manualmente...”
- Central, aqui é o Cabo Valdimir. Preciso que encontrem quem faz manutenção em persianas com acionamento eletrônico na cidade.
“Entendido!”
- Quero que a empresa encontrada disponibilize um técnico, que uma viatura vá buscá-lo e o traga para cá, com todo o ferramental possível, antes das 20:00h.
“Entendido!”
SR está em sua posição, fazendo sua mira.

Faltando quinze minutos para a hora exigida para a chegada do carro forte, o assaltante liga para a polícia.
Ele e o Capitão conversam durante cinco minutos. O rosto do Capitão mostra sinais de apreensão crescentes, na medida em que a conversa se desenrola.
- Ele está disposto a atirar em um dos reféns se o carro forte não estacionar no horário. Vai fazer isso exatamente às 20:00h.
Pega o rádio e dá ordens a SR.
- Soldado Rubis, o senhor tem sinal verde para atirar quando julgar possível. Todas as pessoas estão na sala da casa. Que a mão de Deus o guie!
CV acompanha os acontecimentos, aguardando pelo técnico que a Central já encontrou e está levando até lá. Instruiu os policiais que estão na área para passar o rapaz rapidamente pelos curiosos que estão atrás do cordão de isolamento.
Pelo telefone, o Capitão conversa com o Governador. Discutem, à luz dos novos fatos, a possibilidade de uma invasão.
SR sabe da responsabilidade sobre seus ombros. Deve aproveitar qualquer brecha na cortina e ter certeza de atirar no alvo correto. Não está tenso. Pelo contrário, está tomado pela serenidade; e pela concentração necessária a quem precisa tomar uma decisão extremamente rápida.
O Governador insiste em contar com um blefe do assaltante, o que lhes daria mais tempo para tentar o tiro.
O assaltante não atende mais o telefone.
Restam três minutos.

CV olha preocupado para a multidão de curiosos, quando um clarão se abre e duas policiais femininas trazem, quase que carregado pelos braços, um rapaz franzino com uma maleta.
- O seqüestrador pediu para consertar a persiana? – é o que ele pergunta, com cara de quem está falando sério.
CV coloca um binóculo em frente aos olhos dele.
- Tu me digas se aquela persiana abre com controle remoto!
- Abre sim senhor! Aquela é a Panorâmica Luxo...
- Tu tens o controle remoto aí?
- Claro, tenho um genérico..., este aqui!
CV pega o controle remoto da mão dele e pede a fita isolante.
Tira um pedaço de Hall’s da boca e o coloca sobre o botão “abrir”, passando fita isolante por cima. Em seguida, joga o controle remoto dentro do jardim da casa. Ele cai a um metro da parede da sala.
São exatamente 20:00h.
As persianas se abrem, harmoniosamente, e mostram para todos, principalmente para SR, que, lá dentro, de frente para um sofá onde estão sentados um casal de idosos e um garoto, há um homem vestido de carteiro, levantando uma pistola, com intenção de atirar.
Surpreso, o homem vira o corpo para a janela. Antes de terminar o movimento, seu tempo neste mundo acaba.
A casa é invadida por policiais e pelos paramédicos.

CV corre até a Capela, e encontra SR em pé, olhando pela janela da torre, de onde deu seu tiro certeiro.
- Tu estás se sentindo bem?
- Sim CV, estou!
Ficam em silêncio vários minutos.
Lá de cima vê-se o bairro quase todo, e a cidade mais ao fundo, toda pontilhada de luzes, a maioria amarelas; aparecendo uma vermelha ali, ali uma verde...; várias estão piscando.
SR suspira fundo, e começa a retirar a mira telescópica do M-16.
- Foi um dia cheio CV!
- Foi SR..., vamos lá preencher a papelada e encerrar o expediente?
- Vamos... E depois?
- O que tu achas de pizza com cerveja?
SR pensa por um momento.
- A minha metade, de atum!


Continua...


A Viatura 2112 volta em 12 de Junho

Domingo, 26 de Abril de 2009

When a blind man cries

"If you're leaving close the door
I'm not expecting people anymore
Hear me grieving, I'm lying on the floor
Whether I'm drunk or dead I really ain't too sure."

“Você já viu a justiça sendo feita?”



O Juiz veste terno cinza claro, camisa branca e gravata cinza escuro. Seu topete de cabelos tingidos está bem penteado; suas faces estão avermelhadas graças ao sol do final de semana, e seus óculos, grandes, fazem seus olhos parecerem maiores do que são.
Mas, mesmo que fossem maiores, não veriam as coisas claramente, pois, quando é uma questão de justiça, não se trata do que está evidente aos olhos de todos. Trata-se, quase sempre, do que acontece nos becos escuros, na calada da noite, longe da vista da parte menos favorecida da demanda.
Olhando para a pequena platéia à sua frente, ele pigarreia, coça o nariz, e inicia a apresentação do seu julgamento.

- Ressalto que o depoimento das testemunhas apresentadas pela defesa foi crucial para o entendimento do ocorrido, e para a decisão que agora apresento.
Uma breve agitação toma conta da sala. As pessoas se acomodam em suas cadeiras.
- Decido que não houve intenção, por parte do Sr. Carlos Junqueira Neto, de atropelar a vítima, o Sr. João Ferreira.
Algumas palavras de apoio são ouvidas, vindo das pessoas que ocupam o lado esquerdo da sala. Do lado direito, a vítima não se manifesta.
- O Sr. João Ferreira – continua o Juiz -, pedalava sua bicicleta pelo acostamento do quilômetro 124 da estrada BR-376, dentro do perímetro urbano da nossa cidade, quando, movido pela curiosidade, agiu de forma imprudente e cruzou a pista para ver as vítimas de um atropelamento que ocorrera minutos antes naquele local. O Sr. Carlos Junqueira Neto não estava prestando a devida atenção ao trânsito, pois também estava curioso com o acidente já mencionado, e olhava para sua esquerda, não percebendo quando a bicicleta do Sr. João Ferreira entrou na frente do seu carro.

O Sr. João Ferreira está sozinho na audiência. Seu advogado, recém formado, bom rapaz, dedicado ao caso, o defendeu de graça. Não conseguiu nenhuma testemunha da versão do seu cliente, e apresentou sua defesa baseado unicamente nas declarações da vítima. Estava ali até a pouco, mas teve que se retirar às pressas para socorrer um parente doente.
Nervoso, segura com as duas mãos sua bengala dobrável, com a qual ainda não está acostumado, e escuta atentamente as palavras ditas pelo Juiz.
Gostaria de poder vê-lo, para olhar nos olhos dele enquanto ele conta tamanha mentira. Que olhar ele teria? Deixaria transparecer nos seus olhos, janelas da sua alma, saber da falsidade das alegações das testemunhas apresentadas pela poderosa família Junqueira?
Alegações totalmente infundadas, de pessoas sem caráter, compradas com quaisquer trinta dinheiros pelo avô do seu atropelador, político conhecido e proprietário de terras na região.
O Sr. João Ferreira contou sua história para seu advogado, para o Juiz e para qualquer pessoa que a quis ouvir.
Pedalava sua bicicleta calmamente pelo acostamento, retornando de mais uma noite de trabalho como segurança em uma empresa de instalações elétricas. Estava se sentindo bem. Mais uma semana e completaria um ano no emprego. Pretendia tirar férias e visitar sua família no interior de Pernambuco. Não via sua mãe há mais de dois anos. No final daquela semana faria um bico pintando o seu e os demais cinco quartos da pensão onde morava. Não ganharia nada em espécie, mas o dinheiro que economizaria com o desconto no valor do aluguel serviria para custear sua viagem de férias. Talvez sobrasse um pouco para dar de entrada em uma bicicleta nova.
Quando passava pelo quilometro 124, o trânsito estava lento devido a um motoqueiro ter atropelado um cachorro na pista contrária, e ambos, o cachorro e o motoqueiro, estarem estendidos no asfalto.
O Sr. Carlos Junqueira Neto, que dirigia seu Opala não teve paciência para aguardar o trânsito fluir; saiu pela direita cantando os pneus, e o atropelou violentamente no acostamento, jogando-o contra o pára-brisa.
Quando acordou, no hospital, pensou estar sonhando, pois ouvia a voz das pessoas ao seu redor, mas não as via. Só enxergava uma absoluta escuridão. Ficou sabendo logo depois que ficara cego devido ao acidente, e percebeu que sua vida tomara um rumo totalmente imprevisto no qual tudo, inevitavelmente, seria mais difícil.
O advogado da família Junqueira o visitou no hospital, e lhe disse que teria suas despesas hospitalares pagas, e receberia assistência jurídica para resolver as questões relacionadas à Previdência Social.
Esperava que a rica e poderosa família Junqueira o compensasse pelo imenso prejuízo, mas, para sua surpresa, ele estava sendo considerado responsável pelo ocorrido.

- Como conseqüência do atropelamento, o Sr. João Ferreira, infelizmente, perdeu a visão. E o Sr. Carlos Junqueira Neto teve um ferimento na retina do olho direito, cujas conseqüências ainda não são conhecidas. Manda a lei exigir que o causador do acidente, neste caso, o Sr. João Ferreira, como pena pela sua imprudência, indenize o Sr. Carlos Junqueira Neto.
- Porém, entendo que ambos foram vítimas de uma tragédia, onde não houve intenção de dolo de nenhuma das partes; tragédia esta que para o Sr. João Ferreira foi muito mais danosa.
- O Sr. Carlos Junqueira Neto, ao qual não se isenta de responsabilidade, pois deveria estar atento ao trânsito, pagou todas as despesas médicas do Sr. João Ferreira, além de colocar à disposição deste seu advogado, para orientações relativas à sua aposentadoria por invalidez.
O Juiz faz uma pausa para tomar água..., ou para aumentar a ansiedade da audiência. Enxuga a boca com um guardanapo, sem pressa.
- Decido que o Sr. João Ferreira, devido à parcela de responsabilidade da outra parte no acidente, não pagará indenização ao Sr. Carlos Junqueira Neto, e que este, por sua vez, não deve nada ao Sr. João Ferreira.
A maioria da platéia manifesta seu contentamento, comentando ser correta e justa a decisão do Juiz.

O Sr. Carlos Junqueira Neto está de cabeça baixa, olhando para seus pés. Fica aliviado com a conclusão do caso, que o inocenta da responsabilidade pelo acidente que causou. Nunca um membro da família Junqueira teve qualquer problema com a lei, e ele detestaria ser o primeiro a ser fichado. Já era visto como uma espécie de ovelha negra, pelo seu comportamento festeiro e descompromissado. Irresponsável, segundo alguns parentes mais próximos.
Contou a verdadeira versão do acidente apenas para seu avô, que lhe disse para não se preocupar, pois tudo seria resolvido da melhor maneira possível.
Ele voltava de um churrasco na chácara de um amigo, onde comemoraram uma despedida de solteiro. A festa contou com grande participação feminina, na proporção de duas mulheres para cada homem, e se estendeu da noite anterior até a manhã do dia seguinte. Ele não estava bêbado, apenas cansado e mal humorado.
Quando chegou ao quilômetro 124 encontrou o trânsito lento devido ao atropelamento do cachorro pelo motoqueiro, e não teve paciência para esperar. Sua cabeça doía e sua boca estava com gosto de coisa estragada. Resolveu sair pelo acostamento. Virou o volante para a direita, engatou a terceira marcha e arrancou.
Mal entrou no acostamento viu um corpo se chocar com o pára-brisa, ao mesmo tempo em que o seu corpo era arremessado para frente, sendo seguro pelo cinto de segurança, que não impediu que o seu rosto fosse atingido pelo vidro que se quebrou com o peso da pessoa atropelada.
A ambulância do resgate chegou para socorrer o motoqueiro e também socorreu os envolvidos no novo acidente. O cachorro morreu.

Depois de socorrido no hospital da cidade, o Sr. Carlos Junqueira Neto foi enviado para a melhor clínica oftalmológica da capital, onde retirou pequeninos pedaços de vidro incrustados na retina do seu olho direito.
Durante o rápido processo judicial que se seguiu, recebeu orientação do seu advogado para contar ao Juiz a versão que agora era declarada oficial. Seu avô conseguiu três pessoas que testemunharam terem visto o Sr. João Ferreira cruzando a pista bem na frente do seu carro, que ia a, no máximo, quarenta quilômetros por hora.
Moralmente, isso não o incomoda. Nasceu e cresceu naquela cidade, com a força do seu sobrenome garantindo-lhe todo o tipo de facilidade, homenagem ou benevolência. Onde quer que fosse as portas lhe eram abertas e o melhor lugar lhe era cedido. Bastava um telefonema para que tudo fosse resolvido de acordo com sua vontade. Era o neto preferido do seu avô, e sabia tirar proveito dessa condição.
Em nenhum momento olha para o Sr. João Ferreira, sua vítima. Não tem idéia da sua fisionomia, e nenhum interesse nela. Continua olhando para os pés, mesmo quando o Sr. João Ferreira, demonstrando, dada a sua simplicidade, sua ignorância em questões protocolares, se manifesta.

- Senhor Juiz, gostaria que o senhor permitisse que eu dissesse uma coisa.
Antes de o Juiz responder, o Sr. João Ferreira retira do bolso um recorte de jornal, e o levanta com a mão esquerda em direção às pessoas do outro lado da sala.
- Aqui está a reportagem sobre o acidente. Não está escrito como as coisas realmente aconteceram. Mas está escrito o nome da pessoa que me colocou na escuridão, e que está aqui presente.
- Não posso vê-lo, Sr. Carlos Junqueira Neto, mas, se pudesse, gostaria de olhar bem nos seus olhos para ver se algo neles mostraria ter o senhor um pouquinho de caráter, para reconhecer o mal que me fez, e me compensar por isso. Estou vivendo na escuridão desde aquele dia, e vou guardar este pedaço de jornal para mostrar para qualquer pessoa que se interesse pela minha história, o nome daquele que vive na escuridão também, mesmo tendo olhos perfeitos para enxergar a luz.
Ninguém responde. O Juiz levanta-se e sai por uma porta lateral. O Sr. Carlos Junqueira Neto, seguido pelo seu advogado, seu avô e seu motorista, deixa rapidamente o recinto.
O Sr. João Ferreira desdobra sua bengala e, com alguma dificuldade, dirige-se para a saída.
Na parede oposta à porta da sala, uma estátua da Justiça testemunha tudo, cega como todos que estavam presentes.





Capítulos já publicados:
God - John Lennon
Roxanne - The Police
Be Quick or Be Dead - Iron Mainden
Jumping Jack Flash - Rolling Stones
Broken Hearted Blues - T. Rex
Running with the Devil - Van Halen
I Shall be released - Bob Dylan
I can't quit you baby - Led Zeppelin
Nativity in Black (N.I.B.) - Black Sabbath
Mother - Pink Floyd
Ready for love - Bad Company
Call me The Breeze - Lynyrd Skynyrd
Traveller in Time - Uriah Heep
Sweet Child of Mine - Guns and Roses
When a Blind Man Cries - Deep Purple

Oriente-se com o Guia de Leitura

Guia de Leitura - Fragmentos de um Romance

Fragmentos de um Romance” é uma história que gira em torno de três questões, uma central e duas complementares.
A questão central pode ser apresentada com a seguinte pergunta: “Quanto você pagaria para ter o que mais deseja?”.
Nosso personagem principal, que chamaremos de “Protagonista”, conseguiu o que mais desejava, até um pouco mais, e agora faz uma jornada ao longo do planeta buscando evitar a qualquer custo admitir uma coisa para si mesmo.
Nessa jornada participará de maneira direta ou indireta da vida de algumas pessoas, e será determinante para o futuro delas; sem que elas, necessariamente, saibam disso.

A primeira questão complementar baseia-se na seguinte premissa: “Se tudo em nosso mundo tem duas dimensões (branco e preto, raso e fundo, certo e errado...), por que o próprio “mundo” como o conhecemos não teria uma dimensão – física - antagônica, ou inversa?”.

A segunda questão complementar trabalha com o arquétipo da existência do “mal” personificado; por exemplo, no “Diabo”, se aplicarmos a ele uma interpretação cristã.

Alguns personagens já foram apresentados, e suas histórias já foram ou ainda estão sendo contadas.

Personagens
Angélica: Adolescente que mora com a mãe em uma cidade do Paraná.
Janaína: Mulher belíssima que vive à custa da própria beleza e poder de sedução.
Francisca: Senhora de meia idade, gari da Prefeitura, mãe do Kennedy.
Kennedy: Filho de Francisca, moto boy e universitário, estudante de matemática.
João Ferreira: Cego, vítima de um atropelamento.
Carlos Junqueira: Rico, cineasta, primeiro brasileiro a ganhar um Oscar.
Thing”: “Entidade” da dimensão paralela.
“Evil”: O “mal” personificado.

A história completa terá entre vinte e cinco e trinta capítulos, que são publicados sem ordem cronológica.
Veja no infográfico abaixo como os capítulos contam a história e quais personagens eles trazem. É claro que os capítulos finais serão publicados por último.

Infográfico até o 15º capítulo


1001 Discos para ouvir antes de morrer

Se você se intessa por música, e/ou frequenta livrarias, já deve ter visto ou ouvido falar do livro abaixo:


Sinopse:
Em 1001 discos para ouvir antes de morrer, 90 jornalistas e críticos de música internacionalmente reconhecidos apresentam uma rica seleção dos álbuns mais inesquecíveis de todos os tempos.
Abrangendo desde as origens do rock ‘n’ roll nos anos 50 aos mais recentes sucessos, este livro vai guiar você por diferentes tendências sonoras e mostrar o poder que a música tem de representar as aspirações e os sentimentos de toda uma geração.
Embora grande parte do livro seja dedicada ao rock e ao pop, há também dezenas de boas indicações de jazz, blues, punk, heavy metal, disco, soul, hip-hop, música experimental, world music, dance e muitos outros estilos.



Pois bem, para a felicidade de milhares de internautas, algumas almas iluminadas resolveram criar um site e colocar os discos para download, com capa e lista das músicas.
Nosso agradecimento a eles e o link para você: 1001 Discos...

Domingo, 19 de Abril de 2009

Viatura 2112 - Operação de Salvamento

O Cabo Valdimir (CV) e o Soldado Rubis (SR) pegaram a Viatura 2112, guardada no estacionamento do Campo de Aviação Militar (leia Gênio do Crime), e a lavaram por fora, passaram “pretinho” nos pneus, aspiraram por dentro e enceraram seus bancos. Depois a levaram para trocar o óleo, a bateria, os amortecedores, e para lavar o motor.
- Que bom que o encarregado do estacionamento ligava ela todos os dias! – exclama satisfeito CV.
- Também..., você telefonava para ele até nos finais de semana... – completa SR.
Seguindo pelas ruas e avenidas, a viatura é a leoa que sai à caça com fome e apetite. SR observa pela janela o movimento de carros e pessoas que fazem tão especial a cidade que ama.
A Beretta e o M-16 também estão limpos, lubrificados, carregados e prontos para defender a ordem e a vida dos que labutam no seu dia a dia, buscando um futuro melhor.

CV e SR retornam às suas atividades normais depois de quase quatro meses de trabalho administrativo.
- O que tu achas de voltar para a ronda, SR?
- Bom..., muito bom CV! Agora vou perder os quilinhos que ganhei trabalhando sentado o tempo todo.
- Tu vais perder os teus pneuzinhos SR?
- Vou! Incomoda-me a farda assim..., meio justa...
- Que pena...

Eles ficaram “na geladeira” durante algum tempo. Foram retirados de circulação depois de se envolverem em um caso complicado que, pelo que entendem agora, não era para ser resolvido da maneira como resolveram.
- Quem sabe a gente não mexe mais em vespeiros... – murmura CV com tom de culpa, enquanto troca a marcha e vira à esquerda.
SR coloca a mão na perna dele e consola seu companheiro.
- Não se culpe por termos feito a coisa certa CV! Você seguiu sua intuição e seu faro de policial. Pegamos o gringo antes que ele fosse morto..., sabe-se lá por quem.
- Eu sei SR..., questões políticas à parte, fizemos o que tínhamos que fazer...
Olham-se com aquele olhar de compreensão mútua de quem está junto há muito tempo.
- Você também está mais cheinho CV!
- Culpa dos almoços na casa da minha ou da sua mãe, SR!

CV imaginava que a solução daquele caso os colocaria em outro patamar dentro da corporação.
Já eram policiais respeitados, condecorados por ações anteriores (leia Ocorrência Zero), mas ainda não haviam feito nada que os projetasse além dos limites da cidade, ou do país.
O caso do salvamento do gringo foi abafado e nenhuma linha saiu na imprensa. Depois que o entregaram no Palácio do Governo, nunca mais se ouviu falar nele.
SR conhece seu parceiro melhor do que a palma da mão. Sabe que ele está ressentido por tudo que aconteceu. Correram enorme risco para nada. Além de destruírem o novíssimo Jaguar usado no cerimonial do governo do estado.

- Tu estás com fome SR?
- Estou..., mas só vou tomar um suco e comer algo leve!
Param para um lanche em uma conhecida lanchonete da região. O gerente do estabelecimento os saúda: “- Que bom que voltaram!”.
CV e SR sorriem em resposta. Uma das pessoas que levava lanches para viagem reconhece SR e se dirige a ele.
- Você é aquele policial que salvou as pessoas do cavalo no desfile de 7 de Setembro? (leia Sete de Setembro)
SR move a cabeça afirmativamente.
- Parabéns! O senhor é um herói! – diz o anônimo fã. - Minha tia estava naquele grupo de velhinhos que o senhor protegeu! Uma amiga bateu uma foto da minha tia ao seu lado!
Conversam um pouco e SR anota o endereço e promete visitar a velhinha para autografar a foto que está emoldurada, sobre um móvel na sala de jantar.
- Chegou a vez de vocês! – anuncia o gerente.
CV e SR despedem-se da pessoa e sentam-se para comer nas cadeiras defronte ao balcão.

- Aquele cara te chamou de herói, SR!
- O sobrinho da velhinha do desfile?
- Tu sabes que é dele que estou falando!
- Sei..., mas não acho correto me chamarem assim.
- Não?
- Não!
- E tu podes me explicar a razão?
CV coloca mostarda no seu “Cheese-Salada do seu Oswaldo” e começa a comê-lo, com expressão de satisfação. SR dá uma mordida no seu sanduíche de queijo com alface e molho de tomate, pega um guardanapo e o entrega a CV.
- Tem maionese no canto da sua boca!
A pergunta feita por CV fica no ar. Quando estão em público, SR não gosta de conversar durante as refeições. Depois do lanche, voltam para a viatura.
- Sua mãe também ficou triste por voltarmos para a ronda CV?
- Claro... Ela se acostumou com a gente almoçando com ela, assim como a tua se acostumou também. Vamos tentar almoçar com nossas mães com mais freqüência. O que achas?
- Faremos o possível!
- Então..., perguntei lá na lanchonete a razão de não gostares de ser chamado de herói.
CV nunca se esquece de uma questão pendente. SR faz sua explanação calma e pausadamente.

- Primeiro CV, temos que rever a definição de herói. O Herói, do latim heros, para os Gregos da antiguidade era um semideus, pois estava entre os deuses e os homens, sendo, em geral, filho de um deus e de uma mortal, ou vice-versa. Ele representa a condição humana, na sua complexidade psicológica, social e ética e, por outro, transcende a mesma condição na medida em que representa virtudes que o homem comum não consegue, mas gostaria de atingir. É guiado por ideais nobres e altruístas e suas motivações sempre serão moralmente justas ou eticamente aprováveis. Herói é uma condição que denota muita retidão, consciência e responsabilidade.
- Com certeza! – concorda CV. SR continua.
- Na minha concepção, heróis são pessoas que se sacrificam para tornar o mundo melhor, não só para um grupo específico, mas para a raça humana como um todo. Tomam atitudes e fazem sacrifícios para que as pessoas adquiram uma nova consciência do que é certo e do que é errado, do que é bom e do que é ruim, do que tem que ser mudado no presente, para garantir o futuro.

- Cite algumas dessas pessoas! – CV adora estimular SR.
- Martin Luther King, por exemplo.
- Aquele pastor negro, norte-americano?
- Sim! Ele foi pastor protestante, da Igreja Batista, e ativista político. Tornou-se um dos mais importantes líderes do ativismo pelos direitos civis nos Estados Unidos e no mundo, através de uma campanha de não-violência e de amor para com o próximo, inspirada em Gandhi. Foi a pessoa mais jovem a receber o Prêmio Nobel da Paz, em 1964. Morreu assassinado em 4 de abril de 1968. Ele é mais do que um herói, é um mártir.
- Não foi ele que fez aquele discurso famoso, que dizia “Eu tenho um sonho...”?
- Foi..., lembro de um pedaço, já na parte final: “... quando nós permitirmos o sino da liberdade soar, quando nós o deixarmos soar em toda moradia e todo vilarejo, em todo estado e em toda cidade, será aquele dia quando todas as crianças de Deus, homens pretos e homens brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos, poderão unir as mãos e cantar...”.
- Bonito... Realmente, o mundo melhorou nesses quarenta anos, tu não achas?
- É verdade CV. Na questão dos direitos civis..., pelo menos no Ocidente...
- Quem mais está na tua lista de heróis?
- São tantos..., Madre Tereza de Calcutá..., Nelson Mandela..., Gandhi, que já mencionei...

- Tudo bem SR, dentro da tua concepção, são excelentes exemplos. Mas a gente vê muitas pessoas comuns realizando atos de heroísmo. Os Bombeiros, por exemplo, tirando pessoas de incêndios, socorrendo vítimas de acidentes de trânsito, salvando vidas todos os dias...
- Nesse caso CV, profissionais como Bombeiros e nós, Policiais, trabalham salvando vidas e, em maior ou menor grau, colocando a própria vida em risco. Não sei se podemos considerar nossa rotina como um conjunto de atos de heroísmo. É apenas o dia a dia do nosso trabalho. Por isso...
- Por isso tu achas que o termo “herói” não cabe para nós?
- No sentido clássico, acho que não...
Um chamado da Central interrompe a conversa.
“Temos uma ocorrência de um gato preso em uma árvore na Rua dos Patriotas, número 6.230”.
- Viatura 2112 a caminho! - SR responde pelo rádio.
- De volta à ação SR?
- De volta à ação CV!
E a viatura corre para atender a ocorrência, com a pressa da mãe em salvar seu filhote.

Chegando ao endereço informado, encontram uma garotinha de uns oito anos esperando no portão.
- Moço! – ela dirige-se a SR, o primeiro a sair da viatura. – É o senhor que vai pegar o Fininho lá em cima da mangueira?
SR agacha-se na frente da menina e pergunta o nome dela.
- Carolina!
SR diz que vai ver onde o Fininho está e, dependendo da dificuldade, vai chamar os Bombeiros.
CV cumprimenta-a com simpatia e os três entram, seguindo pela lateral da casa até o quintal, que não é muito grande, e está tomado pela sombra de uma mangueira alta e imponente, plantada em seu centro.
- Carolina..., onde está a sua mãe? – questiona CV.
- Minha mãe foi ao supermercado. Ela deixou o celular carregando lá no quarto dela. Ela me disse que quando eu tivesse um problema e não conseguisse falar com ela, que era para eu ligar para o número 190 e falar com a moça que atendesse ao telefone. Aí eu liguei e falei para a moça que o Fininho tinha subido na árvore e não conseguia descer lá de cima.
- Onde está seu gatinho? – pergunta SR.
- Lá em cima! Ele é branquinho!

Fininho, o gato de Carolina, é um filhote de mais ou menos seis meses de idade. Subiu até quase o topo da mangueira, a uma altura de uns dezoito metros e, como quase todo gato que sobe em uma árvore pela primeira vez, não sabe descer e chora desesperado.
Enquanto os três olham para cima, Fininho tenta de deslocar, mas escorrega e cai do galho em que está, se enroscando em outro dois metros abaixo. Com o susto, chora mais alto.
- Moço! Ele vai cair moço! Ele vai cair! O Fininho vai cair! Meu gatinho vai cair!
Carolina começa a chorar tão alto quanto o miar do gato.
CV é o responsável pela estratégia. Ele pergunta para SR: - Tu sabes subir em árvore?
- Tanto quanto sei cavalgar!
- Então tu ficas com ela que eu vou!
SR coloca-se ao lado de Carolina. Pega um lenço no bolso e enxuga as lágrimas dela. Depois, a segura pela mão e diz que tudo dará certo. Ela se acalma.
CV tira o cinto com o coldre, o quepe e o distintivo, os sapatos e as meias. SR acha que ele tem pés muito bonitos.
- Tome cuidado CV!

CV pisa no assento de um balanço de criança e, dele, sobe no galho baixo onde o balanço está amarrado. Em seguida, começa a escalar a árvore, tomando o cuidado de manter “três pontos presos e um solto”.
Sobe três, quatro, cinco..., dez metros. Carolina sente que SR aperta a sua mão.
- Moço?
- O que foi Carolina?
- O senhor está me machucando!
- Ah! Desculpe! Estou preocupado com o gatinho!
Carolina é muito criança para entender a preocupação dele.
Minutos depois, CV chega a uma distância de uns três metros do galho onde está Fininho, que parou de chorar, curioso com os esforços em seu socorro.
- Fininho..., vem cá bichano, vem... vem cá Fininho..., vem..., vem...
Carolina pergunta a SR por que CV simplesmente não vai até Fininho e o pega. SR explica a ela que, em um livro que eles leram, estava escrito que não se deve pegar o gato, pois ele precisa entender que pode, e deve descer da árvore caminhando de costas, pois as garras dele não o deixarão escorregar. Ele precisa aprender isso para voltar a subir em qualquer árvore sem problemas. Ela passa a incentivar seu gatinho também.
- Desce Fininho..., desce até o moço..., desce!
A mãe da menina chega do supermercado e entra em casa correndo, assustada com o carro de polícia parado em frente ao seu portão. SR a tranqüiliza, explicando a situação. Ficam então os três no solo, mais CV em cima da árvore, incentivando o gato a aprender a descer.
Quinze minutos de muita insistência depois, Fininho começa a se mover timidamente, um passinho de cada vez, até chegar a uma distância segura para CV, preferindo contrariar o livro e garantir o sucesso da operação, esticar o braço e pegá-lo delicadamente.
- Ele pegou! Ele pegou o Fininho!
Carolina explode de alegria e os três aplaudem.
CV coloca Fininho dentro da camisa, com a cabeça para fora, no espaço entre dois botões. Desce tomando todo o cuidado para não escorregar, e para não amassar seu passageiro contra o tronco da árvore. Quando chega ao galho mais baixo, entrega Fininho nas mãos da mãe de Carolina, que o passa para filha.
- Não faça isso de novo, seu gatinho feio! – Carolina ralha com seu bichinho de estimação.
CV desce até o balanço e depois até o chão. SR respira aliviado.

Carolina agradece CV dando-lhe um beijo no rosto. A mãe dela pede para tirar uma foto dos dois com o gatinho e vai pegar sua máquina fotográfica.
CV coloca novamente as meias, os sapatos e todo o resto. SR se preocupa em ajeitar os últimos detalhes.
- Para você ficar bem na foto!
Fica então registrada para a posteridade a imagem de CV, em pé, sério e sóbrio, com Carolina à sua frente, segurando Fininho nos braços.
Tomam um copo de água gelada, despedem-se e voltam para a viatura.
CV registra a ocorrência no seu relatório. SR pega sua agenda no porta-luvas e anota a promessa que fez, de visitar a velhinha e autografar a foto dela com ele.
- Nada mal para o primeiro dia da volta à ronda, tu não achas SR? - CV sente-se orgulhoso pelo salvamento que realizou.
- Nada mal CV!
A viatura parte levando seus filhotes. Em pensamento, ambos questionam-se e refletem, cada um com seus conceitos, sobre o que seria ser um herói.


Continua...


A Viatura 2112 volta no dia Primeiro de Maio

Fotos de Dag Alveng

Na Caixa Cultural, Av. Paulista 2083, Conjunto Nacional, São Paulo, uma belíssima exposição de fotos em preto e branco:

Dag Alveng
Nova Iorque
Noruega
1979/2008

Até 10 de maio. Não perca!

Domingo, 12 de Abril de 2009

Encoxando a Beata

Segunda temporada – Décimo segundo capítulo

Três horas da tarde.
Às vezes me impressiono com os esforços que fazemos para conseguir o que queremos. Planejamos e executamos planos mirabolantes, corremos riscos, passamos por situações complicadas. Mas, quando o objetivo é alcançado, quando o objeto do desejo está em nossas mãos, tudo terá valido a pena.
É por isso que estou escondido dentro do carro de roupas femininas lavadas e passadas, cheirando à amaciante, estacionado na frente de uma porta de metal cinza escuro, onde se lê em uma placa pendurada: “ALA FEMININA”.
Faço essa viagem semanalmente. Garanto algumas horas de folga das tarefas coletivas executando alguns bicos que consigo junto ao pessoal da administração. Uso essas horas após o término do meu trabalho diário na lavanderia. Assim, ninguém se dá conta do meu sumiço por duas ou três horas.
Sempre deixo meus assessores, Duplo V e Zé Rola, com alguma missão para executar. Como espionar a rotina dos enfermeiros e da clínica como um todo, e vigiar o Profeta Celestino e seu assecla, o asqueroso e ensebado Dante. O Profeta parece ter uma atividade secreta também, e estamos empenhados em descobrir qual é.
Ouço o som de um molho de chaves abrindo a porta do paraíso. E, depois que a porta se abre, duas enfermeiras vem buscar o carrinho cheio de roupas íntimas em que estou, e o outro estacionado ao lado, trazendo roupas de cama.
Hoje, como sempre, falam de algum dos enfermeiros da Ala Masculina. Descobri que ambas estão realizando uma pesquisa de natureza sexual com os enfermeiros. Cada semana uma delas dorme com um deles, e depois, quando estão juntas, comparam desempenhos e anatomias.
Não tenho nada contra qualquer experimento científico, muito pelo contrário. Também sou um pesquisador da natureza humana. Da natureza feminina, para ser exato e, dentro dela, da questão do prazer sexual, especificamente. Em um campo tão vasto e digno de pesquisa, foi nesse que decidi me especializar.
Sou o Encoxador Misterioso, baby, e, se um dia entrevistarem todas as mulheres – realmente - felizes desta cidade, descobrirão que muitas delas se tornaram o que são por terem participado, como dóceis e felizes cobaias, da minha experiência.

Pronto, estamos em movimento. Passamos pela porta..., agora o chacoalhar no piso de tacos, depois a parada para ler o quadro de tarefas, e ver qual será a interna encarregada de guardar as roupas. É um momento de expectativa. Antigamente, livre pelos ônibus da cidade, eu podia escolher a sortuda do dia, que receberia sua dose vitalícia de encantamento. Aqui na clínica, tenho que ficar com o que aparecer. Confesso que, na maioria das vezes, não tenho muita sorte. Ainda não apareceu nenhuma que superasse a Jô Gozô, em qualquer critério.
- Hoje os lençóis serão trocados pela Cidona e pela Julinha. O estoque de roupas de cama fica com a Patricinha..., e a Piedade vai organizar o quarto de roupas.
- Pelo menos no quarto de roupas ela pode cantar e rezar à vontade. Fechada lá dentro, não enche o saco de ninguém!
- Verdade... Mudando de assunto..., você reparou como a Jô Gozô está diferente?
- Claro! Conversando com ela, parece até que está curada!
- É..., mas os médicos estão desconfiados de alguma coisa, querem esperar para ver se descobrem a causa da melhora dela.
Então, Piedade será a sortuda do dia! Pelo que já ouvi a respeito dela, é uma beata que anda pelos corredores rezando, cantando e citando a Bíblia. Bom..., como diria Duplo-V: “- Qualquer coisa é melhor que nada!”.

Uma vez dentro do quarto de roupas, olho cuidadosamente para fora. Não há ninguém. Nenhuma interna chega antes do carrinho chegar. Desço e me escondo sob a mesa, atrás das cortinas de pano branco. Ouço um cântico que fica cada vez mais alto e claro.
- Senhor..., Aleluia Senhor..., Senhor..., Aleluia Senhor..., Aleluia...
Piedade entra e começa a realizar sua tarefa. Fazendo uma avaliação básica..., hum..., até que ela atende às expectativas. Dá para perceber as curvas escondidas por algumas camadas de tecido. Desperdício de um corpo bonito... Está de costas para mim, separando as peças por tipo e número..., hora de atacar!
Que soem as trombetas de Jericó! Ou seriam de Gomorra?
Um toque no joelho..., e ela se manifesta.
- Já vi as tuas abominações, e os teus adultérios, e os teus rinchos, e a enormidade da tua prostituição sobre os outeiros no campo; ai de ti, Jerusalém! Até quando ainda não te purificarás?
Será que estou indo bem? Dou aquele toque mais para cima, mas para dentro da coxa, onde é mais quentinho... Ela respira fundo.
- Disse-lhe ele: Quais? E Jesus disse: Não matarás, não cometerás adultério, não furtarás, não dirás falso testemunho.
Não querida..., não há pecado em nosso ato. Não furtamos nada, de nós ou de ninguém, não mentimos quando externamos no arrepio dos pelos do corpo a intensidade das nossas sensações; não traímos ou matamos. Se não somos puros, somos ao menos inocentes... Deixe-se levar querida. Você é a Dalila que não cortará os cabelos de Sansão, pois não quer se separar do prazer que ele te dá.
- Quanto ela se glorificou, e em delícias esteve, foi-lhe outro tanto de tormento e pranto; porque diz em seu coração: Estou assentada como rainha, e não sou viúva, e não verei o pranto.
Vamos lá minha querida..., “Crescei e multiplicai” é o princípio de tudo... Deixa eu te pegar..., assim..., isso..., e te levar pelos mistérios da criação, voando entre as nuvens brancas sob um céu divinamente azul.

- O meu amado fala e me diz: Levanta-te, meu amor, formosa minha, e vem.
Já nos entendemos e nos irmanamos em espírito. Agora, vamos irmanar os nossos corpos. Ela se solta, debruça sobre as roupas arrumadas e relaxa; discípula aplicada, em silêncio e de olhos bem abertos, atenta ao meu sermão. E mostro a ela minha interpretação do que é sagrado e do que é profano.
- O meu amado é meu, e eu sou dele; ele apascenta o seu rebanho entre os lírios.
Pronto..., já estamos quase lá..., vamos..., vamos flutuar. Sinta seu espírito deixando o corpo e se expandindo, misturando-se com o ar. Sinta vindo bem de dentro, lá onde o fogo arde incessante - nas profundezas infernais de todos nós -, um frenesi que vai te tomando de mansinho, devagarzinho, e se tornando intenso, intenso, intenso...

- Eu sou do meu amado, e o meu amado é meu; ele apascenta entre os lírios.
É então chegada a hora quando todos os anjos tocam suas trombetas douradas anunciando do céu a mais nova obra do Senhor na Terra: o entendimento dos mistérios da vida e dos prazeres do corpo, na realização da fé através do amor.
- E a tua boca como o bom vinho para o meu amado, que se bebe suavemente, e faz com que falem os lábios dos que dormem.
Deixo que pouse suavemente sobre as roupas desarrumadas. Ela respira profundamente e ronrona como uma gata largada em seu cesto de dormir.
Identifico o carro cheio de roupas íntimas usadas, que serão levados à lavanderia, e me escondo dentro dele. Ouço-a fazer uma última citação.
- As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam.
Não me importa o que ela quis dizer. Já não tenho mais o que fazer aqui. O carrinho que me levará de volta não é tão agradável quanto o que me trouxe. Paciência... Passo o tempo tentando identificar uma peça que eu já conheça.
Hum..., essa já vi..., essa também... Nossa! Olha o estado dessa!
Ouço um grito abafado, de prazer intenso, vindo de outro lugar. Acho que, ao contrário do que dizem as enfermeiras, a Jô Gozô não está curada.



Índice de capítulos
12) Encoxando a Beata
11) Encoxaram o Profeta
10) A empadinha, por Dante
9) A empadinha, por Zé Rola
8) A encoxada que cura
7) A fé que salva
6) Ao encontro das ovelhas
5) Na Ala Feminina
4) Um cara atrapalhado
3) Troca Perigosa
2) Big Boss
1) A visão do Profeta

Primeira temporada completa: A caça ao Encoxador Misterioso

Encoxaram o Profeta

Segunda Temporada - Décimo primeiro capítulo


Do quarto do Profeta Celestino vinham gritos terríveis. Ao verificar o que acontecia, os enfermeiros encontraram uma cena que só não os impressionou mais porque já estavam acostumados às situações mais absurdas.
O profeta estava açoitando seu próprio corpo, com um chicote improvisado, feito de garrotes, pedaços de barbante e pedrinhas. Suas costas e braços já apresentavam diversos ferimentos. O sangue corria pela pele nua, empapando as roupas abaixo da cintura e fazendo pequenas poças no chão. A cada chicotada que se dava, o Profeta soltava um novo grito e parecia redobrar o ânimo em castigar-se. Entre seus gritos distinguiam-se citações de trechos dos mais terríveis da Bíblia, todos falando do castigo de Deus aos pecadores:
- Estas coisas se te farão, porque te prostituíste após os gentios, e te contaminaste com os seus ídolos.
E mais uma chicotada nas costas...
- Porventura furtareis, e matareis, e adulterareis, e jurareis falsamente, e queimareis incenso a Baal, e andareis após outros deuses que não conhecestes?
Outra chicotada, entre gritos lancinantes...
- Portanto, assim diz o Senhor: "- Como te esqueceste de mim, e me lançaste para trás das tuas costas, também carregarás com a tua perversidade e as tuas devassidões.".
Novamente o chicote agindo...
- Tu, que dizes que não se deve adulterar, adulteras? Tu, que abominas os ídolos, cometes sacrilégio?
Foram necessários quatro enfermeiros para segurá-lo, enquanto um quinto lhe aplicava um tranqüilizante. Imobilizado e amolecido, foi levado à Contenção, onde passou diversos dias em tratamento intensivo. Ao retornar ao convívio dos demais internos encontrava-se pensativo, sempre pelos cantos, silencioso. Nesta situação é que foi procurado por Dante, preocupado, querendo saber o que acontecera com o seu mestre.
- Ah, amigo! Receio que, mesmo com toda sua justiça, Renato Cordeiro jamais possa perdoar os meus pecados!
- Mas o que aconteceu, afinal, Profeta?
- Você sabe bem que com a sua inestimável ajuda e a ajuda da irmã Piedade, eu tenho aproveitado os momentos de folga para levar a mensagem de Renato Cordeiro às ovelhas da Ala Feminina...
- Sim, eu sei. Mas nunca pensei que isso fosse pecado.
- Não, levar ao próximo a mensagem de Renato Cordeiro ao próximo é um dever, não um pecado. Jamais seria um pecado!
- Então o que aconteceu? Encontrou aquele imbecil do Zé Rola quando estava voltando e lhe deu umas merecidas porradas? Se fez isto, tenho certeza de que será perdoado, aquele cara pede para apanhar. Não suporto aquele cara...
- Não, meu amigo, não encontrei ninguém. E não usaria da violência, é contra a mensagem de Renato Cordeiro. O meu pecado foi muito, muito pior que isto. E não merece perdão, merece muitos castigos.
Mal terminou de dizer estas palavras, o Profeta começou a estapear-se. Dante precisou de força para segurar suas mãos.
- Pare com isto, Profeta! Se continuar assim eles o colocam no isolamento de novo e depois vai ser vigiado de perto por um bom tempo.
As palavras tiveram efeito mágico.
- Tem razão, meu bom amigo. Se isso acontecer, não vou mais poder passar para a ala feminina e, por conseqüência, não vou poder disseminar a palavra Dele.
- Isso mesmo Profeta! Então, se contenha e me conte o que aconteceu, quem sabe assim o senhor se alivia um pouco...
- Verdade, o alívio da confissão a um irmão é sempre um bálsamo para a alma. E mesmo que eu não possa ser perdoado deste meu pecado, pelo menos posso esperar a misericórdia do alívio da confissão.
- Mas que tanta coisa assim aconteceu, Profeta?
- Então, como eu lhe dizia, tenho ido ate a Ala Feminina para pregar a mensagem. A irmã Piedade me conseguiu a roupa de uma muçulmana e, embora não seja o traje mais adequado a um discípulo de Renato Cordeiro, pelo menos me permite andar por lá com uma certa tranqüilidade. Eu vou até lá no carrinho de roupas, já trocado, e de lá volto entre as roupas sujas.
- Pois bem, naquele dia, segui a mesma rotina. Quando o carrinho parou na sala de lençóis, eu esperei até não ouvir mais o som de gente por ali e então saí. Só que o véu que uso para esconder a barba ficou preso no carrinho e soltou-se, descobrindo-me o rosto. Eu o estava soltando para recolocar quando ela entrou na sala.
- Ela quem, Profeta?
- Uma mulher do demônio, meu amigo. Já havia escutado falarem nela, é uma tal de Jô Gozô. Nunca tinha tido antes a infelicidade de encontrá-la, até então. E tudo o que ouvi se mostrou pouco perto do que aconteceu...
- Como assim?
- A mulher tem o demônio do sexo no corpo. Assim que me viu, rápida, ela fechou e trancou a porta da sala e tirou a chave. Em seguida virou-se para mim e disse: “- Eu não me esqueci daquela primeira vez. Sabia que você ainda estava a andar por aqui, ouvia o relato de outras internas que você atacou, só estava esperando o dia de conseguir te pegar!”. Eu disse que não estava entendendo nada do que ela dizia, e pedi que me deixasse sair da sala. Ela respondeu: “- Ainda se faz de sonso? Quer sair da sala, venha pegar a chave!”. Dito isto, puxou o decote e jogou a chave lá dentro.
- Eu entrei em pânico. Não sabia o que fazer. Senti que fiquei pálido, sentia-me tonto. Implorei que abrisse a porta e me deixasse ir. Mas parecia que cada palavra minha servia apenas para enlouquecê-la ainda mais. Ela avançou para cima de mim. Agarrou-me pela raiz do mal e do pecado e disse que ou eu fazia o que ela queria, e que não havia feito na primeira vez ou ela sairia da sala dos lençóis gritando que eu estava lá e a tinha atacado, e eu passaria a ser severamente vigiado e nunca mais conseguiria voltar. Eu insistia que não sabia do que ela estava falando, e ela insistia em me tocar e provocar. As mãos subiam da raiz do mal pela minha barriga, chegando até a minha barba, que ela puxava de leve. Quanto mais eu tentava me afastar, mais parecia crescer a força dela. E mais crescia a intensidade com a qual ela me tocava.
- E o que o senhor fez Profeta?
- Não se trata do que eu fiz meu amigo. O demônio tem vida própria. E manifestou-se.
- Como assim? Apareceu um demônio por lá? Não gosto dessas histórias, depois não durmo...
- Não, Dante. Falo do demônio do pecado que todos nós carregamos. Eu entrei em pânico. Consegui desvencilhar-me dela, encolhi-me num canto e pus-me a orar. Mas ela pulou em cima de mim e novamente começou a agarrar-me e apalpar-me todo. Beijava-me a face, os lábios e os braços. Descia com as mãos pela minha barriga até chegar à fonte do pecado. E o demônio manifestou-se. Claro que logo ela percebeu. E ficou ainda mais alucinada. Eu não sabia mais o que fazer. E ela a esfregar suas vergonhas nas minhas, cada vez mais alucinada... Até que o meu demônio se manifestou e ela enlouqueceu e começou a gritar até não poder mais. Acho que daí vem seu apelido... Alguém ouviu seus gritos e começou a bater na porta.
- E pegaram o senhor lá?
- Não! Antes de abrir, ela me enfiou no carrinho de lençóis sujos e disse que guardaria segredo se eu guardasse também. Depois disse a quem estava na porta algo a respeito do cheiro dos lençóis sujos a deixar muito excitada. Pouco depois o carrinho foi trazido até a lavanderia e eu pude escapar.
- Bem, tudo acabou bem, então! E não foi culpa sua, o senhor não precisava se penitenciar tanto.
- Aí você se engana, meu amigo. “A luxúria, e o vinho, e o mosto tiram o coração”. A penitência foi justa e merecida. E certamente preciso me penitenciar mais, para acalmar os demônios no meu corpo.
- Por que, Profeta? A culpa não foi sua, não teve como fazer nada...
- “Mas nos profetas de Jerusalém vejo uma coisa horrenda: cometem adultérios, e andam com falsidade, e fortalecem as mãos dos malfeitores, para que não se convertam da sua maldade; eles têm-se tornado para mim como Sodoma, e os seus moradores como Gomorra.”.
- De fato talvez não tenha tido culpa minha... Mas preciso penitenciar-me, sim! Por que? Oh, vergonha! Porque eu gostei daquela sujeira toda...


Por Enio Vedovello, COC




Índice de capítulos
12) Encoxando a Beata
11) Encoxaram o Profeta
10) A empadinha, por Dante
9) A empadinha, por Zé Rola
8) A encoxada que cura
7) A fé que salva
6) Ao encontro das ovelhas
5) Na Ala Feminina
4) Um cara atrapalhado
3) Troca Perigosa
2) Big Boss
1) A visão do Profeta

Primeira temporada completa: A caça ao Encoxador Misterioso

Domingo, 5 de Abril de 2009

A secretária do Cara

Meu nome é Capitão Ócio. Minha missão é contar histórias com moral, para lembrar e refletir. Eu devia estar de férias, depois das últimas cinco que publiquei. Acontece que ninguém apareceu para postar e, alguém tem que manter o circo em pé.
Nossa história de hoje fala do primeiro dia de trabalho de uma secretária muito especial.
Vamos a ela!



- Bom dia!
- Bom dia Senhor!
- Você é...
- A nova secretária! Meu nome é...
- Angel alguma coisa! Eu sei o seu nome..., sua antecessora deu-lhe as instruções?
- Sim Senhor! Tenho tudo anotado aqui!
- Anotado?
- Sim Senhor! Anotei tudo!
- Jogue fora!
- Mas..., Senhor?
- Tem muito espaço na sua cabeça..., usar papel é desperdício!
- Se o Senhor prefere assim...

- O que temos para hoje?
- Preciso ver nas anotações...
- Tudo bem...
- Começaremos com “Catástrofes Naturais”.
- Hum..., em seguida?
- Em seguida temos “Acidentes causados pelo homem”.
- Em qual categoria específica?
- “Acidentes ferroviários”.
- Não sei..., esses matam muita gente...
- O Senhor está preocupado com a logística?
- Como? A logística..., não, na verdade não... O que vem depois?
- “Descobertas Científicas”.
- É mais interessante..., (bocejo profundo).
- O Senhor está bem?
- Estou..., sempre estou..., quer dizer..., só não estou disposto. Ontem fui a uma reunião com teólogos...
- A reunião foi muito cansativa?
- Muito..., sabe como é..., muita conversa mole e nenhuma bebida...
- O Senhor acha os teólogos chatos?
- São..., me aborrecem..., querem explicar-me o que Eu já sei.
- Entendo..., o que o Senhor gostaria de fazer?
- Desaparecer com os teólogos!
- Senhor?
- Brincadeira! Diga-me o que mais temos para hoje!
- O período da tarde está reservado para os pedidos...
- Vamos ver os pedidos agora pela manhã. Hoje vou almoçar com uma deusa e, sabe como é..., melhor ter a tarde livre.
- Senhor?
- Remarque todo o resto. Só não coloque catástrofes e acidentes no mesmo dia.
- Como o Senhor quiser!
- Quantos pedidos temos?
- Trezentos e trinta milhões, duzentos e vinte e um mil, cento e quarenta e quatro pedidos.
- Nossa! Quantos..., (bocejo). Escolha cinco aleatoriamente e arquive os outros.
- Apenas cinco pedidos, Senhor? São tão poucos...
- Minha querida..., atenderei a todos noutra hora, mas não hoje. Atenderei quando Eu quiser!
- Me desculpe!
- Sem problemas..., sinto que estamos nos entendendo. Escolheu?
- Mas..., Senhor..., não consigo escolher assim..., há algum critério?
- O acaso!
- Entendi..., pronto! Já separei cinco pedidos.
- Leia do primeiro ao quinto, pausadamente. Mas antes..., ia me esquecendo..., não me interessam essas coisas que as pessoas prometem realizar em troca de serem atendidas. Pode pular essa parte. Fui claro?
- Perfeitamente Senhor!
- Pode começar (bocejo profundo).

- O primeiro pedido é de um rapaz pobre que está fazendo cursinho a noite. Trabalha de dia em uma lanchonete. É a terceira vez que tenta. Na segunda ficou na lista de espera, mas, por uma pessoa, não conseguiu entrar. Pede para conseguir passar desta vez. Se não conseguir, talvez desista.
- Ele quer estudar matemática, não é?
- Não! Quer estudar Física, e tornar-se um pesquisador.
- É verdade! Interessante...
- O segundo é de uma moça que sonha em ser chamada de linda e de princesa por um rapaz jovem e bonito. Ela nunca recebeu esse elogio por motivos óbvios...
- Coitadinha..., e ainda é virgem!
- Como o Senhor sabe?
- Minha filha...
- O terceiro é coletivo. Várias aldeias da região Oeste da Tanzânia devem ser invadidas por nuvens de gafanhotos, como acontece em quase todos os anos, nesta época. Pedem que isso não aconteça neste ano, para que eles possam salvar as lavouras e armazenar alimentos.
- Lavouras do quê mesmo?
- De milho!
- Certo..., continue...
- O quarto é de uma senhora de meia idade que precisa de um transplante de fígado, e pede que apareça logo um doador. Ela está em trigésimo oitavo na fila!
- Trigésimo sétimo! Acaba de ocorrer uma atualização.
- O Senhor está sempre bem informado!
- Por favor, não faça média comigo, querida! Continue...
- O quinto pedido é de um homem de cinqüenta e cinco anos, solteirão, que quer encontrar uma mulher para se casar.
- Ainda não encontrou por que é um chato que vê defeitos em todas as mulheres.
- Homem assim fica sozinho, e depois, fica desesperado...
- Você não teve problemas com os homens.
- Não Senhor, não tive! Mas não vou deixar de comentar...
- Tem razão..., vou responder aos pedidos. Acione as trombetas!
- Como eu aciono as trombetas Senhor?
- Brincadeira..., não temos trombetas..., vamos lá!

- O rapaz pobre que faz cursinho vai bombar novamente.
- O homem de cinqüenta e cinco anos vai encontrar e se apaixonar pela moça feia, e vai chamá-la de linda e de princesa todos os dias.
- Os gafanhotos na Tanzânia não só chegarão na época prevista, como serão em maior número, e estarão mais gordos.
- A senhora que espera um fígado vai continuar na fila, torcendo para estar viva na hora que chegar a vez dela.
- Gostei dos pedidos que você pegou. Fáceis! Você tem uma mão boa para o negócio. Sua antecessora só escolhia coisas difíceis; sabe como é..., geopolítica e coisas do tipo.
- Que bom que o Senhor gostou, mas..., posso fazer algumas observações?
- Você pretende Me questionar?
- Não Senhor! Só gostaria de aprender mais sobre o trabalho...
- Tudo bem...., faça suas observações.

- Eu achava que o Senhor atendia a todos os pedidos. Mas..., não foi bem assim. Primeiro, de milhões de pedidos o Senhor só respondeu a cinco. Dos cinco, três não foram atendidos e dois o foram parcialmente. Não consigo entender...
- Não se preocupe..., acontece com todas. Mas, vou abrir uma exceção para você e comentar essas decisões.
- Se o Senhor puder...

- O rapaz pobre disse que, se não passar desta vez, talvez desista. Veja, quem quer ser um pesquisador não pode ter essa postura. Se ele realmente deseja, mais um ano não fará diferença, e ele aprenderá a ser perseverante.
- A senhora na fila do transplante de fígado não espera que trinta e seis pessoas morram de uma hora para outra para ela ser beneficiada. O pedido dela não é mais importante do que o pedido de alguém que quer viver mais. Ela está sendo egoísta não entendendo que a continuidade da vida dela depende do fim de outras.
- Na Tanzânia eles substituirão o amido do milho pelas proteínas dos gafanhotos. Ficarão mais fortes e saudáveis assim. Não vou mexer com os gafanhotos. O homem é apenas mais uma espécie sobre o planeta, e a natureza precisa seguir seu curso.
- O coroa que quer uma mulher aprenderá que a beleza está nos olhos de quem vê. E a moça feia que vai ouvir todos os dias que é linda como uma princesa preferirá sempre essa pequena mentira, vinda de um cara mais velho, do que a grande verdade dita por um rapaz jovem e bonito.
- Concluindo...

- O Senhor escreve reto por linhas tortas!
- Você é muito esperta! Acho que vamos nos dar bem!
- E quanto aos milhões de pedidos, Senhor?
- Ah! Sobre Eu ter respondido apenas a cinco deles?
- Sim!
- Minha filha..., se Eu atender a todos que me pedem, acabarei com a esperança das pessoas em serem atendidas por mim. E pode ser até que acabem perdendo o respeito.
- Mas, o Senhor não acha...
- Vou encerrar por hoje. Tenho uma massagem marcada. Depois vou aos banhos com os romanos. Sabe como é..., preciso estar bem apresentado no almoço. Você está liberada, pode ir para sua nuvem mais cedo. Aproveite para passar no costureiro, Anjo Clodovil, para tirar suas medidas e fazer umas roupas mais elegantes. Depois passe no cabeleireiro Arcanjo Silvinho. Diga-lhe que pedi para dar um toque moderno no seu cabelo e cortar um pouco as suas asinhas. Diga a ambos para colocar na minha conta. Tudo bem?
- Claro! Obrigada Senhor!


Moral da história
Mais vale quem Deus ajuda, do que quem cedo madruga.

Boatos e Fatos (5)

1.
Produtora de Hollywood divulgou que fez proposta milionária a uma funcionária do governo brasileiro, considerada presidenciável, para estrelar sua mais nova produção, intitulada “A mãe de Chuck, o brinquedo assassino”.

2.
Dunga, técnico da Seleção Brasileira de Futebol, não passou nos testes para ser um dos anões no musical “Branca de Neve e os sete anões”, a ser apresentado na Broadway logo após a Copa do Mundo de 2010, na África do Sul.
“- Tive dificuldades para decorar as falas!”, alegou o famoso futebolista.

3.
Preocupada com a queda de audiência das suas novelas, a maior produtora de TV do país informou que passará a mostrar cenas de sexo explícito entre os personagens principais das tramas. “Mas só entre casais heterossexuais, casados legalmente e de mesma raça. E fazendo papai-mamãe.”, observou.

4.
Durante a última reunião do G-20, a assessoria de Lula se preocupou constantemente em lembrar ao nosso presidente de que ele não poderia se referir ao seu colega, Barack Obama, usando adjetivos ou eufemismos alusivos à raça do presidente norte-americano.

Quinta-feira, 2 de Abril de 2009

A mentira...

Wordle: Mentira 1

A data nacional do Brasil

O 1º de Abril é a cara do Brasil.

Não concorda?
Olhe à sua volta..., a imprensa, a televisão, a economia, o preço da gasolina, o futebol, a revista Caras, seu chefe, seu emprego, seu salário, o Presidente da Nação...
Tudo não é um grande 1º de Abril?
Desde a revolução de 1964 vivemos presos em um 1º de Abril permanente. O tempo passa, mas nossa data no calendário continua a mesma.
Estamos presos em um momento no tempo, que se repete continuamente, e o país nunca melhora de fato, com crescimento, emprego, educação, saúde e renda.
Não falo do país classe média no qual você vive à custa de prestações – em eterno 1º de Abril –, mas do país real, imenso, cheio de gente pobre.
Assim, que 1º de Abril seja a data nacional deste Brasil varonil.

Você não concorda? Comente à vontade! Só um detalhe: 1º de Abril foi ontem.

Quarta-feira, 1 de Abril de 2009

Lula confessou tudo

Pri-mei-ro de a-bri-il!

Domingo, 29 de Março de 2009

Devoção de fã

Meu nome é Capitão Ócio. Eu sei que você já sabe, mas acontece que todos os super-heróis tem que repetir o próprio bordão. Minha missão é contar histórias com moral, para lembrar e refletir.
A história de hoje encerra a série de cinco histórias com temática feminina que contei durante março, Mês Internacional da Mulher.
Depois dessa vou tirar umas férias. Mandar cinco seguidas me deixa com dores nos joelhos...
Vamos a ela!


Irene abre a porta do apartamento. Glória, meio sem jeito, sorri para ela. Até um segundo atrás, nunca se viram pessoalmente.
Irene tem vários álbuns cheios com fotos de Glória. Do primeiro desfile que ela fez, aos treze anos, e de todos os outros ao longo da sua magnífica carreira de modelo. Fotos encontradas em jornais, revistas e na Internet. Irene também possui um armário lotado com todas as publicações que estamparam Glória na capa. Ela é dessas pessoas que são fãs a ponto de se tornarem biógrafas não oficiais da pessoa idolatrada.
Sempre sonhou encontrar sua estrela favorita, para pegar um autógrafo e tirar uma foto com ela. Anos atrás, tinha convite para estar na platéia do programa semanal da Hebe Camargo, ao vivo, no dia em que o programa comemoraria o aniversário de vinte anos de Glória, e a chegada dela ao topo do mundo da moda. Gisele Bündchen estaria lá, levando os gêmeos e o marido, Domenico Dolce e Stefano Gabbana também.
A caminho do teatro, Irene tropeçou na escada do metrô, caiu de uns cinco degraus e torceu o tornozelo. Viu pela televisão do quarto do hospital Glória mostrando alguns dos cartões de aniversário que recebeu; entre eles, o que ela mandou. Isso a deixou menos triste por não ter estado lá. Depois daquele dia, não teve outra oportunidade de ver Glória pessoalmente.
Irene está com trinta e seis anos, e Glória com quase vinte e três. Irene jamais imaginaria que um dia Glória tocaria a campainha da sua porta, e que se encontrariam naquelas circunstâncias.
Pede a ela que entre, a conduz até a sala, e a ajuda a se sentar no sofá. Pede licença, sai por um minuto e volta trazendo uma bandeja com uma jarra de água, uma de suco de laranja, bolachinhas, guardanapos, copos, um balde de gelo e outras coisas afins.
Senta-se do outro lado da mesa de centro, de frente para Glória.
- O que você gostaria de beber?
- Só água, por favor...
Irene coloca dois cubos de gelo em um copo.
- Uma fatiazinha de limão?
- Obrigada! - Glória pega o copo das mãos de Irene, e enquanto toma sua água, ambas se observam com educada curiosidade.
Irene é uma mulher pequena, graciosa, delicada. Tem a pele clara, olhos azuis também claros, meios sem brilho, e cabelo pintado de loiro, quase da cor original. "Quando criança, deveria parecer uma boneca!", Glória pensou.
Há alguns meses atrás, tinha um sorriso largo e contagiante, e um olhar permanentemente iluminado, como Júlio, tão detalhadamente, descreveu.
Glória não é mais a lolita de beleza arrebatadoramente brasileira, moldada em barro pelo Criador em um momento de divina inspiração. Seu rosto ainda não está totalmente reconstruído. Serão necessárias mais algumas cirurgias plásticas pela torná-lo novamente estético. Ela não sofre mais por isso. Traz no rosto ligeiramente desproporcional um sorriso tranqüilo, simpático, e carrega uma barriga de oito meses de gravidez.
- Parece que já vai nascer! – Irene não deixaria de comentar. Tem paixão por mulheres grávidas, embora, pessoalmente, não sabe se ficará grávida um dia.
- É um barrigão, não é? – Glória passa as mãos sobre a barriga lembrando Oliver Hardy.
Ambas riem, quebrando o gelo. Glória se ajeita melhor no sofá.
A sala do apartamento é ampla e ventilada, iluminada pela luz que entra pela janela. Depois de tomar a água gelada com uma fatia de limão, Glória respira aliviada. Tem um lenço de papel no bolso do macacão, e o usa para enxugar a testa. Irene a observa em silêncio.
Atrás de Irene há um móvel com vários porta-retratos sobre ele. Há fotos de Irene, de Júlio, do casal e de outras pessoas, e uma foto de Glória.
- Sou eu naquela foto! – Glória aponta para o móvel. Não é totalmente uma surpresa para ela, que já viu até um altar de flores e velas sob o pôster dela na Playboy. Mas aquela foto em especial, em um porta-retrato tão adequado, do jeito que ali está, combina com as outras e faz dela uma pessoa da família.
Irene admira a fotografia por um momento, depois conta a razão dela estar ali.


- Não acredito que você torceu o pé indo para o programa! – Glória sente por Irene não ter estado lá.
- É..., aconteceu... Na semana seguinte você estava na capa da Caras, mostrando alguns cartões de aniversário..., o meu é o do meio! Fui eu que mandei aquele cartão de aniversário cor-de-rosa, com um desenho de lantejoulas! A foto é uma cópia da capa, que peguei no site da revista.
Glória fica surpresa. Aquele cartão foi um dos presentes de fã que mais a agradou. Ela não sabe por que, mas o ama.
- É mesmo? Olha..., seu cartão é um dos meus favoritos! Ele é tão bonito!
- Obrigada! Fico feliz por você ter gostado dele! – toda a tristeza que Irene sentia por ter usado sapatos de salto mais alto naquele dia fatídico desapareceu para sempre.
- Eu que agradeço o seu carinho..., nossa..., que mundo pequeno! - Glória fica meio sem graça, depois que se dá conta do que disse.
- Coincidência... - Irene abaixa os olhos e seu semblante entristece. As coincidências nem sempre trazem boas lembranças.
Glória está ali, sentada no sofá, devido ao fato de ter sido a última pessoa que viu Júlio, marido de Irene, com vida.


Ele era piloto de uma agência internacional de jornalismo. Embora o casal residisse no Rio de Janeiro, no apartamento em agora elas estão, eles não podiam afirmar ter endereço fixo.
O trabalho dele e o dela, redatora de uma revista de turismo de aventura, os mantinham viajando pelo mundo. Às vezes ele estava em um lugar e ela estava em outro de latitude e longitude exatamente opostas. Mas, não raro, conseguiam se encontrar em algum lugar. A última vez em que isso aconteceu foi a oito meses, no Quênia.
No entardecer de uma sexta-feira, assistindo ao magnífico por do sol na savana de Masai Mara, Júlio disse a Irene que aceitara um trabalho mais tranqüilo em uma empresa de táxi aéreo, e que poderia passar mais tempo perto ela. Ela disse a ele ter sido promovida para assistente pessoal da presidente da editora, e não precisaria mais viajar tanto. Decidiram que a primeira coisa que fariam, após tudo se normalizar, seria ter um filho.
No dia seguinte, sábado, Júlio acordou bem cedo e saiu sem se despedir, deixando apenas um “Te amo” escrito com espuma de barbear no espelho do banheiro. Faria um vôo de Nairobi para Lake George, em Uganda, levando uma modelo da agência Ford, e retornaria no dia seguinte. Não retornou.
O avião que pilotava encontrou uma formação chuvosa inesperada, e caiu em uma cordilheira de montanhas próximas a Kabula. As buscas foram prejudicadas pelas chuvas, e ele e sua passageira ficaram desaparecidos por seis dias. Quando o avião foi encontrado, Júlio estava morto, vítima de septsemia, com o corpo já em decomposição, e sua passageira, a top-model número um do mundo, a brasileira Glória da Silva, estava mais morta do que viva, sendo comida por formigas e insetos, com o lado esquerdo da cabeça envolto em uma gaze apodrecida, o pé esquerdo e dois dedos da mão direita quebrados.
Se o destino não tivesse perpetrado a ironia de Irene não saber que Glória era a modelo que Júlio transportaria, provavelmente este encontro das duas não estaria se realizando.


- Me perdoe Glória..., Deus..., imagine o quando eu teria para falar para você..., sou e sempre fui sua fã..., sei de tantas coisas a seu respeito..., você não sabe como eu já esperei por este momento... Mas..., eu não tenho nada para dizer...
Irene não esconde a ansiedade de ouvir o que Glória está ali para contar.
- Eu sei Irene... Acredito que você não esperava que eu a procurasse... Passei os últimos meses cuidando do meu rosto..., você vê..., ainda há um pouco por fazer..., e também cuidando com muito carinho da minha gravidez...
- Você já sabe o sexo?
- É um menino! Um menino enorme!
- Já escolheu um nome para ele?
- Não! Não serei eu que escolherá...
Irene percebe que sente um imenso carinho por Glória. Poderia deixar a própria vida de lado só para cuidar dela, nos últimos meses de gravidez, quando acontecer o parto, e depois, com o bebê. Seria um período de dedicação total a uma pessoa de quem ela gosta muito, e ela teria tempo para meditar e aprender a lidar com o fim daquela vida que existiu ao seu lado, e agora está espalhada por todos os lugares por onde ela passa. A voz de Glória a tira do seu devaneio.
- Vou lhe contar tudo com muita franqueza, Irene. Júlio me pediu que fosse assim. Disse que você é uma mulher direta e objetiva, que prefere as coisas ditas sem rodeios. Eu tentei me preparar para hoje, para trazer a história ensaiada, mas não consegui. Então, vou falar do jeito que sei, Irene, e acho que algumas coisas que vou dizer vão te chocar, te magoar..., me desculpe. Mas te prometo que nunca mais contarei esta história para alguém.
Glória recusou várias ofertas milionárias para contar sua aventura aos tablóides e revistas de celebridades. Apenas publicou uma nota curta: “Em respeito à memória de meu amigo Júlio Carlos T. Baltazar, morto tragicamente no acidente que nos vitimou, não acrescentarei nenhuma declaração pessoal ao que já é sabido por todos. Agradeço a todas as demonstrações de carinho que recebi, e espero retribuí-las um dia. Obrigada.”. Retirou-se para tratamento, e depois descobriu a gravidez. Nenhuma foto sua, do acidente e depois dele, foi publicada. Irene via nessa atitude a prova do caráter de Glória.
- Por favor..., faça como quiser. Tentei me preparar também...
Irene serve mais um pouco de água, e para si enche um copo de suco de laranja. Depois de um silêncio curto, Glória começa a narrar sua versão do acidente.


- O serviço de meteorologia de Uganda estava fora do ar. Só soubemos quando entramos no seu espaço aéreo. Júlio me disse que era arriscado voar sem o serviço meteorológico; porém, disse também que isso era comum na África. Respondi que não podia perder meu compromisso, e que, se o risco fosse aceitável por ele, poderíamos seguir viagem, pois eu não ficaria receosa.
- Voamos sem problemas a 500m de altitude. Pedi para viajar na cadeira do co-piloto, para aproveitar a janela maior e tirar fotos. Por duas vezes Júlio deu voltas à baixa altitude, para que eu fotografasse mais de perto. Na primeira, para ver uma manada de elefantes se banhando em uma lagoa. Na segunda, fiquei curiosa com uma leoa solitária que seguia uma manada de gnus.
- Quando subimos para mil e quatrocentos metros, e ultrapassamos a cordilheira de Kalunga, encontramos uma imensa parede azul escura que se movia rapidamente em nossa direção. Dava para ver os raios relampejando dentro dela. O vento começou a chacoalhar o avião. Parecíamos uma mosquinha prestes a colidir com um rinoceronte.
- Júlio virou-se para mim com ar de preocupação. Olhou firme nos meus olhos, sorriu e disse: “- Uma menina bonita como você..., além de ser mais bonita ao vivo do que na foto..., acredito que, com certeza, você deve ser muito corajosa!”. Eu respondi que sim, era corajosa, e que ele não precisava se preocupar, eu confiava nele plenamente. Claro que eu não tinha idéia do que iria acontecer.
- Assim que terminei de falar, comecei a ser jogada para cima e para os lados, como se estivesse dentro de uma máquina de lavar cheia de trovões e relâmpagos. Lembro claramente do momento em que um raio iluminou tudo em minha volta, o avião chacoalhou mais forte e fui arremessada contra o painel. Bati com o rosto no manche, e tudo ficou escuro.
- Quando acordei, com o avião parado e um barulho alto de chuva batendo do lado de fora da cabine, apenas meu olho direito se abriu. Só senti o lado direito do rosto. Parecia que tinha meio nariz e meia boca. Minha roupa estava toda ensangüentada, e minha garganta tinha gosto de vômito. Só conseguia mexer os braços e as mãos. A mão direita estava bem inchada.
- Estava sentada em meu assento e Júlio no dele. Eu não o via. Ele passava algo no meu rosto. Tinha cheiro de álcool. Enfaixou todo o lado esquerdo da minha cabeça. Comentei que não sentia nenhuma dor. Ele contou que havia enfiado três comprimidos em minha garganta. Depois colocou na minha mão um saquinho de plástico, desses com zíper, cheio de pastilhas brancas. Disse que era morfina, e que eu a deveria usar para controlar a minha dor. Explicou que um piloto não pode se dar ao luxo de estacionar em algum lugar e ir a um hospital se algo começar a doer. Principalmente ele, que tinha um histórico de problemas de rim. Enfatizou que eu não poderia perder aquele saquinho, de forma alguma. Pedi que ele o colocasse no bolso da minha jaqueta.
- O avião havia perdido as asas, o trem de pouso e a parte traseira. A parte dianteira, onde estávamos, estava na encosta de um barranco, enterrada do motor até o pára-brisa dianteiro. Lá fora, a chuva caía sem parar, e a água entrava por várias frestas abertas na fuselagem, escorrendo para o fundo. Para nossa sorte, ela não caía diretamente sobre nós. Estávamos sentados em nossos assentos, bem próximos aos buracos do pára-brisa, que estavam quase totalmente cobertos por mato e terra. Júlio fechou esses buracos com pedaços de uma capa de chuva, impedindo que a terra entrasse, e fazendo a água escorrer para baixo dos nossos pés.
- Eu me sentia como se flutuando solta no espaço. Entendia a gravidade da situação, mas não conseguia me preocupar. Acho que era mais um efeito da morfina. Dormi por algumas horas e quando acordei novamente, Júlio colocou um papel em minhas mãos e disse, apontando para cada item que mencionava:
“- Aqui está uma lista das coisas que estão na cabine, ao alcance da sua mão. Tudo o mais que trazíamos se perdeu com a traseira do avião. Há três litros de água, em três garrafas, um litro de uísque, um pacote de bolachas de trigo integral, dez saches de açúcar, três de sal, um Halls de cereja, e alguns remédios, que são seis comprimidos de antibiótico, oito de antiinflamatório, e seis de vitamina C. Seu curativo usou toda a gaze e o álcool gel do estojo. Os comprimidos vão aliviar a inflamação e prevenir a infecção..., espero. Veja que no papel eu escrevi como você deve usar a água, a comida, os remédios, e as pílulas de morfina que estão no seu bolso, de forma que sejam suficientes para até sete dias. Seja esperta menina, não se desespere e use como eu indiquei!”.
Os olhos de Irene ficam cheios de água repentinamente. Pega um guardanapo, enxuga as lágrimas com ele e pede que Glória continue.
- Explicou-me que era hemofílico, e que todos aqueles cortes e arranhões que tinha pelo corpo não cicatrizariam. Principalmente o corte profundo logo acima do joelho esquerdo, causado por um pedaço de vidro. Estava à mercê de um processo infeccioso que já começara e que, aliado à perda de sangue, o mataria em poucos dias.
Glória faz uma pausa, pega uma bolacha salgada e a mastiga sem pressa. Fica a olhar para o vazio, esperando que a memória traga-lhe o resto da história, e que o coração bata um pouco mais devagar. Irene está calada.


- Passamos o primeiro dia conversando sobre a nossa condição. A chuva caía sem parar, o que, segundo Júlio, nos protegia de insetos e predadores, que nos encontrariam tão logo o cheiro do nosso sangue se espalhasse. Contou sobre vários outros acidentes, ali na África e em outras partes do mundo. Sabia a história dos “Sobreviventes dos Andes” em detalhes, era fascinado por ela. Falamos sobre as coisas que as pessoas fazem para sobreviver, em condições extremas ou desesperadas, como aquela em que estávamos. Não sentíamos dor..., só um pouco de frio. A morfina nos mantinha anestesiados, meio fora do ar. Perguntei a ele o que havia acontecido com meu rosto, e ele respondeu que eu só tinha uma metade dele, e que deveria cuidar dela com carinho, pois seria modelo para a reconstrução da outra. Ele falava como se tivesse certeza de que eu sobreviveria.
- No segundo dia já estávamos conformados com o fato de estarmos irremediavelmente presos ali, enquanto a chuva durasse. Conversamos sobre o que gostaríamos que fosse feito no caso de apenas um de nós sobreviver. Júlio me pediu que viesse até você, e lhe dissesse o quanto ele a amou, o quanto ele pensava em você quando voava sobre qualquer lugar do planeta. E como ele ficava feliz quando pousava em uma cidade sabendo que você estaria lá. Eu não entendi quando ele disse que a minha visita seria um presente para você, mas ele não quis me explicar. Agora que a conheci, acho que já entendo.
- Em nenhum momento Júlio se desesperou, e, por isso, eu também não. No terceiro dia contou-me várias passagens da vida dele. Muitas muito engraçadas. Acho até que ele exagerou em alguns detalhes, só para me fazer rir. O tempo todo ele encontrava um motivo para falar em você. Falou do dia em que te conheceu, quando você morreu de medo em um vôo que fez com ele sobre o Pantanal. Pediu para te contar que ele balançou o avião de propósito, só para te assustar. Disse que você é inteligente e geniosa, e que tem um coração maior que o mundo..., e que a amava por isso e por tudo o mais. Contou-me também que a vida de vocês dois estava prestes a mudar para melhor, teriam mais tempo para estarem juntos e planejavam o primeiro filho.
- Quando acordei, no quarto dia, percebi que minhas pernas já se moviam um pouco. Chamei por ele, mas não me respondeu. Apenas murmurou algo. Eu ainda não havia visto Júlio depois do acidente, pois meu olho esquerdo estava encoberto pela gaze, e estava imobilizada na cadeira; via apenas suas mãos e ouvia sua voz. Fiz um tremendo esforço para me virar; não sentia dor, mas não tinha forças para me apoiar. Consegui ficar de lado no assento e vi que ele estava em estado febril. Sua boca estava ferida..., ele perdeu quatro dentes de cima. O corte no joelho estava inchado e infeccionado, e o sangue escorria dele, devagar, sem parar. Fiquei salpicando água em seu rosto e falando com ele, até que, em um momento de lucidez, ele disse para eu economizar água e jogar o uísque.
- Consegui que ele engolisse duas morfinas, enfiando-as na sua boca e jogando uísque por cima. Ele ficou mais tranqüilo, mas foi piorando cada vez mais, cada vez mais rápido, e começou a delirar. Falou seu nome..., que você escolheria o nome do filho dele..., que te perdoava por qualquer coisa, e pediu para você perdoá-lo também, pois não tinha sido o homem perfeito que você merecia. Talvez por causa da morfina, ou por eu o estar deixando bêbado, começou a rir. Resolvi beber também, e logo estávamos rindo como dois velhos amigos esquecidos no fundo de um bar. Assim fomos por todo o quarto dia, até dormirmos, exaustos.
- No quinto dia eu já movimentava melhor as pernas e o quadril, mas Júlio estava muito pior. Seus olhos já não abriam, colados por uma gosma, e todos seus ferimentos pareciam estar apodrecidos. A febre voltou mais forte e ele dizia coisas totalmente desconexas. Seu corpo estava quente, muito quente. Para ajudar, a chuva, que já vinha diminuindo, terminou de vez, sendo substituída por um sol escaldante. Um calor abrasador tomou conta da cabine.
- Imagine Irene, o cheiro que começou a exalar dali. Estávamos os dois a cinco dias sujos de sangue..., e de todo o resto... Fedíamos um cheiro inexplicavelmente insuportável, de dois animais feridos fechados em uma toca. Sem chuva, com o vento e o calor, rapidamente os predadores nos localizariam e viriam nos comer.
- Mas..., a gente nunca perde totalmente a esperança, nunca deixa de acreditar. Tinha certeza que o meu desaparecimento estava na mídia do mundo todo e não desistiriam de nos procurar. Decidi acreditar que seria salva. Júlio, meu mais novo e já meu mais íntimo amigo, que ouviu de mim coisas que nunca havia dito para ninguém, talvez não agüentasse mais do que algumas horas. Além de sobreviver para estar aqui agora, conversando com você, o que eu poderia fazer por ele, para aliviar seu sofrimento, para ajudá-lo a deixar esta vida de um jeito mais feliz? Não sei contar de outro jeito Irene, me perdoe... Fiz a única coisa que poderia fazer!
- Soltei o cinto de segurança. Depois, com muito custo, me despi e sentei-me sobre ele. Livrei-me de todo o pudor por estar fazendo aquilo, e de toda a vergonha pela minha sujeira e pelo meu estado. Falei no ouvido dele: “- Júlio, sou eu, Irene!”.
- Ele delirava de febre e transpirava mais e mais. Despejei o resto do uísque em seus lábios inchados e os beijei com cuidado; falei as palavras de amor que imaginei que você diria. Ele colocou os braços enfraquecidos em volta do meu corpo e me puxou para junto dele, e me abraçou com toda a força que lhe restava.
- Eu, em meu estado de anestesia, sem dor, mas desesperada, fiz o último amor da minha vida me passando por você, Irene, e o seu Júlio viu a própria vida se esvaindo enquanto fazia amor com a mulher que ele amava.
- Gozou me apertando o mais forte que podia e dizendo “- Meu amor! Meu amor!”. Seus braços caíram ao lado do corpo. Relaxou o rosto mostrando um sorriso, e sua respiração ofegante foi ficando cada vez mais fraca. Coloquei meu ouvido bem perto da sua boca, e o ouvi dizer baixinho: “- Irene!”. A última palavra que ele disse, foi o seu nome.
Irene está de boca aberta e olhos arregalados, encharcados. Suas lágrimas escorrem pelo rosto e caem no chão. Glória não olha para ela. Toma mais um gole de água e continua.
- Cobri o rosto dele com a minha camiseta. Rezei uma oração que me acompanha desde criança, e pedi a Deus que o levasse para o céu, onde ele viveu boa parte da vida dele. Chorei bastante..., por ele, por você, e por mim. Nunca em minha vida passei um só momento sem alguém para cuidar de mim, para me proteger. Sem Júlio ao meu lado, pensei que tudo estava irremediavelmente perdido. Ainda restavam dez comprimidos de morfina. Engoli seis de uma vez. Se os animais, as formigas, as aranhas e outros insetos chegassem antes do socorro, talvez aquilo me ajudasse a suportar o horror. Desmaiei.
Acordei vinte e oito horas depois, em uma cama de hospital em Kampala. Um caçador que nos procurava monitorou de avião algumas alcatéias de hienas e, seguindo uma delas, chegou até nós.
Glória levanta-se do sofá com alguma dificuldade. Pede que Irene não a ajude. Depois, em pé, enxuga com a manga da blusa o rosto cheio de lágrimas. Caminha até Irene, que continua sentada, pega a mão dela e a coloca sobre sua barriga.
- Sente ele se mexendo?
Irene sente o bebê chutar, mas não consegue dizer nada. Glória coloca sua outra mão na cabeça de Irene e acaricia o cabelo dela.
- É você que vai escolher o nome dele! – Glória anuncia o que Irene já entendeu.


Irene sente que precisa escolher entre dois sentimentos: a tristeza por ver o filho do seu marido dentro de outra mulher, ou a alegria de escolher o nome do filho da sua estrela.
Que outra fã teria esse privilégio?


Moral da história
Cuidado ao desejar para outros o que gostaria para você!

Sexta-feira, 20 de Março de 2009

Hobby & Profissão

Meu nome é Capitão Ócio. Minha missão é..., você já sabe!
Neste Mês Internacional da Mulher estou contando histórias com temática feminina. Esta é a quarta!
Vamos a ela!


Maria Cleuza é manicure e pedicure em um salão de beleza de um bairro chique da capital.
Creusa, como é conhecida, atende apenas seis clientes por dia, no seu expediente de oito horas, de segunda a sábado.
Há pelo menos uma dúzia de mulheres aguardando para agendar um horário semanal, com pelo menos doze consultas previamente marcadas e pagas com cheque pré-datado. Sem devolução em caso de falta.
Creusa atingiu um patamar diferenciado. Para as mulheres daquele bairro, é um luxo ser cliente dela. O preço cobrado é caro se a cliente avaliar o serviço apenas olhando para as próprias mãos e pés. Deve-se considerar que os benefícios do tratamento vão além dos ganhos estéticos.
Como todas as manicures, ela possui a - indispensável - qualidade de saber ouvir. Mas, o que a diferencia das demais é outra qualidade, não tão comum na categoria, que é a de saber falar. Falar o que suas clientes querem, ou precisam ouvir. Falar sem amor, pena ou interesse.


Dora tem uma loja de bolsas em uma rua comercial. Já passou dos trinta e cinco. Quando se olha no espelho, fica feliz por sentir-se sexy e atraente. Seu horário é na terça-feira, 15:00h.
Tem os pés magros e bonitos, mas o dedão de um deles apresenta uma deformação chamada Dedo em Martelo. Para cortar a unha dele, Creuza tem que levantar aquele pé em noventa graus e segurá-lo com uma das mãos. Não fica muito estético, mas ninguém no salão repara. Todas tem seus defeitinhos, e compará-los só teria sentido se fosse para eleger, dentre todos eles, o menor. Haveria consenso?
Creusa corta delicadamente a unha do dedão sempre dobrado, e conversa com Dora.
- Quantos homens, hoje, Dora, você deseja? Um só? Então..., é uma pena que ele não seja o seu marido, não é? Fazer o quê... Não, você não pode ter dois maridos! Só Dona Flor teve e um deles era um fantasma! Aliás, que fantasma..., podia me assombrar pelo resto da vida... Mas você pode, e tem todo o direito, de ter seu marido, e também de ter seu amante.
- Não tem filhos, é dona do seu horário... Você não tem mais tesão pelo seu marido, está cansada de dizer; nem trepam e quando trepam é só fingimento. E, como você é uma mulher que tem sorte na vida, apareceu esse outro cara que quer te comer e você está louca para dar para ele. Como é que é mesmo?
- Então Dora, não é colega de trabalho..., seus horários são compatíveis..., mora longe da sua casa..., ninguém no seu círculo de amigas o conhece..., é solteiro, e..., você já descobriu como é a pegada dele?
- Nossa! Quem contou? Uma antiga namorada? Uma conhecida que disse que ouviu da ex-noiva! O que você está esperando para conferir, Dora?


Flavinha é uma das clientes jovens de Creusa. Vinte e dois anos. Estuda, trabalha e mora sozinha. Faz os pés todas as segundas, 16:00h.
Na Universidade ela corre, faz academia e treina tênis de mesa. Os calçados esportivos causam-lhe calos plantares. Creusa tem uma mão santa para tratar seus pés. Lixa-os com carinho, massageia-os com bastante creme, usando a força e a velocidade certa.
- Não dá para ele assim tão fácil, Flavinha! Deixa ele pedir; quanto mais ele pedir, mais vai querer! Vá dando corda aos pouquinhos. Mas não o deixe pensar que não vai rolar... Ele tem que sentir que está fazendo progresso. Quando você achar que ele já pediu bastante, aí você dá, mas, antes, no dia, primeiro você o enlouquece.
- Tem piscina no seu prédio? Ótimo, leva ele para nadar, coloca um biquíni que caia bem, que deixe tudo no lugarzinho. É..., não escancara tudo não! O melhor afrodisíaco, Flavinha, é a imaginação!
- Depois, diz que você quer jantar alguma coisa especial..., do quê você gosta? Pode ser, mas é melhor um jantar mais levezinho..., vai que o coitadinho passa mal...
- Durante o jantar você diz que quer tomar um café naquela livraria grandona que tem no shopping, onde ele pode aproveitar para escolher o DVD que vocês assistirão, na casa dele ou na sua. Lá na livraria, você vai passeando até passar por aquela estante dos quadrinhos adultos..., sabe? Milo Manara , Guido Crepax ..., conhece? Lá você dá uma paradinha..., disfarça..., pega algo na bolsa, faz alguma outra coisa..., mas só sai de lá quando tiver certeza de que ele viu algumas das capas dos gibis. Se ele folhear algum, minha filha...
- Depois, aonde quer que vocês estiverem, deixe a coisa rolar naturalmente. Na hora do vamos ver, quando ele vier para o “agora vai”, você passa este creminho aqui. Gostou? Cheirosinho..., não engordura..., super lubrificante. Passa bem espalhadinho. Bastante e bem espalhadinho. Depois, relaxa e com calma vocês vão se acertando. Claro que precisa de um pouquinho de coragem..., mas, você vai adorar Flavinha!


Maria Aparecida é uma mulher alta, loura de cabelos encacheados e olhos claros. Vai ao salão duas vezes por semana, fazer as mãos. Ela mesma leva os esmaltes. Viaja muito, gosta de comprar e experimentar. Sempre presenteia Creusa com alguns.
Veste-se sobriamente como aquelas mulheres que vemos em escritórios, nos filmes americanos. É simpática, inteligente, conversa com todas. Tem mais amizade com Débora, uma mulata que também vem duas vezes por semana, no horário imediatamente anterior ao dela.
- Claro que é uma questão de felicidade! Da sua felicidade, Aparecida! Há quanto tempo você está esperando para ser feliz?
- Se arrepender? Nada! Tudo o que foi vivido, foi vivido e pronto. A gente sempre vai sorrir por alguma coisa, não vai?
- Imagine como tudo vai mudar! Seu corpo..., você vai sentir ele diferente..., mais disposto. Você vai acordar mais confiante..., vai perceber como estão bonitas as árvores na calçada, como o entardecer visto da janela do escritório é encantador. Vai gostar mais de você.
- E é só dar esse passo, para o qual você está mais que pronta e preparada. Claro que não é fácil, não estou falando que seja. Depois? Depois é deixar sangrar..., não é essa a tônica da nossa vida?
- Saia do armário, Aparecida!



Moral da história
Para a gente ser feliz, às vezes o circo precisa pegar fogo!

Nota: Creusa é a nova personagem do Dicas Sobre Nada.
Começa aqui no salão no próximo Dia dos Namorados.

Segunda-feira, 16 de Março de 2009

À luz da Criação

Meu nome é Capitão Ócio. Como todo super-herói, tenho uma missão na Terra. Se já me conhece, não preciso dizer qual é. Se está chegando agora, na próxima história que ler você saberá.
No "Mês Internacional da Mulher" estou contando histórias com temática feminina. A de hoje nos coloca há alguns milhões de anos-luz daqui, junto a Arthur CK 9000, a bordo da Amazônia WSS-1.
Vamos a ela!


“Capitão?”
“Capitão Ócio?”


A voz de Arthur ecoa em meu capacete, repentina e alta, no momento em que saio da Chapel colado na traseira da McLaren de Aírton Senna. Última volta do GP de Silverstone.
Tirei 1s por volta e encostei no seu carro cinco voltas atrás. Já o ultrapassei uma vez, na Copse Corner, só para tomar um “x” espetacular antes da Margotts mas, desta vez, ele não vai conseguir me deter. Seu F1 faz barulho de câmbio quebrado. Acho que as marchas mais baixas estão travadas.
Entramos na Hangar Straigt, ele se distancia um pouco, engato a sexta marcha e me coloco novamente em seu vácuo.
Meu carro ganha em velocidade e o ultrapasso pela direita faltando 200m para a Stowe, mas ele emparelha quando faltam 50m para entrarmos. Somos meteoritos competindo para abrir um buraco na Terra.
Reduzo para terceira marcha..., ele parece segurar o carro só no freio..., entramos juntos..., agora vai dar..., agora vai ...
“Computador Arthur CK 9000 chamando Capitão Ócio!”.

O programa holográfico congela comigo e com Aírton Senna olhando um para o outro, nossos carros se tocando..., eu pensando que ultrapassá-lo seria possível, ele pensando o contrário.
Abro os olhos. Estou flutuando dentro da esfera transparente que é minha torre de comando. A primeira coisa que percebo é que o espaço imediatamente à nossa volta não está mais vazio.
- Oh! Está cheio de estrelas!


- Diário pessoal do Capitão Ócio. Data estelar 0130 dpc (depois do primeiro contato). Sou o comandante desta nave interplanetária. Estamos viajando rumo à galáxia M104, para investigar a fonte de emissão de transmissões de rádio com freqüências entre 88 e 108 megahertz que captamos na Nebulosa Mz3 (leia em "Um sinal no espaço").
Essa missão iniciou-se em 0110 dpc, após uma grande atualização tecnológica na nossa gigantesca mãe e protetora, a Amazônia WSS-1 – world space ship one -.
Nosso objetivo está distante alguns milhões de anos-luz. É uma distância muito maior do que uma vida, mas não é a eternidade. Para que o único ser vivo nesta nave possa ainda gozar desta condição quando chegarmos ao fim da viagem, alterno períodos de atividade normal, de trabalho e descanso, de seis meses, com períodos de hibernação em animação suspensa, com seis anos de duração.
Além dessa tecnologia fascinante, que pode garantir, relativamente, uma existência eterna, “eles” (leia "Encontro marcado em 2.108") também nos presentearam com um programa holográfico que coloca seu usuário como personagem em qualquer estória previamente cadastrada, atuando nela de maneira efetiva, alterando o seu rumo, e tornando-a imprevisível..., como a vida, só que com a vantagem de poder-se apertar a tecla reward, a tecla pause, ou a tecla stop.
Ontem, por exemplo, estive na China da antiguidade, conversando com Confúcio e com um persa, neto de Zoroastro..., mas essa é outra estória.


Incontáveis corpos de luz, de tamanhos, formas e cores diversas, flutuam ao redor da nave. Fossemos um submarino, elas seriam águas vivas no mar.
Arthur, como sempre, avaliou a emergência, cumpriu os procedimentos e, corretamente, interveio, interrompendo a minha distração.
- Arthur, informe!
“Todas as formas luminosas ao nosso redor parecem ter comportamento independente, Capitão!”.
- Composição?
“Basicamente, luz!”.
- E estão de alguma forma nos afetando?
“Sim Capitão! Quando tocam a nave, consomem uma quantidade de energia muito pequena, mas, por serem tantas, podem comprometer nossa viagem se ficarmos expostos a elas durante mais cento e trinta e duas mil horas.”.
Arthur é o computador mais moderno da história da Humanidade. Porém, ainda não sabe enxergar o óbvio que há em algumas situações. Imagino ser essa, a falta de “simancol”, a barreira intransponível que nunca permitirá que uma máquina se torne totalmente equivalente a um animal inteligente.
- Fique tranqüilo Arthur, não ficaremos expostos tanto tempo. Quantas elas são?
“Um bilhão, trezentas e trinta e um milhões e seiscentas e sessenta e sete mil!”.
- Como elas interagem conosco?
“Tocam a nave uma de cada vez, com a primeira iniciando um novo ciclo depois que a última nos tocou. Cada ciclo deve durar aproximadamente vinte e uma horas e doze minutos.".
- De onde vieram?
“Impossível identificar a origem precisa delas, Capitão. Viajavam pelo espaço como luz, não tenho condições de saber desde quando, e assumiram a forma de corpos luminosos quando encontraram a nave.”.


A viagem pelo espaço nos coloca à mercê de qualquer evento cósmico que aconteça ao nosso redor. No mar, é necessário uma ronda de vigia a cada quarenta e cinco minutos, para detectar qualquer outro barco em rota de colisão. No espaço, quase tudo o que se vê já aconteceu há algum tempo.
Assim, o surgimento destas formas luminosas é fato jamais imaginado pelo mais criativo dos cientistas da Terra. Acredito que “eles” também não têm conhecimento disso.
- Arthur, tente estabelecer comunicação.
“Mensagem de saudação enviada em todas as línguas e protocolos classificados, Capitão!”.
As formas de luz continuam ao nosso redor, porém, não parecem capazes de nos ouvir, ou, nós não somos capazes de nos fazermos entender.
Ficamos em silêncio por alguns momentos, admirando a beleza e a graça das nossas visitas inesperadas.
A Amazônia WSS-1 é como uma imensa colméia flutuando no infinito do Cosmos, envolta em milhares de abelhas de luz... Arthur lê meu pensamento.
“Acredito que este som seja apropriado, Capitão!”.
O zumbido intenso que Arthur libera momentaneamente por toda a nave dá mais realismo à imagem em minha mente..., porém..., se abelhas fossem, poderiam nos ferroar.


Nossa nave possui medidas defensivas adequadas aos riscos imaginados para a missão, mas nenhuma delas pode ser remotamente chamada de “arma”. Graças a “eles” a raça humana aboliu todas as armas, enviadas em uma grande nave cargueiro para derreter no calor do Sol.
De qualquer forma, não tenho meios para avaliar o impacto de qualquer ação que tome. Não me agrada a possibilidade de ser mal interpretado pelas nossas visitantes. No espaço, decisões rápidas podem levar ao caos rapidamente.
- Podemos admitir hipoteticamente, Arthur, que nossa nave interceptou o caminho das formas de luz?
“Perfeitamente! A maior probabilidade é a de termos cruzado o caminho das formas de luz transversalmente, e agora elas nos acompanham 90º fora da sua rota.”
- Coloque a nave no caminho original das formas, Arthur. Vejamos para onde nossas novas amigas nos levarão.


Viajamos por duzentos e setenta dias terrestres sob a mesma condição, com as formas luminosas nos envolvendo e nos tocando, seguidamente, uma a uma.
Nossa única interação com elas deu-se graças a uma idéia de Arthur. Apagamos todas as luzes da nave, e só o rastro de vapor congelado, escape da nossa fusão a frio, poderia ser visto no espaço, se lá houvesse alguém para vê-lo.
As formas luminosas se apagaram junto com a nave; depois, cessaram qualquer atividade, deixando-se apenas flutuar, e assim ficaram durante todo o tempo em que prevaleceu a escuridão.
Passamos a alternar períodos claros com períodos escuros, tentando estabelecer algum tipo de relação com elas, mas em vão.
Dia após dia nos ocupamos em entender a natureza das nossas companheiras. Ingênuos em nossa curiosidade científica, Arthur e eu nunca cogitamos se elas seriam, intrinsecamente, indecifráveis.
Arthur repassou os conceitos filosóficos, esmiuçou o conhecimento biológico, analisou o que a humanidade sabia até o momento, e concluiu que nossas companhias, aquele bilhão de formas coloridas, não estavam vivas, uma vez que luz é matéria, não vida.
Argumentei que, uma vez que as formas coloridas tinham corpo, agiam de forma coordenada, e pelo fato de se tornarem simbiontes com a nave, elas estavam vivas, e cada uma delas era um indivíduo ímpar, dotado de algum tipo de inteligência.
Claro que não chegamos a uma conclusão. Dois serem inteligentes analisam e discutem questões profundas para chegarem à conclusão delas – se possível -, e para deliciarem-se com as próprias palavras e com as palavras do seu interlocutor.
É bom ser o único ser humano nesta nave. Conversas como as minhas com Arthur podem entediar o mais entusiasta dos ouvintes.


Amanhece mais um dia. Tomo meu desjejum tranquilamente. Admiro a foto do dia e marco mais um “x” em meu calendário terrestre, da Pirelli.
- Hoje completamos duzentos e setenta e dois dias com a companhia das formas de luz, Arthur!
“E hoje é o dia das novidades, Capitão!”
No ponto que Arthur destaca em minha torre de comando, vejo distante alguns milhões de quilômetros, um corpo de luz se materializar.
“Tem a mesma composição das formas ao nosso redor, porém, as leituras mostram ser de natureza totalmente oposta”.
Nossa nova visitante começa como um ponto difuso e depois cresce, cresce, até tornar-se uma esfera branca e brilhante, um pouco maior do que nossa nave. Em seu centro algumas ondas parecem pulsar.
Dizem que a história se repete como farsa. Eu e Arthur temos o privilégio de ver a vida acontecendo como se fosse a mais linda ficção.
Nossas companheiras dos últimos meses também assumem a forma de esferas, deixam a nave e partem de forma desordenada, competindo entre si em direção a recém chegada, como um cardume de peixes do oceano abissal na imensidão abissal do Cosmos, deixando atrás de si um rastro colorido que demora a se apagar.
“Fogos de artifício, Capitão!”.
- Fogos de artifício, Arthur!


A imensa esfera branca é atingida pelas esferas menores e sua cor vai se alterando na medida em que as absorve. Rapidamente, o bilhão e tantos milhões delas desaparecem de nossa vista.
- Qual é a cor resultante da mistura de todas as cores, Arthur?
“Até este momento, pensávamos que era o preto, Capitão!”.
Incontáveis pontos da grande esfera brilham momentaneamente, brilhos de todas as cores, mostrando que as esferas menores se debatem dentro dela, antes de serem consumidas, fundindo-se umas às outras. No seu centro uma forma mais escura começa a aparecer. Lembra uma massa de pão dentro de uma máquina se sovar.
“Está pensando o mesmo que eu, Capitão?”.
- Acredito que sim, Arthur!
E a massa continua sendo amassada e esticada durante horas, assumindo novas formas e novas cores. Subitamente, as mãos do invisível artesão do Universo cessam o preparo, e dividem a massa pronta em duas grandes metades, dispostas para Arthur e eu como duas meias luas, dentro uma da outra. E as metades passam a pulsar alternadamente, emitindo brilhos de duração aleatória, mas aparentemente harmônicos, como se estivessem a conversar.


Aqui no espaço cósmico, distante até da imaginação das pessoas que habitam na Terra, eu e Arthur testemunhamos o nascimento de uma vida, ou de duas, sendo mais preciso. Temos três vidas, então, se contarmos a grande esfera que as carrega em seu ventre, flutuando, indiferente a nós, que a vemos em sua intimidade, embriagados de admiração.
Arthur faz as varreduras e análises possíveis, parecendo-me que até alguém com a capacidade de concentração dele pode ficar afobado.
“Temos registros para décadas de análise, Capitão!”.
- Ótimo Arthur, tempo é o que não nos falta...
Não termino a frase. Um clarão como um flash de fotografia me assusta por um segundo. Uma luz tão forte que minha redoma transparente quase não conseguiu filtrar.
A enorme esfera se transforma novamente em seu elemento básico, pulsa intensamente e depois desaparece rumo a um ponto qualquer na imensidão. O vazio absoluto volta a ser a nossa única companhia.
- Qual o destino dela, Arthur?
“Impossível identificar, Capitão! Rumou para um ponto muito além do alcance dos nossos sensores. O que acha?”.
- Penso que partiu rumo a um planeta deserto, inimaginavelmente longe daqui. Planeta que, dentre milhões e milhões de outros, terá o privilégio de receber algumas formas de vida e compartilhar sua existência com elas.
“A seu ver então, Capitão, estivemos testemunhando a Criação?”.
- Sim Arthur, Ela. Inesperada, inexplicável, inexorável, nos mostrando como ela é. Luzes vagando pelo Universo a procura de outras para fecundar e gerar novas luzes..., e tudo acontece e acontecerá assim, infinitamente.
“A vida humana, vista desse ponto de vista, se perpetua da mesma forma que se perpetua o Universo. Concorda Capitão?”.
- Concordo..., e acho engraçada nossa conclusão Arthur. Não lhe parece que sempre soubemos disso?
“Adoraria argumentar a respeito, Capitão!”.


Retomamos nosso curso e voltamos para nossa missão original. Ainda tenho muito a refletir sobre o que aprendemos.
Já sabíamos que não estávamos sós no Universo. Agora sabemos que ele está vivo como um oceano, com criaturas luminosas cruzando-o de um ponto a outro no infinito, o que o torna, para mim, ainda maior do que era.
Hoje, depois de todos os meses passados nessa aventura, posso retornar a uma questão pendente, que retomo de onde havia parado.


Entramos na Hangar Straigt, ele se distancia um pouco, engato a sexta marcha e me coloco novamente em seu vácuo.
Meu carro ganha em velocidade e o ultrapasso pela direita faltando 200m para a Stowe, mas ele emparelha quando faltam 50m para entrarmos. Reduzo para terceira marcha..., ele parece segurar o carro só no freio..., entramos juntos..., agora vai dar..., agora vai ...
Passei! Vejo pelo retrovisor a McLaren derrapar e colocar as rodas traseiras sobre a zebra. Ele está com problemas!
Acelero, reduzo e entro na Yale à esquerda; coloco quarta, terceira marcha. Contorno a Club segurando meu lindo Lótus negro e dourado no limite. Mergulho em direção a Abbey e quando reduzo vejo uma imensa massa branca e vermelha tomando todo o retrovisor esquerdo. Aírton me alcança novamente. Penso se não sou o mortal soberbo acreditando poder mais que um Deus, mas isso só me incentiva a continuar.
Entro na Farm Straight com ele fungando atrás de mim com um touro em uma festa na Espanha. Faço a Bridge para direita, a Priory para esquerda e depois o “S” que termina na Luffield. A seqüência de curvas é impossível para o carro dele, que está com o câmbio quebrado.
Exijo tudo o que meu F1 pode dar e arranco como uma bala de canhão rumo a Woodcote e a linha de chegada. Confiro no retrovisor da esquerda e depois no da direita, e Aírton não aparece em nenhum deles.
Vejo lá no alto alguém com a bandeira quadriculada. Piso ainda mais fundo..., percebo um clarão de luz e...

Tcham! Tcham! Tcham!
Tcham! Tcham! Tcham!
Parará parará pará pá ra
Parará pará pá ra
Parará pa rá



Moral da história
A Criação é de natureza feminina.

Domingo, 8 de Março de 2009

Opções e Alternativas

Meu nome é Capitão Ócio. Minha missão é contar histórias com moral, para lembrar e refletir. Hoje, 8 de março, é o Dia Internacional da Mulher. Parabéns para todas! Se quiserem uma boa comemoração, passem lá em casa. Neste "Mês da Mulher", contarei histórias com temática feminina. Esta, a segunda história, trata de escolhas.
Vamos a ela!


- Então, como foi ontem?
- Ontem?
- É! A balada..., meu amigo, você gostou dele?
- Curiosidade, hein?
- Sua boba! Conta!
- Gostei dele; educado, preocupado em ser agradável. Não é um gato...
- Não, mas é bonito.
- É...!
- E se comportou direitinho?
- Depende do que é “direitinho”!
- Direto ao ponto, sem esperar nem de mais, nem de menos...
- Assim..., acho que foi mais para “mais” do que para “menos”.
- Mas não esperou demais?
- Nada! Ele é bem espertinho, sacou logo como eu queria que a situação evoluísse. Não tivemos pressa.
- E rolou legal?
- Legal..., nada excepcional..., mas acima da média, com certeza! Quer saber mais sobre ele?
- Não..., o que você sabe eu também sei! Você vai ver ele de novo?
- Não! Não vou!
- Não?
- Não!
- Nossa! Não entendi! Achei que você gostou dele, que ele foi uma companhia agradável e que depois rolou um sexo legal.
- Foi o que aconteceu!
- Então...?
- Nem sei o que vou falar quando ele ligar. Se ele não ligar, melhor, fica mais fácil.
- Não te entendo! Tantas mulheres reclamam que não encontram um cara legal, e você dispensa um que é “acima da média”. Tá bom!
- Nada a ver com ele.
- Então, tem a ver com você?
- Tudo a ver comigo.
- Como assim?
- Olha..., já estou cansada, sempre é do mesmo jeito...
- Jeito...?
- Assim..., conheço um cara na balada, com ou sem referências, aí a gente conversa, bebe, ri para caramba, pinta um clima... Claro que não pinta um clima com todos os caras.
- Claro!
- Admito que, algumas vezes, dou mais valor a um único ponto positivo do que a todo o conjunto, mas..., você sabe, se você for muito exigente...
- Claro que eu sei! Mas...
- Então..., se pintar um clima, vai dando corda, dando corda, e então tem uma música e a gente dança bem coladinho, sente a sinceridade das intenções, e coisa vai rolando e de repente você...
- Já está ajoelhada..., mas..., você acha ruim?
- Não..., longe de ser ruim. É que já fiz muito isso..., já cansei. Cansei desse sexo...
- Do sexo?
- Não “do” sexo, lógico!
- Lógico!
- Cansei desse sexo fácil, sem compromisso, com homens que não estão nem aí comigo. Sabem que eu quero a mesma coisa que eles e que não vou pedir muito em troca.
- Ai!
- Queria encontrar alguém que realmente se interessasse por mim. Homem que só quer me comer...
- É fácil de encontrar!
- Demais! Se eu falasse no meio do escritório, bem alto: “- Todos os que querem me comer façam uma fila, andando de quatro e com a língua para fora!”, daria para amarrar um trenó para eles puxarem!
- Também! Olha para você...
- Você não acha que ser gostosa atrapalha?
- Como eu poderia saber? Mas, minha amiga, você está se sentindo solitária. Sabe..., nunca se está sozinho, mas, quase sempre, se está solitário...
- Triste essa frase!
- Adaptei de uma música do Alice Cooper!
- Então..., e eu? Quero algo mais..., mais intenso, mais verdadeiro, pode até ser um pouco cruel. Mas, o que vou fazer..., não sei..., sei lá..., será que devo procurar na Internet?
- Que boba!
- Brincadeira! O amor existe para ser real, palpável. A pessoa que você quer tem que estar disponível, aqui e agora. A gente tem que medir com os olhos para ter vontade de tocar e sentir se a voltagem está correndo. Tem de ser de carne e osso; e músculos...
- O “real”, às vezes, está tão próximo da gente, não está?
- É..., às vezes está tão perto que a gente não percebe!
- Você sabe que eu sempre gostei de você.
- Gosto de você também!
- Às vezes a gente pensa que só a gente não consegue ser feliz..., como se o problema fosse conosco... Ou então, pensa que há uma fórmula que todo mundo decifrou menos você, e ninguém quer te contar, não é?
- É..., de vez em quando, é meio que inevitável sentir-se assim...
- Você concorda se eu lhe disser que a liberdade de fazer sexo com quem quisermos nos faz esquecer de que, no fundo, o que queremos é alguém para estar ao nosso lado?
- Mais ou menos..., olha..., até concordo! A gente sabe que não quer ficar só em relacionamentos assim, inconsistentes..., mas, vai deixando o tempo passar...
- Me deixa perguntar uma coisa?
- Claro!
- Você gostaria de ter alguém que te ouvisse, sem julgamento, sem crítica, e te deixasse falar por horas a fio, deixando-a colocar para fora tudo que tem preso aí dentro, até o que você já esqueceu?
- Gostaria..., claro, quem não gostaria..., desde que não fosse o psicólogo.
- Não! Alguém como você, que além de tudo isso te tratasse do jeito que você gosta, com atenção, delicadeza, com respeito pela suas opiniões...
- E o que mais?
- E que, na cama, soubesse te ler, te interpretar e depois te traduzir inteirinha?
- Uau! Pára que deu até um arrepio! Onde posso comprar alguém assim?
- Boba! Alguém assim não tem para comprar! Alguém assim a gente encontra!
- E é o que eu estou procurando, não é? Não é disso que estamos falando? Você saberia onde encontrar alguém assim?
- Claro!
- Onde?
- Aqui, bem na sua frente!
- Você?
- Não lhe parece uma boa idéia?
- Não sei..., nunca pensei nisso...
- De verdade? Nunca me percebeu...
- Percebi você me olhando?
- É!
- Já te vi me olhando..., me secando..., claro..., isso a gente nota..., mas..., sei lá..., deixei para lá..., você..., como eu ia imaginar?
- Não se preocupe..., você não tinha que perceber...
- Mas fico contente em saber, você é uma pessoa especial para mim.
- Você também é especial para mim. Te acho muito atraente...
- Obrigada, você também é!
- Ficou nervosa?
- Não..., só fiquei um pouco incomodada..., foi a surpresa, não ligue!
- Tenho mais umas cartas para jogar...
- Cartas?
- Umas “cartas para tirar da manga”, se você deixar eu as colocar na mesa...
- Claro! Não se preocupe, estou achando o assunto interessante. Continue.
- Eu seria uma boa companhia para você. Nos conhecemos há algum tempo, sabemos do que gostamos, temos afinidades em um monte de coisas, já nos fizemos muitas confidências...
- É verdade, quantas horas já não passamos jogando conversa fora?
- Muitas! Nos conhecemos bem, não é?
- É! Mas só nos vimos de roupa, nunca sem ela!
- Mas..., sabendo do que você sabe agora, não te deixa curiosa?
- Golpe baixo!
- Desculpe, não pude evitar..., então..., não vale a pena tentar?
- Hum...
- Você está com um sorriso na cara...
- E o que você propõe?
- Vamos sair na sexta-feira? Eu, você e mais duas amigas minhas.
- Elas...?
- São muito legais..., estão juntas faz pouco tempo.
- O que vamos fazer?
- Vamos a um bar legal, que a gente freqüenta. Lá vamos conversar, beber, rir para caramba...
- E se tiver uma música a gente dança...
- Sacou!
- Você não está com alguém?
- Não, estou como você, sozinha.
- E também está solitária?
- Acho que estou procurando o mesmo que você. A diferença é que não prefiro os homens.
- Não sei...
- Quer pensar?
- Posso pensar?
- Claro! O tempo que você quiser!
- Cinco segundos?



Moral da história
Quem quer amar, dá chances para o amor.

Domingo, 1 de Março de 2009

Pandaralho, ou "Olhos na Fotografia"

Meu nome é Capitão Ócio. Minha missão é contar histórias com moral, para lembrar e refletir. Mas faço coisas diferentes sempre que me dá na telha. Neste "Mês da Mulher", contarei histórias com temática feminina. A primeira fala de dor e espera.
Vamos a ela!


Ela conta a quem pergunta a razão daquele nome que, logo no dia em que ele chegou a casa dela, urinou no tapete e no sofá da sala, roeu o pé de um banco - de estimação - no quintal, e passou a noite chorando alto, ininterruptamente, aquele choro triste e sentido, do filhote recém separado da mãe. Ninguém dormiu.
De manhã, o encontraram dentro do cestão de roupas limpas que seriam passadas. Destruiu, rasgou ou furou várias peças. Estava praticamente vestido com uma calçola, só com a pontinha do focinho aparecendo por uma das pernas.
Daí seu filho tê-lo batizado com um nome diferente.
- Pandaralho! - gritou pela janela que havia defronte a ela, atrás da pia, para o cão que latia no quintal.

Pandaralho latia para qualquer coisa que se movesse do lado de fora da cerca, e para qualquer um que aparecesse no portão. Como a casa era em uma esquina, ele tinha motivos para latir quase que o tempo todo.
Mas seu latido, embora enchesse a paciência, não era, de forma alguma, inútil, já que latia de um jeito particular para cada coisa que chamasse sua atenção.
Pelo latido, ela sabia se era um gato ou um cachorro passando pela rua, se era uma pessoa, estranha ou conhecida, que chegara ao portão.
Ele só não latia para o carteiro. Nesse caso, abanava o rabo e chorava baixinho. Se for verdade que o cachorro era a cara do dono, ele parecia sentir o que ela sentia quando o carteiro passava.

Seu filho sabia dar nomes para os animais. “Pandaralho”, que ele trouxera filhotinho, de presente para dela.
“Sombrio”, para o Pastor Belga que a sua vizinha soltava todas as noites, e se movia como um lobo, silencioso, camuflado na escuridão. O gato que rondava os quintais na madrugada ganhou o apelido de “Zapt!”, pois desaparecia num piscar de olhos sempre que algo o assustava.
Pensou qual seria a razão daquela característica dele ser para ela a mais marcante. Ele tinha outros encantos, e muitas outras qualidades. Mas ela não conseguia escolher mais uma em especial.
Do alto do apoio do filtro de água, que ficava à esquerda da pia, ao lado da janela, ele, na foto, a observava. Lindo, de quepe e uniforme.

Na festa de formatura do regimento ela sentiu mais do que ciúme de mãe jovem das meninas que sorriam para ele.
Quando o fotógrafo bateu aquela foto que agora lhe fazia companhia, era para ela que ele dirigia seus belos olhos negros, e sorria sem mostrar os dentes um sorriso bonito, de rapaz bonito, mas que trazia um traço totalmente novo, e indesejado.
Ela entendeu então o que, embora não admitisse para si própria, já sabia, e aconteceria apesar das preces feitas, e das lágrimas que viesse a chorar. Naquela hora, não chorou.
Pegou-o pelo braço e levou-o para dançar, e dançaram todas as músicas do baile.
Nos intervalos, tomaram cerveja, conversaram e riram entre eles e com amigos. Ficaram de mãos dadas.
No dia seguinte, domingo, deixou-o dormir até a hora do almoço. Preparou lasanha à bolonhesa com bastante queijo ralado, e a serviu com salada de rúcula e refrigerante de guaraná. De sobremesa, sagu de suco de laranja.
Ele a ajudou a lavar a louça e depois assistiram ao jogo da tarde, na televisão. Torciam pelo mesmo time e xingaram o juiz que marcou o pênalti supostamente inexistente que deu a vitória ao time adversário.
Estava no final do jogo quando Pandaralho latiu avisando que chegara uma garota que também sabia das novidades.
Ela abriu a porta e a recebeu com simpatia. Olhos nos olhos, sabiam que, apesar das diferenças, teriam que estar solidárias a partir dali.
Deixou então o casal e foi para os fundos dar comida ao cachorro. Depois, passou um café e o serviu com leite quente e rosquinhas que ela mesma fazia.
Conversou um pouco com eles e anunciou que iria dormir. Pediu que o filho não deixasse de acompanhar a namorada quando ela fosse embora; não muito tarde, pois ele acordaria cedo na manhã seguinte.
Nunca imaginou que um dia desejaria que a próxima manhã não acontecesse.

Na segunda-feira bem cedo ele saiu do quarto já fardado. Tomaram o café juntos, mas não conversaram nada em especial. Ela havia preparado um pacote com as rosquinhas e algumas outras coisas de que ele gostava, mas desistiu de entregá-lo.
Pensou ser melhor para ambos comportar-se como se ele – ainda - estivesse indo para a escola, da qual voltaria, por volta do meio-dia, cansado e esfomeado, cheio de coisas para contar.
Ficou ao lado dele na calçada, aguardando pelo ônibus que estava pela cidade coletando os soldados e em breve o pegaria.
O cachorro, que ainda era filhotinho, aproveitou para sair e correr livremente pela rua.
O ônibus chegou, eles se abraçaram, se beijaram, ela deu as últimas recomendações, e ele embarcou, juntando-se a outros garotos que compartilhavam da mesma sorte. A algazarra que faziam sugeria que iriam para uma excursão.
Assim que o ônibus partiu, ela percebeu o cachorrinho sentado ao lado dela, em silêncio.
Pegou-o no colo e entendeu que seu filho o trouxera semanas atrás para que ela não ficasse – totalmente - sozinha.
Naquele dia, na hora do almoço, colocou o prato dele na mesa, e passou a fazer isso em todos os dias que se seguiram.

Dias que se passaram quase sem notícias. Os jornais e a televisão informavam que o conflito se desenvolvia satisfatoriamente, e que em breve os soldados enviados na primeira leva seriam substituídos.
Desde que ele partiu chegaram apenas seis cartas, dizendo que estava bem, que estava sendo bem tratado, que estava otimista com a campanha e que voltaria em breve para casa. Eram cartas padrão que ele copiava com a sua letra e assinava embaixo.
Não havia naquelas linhas nenhuma palavra que fosse realmente dele, nada que transmitisse o sentimento que tinha por ela, nada que mostrasse o que realmente estava vivendo, ou sofrendo.
As cartas do front, ela ficou sabendo por uma amiga, eram censuradas pelo governo, no interesse da segurança nacional.

Às vezes ela maldizia o governo do seu país, que volta e meia retirava milhares de jovens de suas famílias e os enviava para longe, para conseguir, à força, o que não foi obtido com a política.
Alguns poucos contrários diziam que tudo acontecia para alimentar a imensa e insaciável máquina de consumo que lhes garantia seu modo de vida.
A propaganda oficial mostrava os jovens soldados como heróis; pessoas especiais que aceitaram o sacrifício em nome da pátria, sagrada e eterna.
Ela, na sua simplicidade, também via seu filho assim, como o bravo soldado que enfrentaria os perigos e venceria o mal, e retornaria vivo e bem, apenas com algumas cicatrizes, no corpo ou no espírito.
Mas, pensava ela agora, que heroísmo pode compensar a dor da ausência, a incerteza no seu coração?

Olhou nos olhos dele, gravados na fotografia.
Será que ainda teria os mesmos traços? Será que ainda era o garoto de dezoito anos, esperto, esportista, falador?
Será que estava vivo? E se estivesse, estaria inteiro? Ainda teria aquelas mãos bonitas, aquelas pernas grossas que ela dizia ser de um jogador de futebol?
Será que os olhos dele ainda a enxergariam, se e quando ele voltasse?
Pegou o prato limpo que ele mais uma vez não usara, e chorou novamente, como chorava todos os dias naquela hora, enquanto o lavava e o colocava para secar.

Enxugava os olhos com a ponta do pano de prato, quando o cachorro começou a latir um pouco mais alto.
Já ia reclamar, gritando com ele pela janela, mas percebeu que era um latido diferente, como se Pandaralho soluçasse, e estivesse com dificuldades para respirar.
Jogou o pano de prato e o avental sobre a pia. Depois correu lá para fora, para ver quem estava parado no portão.



Moral da história
Há sempre uma mulher a esperar por você.

Sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2009

Seu amigo, seu herói

Meu nome é Capitão Ócio. Se você já me conhece, sabe que minha missão é contar histórias com moral, para lembrar e refletir. A que contaremos hoje trata da amizade entre homem e mulher. Coisa complicada, como sabemos.
Vamos a ela!


- Me sinto mal se ficar olhando para baixo! – aquele que estava um pouco acima na escada, constatou.
- Então não olhe! - aquele que estava um pouco abaixo, respondeu.
- Não consigo! Essa espiral que o corrimão da escada faz..., - esticou o braço como se o colocando dentro do imenso tubo onde a escada, como uma serpente, se enrolava - vai até lá embaixo..., me dá uma espécie de vertigem.
- Para mim, parece o Túnel do Tempo! - o que estava um pouco abaixo se lembrou da série de TV.
Seu companheiro, o que estava um pouco acima, tinha menos idade do que ele.
- Túnel do Tempo? Sei..., é uma série cult!
- Já assistiu?
- Claro que já! Você sabe que foi com você que a descobri?
- Sério?
- Sério! Você levou lá em casa o DVD. Colocou um episódio que se passava em um forte, no Texas, onde uns colonos americanos enfrentaram o exército mexicano...
- O Álamo!
- É!

O que estava um pouco abaixo decidiu encontrar uma pessoa para esclarecer uma questão, e pediu ao seu amigo, o que estava um pouco acima, para acompanhá-lo.
São amigos de longa data. Anos atrás, quando o que estava um pouco acima era adolescente, ele acordou com sede no meio da madrugada. Entrando na cozinha, ouviu a voz da sua irmã vindo da despensa que havia anexa.
Escondeu-se na cozinha escura e testemunhou incógnito sua irmã sendo domada. Ouviu-a dizendo coisas que jamais imaginou que uma mulher dissesse.
Alguns minutos depois, fez-se silêncio; depois, a porta da despensa abriu e ela saiu - olhos arregalados, sorriso escancarado, molhada de suor - na ponta dos pés, e verificou se havia alguém acordado. Depois voltou e pegou pela mão um sujeito e o levou pela porta dos fundos.
Era o cara que estava ali agora, um pouco abaixo na escada. Cara que, macho o suficiente para fazer aquilo, do jeito que fez, com a casca grossa da sua irmã, só podia ser um camarada foda. Imediatamente, adotou-o como ídolo. Viu nele o cara que queria ser.
O relacionamento do seu amigo com sua irmã continuou, sem compromissos, com a família pensando que era mais um dos colegas dela.
Mas, ele sabia, em segredo, o que realmente acontecia.
Quando se tornou maior de idade, terminou o ensino médio e deixou os estudos, atraído pela expectativa de ganhos promissores que o emprego oferecido pelo seu amigo trazia, e começou a trabalhar com ele, resolvendo pendências financeiras, entre seus patrões, emprestadores não oficiais de dinheiro, e a clientela deles, que às vezes era problemática.
Ele atendia prontamente a qualquer pedido do seu amigo.

- Você falou que vamos encontrar uma pessoa.
- Estamos esperando o Valtão. Lembra dele?
- Aquele cara cumpridão, que parece artista de circo?
É interessante quando alguém nos mostra uma perspectiva diferente sobre algo que nos é corriqueiro.
- Falando assim, até que parece mesmo! Já conversou com ele?
- Pouco! Mas assisti muitas vezes vocês jogando sinuca.
- O cara é bom, não é?
- É..., joga bem, mas fica nervoso se for esnucado.
- Esse é o truque!
Havia uma rivalidade saudável entre seu amigo e o Valtão, na sinuca.
- O Valtão não casou com aquela mulher..., aquela, sua amiga?
- É! O Valtão casou com ela!
- Isso, está fazendo um ano..., foi uma grande festa.
- Festa boa! - principalmente para ele, o que estava um pouco abaixo, que foi um dos padrinhos, e dançou com a noiva antes do noivo.

Ela chegou à festa em um belo carro antigo, depois da seção de fotos em lugares bonitos da cidade. Estava linda e radiante.
Quando entraram no salão, a banda começou a tocar. Ela procurou-o com o olhar até encontrá-lo, depois caminhou até ele e o tirou para a primeira dança. Uma enorme quebra de protocolo.
Quem os conhecia encarou com naturalidade. Até Valtão, o noivo, que ficou entre as pessoas, assistindo; e só se incomodou um pouco com o olhar de curiosidade de alguns parentes distantes.
O casal de amigos dançava com leveza. Ela usava uma tiara, decorada com pequenas pedras semipreciosas, prendendo seus cabelos loiros; seus olhos azuis lembravam o céu visto do alto dos Andes, e seu sorriso estava tão bonito... Parecia a rainha de Camelot .
Enquanto dançavam, ele se lembrou do dia em que, muito tempo atrás, ela sentou-se ao lado dele na hora do lanche e perguntou se ele queria dividir o danoninho. Ele ficou com vergonha e não dividiu.
Porém, durante os vinte anos que se seguiram dividiram lanches, cigarros, cervejas, barracas, colchões e colchonetes, dias e noites, opiniões, paixões e segredos.
Foram íntimos como irmão e irmã. Talvez até mais íntimos, se considerarmos que irmão e irmã não se mostram pelados um para o outro.
A música terminou, as pessoas aplaudiram. Ela o abraçou com certa formalidade, mas com força, e falou baixo, perto do seu ouvido: “- Você vai continuar sendo meu Cavaleiro?”.
Depois lhe deu um beijo na face, segurou sua mão e com a outra acenou chamando o noivo, que veio até eles, o cumprimentou e tomou-lhe o par da dança. A banda começou a tocar outra valsa.

- E qual a questão que você quer resolver com o Valtão? Posso saber?
- Claro! Precisava mesmo te contar. Ontem minha amiga me ligou. Foi a primeira vez, depois do casamento dela, que conversamos mais de quinze minutos. Ela falou da vida de casada. Falou do gato, da máquina de lavar, dos presentes que ganhou e ainda não estava usando. Falou sobre um monte de coisas... Mas, eu a conheço mais do que ela própria, assim como ela me conhece, e percebi que alguma coisa estava errada.
- Errada, em que sentido?
- Errada..., ela queria que eu percebesse, mas estava envergonhada.
- Então?
- Não fiz rodeios. Disse que ela podia contar comigo como sempre contou, para o que desse e viesse... Ela chorou.
- Chorou?
- Chorou. Partiu-me o coração.
- E...?
- Ela contou que o Valtão é violento, trata-a mal..., bate nela..., do pescoço para baixo..., bate para valer.
- Bate nela? Que filho da puta! Quem diria? Cara bom de grana, boa pinta...
- Mas é um grande filho de uma puta!
O que estava um pouco acima entendeu a razão de estarem escondidos na escada, que ficava no final do corredor, praticamente fora da vista do hall do elevador. E entendeu por que seu amigo sabia como entrar, e, conseqüentemente, como sair do prédio sem serem vistos.
Não discordava do mérito da questão, mas tratava-se de um assunto delicado, para o qual existe até um ditado popular.

- Em briga de marido e mulher, não se mete a colher!
- O que você quer dizer?
- Quero dizer que ninguém tem nada com isso. Ela que procure a delegacia e o denuncie!
- Ela não vai fazer isso!
- Por que não?
- Não vai..., tem as razões dela..., que eu respeito.
- E você vai encerrar a questão dela com o Valtão?
- Não vou deixar a minha melhor amiga sofrendo nas mãos de um idiota violento.
- Ela pediu que você fizesse isso?
- Ela disse que preferia morrer a viver assim, mantendo as aparências, e apanhando dentro de casa. Para mim, não precisa disser mais nada.
- Você sempre a protegeu?
- Sempre! Ela me chamava de “seu Cavaleiro”, e às vezes, de “meu herói”.
- E você sempre foi apaixonado por ela, não foi?
- Não! E nem ela por mim. Somos amigos..., mas já fomos como irmãos. Nossa relação tinha um jeito só nosso. Acho que fomos um “Eduardo e Mônica” com um final diferente.
O que estava um pouco acima achou muito boa a comparação. Sorriu. Quanto ao Valtão, não tinha nada contra ele até aquele momento. Mas qualquer camarada que trata uma mulher daquele jeito merece o que Valtão merecia.
Não seria a primeira vez em que os dois amigos enfrentariam uma situação delicada.

O “blim!” que ouviram indicava que o elevador chegara ao andar de baixo.
Como era somente um apartamento por andar, ela estava no dentista, e não era dia de faxina, só poderia ser Valtão chegando, no horário habitual.
O que estava um pouco abaixo pega, presas no cinto da calça, nas costas, sob o paletó, duas metades de um taco de sinuca. Enquanto descem os degraus, rosqueia uma metade na outra, e segura o taco pelo seu lado mais fino, com as duas mãos. Saem da escada e surgem no hall do elevador.
Valtão toma um susto quando vê dois homens se aproximando. Depois relaxa, mas mantém a expressão de estranheza.
- Você aqui?
O cabo do taco de sinuca o atinge na lateral da cabeça, um pouco acima do olho esquerdo, com força suficiente para quebrar na emenda. Ele fica atônito, e recebe em seguida um pisão bem no meio de um joelho. Seu corpo perde a sustentação e ele cai. Sente um pontapé no estômago, fica sem ar, e pensa que vai vomitar.
Os dois amigos o pegam pelos braços e pelas pernas e o carregam rapidamente para a escada. Lá o seguram pelas pernas e o colocam de ponta cabeça, no meio do vazio, olhando para o chão, vinte andares abaixo. Ele não tem tempo para entender o que está acontecendo.
- Não é nada pessoal, Valtão! – disse o executor, tentando não mostrar gosto pelo que estava fazendo.
Contam “um”..., “dois”..., e o soltam no “três”.
A queda foi rápida, e o corpo percorreu todo o tubo sem bater em nada, estatelando-se no belo piso do chão do térreo.

O que esteve mais acima na escada pensava que seu amigo estava certo, livrando a grande amiga daquele marido horrível, dando-lhe uma possibilidade de um futuro agora, enquanto ainda era jovem e bela.
E veio-lhe à mente que ele também tinha uma amiga que há anos sofria por não conseguir largar um cara que não gostava dela, mas que a comia sempre que podia e prometia que um dia ficaria com ela para sempre. Coincidentemente, essa sua amiga era a sua irmã.
Pobre dela! Não conseguia se envolver com mais ninguém, dizia que ninguém a entendia e coisas do tipo. Mas, ele sabia, ela era viciada no sexo que recebia daquele cara, que, coincidentemente, era o seu amigo, que estava ao seu lado agora, olhando lá para baixo, com a barriga apoiada no corrimão e a parte de cima do corpo um pouco para frente.
Seu amigo gostava da amiga mais do que imaginava, era apaixonado por ela. Um amor platônico , sem sexo.
O sexo ele fazia com a sua irmã. Descarregava nela o seu tesão reprimido.
Sempre foi, e sempre seria assim. A amiga do seu amigo teria uma possibidade de futuro, mas, qual o futuro da sua irmã?
Pensando bem..., seu amigo também não era um filho de uma puta?

As coisas que um homem faz por uma mulher...
Pegou seu amigo pela parte de trás das calças, tirou as pernas dele no chão e o empurrou forte pelas costas, lançando-o para o mesmo destino dado ao Valtão, segundos atrás, e acompanhou a imensa cobra o engolindo.
Agora, ele era o “herói” de uma mulher, que, para infelicidade dele, jamais saberia disso.



Moral da história:
Pense primeiro no mal que você faz.

Sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2009

Rei da Selva

Wordle: Jane 1

Domingo, 8 de Fevereiro de 2009

Pausa para um café

Meu nome é Capitão Ócio. Minha missão é contar histórias com moral, para lembrar e refletir. Hoje, nossa história se passa em um daqueles momentos gostosos quando você deixa o que está fazendo e tira alguns minutos para relaxar e tomar um café.
Vou trazer um convidado, um personagem de outro blog.
Vamos a ela!


Gosto muito daquele Coffee Bar.
É bonito, confortável e aconchegante. Tem um ar cosmopolita. Os funcionários são simpáticos e a gerente é uma graça de pessoa. O café é excelente e as comidinhas também. E a música que toca está sempre agradável, num volume adequado ao momento. Naquela hora estava tocando Cal Tjader..., “blim”, “bilim”, “blim”..., interpretando "Why Should I Care".
Eu estava em minha mesa favorita, no fundo, no canto esquerdo em relação à porta de entrada, onde ficam as mesas com sofás.
Sempre saio para almoçar o mais tarde possível; assim, tenho mais tranqüilidade para o - indispensável - café com jornal depois do almoço, sem ser incomodado por aquele burburinho característico dos horários de pico.
Não havia ninguém nas mesas próximas. Do outro lado, próximo da porta, dois casais de jovens conversavam, e havia três ou quatro pessoas nas mesas na calçada. O garçom estava lá, tirando um pedido. Atrás do balcão, duas funcionárias abasteciam o forno e o rapaz do caixa conversava com uma senhora que tomava uma coca-cola.
O Coffee Bar estava quase vazio, o que era comum naquele horário.

Assim, estranhei quando ouvi pela primeira, depois segunda e terceira vez uma voz dizendo "- Olá!". Senti aquela sensação de ser observado, que incomoda a gente quando não sabemos e não conseguimos descobrir quem nos observa. "Será que alguém entre os presentes era ventríloquo?" - imaginei.
Deixei para lá! Encontrei uma matéria interessante na "Ilustrada" e, enquanto a lia, abri de uma só vez dois saquinhos de açúcar. Quando ia virá-los sobre a xícara, ouvi a mesma voz, desta vez me dizendo: "- Não acha que é muito açúcar?".
Olhei novamente à minha volta, já um pouco assustado.
Não, ninguém ali estava se importando comigo. Veio-me à mente o livro "Almoço Nu", do William S. Borroughs, e questionei se algo parecido estaria acontecendo. Como não consumo nada que possa me proporcionar experiências sensoriais como as relatadas lá, conclui que poderia ser algo "dentro da minha cabeça". Sabe, como quando fica uma música tocando sem parar..., coisas desse tipo.
Olhei para a xícara de café e, com a intenção de "entrar na brincadeira" que a minha mente propunha, falei bem baixinho:
- Só falta ser você que está falando comigo!
- E sou eu! - a xícara de café respondeu.

Levantei a cabeça, estiquei o pescoço, respirei fundo e olhei em volta com discrição. Não, ninguém estava prestando atenção.
- Não se preocupe! - a voz do café continuou. - Quando você conversa com o café, ninguém percebe! - É como se estivéssemos em uma redoma.
- E você sabe por que isso acontece? – questionei-o, aproximando meu rosto dele, já sabendo que nossa conversa seria interessante.
- Não, não sei! - ele respondeu. - É um mistério...
- Essa frase..., eu já a ouvi em um filme... – pensei um pouco mais alto.
- "Shakespeare Apaixonado!" - ele prontamente completou.
Nunca vi ninguém tomando café dentro do cinema.
- Como você viu o filme?
- Não vi, me contaram.
- Ah!

Por um momento me ocorreu de despejar somente um saquinho de açúcar sobre ele, mexer com a colher e tomar todo o meu interlocutor, encerrando nosso encontro.
Mas rapidamente caí em mim e puxei conversa.
- O café fala com todo mundo?
- Sim, em todos os lugares, o tempo todo.
- Assim como estamos falando agora?
- Claro! Quer dizer..., infelizmente, não pode ser assim na maioria das vezes. As pessoas têm menos tempo.
- Mas te pergunto uma coisa.
- eu ia falar, mas ele continuou - Quantas vezes, tomando um café, você não pensou em algo e lhe pareceu que conversava com alguém?
Era verdade! Quantas vezes não fiquei conversando comigo mesmo, mexendo a colherzinha, sentindo o aroma pertinho do nariz, tomando o café aos pouquinhos. Às vezes, pensava conversar com outra pessoa. Concordei.
- Então já conversamos várias vezes!
- Já, meu caro, já!
Fiquei feliz em saber que já tínhamos intimidade.

- E é tudo confidencial? - abri um sorriso meio desajeitado, após perguntar.
- Claro! Fique tranqüilo..., o que conversamos se mistura ao aroma que sobe, e como ele, vai se desfazendo, desfazendo, até desaparecer no ar.
- Muito poético!
- O café é poético! Mas, meu caro, receio que precisamos encerrar.
- Por quê? - nosso papo estava tão bom.
- Por que vou esfriar e sair do ponto de tomar! Mas..., não se preocupe, nos falamos novamente em um dia desses.
Nada como fazer novos amigos! Despejei um saquinho devagarzinho sobre ele e pedi:
- Diga-me quando estiver bom!



Emprestei sem pedir o personagem do blog Histórias de um Café, do qual todos aqui no Dicas gostam muito. Passe lá, conheça, e tome um café.


Moral da História:
Coffee and cigarettes forever!

A empadinha, por Dante

Segunda Temporada - Décimo Capítulo


Naquele dia, Profeta Celestino e Dante atrasaram-se alguns minutos para o almoço. Foi o suficiente para encontrarem apenas uma mesa, próxima de Duplo V, Zé Rola e o líder deles, o arquiinimigo do Profeta; supostamente, o facínora “Encoxador Misterioso”.
Dante ficou agitado com isso.
- Que droga, ter de sentar assim tão perto desse cara. Se não estivesse com tanta fome eu nem almoçava. Se não estivesse com tanta fome, até perderia o apetite. Odeio esse cara! Que droga, estragou meu dia!
- Calma, amigo! – interveio o Profeta - Não adianta você ficar assim, incomodado. São os únicos lugares disponíveis e a culpa é nossa pelo atraso. Mas, vamos comer nossa comida, É o melhor que fazemos.
Momentos depois, sentados e almoçando, o Profeta observou que Dante e Zé Rola murmuravam coisas para si mesmos e faziam caretas um para o outro. Já era a hora de saber a razão da rixa entre eles.
- Amigo, nunca lhe perguntei. Afinal, qual o motivo de tanta animosidade entre vocês? Sempre foi assim ou aconteceu alguma coisa que levou a isso?
- Nem sempre foi assim, Profeta. Quando eu cheguei aqui, ele era apenas um dos pacientes, não fazia a menor diferença para mim. Até algumas das atividades terapêuticas e de trabalho nós fizemos juntos. Quer dizer, EU fiz e ele me atrapalhou. O cara sempre foi um desastrado.
Dante se dirige explicitamente a Zé Rola:
- O que você perdeu aqui que está olhando, idiota?
- Calma Dante! – pediu o Profeta - Deixe-o para lá e me conte o que aconteceu.
- Como eu estava dizendo, fizemos algumas atividades juntos, embora o cachorro babão mais atrapalhasse que qualquer outra coisa. Seria simplesmente mais um interno, se não fosse a festa do Big Boss.
- Festa do Big Boss? Que festa?
- Foi pouco depois que o Big Boss chegou aqui, quando a empresa onde ele trabalhava ainda se importava. Ele fez aniversário e a empresa organizou uma festa na clínica. Havia salgadinhos, refrigerantes, doces e até um bolo. Quer dizer, o bolo ninguém comeu, porque o Roosevelt, que estava cuidando do Big Boss, se distraiu um momento e ele conseguiu não sei como colocar um monte de merda em cima do bolo. Aí tiveram de levá-lo de volta para o quarto e jogar o bolo fora.
- Que chato! Mas o que aconteceu de tão grave na festa?
- A festa estava boa, a comida era muito gostosa. Mas eu fiquei com vontade de experimentar a empadinha.
- E por que não experimentou?
- Eu não sou o maior fã de empadinhas do mundo, por isso não a comi de cara, preferindo as bolinhas de queijo. Mas como ouvi dizer que a empadinha era muito boa, fiquei curioso e resolvi experimentar. Quando cheguei na mesa, havia uma única empadinha na bandeja. Eu ia pegá-la quando o cachorro do Zé Rola chegou correndo e segurou a minha mão. Eu falei “- Ei! Eu cheguei primeiro!”, ele falou que ele chegou primeiro, já que era mais rápido do que eu e que por isso ia comer. Eu falei que ele já tinha comido empadinhas que eu vi, e que eu não tinha, então quem ia comer era eu. Ele falou que eu não comi porque não quis, eu falei que agora eu quero. Ele falou que eu ia ficar querendo, que ele gostou e ia comer mais. Eu falei que nem a pau, que eu dava uma surra nele e que eu é que iria comer a empadinha.
- E ele, falou o que mais? Quem dos dois comeu, afinal?
- Não falou mais nada, nem comeu e nem eu comi. Viramos para pegar a empadinha, e alguém a tinha comido durante a nossa discussão. No fim não sei nem que gosto ela tinha.
- E depois, o que aconteceu?
- Eu fiquei puto da vida com ele. Falei que por causa dele eu ia ficar sem saber que gosto tinha a empada. Ele disse que por minha causa ficaria com vontade de comer outra. Eu disse que ficar sem comer era pior, e ele que pior era ter comido e ficar querendo mais. Acabamos por nos agarrar ali mesmo, aos tapas. Rolamos pelo chão, derrubamos a mesa de doces e acabamos sendo levados para a Solitária. Por causa disto que eu nunca vou perdoar esse cachorro babão.
- Mas este nem é um motivo tão grave assim, meu amigo. E Renato Cordeiro prega o perdão e a amizade entre as pessoas, não acha que é hora de mudar de pensamento?
- Nunca! O senhor e o Senhor Renato Cordeiro que me desculpem, mas esse cara eu não perdôo de maneira alguma. Além de não comer a empadinha e nem os doces, já que estragamos todos, eu acabei indo para a Solitária sem ter culpa de nada. Os doces tudo bem, eu nem ligo tanto. Mas a empadinha e a Solitária eu não perdôo de maneira alguma.
- E agora fica a trocar caretas e resmungos com ele por conta disto?
- Não! Eu faço muito mais que isso! Sempre que eu posso, dou um jeito de sacanear com ele. Na ludoterapia, passo cola nos papéis dele, e falo mal dele para todo mundo..., já até tentei trocar os remédios dele, mas o Roosevelt anda atento e ainda não consegui... E vou me vingar do dia em que ele e aquele idiota do Duplo V me jogaram no quarto do Big Boss.
- Não faça nada, meu amigo. Perdoa. É melhor para você!
- De maneira alguma, tenho meu orgulho!
- Orgulho não leva a nada. E existem maneiras melhores de se superar as questões.
- Não, Profeta. Não perdôo e nem esqueço. E vou fazer uma com ele para me vingar, pode ter certeza. É esperar e ver...
- Tudo bem, meu filho. Agora coma que sua comida está esfriando.
O Profeta sabia que aquela animosidade entre Dante e o Zé Rola, capanga do seu arquiinimigo, lhe era muito útil.

Por Enio Vedovello, COC.



Índice de capítulos
12) Encoxando a Beata
11) Encoxaram o Profeta
10) A empadinha, por Dante
9) A empadinha, por Zé Rola
8) A encoxada que cura
7) A fé que salva
6) Ao encontro das ovelhas
5) Na Ala Feminina
4) Um cara atrapalhado
3) Troca Perigosa
2) Big Boss
1) A visão do Profeta

Primeira temporada completa: A caça ao Encoxador Misterioso

A empadinha, por Zé Rola

Segunda Temporada - Nono Capítulo


Meio dia, hora do almoço.
Já estávamos sendo servidos quando chegou aquela figura deprimente do Profeta Celestino, acompanhado do seu capanga, o Dante, vestindo aquele seu casaco sujo e asqueroso. Sentaram-se próximos a nós.
O Profeta não tem se importado muito comigo ultimamente. Meus assessores, Duplo V e Zé Rola, relataram que ele tem desaparecido em algumas tardes. Como também tenho desaparecido com alguma regularidade, me distanciei um pouco dessa dupla de malucos que me servem.
Ôpa! Por que será que o Profeta desaparece?

Começava a pensar nessa questão quando o comportamento do Zé Rola passou daquele seu estado canino e babão, para algo parecido com... rosnar!
Ele está olhando para o Dante, que também está olhando para ele. Parece que vão se pegar a qualquer momento.
Zé Rola começa a mostrar os dentes.
- O que você perdeu aqui que está olhando, idiota? – Dante pergunta-lhe em alto e bom som.
Êpa! Cruzo o olhar com o do Profeta e ele parece estar tão incomodado quanto eu. Ele começa a falar com seu assecla. Faço a mesma coisa com meu assessor.

- Ô Zé Rola! Por favor, se comporte! Veja aqui o Duplo V, quietinho, só observando.
- Duplo V está em transe! – respondeu.
- É verdade! – admiti – Mas, vamos aproveitar para você me contar uma coisa Zé Rola. Pode ser?
Assim que ele se sentiu requisitado, voltou ao comportamento de cachorro dócil.
- Pode dizer!
- Qual a razão dessa animosidade toda com o Dante?

Zé Rola troca o ar canino por uma postura perfeitamente normal, como acontece com freqüência, e começa a contar sua história. Tem que ser rápido, pois sua lucidez não dura muito.
- Antes de você chegar aqui..., uns seis meses antes, eu acho, chegou o Big Boss. Acho que foi aniversário dele e a empresa que o mantém aqui mandou um monte de salgadinhos, docinhos, refrigerantes e um grande bolo.
- Uma festa de aniversário? – também gosto de fazer perguntas óbvias.
- É, uma festa de aniversário! Arrumaram tudo lá no salão de festas. A gente ficou de fora até abrirem a porta. Então, colocaram o Big Boss atrás do bolo, apagaram as luzes para cantarmos os parabéns. Acho que o enfermeiro que estava com ele - era o lerdo do Theodore Roosevelt - deu bobeira e o Big Boss tirou um monte de merda que tinha nos bolsos e jogou no bolo. Você sabe, ele era aquele executivo que só espalhava merda...
- E a festa?

- Então, aí a festa ficou legal. Jogaram o bolo fora e levaram o Big Boss para o quarto. Ficaram só dois enfermeiros cuidando de todo o mundo..., aí já viu...
- O pessoal atacou os salgadinhos?
- Atacou..., coisa de louco. E quem incitou os internos foi o Dante. Queria colocar fogo no circo. Você tinha que ver, parecia uma alcatéia de hienas famintas... Os salgadinhos voavam para todo lado. Eu comi um monte de coxinhas, de esfihas, e bolinho de queijo..., hum... – lambeu os beiços..., quer dizer, lábios; beiço é de cachorro.
- Fizemos guerra de salgado e refrigerante! Alguém jogou na minha cara uma empadinha. Era tão cremosa que meio que se desfez na minha testa. Peguei e comi..., olha, que empadinha gostosa!
- Foi o Dante?
- Não! Eu adorei a empadinha e vi que só tinha mais uma em cima de uma bandeja, sobre uma mesa. Corri até ela e...
- Pegou a empadinha?

- Quando ia pegar, o escroto do Dante agarrou a minha mão e falou que a empada era dele, que não tinha comido nenhuma.
- Eu respondi: “- Azar o seu, panaca, não comeu por que não quis!” . Então ele disse: “- Mas agora eu quero!”, e eu falei “- Vai ficar querendo!”...
- Ok! Já entendi. Mas, quem comeu a empadinha?
- Nenhum dos dois!
- Nenhum dos dois?
- Não..., ambos deixamos a discussão ao mesmo tempo e fomos pegar a empadinha, mas ela não estava mais lá! Alguém já a havia pego.
- E depois?
- Depois ele veio para cima de mim e eu enfiei a mão naquele panaca!
- Vocês brigaram?
- Brigamos feio! Acabamos entrando na cozinha, onde estavam os doces, que ainda estavam intactos, e derrubamos tudo no chão; depois caímos e rolamos sobre os quindins, olhos de sogra, beijinho e tudo o mais.
- Então vocês foram parar na Solitária?
- Fomos...

Não chegou a terminar a frase; subitamente, voltou ao seu comportamento canino.
Pobre rapaz..., e pensar que já foi um promissor gerente de projetos de tecnologia...
De qualquer maneira, essa rixa entre eles já me foi e ainda será muito útil.
Duplo V acorda do seu transe e dá sinal de vida:
- Quem cedo madruga fica com sono o dia inteiro!
- Comam rapazes! – ordenei com delicadeza.
É..., é difícil arrumar bons assessores...


Índice de capítulos
10) A empadinha, por Dante
9) A empadinha, por Zé Rola
8) A encoxada que cura
7) A fé que salva
6) Ao encontro das ovelhas
5) Na Ala Feminina
4) Um cara atrapalhado
3) Troca Perigosa
2) Big Boss
1) A visão do Profeta

Primeira temporada completa: A caça ao Encoxador Misterioso

Domingo, 1 de Fevereiro de 2009

Sweet Child of mine

"She's got a smile that it seems to me
Reminds me of childhood memories
Where everything
Was as fresh as the bright blue sky..."


"Qual a sua parte preferida do corpo feminino?"


Ele preferia os seios. Já havia segurado alguns pares de seios belíssimos. Alguns originais, fruto da interação da genética com a matemática, gerando a mais perfeita simetria, ou fruto da habilidade do cirurgião que esculpe, na carne e na pele, a obra de arte que poderá ser tocada, e sentida.
- Você já os colocou no seguro?
Embora pudesse parecer que falava com intenções comerciais, pois era do ramo e ela sabia disso, estava sendo sincero em sua preocupação. Aquele par de seios era uma dádiva de Deus para os homens, e não poderiam ficar desprotegidos, expostos aos imprevistos do destino, e aos riscos inerentes à profissão da sua linda proprietária.
- Eles são muito valiosos para você, não são? – questionou-a com uma pergunta propositalmente óbvia.

Ela abaixou os olhos na direção deles, sorrindo um sorrisinho satisfeito. Quem, quando admira o próprio tesouro, não sabe o valor que ele tem?
Repentinamente, porém, seu olhar foi perdendo o foco e o brilho, suas bochechas relaxaram, sua boca se contraiu, e ela se deixou levar por recordações.
Passaram-se alguns segundos até o toque áspero e apressado de uma mão grossa e calejada, logo abaixo do seu umbigo, a trazer de volta ao seu local de trabalho.
Olhou para seu cliente com a cara e a boca da sereia que chamou Ulisses para o fundo do mar.
- Vamos começar?

Quinze minutos depois, suada, nua, abriu as cortinas e um dos lados da persiana. Pela janela entrou a luz, e junto com ela um vento úmido, anunciando a chuva que caía próximo dali. Dava para ouvir os trovões. Na rua, as pessoas caminhavam apressadas, pegas de surpresa pela chuva inesperada. Os tetos dos carros que passavam lhe pareciam iguais; cinza, cinza claro, cinza escuro...
Acendeu seu cigarro e soprou a fumaça pela janela. Na sua cama jazia um corpo desfalecido, exaurido pelo prazer do sexo que recebeu.

Eles faziam tudo o que queriam fazer com ela, e ela fazia tudo o que quisessem que fizesse.
Recebera um homem entrando na meia idade, bem vestido, usando roupas e assessórios caros, calçando um bom par de sapatos, despreocupado com o dinheiro que gastaria para passar algum tempo com ela.
Como todos os outros que entravam pela porta daquele quarto, ficou embasbacado com tamanha beleza. Depois, fez pose de rico, de viril. Disse que, só de olhar, sabia que ela seria uma "grande trepada".
Era o tipo de homem que ela gostava de derrubar logo no primeiro round.
Botão vermelho, botão verde, A, X... “Perfect!”.

Fechou a janela para evitar a chuva. Apagou o cigarro no cinzeiro. Tirou uma água-tônica do frigobar e despejou seu conteúdo em um belo copo de vidro, cor de vermelho acobreado.
Colocou-se em pé ao lado dele, que, esticado na cama, roncava, com a barriga gorda, peluda, cor "branco escritório", inflando e murchando a cada respiração da sua boca aberta. Respingou o refrigerante em seu peito, para que acordasse. Ele abriu os olhos e viu a Deusa do Amor, que sorria, exibindo seus dentes lindos e perfeitos.
- Você perguntou se já fiz seguro dos meus seios? – ela mostrou um falso interesse.
- Perguntei! – ele confirmou, e abençoou sua sorte de vendedor, pensando no que diriam seus amigos quando mostrasse a proposta preenchida e assinada, e contasse as condições em que realizou o negócio.


"Qual deles teria mais tino comercial?"

Ela não continuou o assunto. Pegou um frasco ao lado da cama, e o espremeu entre seus seios, derramando uma porção generosa de creme docemente perfumado. Sacudiu os ombros e o fez escorrer como uma avalanche de neve entre os picos.
Pegou-lhe pelo pulso e conduziu aquela mão de homem em mais um passeio pelos maravilhosos pedaços de carne, espalhando creme nos mamilos rosados.
O creme minimizava o incômodo que mãos calejadas causavam, e impedia que os seios fossem puxados por algum cliente mais idiota.
Soltou-lhe para que a sua mão a percorresse livremente. Seu corpo era o mapa do amor, cheio de caminhos, atalhos, retornos, e becos sem saída.
A única reação dele era seus olhos brilharem como os do mineiro que encontra uma pepita de ouro, já que uma parte do seu corpo não voltaria a ser útil por um bom tempo.

- Você quer ouvir uma história? - ela perguntou-lhe com o ar de quem vai fazer uma confidência.
- Depende..., só não gosto de saber segredos.
- Não, não é um segredo..., você pode contar para quem quiser.
- Então..., continue... – ele disse sem prestar atenção; tentava pegar a ponta de um seio e não estava conseguindo.
- Quanto você pagaria para saber a razão deles serem tão lindos?

Ele estranhou a proposta. Seu semblante ficou mais sério e a sua mão mais lenta. Jogador, rapidamente percebeu a esperteza do movimento e entendeu que caíra em uma armadilha, e que perderia a pose se recusasse aquela despesa inesperada.
Aquela mulher sabia ganhar dinheiro com seu corpo magnífico. Se estivesse no seu ramo, com certeza seria uma forte concorrente. Lembrou-se de uma frase que um dos seus gurus na arte de vender dizia: "- Quem está disposto a ter o melhor, tem que pagar o preço, não só uma vez, mais durante todo o tempo!".
Calculou e concluiu que não teria prejuízo; recuperaria no preço da apólice o dinheiro pago pela história que, se fosse boa, talvez o inspirasse a tentar melhorar o custo benefício daquelas horas pagas de prazer. Fez sua oferta e ela aceitou. Começou a apertar a parte de baixo de um seio para vê-lo escapar pela ponta dos seus dedos. Fitou-a com expectativa.
- Agora me conte!


Qual a sensação que um beijo da sua mãe te causa?

Ela sentou-se na cama, de lado para ele, colocando sua mão direita sobre aquela barriga peluda. Começou a acariciá-lo levemente, e se concentrou por uns instantes, como se fosse contar uma história de ninar.
Contou que fora uma bela adolescente; alta, magra, loirinha de olhos verdes! Mas enquanto as outras meninas da escola já tinham peitos, senão peitões, ela era reta como um tronco de palmeira. Seus seios eram tão pequenininhos... Mostrou o indicador e o polegar próximos um do outro.
Sua mãe às vezes dizia que eram dois moranguinhos, rosados e durinhos, que não queriam amadurecer; noutras, que eram um par de rosas em botão se recusando a desabrochar.
Os meninos que ela namorava não ligavam para esse detalhe. Adoravam as coisas que ela fazia. Talvez até a achassem, da cintura para cima, parecida com eles.
Mas os homens mais velhos a olhavam como se fosse uma menina espichada. Disso ela não gostava.
Quando fez quatorze anos, sua mãe voltou do trabalho trazendo um sutiã. Um sutiã pequeno, que ainda teve de ser completado com um enchimento de pano, para não amassar.

Ela tomou um banho enquanto a mãe costurava. Depois de se secar, colocou uma calcinha branca e enrolou a toalha na cabeça. Entrou no quarto onde havia a máquina de costura e o espelho, e parou na frente dele.
Sua mãe terminou de secar o seu cabelo, e a vestiu com o sutiãzinho marrom. Ela e a mãe conversaram e ajustaram a peça até que ficasse o mais confortável possível.
No seu reflexo no espelho ela viu como o sutiã fazia diferença. Sorriu como a criança que era. Balançou os ombros, apalpou aquelas conchinhas de pano, mexeu um pouco para cima, um pouco para baixo. Olhou-se no espelho de frente, de perfil, pediu para a mãe outro espelho para ver como ficava nas costas. E ambas riram enquanto falavam do sutiã e de outras coisas de mulher.
Então sua mãe se entristeceu e passou do riso ao choro, lembrando da alegria que sentiu quando aquilo aconteceu com ela, há muito tempo atrás. E ela começou a chorar também quando percebeu que, se abaixasse os olhos, via seus peitinhos mal tocando o tecido, e que não havia nada para comemorar.

Puxou o sutiã com força, mas ele não saiu. Nunca havia colocado um, tampouco sabia tirá-lo. E se enroscava nas alças e ficava nervosa e chorava mais alto tentando arrancá-lo, quando sua mãe a acalmou e tirou-lhe aquele acessório desnecessário. Solta, correu para a máquina de costura, pegou uma tesoura que estava sobre ela e já ia cortar a ponta do mamilo esquerdo quando sua mãe a socorreu novamente, puxando firmemente a sua mão e tirando a tesoura dela.
Ela chorava copiosamente, com a boca aberta. Soluçava. Lágrimas lavavam-lhe as faces e uma baba escorria pelos cantos da boca. Maldizia a sua condição e dizia a plenos pulmões que odiava aqueles peitinhos, e que os cortaria fora assim que tivesse uma chance.
Sua mãe sentou-se na cadeira da máquina de costura e a colocou em pé, de frente para ela. Guardou nas gavetas tudo o que estava sobre a máquina. Com um lenço, enxugou-lhe a boca e as lágrimas. Ficou em silêncio, a olhando com ternura, esperando ela parar de chorar.
Depois, colocou as mãos delicadamente na cintura da sua filha, puxou-a para perto de si, esticou os lábios e pousou sua boca sobre o moranguinho dela.

E chupou aquele moranguinho como se fosse a frutinha tenra, perfumada e saborosa, que nasce para ter uma vida bem curtinha, e morre se desfazendo em sabor na saliva de alguém.
Sua filha sentiu um comichão esticar os músculos das coxas e um arrepio que veio pela costas e levantou os cabelinhos da nuca. Fechou os olhos.
Queria que sua mãe parasse..., mas ao mesmo tempo queria que ela continuasse..., queria que não fosse a sua mãe..., não ela...
Mas quem poderia ser? Os meninos da idade dela? Os já não tão meninos assim? Nenhum deles se importou..., nenhum deles a retribuiu. Nenhum deles a consumiu, como a sua mãe agora a consumia.

E depois do moranguinho endurecer até não poder mais, sua mãe colocou os lábios encharcados no botãozinho de rosa teimoso que ficava ao lado. E o sugou como abelha apressada que não quer esperar ele abrir.
Sua filha tinha o suor escorrendo pelo rosto, resultado do calor súbito e intenso de uma fornalha que ainda não sabia existir dentro de si. Seus joelhos tremiam e seu corpo sofria espasmos, e só não caía por que sua mãe a segurava. E algo que não parava de crescer dentro dela começou a girar como um furação e ela saiu do chão levada pelo vento até parar suspensa no ar, como o gavião que um dia viu sobre o quintal, batendo as asas como um beija-flor, esperando o momento de atacar.
Sua mãe levantou-se da cadeira, ajoelhou-se na sua frente e abaixou sua calcinha. Agarrou o topo do Monte de Vênus pelos seus pelinhos douradinhos e o puxou para cima. Disse: "- Já molhei os seus frutinhos. Agora vou soprar para adubar!". E levou a boca bem pertinho do clitóris, e ali deu um soprãozinho. "- Fuuuuuu...".
Sua filha viu o mundo com os olhos do gavião que mergulha sobre a presa. A aflição da queda foi seguida por um vazio desprovido de sentidos, um flutuar dentro de si própria, que durou poucos segundos, mas que pareceram uma eternidade.
Soltou do peito um suspiro comprido, tirando todo o ar de dentro dele, dando espaço para o novo ar, para a nova vida que começava. Relaxada, desligada, mole como uma boneca de pano, desabou sobre a mãe, que a segurou, a ajeitou no peito e a carregou até a cama, onde a deitou e a cobriu. Sua mãe olhou para ela com carinho, e a viu bocejar profundamente, cruzar os braços colocando uma mão sobre cada peitinho, e depois, dormir.
- E é por isso que meus seios são lindos assim!

Seu cliente a olhava imóvel. Em sua mente um monte de imagens se formaram, e ainda sentia as sensações provocadas por elas. Vivia um conflito entre a moral da história, e o prazer que havia nela.
Seu corpo reagia aos seus pensamentos e parecia poder voltar a ser como antigamente.
Quando teria uma nova oportunidade? Ainda tinha tempo, e dinheiro não seria problema. Mais um pouco de inspiração e ele conseguiria continuar.
- Você tem mais histórias como essa, com você e sua mãe, para contar?
- Tenho...
- Pode me contar mais uma?
- Conto! Quanto você vai pagar?





Capítulos já publicados:
God - John Lennon
Roxanne - The Police
Be Quick or Be Dead - Iron Mainden
Jumping Jack Flash - Rolling Stones
Broken Hearted Blues - T. Rex
Running with the Devil - Van Halen
I Shall be released - Bob Dylan
I can't quit you baby - Led Zeppelin
Nativity in Black (N.I.B.) - Black Sabbath
Mother - Pink Floyd
Ready for love - Bad Company
Call me The Breeze - Lynyrd Skynyrd
Traveller in Time - Uriah Heep
Sweet Child of Mine - Guns and Roses
When a Blind Man Cries - Deep Purple

Oriente-se com o Guia de Leitura

Domingo, 25 de Janeiro de 2009

Uma fita para ela

Hoje não vou escrever ou publicar nada!
Vou passar meu tempo livre gravando uma fita para ela.
Se você acha estranho “gravando uma fita”, eu explico.

Antes do MP3 e todos os avanços tecnológicos que vieram com ele, caras apaixonados como eu passavam horas em frente ao aparelho de som, limpando e organizando os discos de vinil, colocando-os um a um no toca-discos para tocar e gravar as músicas escolhidas.
Para gravar, você tinha que sincronizar o começo da música com a tecla pause do gravador.
Se vacilasse um instante, a música começava e você soltava a tecla um pouco tarde. Então teria que parar a música, voltar a fita, avançar até o final da última música gravada e tentar de novo.
Às vezes, durante a gravação, o disco pulava ou apresentava um chiado um pouco mais alto do que o esperado, e você tinha que tirar aquela música da lista, colocar outra com mais ou menos a mesma duração, ou mudar a ordem das músicas para conseguir ocupar os 30 minutos de cada lado da fita. Ou 45, se usasse uma fita de 90 minutos.
Era muito gostoso ouvir as músicas inteiras, saindo da bolacha de vinil, passando pela agulha de diamante e indo para a fita cassete.
Quantas vezes não refiz a seqüência de músicas na medida em que a gravação avançava e a “mensagem” da fita ficava mais clara.
Mensagem, claro, pois toda fita cassete gravada para alguém tem uma mensagem.

Na fita que vou gravar para ela quero dizer um pouco do que sinto, um pouco do que ela significa em minha vida, um pouco da gratidão pelo muito que ela já me deu.
Já separei os discos.
Será uma fita com músicas cantadas pelo Rod Stewart, o mais romântico cantor do rock inglês. Com participações especiais de Bob Dylan (que ela adora), Johnny Cash e Van Morrison.
Vamos lá!


Lado A

Angel (4:05) [4:05]
(Jimi Hendrix)
...
Angel came down from heaven yesterday
stayed with me long enough to rescue me
And she told me a story yesterday
about the sweet love between the moon and the deep blue sea…


Girl from the north country (3:57) [8:02]
(Bob Dylan)

And if you're goin' when the snowflakes storm
When the rivers freeze and summer ends
Please see for me she has a coat so warm
to keep her from the howling wind


Just like a woman (4:50) [12:52]
(Bob Dylan)

She takes just like a woman,
she makes love just like a woman,
and she aches just like a woman.
But she breaks just like a little girl.


Rhythm of my heart (4:15) [17:07]
(Rod Stewart)

Oh, the rhythm of my heart
Is beating like a drum
With the words "I love you"
Rolling off my tongue
No, never will I roam
For I know my place is home
Where the ocean meets the sky
I'll be sailing


You put something better inside on me (3:49) [20:56]
(Rafferty/Egan)

Well I knew what I was doing
I was running away
Busy going nowhere
Just wasting the time of day
I was walking down the road
Kicking at the stones
Nothing means nothing
When your empty and on your own


Day after Day (3:07) [24:03]
(Badfinger)

I remember finding out about you
Everyday my mind is all around you
Looking out of my lonely room
Day after day
Bring it home, baby make it soon
I give my love to you


I´ll Stand by you (4:29) [29:32]
(Pretenders)

So if you're mad, get mad
Don't hold it all inside
Come on and talk to me now
Hey, what you got to hide?
I get angry too
Well I'm a lot like you


Lado B

Our love is here to stay (2:57) [2:57]
(George Gershwin)

It's very clear, our love is here to stay
Not for a year but ever and a day
The radio and the telephone and the movies that we know
May just be passing fancies and in time may go


Stay with me (4:40) [6:37]
(Ron Wood / Rod Stewart)

Won't need to much pursuading
I don't mean to sound degrading
But with a face like that
You got nothing to laugh about


The best of my love (3:44) [10:21]
(Eagles)
...
Every night I'm lyin' in bed
Holdin' you close in my dreams
Thinkin' about all the things that we said
And comin' apart at the seams
We try to talk it over
But the words come out too rough
I know you were tryin'
to give me the best of your love


You’re in my Heart (4:31) [14:52]
(Rod Stewart)

My love for you is immeasurable
My respect for you immense
You're ageless, timeless, lace and fineness
You're beauty and elegance


Tonight’s the Night (3:56) [18:48]
(Rod Stewart)

Tonights the night
It's gonna be alright
Cause I love you girl
Ain't nobody gonna stop us now


Crazy Love (2:37) [21:25]
(Van Morrison)

I can hear her heart beat for a thousand miles
And the heaven opens every time she smiles
And when I come to her, that´s where I
belong
I guess I´m running to her like a
river´s song
She gives me love, love, love, crazy love
...


Sailing (4:38) [26:03]
(Rod Stewart)

I am flying, I am flying,
like a bird, 'cross the sky.
I am flying, passing high clouds,
to be with you, to be free.


What a Wonderful World (4:09) [30:12]
(Louis Armstrong)

I see skies of blue, clouds of white
The bright blessed days, and dark sacred nights
And I think to myself, what a wonderful world


Pronto!



Será que a fita vai passar a minha mensagem? Vamos ver!

"Um anjo de um país do norte, mulher em todos os sentidos, entrou na minha vida e ditou o ritmo do meu coração.
Colocou algo de bom dentro de mim e agora, dia após dia, quero estar ao lado dela.
Nosso amor veio para ficar e ela sabe tirar o melhor dele.
Ela está em meu coração e esta noite, como em todas, vamos velejar em nosso louco amor, fazendo nosso mundo ficar - ainda mais - maravilhoso."

Para Désirée.


Você, que não vai ganhar a fita, pode ouvir aqui:




Discover Rod Stewart!

Domingo, 18 de Janeiro de 2009

Mulher de verdade

Meu nome é Capitão Ócio. Em 2009, vou fazer o mesmo que fiz em 2008: contar histórias com moral, para lembrar e refletir. Se está nos conhecendo agora, sorte a sua.
Vamos a ela!


Ela estava sentada no sofá, de costas para a janela.
A luz do sol batia em cheio daquele lado do prédio de apartamentos. Fazia muito calor.

Ele estava na poltrona em frente, do outro lado da sala, onde já havia sombra.
Fumava um cigarro. Tragava levemente e quase imediatamente soltava a fumaça, parecendo que sua intenção principal era esfumaçar o ambiente. Não perguntou se isso a incomodava.
Na mesa ao seu lado uma garrafa de água mineral descansava em um balde de gelo.
Apagou o cigarro no cinzeiro e serviu-se de um copo de água fresca. Tampouco ofereceu água para ela.
Respirou fundo e relaxou, satisfeito com a sensação que a água gelada causa no corpo quente.
Enxugou a boca com os pêlos do antebraço esquerdo.

Ela aguardava, paciente.
Não tinha outra escolha a não ser estar ali. Se ele fosse mais sensível, perceberia que um pouco de água fria a faria bem.

Ele acendeu outro cigarro, e começou a falar.
- Desde que estamos juntos, você sempre esteve um tesão de mulher! Tivemos momentos muito excitantes dentro deste apartamento. Nas noites de inverno, fazíamos amor aqui na sala, deitados naquele pelego gostoso que eu trouxe do sul.
- No verão, na piscina da cobertura, eu te dava banho com cremes e sabonetes, passando as mãos bem devagar por todo o seu corpo, apertando um pouco mais aqui e ali, amassando suas coxas com as minhas; e te banhava inteirinha, com cuidado, como se banha uma criança pequenina.
- Depois, te secava com uma toalha bem fofa, não deixando escapar nenhuma dobrinha. Seca, você deitava sobre a toalha estendida para eu te passar protetor solar, da planta dos pés ao topo da cabeça. Minhas mãos lisas percorriam seu corpo do cox à nuca, e o contato da ponta dos meus dedos descendo pelas suas costas parecia produzir um assovio.
Fez com a mão uma linha imaginária sendo percorrida, e soprou fazendo biquinho "- Fiuuuu!".
- Sua expressão satisfeita só aumentava o meu desejo, e eu a massageava até me cansar. Depois, deitava relaxado na cadeira de praia, acendia um cigarro, pegava o copo de cerveja, e ficava olhando você ajoelhada entre as minhas pernas, segurando firme o objeto do nosso prazer, beijando-o de um jeito tão nosso, tão gostoso e tão secreto.
- Na cama, tudo nos foi permitido, todas as formas e todas as maneiras. Nunca houve uma posição que nossos corpos não pudessem fazer.

Ela tinha no corpo marcas do amor que ele praticava.
Alguns arranhões em particular eram mais sensíveis ao sol que batia em suas costas.

Ele apagou o cigarro, levantou-se da poltrona e foi até a cozinha, pegar mais gelo e esvaziar o cinzeiro. Voltou, tirou dois cubos do balde e os colocou no copo, acrescentando água depois. Bebeu calmamente.
Sua garganta estava um pouco cansada. Estranhamente, água gelada a melhorava.
A primeira parte do discurso transcorrera sem problemas. Sua ouvinte aguardava em silêncio, sem poder imaginar a má notícia que viria em seguida.
Ela não era a primeira e tampouco seria a última, mas ele não ficava a vontade na hora de anunciar a separação.
Sentia uma espécie de consideração..., conviveram algum tempo e escreveram juntos uma história de intimidade e segredos. Uma parte dele estava nela, parte que iria com ela, para sempre.
Mas ele sabia que, nessas horas, é necessário, ou até inevitável, ser cruel.

Ela continuava impássivel, sentada no sofá à sua frente. Quando chegou naquele apartamento, há mais de um ano, era mais bonita, mais aconchegante, mais cheinha. Agora estava envelhecida, ressecada e enrugada, estragada por tantos cremes, sabonetes, protetores solares e outros produtos que ele passava nela diariamente.
Antes que ele voltasse a falar, um dos arranhões cedeu ao sol abrasador, abrindo nela um pequeno buraco.
O ar foi escapando por ele, lentamente: "shshshshshshshshhshshsh" .
E ela foi murchando, murchando, murchando...



Moral da história
Tem gente que não aguenta um relacionamento de verdade.

Polito, o bonito em: No Hospital

Polito, o bonito
Um cara mala em situações normais

A bela morena alta e magra, de olhos claros, vestida de branco dos pés à cabeça , entra no elevador e fica ao seu lado. Carrega uma bolsa de mulher e uma mala de médico. No crachá está escrito o nome dela: "Dra. Silvana".
Depois dela, entra um enfermeiro conduzindo um senhor em uma cadeira de rodas.

O que Polito, o bonito, faria em uma situação dessas?

Simularia um mal-estar, dizendo "- Ai, minha cabeça!", colocando uma mão na têmpora esquerda. Depois, pegaria no braço da doutora e deixaria o corpo amolecer, caindo lentamente, até ficar sentado no chão do elevador, desmaiado, segurando a mão dela.

A doutora alarmada coloca suas coisas no chão e pede que o enfermeiro coloque Polito de costas, com as calças e cuecas arriadas.
Polito estranha o procedimento. Abre o cantinho de um olho e vê a doutora colocando luvas de plástico. Depois, nas coisas que ela deixou no chão, descobre a palavra "Proctologista", escrita na etiqueta de identificação colada na mala.

Em 2009

Administre seus vícios
Beba mais água
Coma menos hamburguer
Durma
Evite as meias verdades
Fuja dos chatos
Garanta seu ingresso
H (descubra algo com essa letra)
Ignore os invejosos
Jogue seu lixo no lixo
K (idem a letra H)
Ligue para seus pais com mais freqüência
Mantenha distância segura
Negue
Oriente-se pela filosofia
Pare de usar o trema
Queira com sinceridade
Reaja às injustiças
Seja fiel se for possível
Tenha vergonha na cara
Use transporte coletivo
Viaje
W (idem ao K e ao H)
Xingue com criatividade
Yolanda, eternamente...
Zoe

Mantra

Chega de âns, ôns e ûns...

O mantra que mudará sua vida em 2009 é:


Wordle: Gula 2

Sexta-feira, 26 de Dezembro de 2008

Viatura 2112 - Gênio do Crime (parte final)

“Gênio do Crime” - Segunda e última parte (leia a primeira)

- E...?
O Cabo Valdimir (CV) insiste na pergunta, fitando seu parceiro com os olhos arregalados e um sorriso que arrepiaria o Batman.
Vira para a direita e tira a viatura do comboio. Vira para a esquerda, alinha novamente em relação à pista de pouso, e acelera, passando por todos os outros veículos, em direção ao estacionamento do Campo de Aviação Militar, que fica uns vinte metros depois do portão de saída.
O Soldado Rubis (SR) já sabe que algo está acontecendo. Respira fundo e pensa em voz alta na charada que seu parceiro propõe.
- Natal..., presente..., anel..., esmeralda..., esmeralda..., ...
- Tu vais me decepcionar SR?
A primeira reação de SR é cerrar as sobrancelhas. CV sabe como estimular seu parceiro.
- Esmeralda..., Amazônia..., Colômbia..., Colômbia!
- Tu estás no caminho certo!
SR encosta os cotovelos nas costelas, encolhe os ombros e mostra as palmas das mãos.
- Tudo bem CV, mas só dar para chegar até aqui!
A viatura entra no estacionamento e CV pára bem em frente a guarita. Não há mais tempo para adivinhações.

- Tu não viste o que eu vi SR! O motorista do Honda foi ajeitar o retrovisor e um brilho esverdeado veio da mão esquerda dele. Brilho de esmeralda. Tu já viste algum motorista particular usando anel de esmeralda?
SR folheia o material que preparou pela manhã. Na mosca!
- Olha CV, nesta foto aqui, na Rocinha...
Na foto, sentado em um banco de bar, em frente a um balcão de madeira, o Sr. Alberto, o gringo, com a mão direita leva um cigarro à boca; com a esquerda, segura uma garrafa de guaraná. No seu dedo anular a pedra verde destaca-se no amarelo do rótulo do refrigerante.
CV retira a Beretta do coldre e confere a carga no pente. Depois verifica se no seu cinto há bastante munição.
Quase ao mesmo tempo SR pega no porta-luvas vários pentes do M16 e os coloca nos bolsos.
CV anuncia o plano.
- Vamos deixar os quepes e as gravatas. Vou requisitar um carro de passeio.
CV vai conversar com o militar na guarita. SR olha para trás e vê o Honda Civic saindo pelo portão, atrás do caminhão de transporte de tropas.
CV aparece com um molho de chaves na mão, dirigindo-se para os carros estacionados. SR dá um beijo na medalha de Santa Paula (veja no capítulo “Combate”) que está colada no painel, defronte a ele.
- Até mais, amiga!
Despede-se da viatura com carinho e vai atrás de CV.
Entram em um Jaguar XF SV8 cinza escuro.
SR se impressiona com o luxo e instintivamente abre a tampa do porta-luvas. Sobre outras coisas, um pequeno manual de capa de couro preto, intitulado com letras douradas “Cerimonial do Governador do Estado”.
- Você perguntou de quem é este carro CV?
CV coloca a chave, gira, vira-se para trás e engata a ré. Enquanto manobra, responde sem olhar para SR.
- Só perguntei qual dos carros era o mais potente.

Dentro do jatinho que aguarda autorização para decolar, um dos passageiros observa a Viatura 2112 desde que ela deixou o comboio e entrou no estacionamento. Quando vê o Jaguar saindo pelo portão, desobedece as normas de segurança e manda uma mensagem SMS pelo celular.
Não há trânsito. CV acelera, canta os pneus e desce em velocidade a Rua Ancara, chegando à Praça Malta. O Honda está entrando na Av. Salamanca.
O semáforo fecha e CV tem que aguardar; olha para a esquerda, ansioso. Duas motocicletas vêm pela Rua Noruega e passam velozes na sua frente, indo em direção ao Honda.
- O motoqueiro está com uma UZI! – grita SR, que desta vez é o mais perspicaz.
CV engata e sai com o sinal fechado. O Jaguar fareja as presas e parte em perseguição.
O Honda é alcançado pelas motos depois de cruzar a Av. Baleares e entrar na Rua Bruxelas. Alguns metros depois, quando reduz a velocidade, chegando na Av. Vilarinho, é atacado.
A primeira moto joga uma granada sob o motor e se distancia. A explosão é forte. O Honda, protegido pela blindagem, dá um pulo com a sua frente e volta para o chão; porém, com os pneus dianteiros estourados.
Ambos os motoqueiros descarregam suas UZI no lado do motorista, que resiste enquanto recebe a chuva de balas 9 mm Parabellum, de carga oca.
O barulho das armas e o calor do momento impedem que eles percebam a fera que se aproxima.
Um deles retira do bolso do colete uma bomba magnética e estica o braço para colocá-la na porta do Honda, ao mesmo tempo em que CV freia o Jaguar, dá meio cavalo-de-pau e coloca SR, com o M16 apontando para fora, exatamente na perpendicular, em perfeita linha de tiro.

O motoqueiro sente uma explosão onde era sua mão direita. Uma nuvem vermelha encharca seu capacete impedindo-o de ver seu parceiro tombando de lado com o tiro que saiu por um ouvido, depois de ter entrado pelo outro. Abre sua viseira com a mão que lhe resta e, atônito, olha na direção de SR. É a última imagem que vê na vida.
O Jaguar arranca novamente, passa pelas motos e corpos e pára um pouco à frente do Honda abatido. Descem. SR fica na cobertura e CV dirige-se ao outro carro.
Não dá para olhar dentro dele. O lado do motorista está coberto de sangue e esburacado pelas balas.
CV passa a mão esquerda no vidro abrindo um claro, e encosta seu distintivo nele. Não há nenhuma resposta.
Pessoas alertadas pela explosão e pelo tiroteio começam a aparecer nas janelas, nas portas e nos muros das casas.
Uma labareda aparece no motor do Honda, e o fogo começa a crescer rapidamente. CV coloca as mãos na cintura e olha pelo espaço aberto no vidro, como quem diz: “Agora você decide o que é melhor para você!”.
A porta se abre, CV saca a Beretta e ordena:
- As duas mãos para fora!
A primeira mão que aparece é a que traz o anel com a linda pedra verde. A outra vem atrás, e ambas pertencem ao motorista, um sujeito magro, alto, de pele vermelha e cabelo bem claro. Cabelo amarrado no topo da cabeça, até então escondido pelo boné, que caiu na hora da explosão. Obedece ficando em pé com as mãos para o alto. Está tremendo.
- Ele está amedrontado SR!
SR se volta para os dois e CV revista o gringo. Não está armado. CV algema-o.
O gringo é o colocado no banco de trás do Jaguar, sob a mira do M16 de SR. CV entra e, quando vai dar a partida, escuta um “poc, poc, poc” seguido de um “tiusss, tiusss, tiusss”. Depois, mais um “poc, poc, poc” e o vidro de trás estoura.
PLÁ!
Mulheres gritam, as pessoas procuram se proteger.
- Agora não vou saber como é o ar-condicionado! – lamenta SR ter perdido a chance de usufruir daquele conforto em um dia especialmente quente.
O Jaguar salta e se esquiva, depois acelera.
- Tu não estavas com saudades da ação, SR?

Os próximos oitocentos metros na Av. Vilarinho são a pista onde se desenrola a perseguição alucinada.
O gringo atira-se no chão do carro e protege a cabeça com os punhos. SR desce o banco e apóia-se nele para responder aos tiros.
Tiros que vem de uma perua BMW 325i Touring, que se aproxima perigosamente, com a mão do passageiro para fora da janela, disparando outra UZI.
CV ziguezagueia pela pista ultrapassando carros pela direita e pela esquerda. O chacoalhar impede que sejam atingidos, mas também impede SR de atirar com precisão.
Estão em desvantagem. O BMW acelera de 0 a 100 km em 7,2 segundos. Mais de um segundo mais rápido que o Jaguar. E sua velocidade máxima também é maior.
Recebem os tiros em rajadas, que vão acertando, esburacando e destruindo a traseira do belo carro, que até então era utilizado somente em recepções oficiais do governo do estado. SR, por sua vez, não atira, pois teme que uma bala perdida possa causar uma tragédia.
SR olha para CV e este está extremamente concentrado, com uma ponta de sorriso no rosto tenso, feliz por estar dirigindo aquele carrão a duzentos por hora. SR sabe que, com seu parceiro, estará sempre em boas mãos.
Um tiro entra pela janela traseira e arrebenta o pára-brisa. O gringo murmura algo, parecendo chorar.
Outra rajada acerta a fechadura da tampa do porta-malas, que abre e bloqueia a visão do retrovisor de CV. A situação começa a ficar crítica.
- Te seguras aí SR! – CV avisa o parceiro e vira bruscamente entrando na Rua Novecentos e Quarenta e Seis. Na direita deles há um longo galpão cinza claro.
- Deve ser algum depósito de cereais CV!
- Pois é lá que vamos entrar SR!
Os tiros continuam a vir na direção deles: “poc, poc, poc”, “tiusss, tiusss, tiusss”...
CV segue pela rua até que ela acaba em um portão de ferro, que é a entrada para a área dos galpões. Fosse um animal de verdade, o Jaguar saltaria sobre ele, rosnando com seus magníficos dentes à mostra. Como é apenas um automóvel, derruba-o com seus duzentos e quarenta cavalos de força, depois derrapa para a direita tatuando seus pneus no chão de asfalto. Entra em um corredor entre dois longos galpões.
- É aqui que o bicho vai pegar SR! – avisa CV, que pisa fundo até estarem uns cinqüenta metros dentro do corretor, depois freia, derrapa e deixa o Jaguar na transversal, fazendo uma barricada.
SR desce e protege-se na parte de trás. Aponta seu M16 para a entrada do corredor.
Com a mão esquerda CV agarra o gringo pela gola da camisa, tira-o do carro e entram por uma porta aberta. Com a direita segura sua Beretta. Aguarda o que vai acontecer.
A BMW passa pelo portão derrubado disparando contra a guarita do vigia, que se abaixa a tempo, mas tem seu rádio e telefones destruídos. Depois aparece no corredor em alta velocidade, para ser recebida por uma saraivada dos tiros precisos do M16 de SR.
Quando caçado, o felino foge até estar em condições de tornar-se novamente o caçador.

O pneu dianteiro direito do BMW explode. Ele freia há uns trinta metros de distância. Quando SR vai colocar outro pente, quatro pessoas descem e começam a descarregar suas UZI no Jaguar, estourando os vidros e esburacando as portas.
SR lembra-se da última vez em que esteve atrás de um carro sendo atingido por uma chuva de balas. Faz um sinal para CV que aguarda dentro do galpão. Segurando o gringo do lado de dentro, CV, de costas, coloca o braço direito para fora da porta, faz a mira e dispara “ptóu”,”ptóu”,”ptóu”. Um dos quatro perseguidores leva a mão ao pescoço tentando deter o esguicho, cai de joelhos, e depois dá com a cara no chão. SR projeta-se para dentro do galpão.
Lá dentro, pilhas e pilhas de sacos de cereais, cada pilha com dez metros de comprimento por dez de largura e cinco de altura, com ruas de mais ou menos três metros de largura entre elas. Está escuro.
Há muitos ângulos e caminhos diferentes. CV sabe que é um lugar difícil de proteger. Lá fora são três contra dois, três submetralhadoras UZI contra um M16 e uma Beretta. Mas lá fora está claro, e as paredes dos galpões possibilitam uma melhor mira para os tiros. A vantagem será de quem atirar primeiro, ou atirar melhor...

Alguns minutos se passam. Os perseguidores não têm intenção de entrar no galpão. Sabem que não é a melhor opção para eles. Ali em campo aberto as rajadas das UZI são mais eficientes. É preciso resolver o impasse.
- Policiais, sabemos quem vocês são! - o líder abre as negociações – Só queremos o gringo! Vamos levar o carro de vocês também, já que o nosso está com o pneu furado!
O gringo continua preso pela gola da camisa.
- Vamos sair com o gringo e aí fora conversamos! Mas só sairemos armados! – grita CV.
- Tudo bem! – responde o líder dos perseguidores.
SR coloca o M16 no chão, pega a Beretta da mão de CV, deixa cair o pente de balas começado, tira outro do cinto do seu parceiro, recarrega e devolve a pistola. Depois recarrega seu M16.
Olham-se nos olhos. Não precisam verbalizar o que estão pensando. O gringo entende que vão sair. Fica ainda mais assustado, mas a mão forte de CV segurando-o pelo pescoço impede que ele coloque alguma objeção.
Lá fora seus opositores também aproveitam a pausa para se preparar.

- Vamos sair! – avisa CV – Primeiro eu e o gringo! Meu parceiro vai logo atrás! Se não houver três de vocês aí fora, estouro a cabeça do gringo e levo algum de vocês junto comigo!
- Tudo bem policial! – responde o líder deles – Estaremos todos aqui. Saia devagar!
Os três bandidos estranham quando vêem o gringo saindo da porta do galpão, andando de lado, paralelo a eles, como se fosse o mímico Marcel Marceau. Tem um policial colado às suas costas, segurando um revólver apontado para a sua cabeça. Doze metros de distância separam os dois grupos.
Cinco segundos depois, SR ainda não apareceu. O líder fica impaciente e os três apontam suas submetralhadoras.
- Onde está o outro policial?
Não percebem que, bem no meio das pernas do gringo, algo começa a crescer. E depois que cresce totalmente, faz o que sabe fazer.

A primeira rajada do M16A3 acerta dois tiros logo acima da virilha do líder. Coletes curtos não são tão eficazes, sabe muito bem SR.
Ao som do clique do gatilho de SR, CV aponta a Beretta para o bandido à sua frente, e a tampa do crânio do indivíduo salta como a rolha de um champagne.
O terceiro deles é tomado pelo susto e é pela sua boca aberta que entra o segundo projétil .45 ACP.
O gringo vira os olhos e desmaia. CV finalmente o solta, para não sufocá-lo. Guarda a Beretta no coldre.
- Tu levaste muito a sério aquela história do encoxador...
- É CV..., mas acredite, não há lugar melhor para se esconder do que atrás de você...
Ambos abrem um largo sorriso no rosto. SR mostra a palma da mão direita para cima, e CV bate com a palma da sua mão direita nela. Depois tocam os punhos fechados.
Pegam o gringo pelos ombros e pelas pernas e o jogam no banco de trás. Entram no carro e CV dá a partida.
- Ainda funciona..., tu vês como este bicho é valente SR?
- É um Jaguar CV..., o Jaguar do Governador do Estado. E está com os vidros quebrados e com um monte de furos de balas. O que a gente vai fazer?
- Vamos com ele até o palácio do governo e o entregamos lá, com um presente no banco de trás.
- E o que você vai falar para o governador CV?
- O que tu achas de “Feliz Natal” SR?


Viatura 2112 volta em 25 de janeiro de 2009.

Segunda-feira, 15 de Dezembro de 2008

Prêmio Melhores de 2008 do Dicas Sobre Nada

Bem vindo(a) ao Prêmio Melhores de 2008 do Dicas Sobre Nada! Estamos comemorando um ano de vida, e nada mais justo do que premiar a todos que nos inspiraram e motivaram em nossa jornada até aqui. Este é o programa da festa:

.Apresentação
.Clipe de abertura: Nick Cave & The Bad Seeds com "Straight to You"
.Pintando o mapa
.Entrega do Prêmio "Parceiros"
.Entrega do Prêmio "Minicontos"
.Clipe: Rolling Stones, trazendo "Rain fall down"
.Entrega do Prêmio "Blog Pessoal"
.Clipe: Joey Ramone canta "What a Wonderful World"
.Entrega do Prêmio "D'Além Mar"
.Entrega do Prêmio "Melhores posts"
.Agradecimentos
.Clipe de encerramento: Playing for a change - Song around the world "Stand by me"


[1. Apresentação]
[Capitão Ócio]
Caras leitoras e caros leitores, estamos muito felizes com o nosso aniversário. Faz um ano que começamos a aventura de escrever todas as semanas, inventando personagens e contando histórias. E você é a(o) responsável por chegarmos até aqui. Sempre que nos leu ou nos comentou, fez valer a pena nossas dores nas costas e nossos olhos cansados.
Além do prazer em escrever, há o imenso prazer em conhecer dezenas de outros blogs, cheios de estilo e personalidade, que tornam ainda mais agradável o lance de ser blogueiro. Assim, decidimos instituir o "Prêmio Melhores do Ano do Dicas Sobre Nada", para homenagear, dentre todos que conhecemos, os melhores blogs de 2008.
A festa pode parecer um pouco igual às outras, mas, pelo menos, não precisa daquelas traduções simultâneas mal feitas. Há..., ia me esquecendo..., um dos nossos mais queridos - e desejados - personagens, o Encoxador Misterioso, deixou temporariamente a clínica onde está internado e pode aparecer aqui na platéia, e, se você for do sexo feminino, também aí na sua casa. Portanto, se sentir algo encostando, relaxe, pois faz parte da festa. E a nossa festa é para você! Vamos a ela!

[palmas, palmas, palmas] [oh! ai! ai!]

[2.Clipe de abertura]
[Capitão Ócio]
Para abrir as cortinas, um clipe de um cara que tem muito a ver conosco: Nick Cave & The Bad Seeds apresentam "Straight to you" .







[3. Pintando o mapa]
[Capitão Ócio]
Todos os blogueiros adoram falar de números: quantidade de acessos, total de visitantes, etc. Nada mais natural e espontâneo. Também nos orgulhamos dos nossos números, mas, o que mais gostamos de ver é o mapa-mundi mudando de cor.





Hoje, além do Brasil, somos lidos em mais de cinqüenta países, entre eles Angola, Arábia Saudita, Argentina, Bélgica, Cabo Verde, Canadá, ,Colômbia, Espanha, Estados Unidos, França, Grécia, Guatemala, Japão, Kenya, México, Porto Rico, Portugal, Suíça, e Turquia.
Aqui na América do Sul, faltam apenas as duas Guianas, a Bolívia e o Uruguai. Se tiver conhecidos por lá, ou em qualquer dos países ainda não preenchidos, dê-lhes a dica.

[4. Prêmio "Parceiros"]
[Capitão Ócio]
Como prêmio os vencedores levarão o selo “Capitão Ócio recomenda”, e um pôster de uma foto, a escolher. Todos que não recebem o e-mail semanal do Dicas, por favor, mandem e-mail para toninhoakg@hotmail.com para definirmos como será a entrega.
O primeiro prêmio da nossa festa é o "Prêmio Parceiros". Para fazer a entrega, dois caras muito queridos, o Cabo Valdimir (CV) e o Soldado Rubis (SR), os dois tiras da Viatura 2112.

[palmas, gritos de "lindos!", "lindos!","lindos!"]

- Tu estás com o papelzinho SR?
- Não, coloquei no bolso da sua camisa CV.
- Oh! Está aqui! Eu apresento e tu anuncias os vencedores?
- Como combinado, CV.
- Amigas e amigos! Parceiros são fundamentais durante toda a vida. E eles existem na pessoa de pais, irmãos, vizinhos, amigos, de marido e mulher, de namorados, de amantes, enfim... O Dicas Sobre Nada teve dois parceiros fundamentais neste ano que passou... vai SR...
- Que são, primeiramente, o padrinho deste blog, Enio, do Reflexões e Perda de Tempo

[palmas, palmas e palmas]

- ... e Fernando Cury, do Documento Tupiniquim, que dividiu com o Dicas Sobre Nada a primeira temporada da série que faz gemer sem sentir dor: "A caça ao Encoxador Misterioso".

[palmas, palmas e palmas]

- Nós acompanhamos todos os capítulos! Eu sou fã do Zé Gerúndio e o SR adora o Encoxador!
- Mas não ficamos com ciúmes! Beijos para todos e até 2009, com novas aventuras da Viatura 2112.
- E não se esqueçam, no Natal, o último post do ano, com o final da história "Gênio do Crime". Até lá!

[palmas, palmas, gritos de "CV e SR", "CV e SR"]

[5. Prêmio "Minicontos"]
[Capitão Ócio]
Está aí um exemplo de parceiros... O próximo prêmio vai para a categoria "Minicontos". Para apresentar o vencedor, Maria Angélica, personagem dos capítulos "Broken Hearted Blues", "Ready for Love" e “Running with the Devil”, do "Fragmentos de um Romance".

[palmas, assovios, gritos de "Gostosa", "Gostosa"]

[Maria Angélica]
Oi gente! Nossa..., quase que não vim. Minha mãe não queria deixar eu sair com esse shortinho pequenininho. Eu falei, "Mãe, se eu me vestir de menininha, vão saber que eu só tenho 12 anos. Ainda mais com esses peitinhos pequenininhos. Assim, com as minhas coxas - bem - de fora e minha bunda levantadinha, vão pensar que eu tenho 17!".
Minicontos, gente, são pequenas histórias cheias de sentido. Curtinhas, mas muito gostosas. Neste ano o Dicas Sobre Nada escolheu um blog que, pessoalmente, adoro, pois é cheio de sexo; sexo gostoso, cru, imediato... Ai!

[oh! oh! oh! na platéia]

O vencedor na categoria "Minicontos" é o "Minicontos Perversos & Outras Licenciosidades", do Gustavo Martins.

[palmas, palmas e palmas]

Aproveite para mandar o telefone, viu Gustavo, para eu te ligar e você me contar umas historinhas - antes - de ninar.
Beijos para todos! E para todas também..., claro! Está acompanhando o "Fragmentos..."? Vou aparecer mais..., um pouquinho mais velha, mas muito mais gostosa! Bye!

[palmas, gritos de "pega o meu também!"]

[6.Clipe]
[Capitão Ócio]
Maria Angélica enche a gente de inspiração... Vamos ver um clipe para relaxar, com o Rolling Stones apresentando "Rain fall down".







[7. Prêmio Blog Pessoal]
[Capitão Ócio]
Para premiar os blogs pessoais mais legais vamos chamar um cara muito legal: Polito, o Bonito.

[palmas, assovios, gritos de "mala","mala"]

[Polito]
Um blog pessoal é uma janela que abrimos para o mundo. Nele falamos aberta ou sutilmente sobre nossa intimidade, e deixamos transparecer um pouco do que somos, mostrando a própria face ou criando um personagem.
O Dicas Sobre Nada teve a sorte de conhecer em 2008 vários blogs pessoais muito interessantes. Neste ano, premiaremos três blogs que são bonitos, tem conteúdo inteligente e agradável, e são cheios de estilo. São eles, tcham, tcham, tcham...

Muito, muito coquete, da Mary West

[palmas, palmas, palmas]

Rocanna, da Ana

[palmas, palmas, palmas]

Where is my mind?, da Nadezhda

[palmas, palmas, palmas]

As autoras escrevem sobre suas vidas, apresentam opiniões inteligentes e interessantes, e também contam boas histórias. Grande beijo para todas!

[palmas, palmas, palmas]

[8.Clipe]
[Capitão Ócio]
Olha só o Polito, como se comportou bem... Agora vamos de Joey Ramone cantando "What a wonderful world".







[9. Prêmio D’Além mar]
[Capitão Ócio]
Nosso idioma não é o mais falado. Mas, modéstia à parte, sabemos que é um dos mais bonitos.
É uma experiência fascinante acompanhar blogs de autores de outros países de língua portuguesa. E um deles, nosso premiado deste ano, tem o dom de fazer com que você o leia “ouvindo” o som das palavras, cheias de um – para nós - sotaque diferente e excitante.
Temos muita satisfação em premiar o blog “Fragmentos”, de Betty Branco Martins, de Portugal, terra natal de todos os brasileiros. E pedir que ela venha nos visitar para tomarmos uma caipirinha. Aguardamos!

[palmas, palmas, palmas]

[10. Prêmio Melhores Posts]
[Capitão Ócio]
O último prêmio da festa será entregue pelo criador deste blog...

[Toninho Moura]
Olá! O barato de escrever não seria um barato se não houvesse o barato de ler posts inteligentes, livres de preconceito, bem escritos, criativos, e por aí vai. Este ano o critério para o Prêmio Melhores Posts é a capacidade que um post tem em inspirar o leitor a comentá-lo, gerando comentários às vezes tão legais quanto o próprio post.
E um blog cheio de posts assim é o Calçolas, da dupla Vênus e Eva. Elas captam o espírito dos fatos cotidianos com graça e ironia. Beijão para elas!

[palmas, palmas, palmas]
[oh! oh! oh! Calçolas..., oh! na platéia]

[11. Agradecimento]
[Toninho Moura & Capitão Ócio]
Nosso muito obrigado pela sua atenção em 2008. Agora vamos tirar umas férias, mais ou menos até 15 de janeiro. Daremos um tempo na escrita para tirarmos o atraso da leitura. Em 2009 voltaremos com todo o gás, buscando melhorar nosso trabalho e aprimorar o nosso estilo.
Obrigado a todos os blogs parceiros, que nos divulgam. E a todos que passam por aqui. Este nosso primeiro ano se encerra com muita alegria e sentimento de que está valendo a pena.

Em tempo, se algum comentário nosso causou algum mal estar, não estamos nem aí, na boa.
Fique com o Deus que lhe protege, e tenha muita Sorte, Saúde e Sucesso em 2009.
Para encerrar, um clipe muito bonito, com a mensagem de paz universal "Conte comigo”.
Braços!

[12. Clipe de Encerramento]
Playing for a change - Song around the world "Stand by me" .